Acima do limite humano

capa_Morte na Pérsia

Morte na Pérsia
Autora: Annemarie Schwarzenbach
Título original: Tod in Persien
Tradução: Isabel Castro Silva
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 141
ISBN: 978-972-8955-65-6
Ano de publicação: 2008

De vez em quando, há autores que saem do limbo a que as contingências históricas (ou infortúnios pessoais) os relegaram, durante décadas, para nos maravilharem com belíssimos livros inéditos. Foi o caso da russa Irène Némirovsky e do seu portentoso Suite Francesa (Dom Quixote): um romance inacabado que esperou mais de 60 anos numa mala. E é o caso de Annemarie Schwarzenbach, uma escritora, fotógrafa e viajante suíça cuja obra só começou a ser publicada na década de 90 – meio século após a sua morte, aos 34 anos, na sequência de uma queda de bicicleta em 1942 (curiosamente, o mesmo ano em que Némirovsky desapareceu no horror de Auschwitz).
Morte na Pérsia, primeira escolha de Carlos Vaz Marques para a nova colecção da Tinta da China dedicada à literatura de viagens, é uma obra difícil de catalogar. Embora nela se desenhe uma visão do país que a autora percorreu de lés a lés, depois de se casar, em 1935, com Claude Clarac (diplomata francês instalado em Teerão), a sua prosa nunca resvala para a objectividade pobre dos guias turísticos ou para a evocação pitoresca da cultura iraniana, associada por muitos europeus aos eflúvios mágicos das 1001 noites.
Logo na primeira frase da nota prévia, Schwarzenbach deixa o aviso: “este livro trará pouca alegria ao leitor” e nem sequer “o poderá consolar nem reconfortar, como muitas vezes os livros tristes sabem fazer”. Se a Europa ficou para trás por uma questão de consciência, compreensível à luz das suas idiossincrasias (era antifascista, morfinómana e lésbica), nunca se chega a compreender muito bem o que procurava na aridez que se espraia do Mar Cáspio ao Golfo Pérsico, com “cordilheiras cinzentas de basalto, desertos amarelos cor de lepra, vales lunares sem vida, ribeiros de greda e rios de prata, onde bóiam peixes mortos”. A dada altura, Malraux pergunta-lhe: “O que é que espera da Pérsia?” Ela não consegue explicar-se mas o escritor francês intui a resposta: vai para lá “só porque fica muito longe“.
É essa distância em relação a tudo que Annemarie procura e alcança, ao cabo de um percurso de “desvios”, “escapatórias” e “falsos caminhos”, que a fazem passar pelas escavações arqueológicas das ruínas de Persépolis ou pela cidade morta de Rages, antes de atingir, por desfiladeiros e encostas íngremes, o “cone liso” do monte Damavand. Ali, junto a um vulcão extinto, no vale de Lar (a que chamam “o fim do mundo”), ela encontra o mais solitário dos lugares, “já acima do limite humano”, onde se pode entregar à vertigem do medo e do desespero em que a mergulhou o desenlace da história de amor falhada com Ialé, uma jovem moribunda que não conseguiu salvar.
O tom é o de um diário “impessoal”, escrito sem nunca se “aproximar demasiado” das coisas que a cercam, mas nem esse voluntário desprendimento faz adormecer, por um momento que seja, a extraordinária capacidade de observação de Schwarzenbach. Quem lê estas páginas vai sentindo na pele o sol branco do meia-dia, o calor agreste que faz tremer o ar, a desmesura das montanhas que parecem despenhar-se no céu. E as paisagens sucedem-se, ao mesmo tempo nítidas e difusas, como aguarelas: “Os navios que atracam têm velas cor de púrpura. Por vezes vemos fogo no horizonte negro e pensamos que há um incêndio num dos barcos. Mas é apenas a lua a subir.”
Em certas passagens, esta escrita revela um descontrolo emocional típico de quem está à beira do abismo, um excesso de pathos (veja-se as conversas com o “anjo”) que quase deita tudo a perder. E se o livro não se desconjunta é porque por ele passa um sopro lírico tão forte como as ventanias que atravessam os vales perdidos no interior da Pérsia. Um sopro lírico que nos arrebata e eleva.

Avaliação: 8/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Qualquer coisa como medo

«O que acontece quando uma pessoa chega ao fim das suas forças? (Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior.) Numa manhã, ela senta-se diante da sua tenda e olha para lá do rio. No outro lado estão as mulas escondidas pela erva alta da margem. A erva verga-se ao sopro do vento como uma seara, e o vento traz também para o desfiladeiro o fumo que se escapa da porta do tchai-khan. Os coudéis do xá, vindos das pastagens, chegam nos seus cavalos brancos e malhados, já estafados, e com gritos fazem-nos passar a galope os bancos de saibro. O sol do meio-dia é forte e branco. O vento parece arrastá-lo consigo, juntamente com as nuvens e a poeira. Os olhos cansam-se de olhar para cima. Rochedos cinzentos, basalto contra azul, dor sem esperança. Se pousamos por algum tempo o olhar na água negra, rápida, quebrada, sentimos uma vertigem, qualquer coisa como medo.»

[in Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach, trad. de Isabel Castro Silva, Tinta da China, 2008]

O centenário de Annemarie

Na próxima sexta-feira, no dia em que passam cem anos sobre o nascimento de Annemarie Schwarzenbach, uma escritora suíça que só no final do século XX começou a ser (re)descoberta, haverá sessões de leitura das suas obras em vários pontos do mundo. Um desses pontos fica em Lisboa, mais concretamente na Fábrica Braço de Prata, onde será também exibido um documentário. Morte na Pérsia, um livro de viagens de Schwarzenbach, tem edição prevista pela Tinta da China, em Junho.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges