A siderurgia das coisas frágeis

fluor

Flúor
Autora: Andreia C. Faria
Editora: Textura
N.º de páginas: 61
ISBN: 978-989-98751-1-1
Ano de publicação: 2013

De Andreia C. Faria, nascida em 1984, conhecíamos um pequeno volume atravessado por gatos e mulheres «a habitar a perda». Nesse De haver relento (Cosmorama, 2008) impressionou-nos a extrema segurança da dicção poética e o fulgor de algumas imagens, mas o livro era um círculo fechado, por vezes opaco, quase sempre claustrofóbico, com uma energia latente que nunca chegava verdadeiramente a explodir. Essa explosão, qual supernova, acontece em Flúor, um livro poderoso que amplia de forma brusca os horizontes desta escrita.
Logo no primeiro poema, evoca-se uma rapariga «tão magra / que os pensamentos lhe apareciam à flor da pele» e «bela / como osso saindo da carne / ou pássaro largando a árvore». Estamos perante uma poética que nunca se desliga do corpo, enquanto evidência, glória ou maldição. Os elementos anatómicos – coxas, ancas, pulsos magoados, vértebras, pele, a «cerviz de encontro à noite sem se curvar» – são pontos de partida em torno dos quais se articulam visões de um mundo que se perdeu (a infância, a vida na aldeia, o sabão Offenbach a lembrar «a barrela das lavadeiras») ou do próprio ímpeto criativo («à música / de costelas e clavículas / faria um poema, se soubesse, / de ressonância e susto / desvinculando ossos»).
Há uma certa violência nas metáforas, uma força bruta de arestas e lacerações, uma forma crua de olhar para tudo o que está sujeito a ser partido, esmagado – isso a que a poeta chama «siderurgia das coisas frágeis». Coisas como o amor («o amor é soslaio, oblíquo»), um rosto («o meu rosto implodirá como um punho») ou o corpo que se oferece («pela noite / fazer do corpo raso / prato vazio de onde se come»).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Cinco poemas de Andreia C. Faria

SABÃO OFFENBACH

Rugoso e maciço, fatiado e vendido
ao balcão de madeira de qualquer mercearia,
o sabão Offenbach é recomendado pelas autoridades
para lavagem de espaços comuns
sempre que surge a ameaça de uma epidemia

Modernas donas de casa têm pudor em comprá-lo, por lembrar
a barrela das lavadeiras – o linho, os lençóis
e a higiene íntima dos antigos
Com os novos sabonetes perfumados
a perfeição química da pele e a pura lã virgem
extinguem-se
pelo ralo da comunidade

Mas eu trago no bolso um pedaço de bom sabão azul e dispo-me
para lhe ser amável

e que uma fome insaciável se apodere de mim
quando o esfrego nos lábios faz-me pensar
na enxaguada misericórdia de Deus

***

Sou a mulher que se mata por amor a ti
e a mulher por amor de quem se morre
Sou o rapaz que há como uma água turva
na mulher por quem se morre
o bucal húmido do telefone onde ela expia
pensamentos violentos como plumas
Sou a pluma que lhe abre os lençóis
a lasca de madeira sobre a mesa
a lâmina à espera
que a nudez dê frutos
Sou aquilo que fere o rapaz
e a roupa que o tapa
Sou o brilho da janela onde a mulher
se balança

***

PORNO

A mulher dispõe-se equestre
Justaposto
o homem relata o cavalo

***

ESTEREOGRAMA

Ouvi dizer que um cão
e algumas senhoras com saias de balão
sobreviveram ao lançar-se da ponte
O rio quebrou-os mal
e se ao cair não fecharam os olhos libertou-se-lhes o cérebro
da membrana em que dormia
como se libertam as cores de um caleidoscópio
ou ressuma de uma noz o ranço ou um óleo essencial
Talvez tenham enlouquecido como os olhos de um falcão
livre do seu capuz, meditando
se entre o falhanço e o milagre existirá uma diferença estrutural
Às senhoras que se matavam por amor talvez
alguém novo tenha amado o sangue estropiado
Talvez o cão tenha voltado a obedecer
à crueldade de um rapaz. Serenamente
a vida volta a ser uma ilusão de óptica um estereograma
em que às vezes o cérebro se cansa de acreditar

***

No regresso, despi-me em frente à minha mãe
A nudez dir-lhe-ia das paisagens,
das fracturas, solitários minerais
que nos ossos se engastam, da viagem
O que ela viu
era pouco mais que o esforço de dunas,
suave e compacto para emergir
do chão, a flora acidental
Pedi-lhe
que me procurasse os flancos,
o ligeiro afundar da anca, ou debaixo
dos braços, o principiar de um vale,
qualquer sobejo de me ter
contornado o mundo, mas também aí
ela sentia a fragrância
impúbere do que já não cresce

[in Flúor, Textura, 2013]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges