A verdadeira verdade

O Duelo
Autor: Anton Tchékhov
Título original: Дуэль
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 114
ISBN: 978-989-641-225-8
Ano de publicação: 2011

Funcionário público ainda na casa dos vinte anos, Ivan Andréitch Laévski é o típico aristocrata boémio, dado à bebida, ao jogo e às dívidas, mas com uma certa aura de intelectual, daqueles que estão sempre a citar os grandes romancistas do seu tempo. Na pequena cidade balnear do Cáucaso onde se instalou com a amante, Nadejda Fiódorovna, isso parece suficiente para ser bem visto junto da elite local.
Acontece que Laévski está a atravessar uma crise que se materializa num dilema. Por um lado, deixou de amar Nadejda, uma mulher bonita e culta que roubara dois anos antes a legítimo marido. Por outro, não sabe como deixá-la sem passar por cobarde e egoísta. O idílio junto ao mar cedo se transformou numa prisão em que tudo lhe parece insuportável, do clima abafado ao tédio quotidiano. Para piorar as coisas, recebeu a notícia da morte do esposo traído, o que traz a ameaça de uma prisão ainda maior: o casamento que ela decerto lhe exigirá. Confuso, junta dinheiro para o sonhado regresso a Petersburgo e coragem para abandonar, sem honra, uma mulher incapaz de viver por si mesma. Tolhido pela indecisão, ele considera-se um “miserável neurótico”. Ou melhor, um Hamlet de trazer por casa, mais venal do que metafísico.
Escrita em 1891, esta é a mais longa das novelas de Anton Tchékhov, mas partilha com os seus celebrados contos a leveza quase imaterial do estilo. Uma a uma, as cenas sucedem-se com um ritmo perfeito e a descrição das personagens – tanto a física como a psicológica – é um primor de subtileza e minúcia. Apresentado o casal, vemos desfilar figuras memoráveis: o obeso Samóilenko, médico generoso mas péssimo conciliador; o zoólogo Von Koren, que desce ao Mar Negro no verão para estudar a embriologia das medusas e se esconde atrás da sua carapaça de cientista com feitio duro, a tender para o despótico; o diácono Pobédov, um seminarista que pouco sabe de Teologia e se ri sem como nem porquê; o comissário da polícia Kirilin, que há-de assediar com sucesso a desamparada Nadejda; Mária Konstantínovna, o exemplo acabado da hipocrisia social dos meios pequenos; etc. Toda esta gente passa o tempo em conversas, flirts e intrigas, no brando sossego das paisagens burguesas. Um corrupio de jantares, banhos de mar, festas galantes, piqueniques.
Não demoramos, porém, a discernir o eixo principal da história. Entre o volátil Laévski e o rígido Von Koren cresce um antagonismo radical. O ódio que Von Koren nutre por Laévski é tão grande, tão absoluto, que deixa de ser ódio para se tornar um exercício de estilo. São páginas e páginas de ataques ad hominem. Um massacre. O zoólogo não se limita a apelidá-lo de mentiroso, depravado, abusador, medíocre, preguiçoso, mole e inútil, como põe em causa toda a sua «ossatura moral», chegando ao ponto de o considerar tão nocivo para a sociedade como o micróbio da cólera. As suas teses, em que mistura perigosamente Darwin com Nietzsche, levam-no depois a um corolário lógico: pessoas com os defeitos e fraquezas de Ivan Andréitch devem simplesmente ser exterminadas. E é quase isso que acontece, no duelo que dá título ao livro.
Como noutras obras de Tchékhov, a acção está reduzida ao mínimo. Neste caso, consiste apenas num avolumar de energias e tensões que convergem para o dia do duelo, anunciado por uma tempestade romântica, com relâmpagos e tudo. Sem surpresa, o encontro de morte é um anti-clímax, assinalando o momento em que Laévski sai da letargia, se liberta dos seus impasses e encontra uma via para a redenção. No epílogo, Von Koren admitirá o seu engano: «Ninguém conhece a verdadeira verdade.» Mas caberá a Laévski, ao ver o seu rival enfrentar o «mar escuro e inquieto» num pequeno barco, dando duas guinadas para a frente e uma para trás, a última palavra: «Na vida também é assim… Na procura da verdade, as pessoas dão dois passos em frente e um atrás. Os sofrimentos, os erros e o tédio da vida lançam-nos para trás, mas a sede da verdade e a vontade teimosa impelem-nos sempre em frente.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov

Faz hoje 150 anos que Anton Tchékhov nasceu. Filipe Guerra, seu tradutor (como é tradutor de outros clássicos russos), não esqueceu a data. No blogue O Vermelho e o Negro, por entre enlevos de avô babado, dedica-lhe este parágrafo:

«Faz 150 anos que nasceu Anton Tchékhov, um homem bom, e não um bom homem, senhora Revisora, de quem alguém me disse “gostaria que fosse meu pai”, mas não vou dizer quem, por suspeita de que haja nesse alguém eventual pudor, e na Rússia hoje é tudo Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov. E depois? Depois, 150 anos depois, ainda se continua a descrever Tchékhov como o mestre da nostalgia, quando se trata de melancolia, doutores, que no tempo dele era uma doença (e no nosso tempo, se fores ao psicas e pagares bem), a melancolia dos escritores russos tal como a dos escritores de Istambul tão bem descrita pelo tchekhoviano Orhan Pamuk em Istambul (Presença), e, 150 anos depois, ainda se continua a dizer Cerejal ou, ainda mais poeticamente, Jardim de Cerejas, quando se trata de Ginjal, doutores, um grande pomar de ginjas para comercialização e industrialização (a cereja na época era demasiado frágil para isso), pomar que foi derrubado pelo pragmatismo económico da época e cujas machadadas melancólicas no abate arborífero deram azo ao mais belo momento de teatro que jamais vistes na vida, doutores.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges