O poeta asceta

O Som do Sôpro
Autor: António Barahona
Editora: Poesia Incompleta
N.º de páginas: 142
Depósito legal: 325043/11
Ano de publicação: 2011

Em O Som do Sôpro, o cinzelado volume que António Barahona decidiu publicar com chancela da livraria Poesia Incompleta, assistimos a uma curiosa rebelião ortográfica. Numa altura em que o fatídico Acordo começa a ser aplicado no mundo editorial, Barahona recusa-se a pactuar com as novas regras. Mas, ao contrário de outros autores que também continuam a escrever como sempre escreveram, ele vai mais longe: em vez do questionável passo em frente, dá ostensivamente um passo atrás, recuperando grafias que a norma anterior já tinha banido, como «éther», «lucta», «hymno» ou «saüdade». E se há aqui um efeito de estranheza (o vocabulário aproxima-nos de Camilo Pessanha), ele faz todo o sentido no contexto da rigorosíssima poética do autor.
Central neste processo é a procura da sonoridade certa («o som em carne viva», o «som do sôpro / primordial») que obriga o poeta a uma «constante reescrita do poema», subindo a escada da «lenta e dolorosa» aprendizagem, cujos últimos degraus só a Deus pertencem. «É por causa do som que o vate vive», explicita Barahona, que muitas vezes procura no soneto a forma perfeita («como a roda, o cubo e o triângulo»), num esforço de pura oficina que procura alcançar «fulgor e limpidez verbal» – embora na «convulsiva tarefa» de esculpir a beleza (por exemplo, pondo «em verso / obscuro» a «claridade do fim do dia») acabe muitas vezes por ser o «escultor» a ser esculpido «até ao escalpe». O «gesto d’escrita» constrói um universo, mas também implica despojamento: «O poeta / é um asceta / que renuncia ao oiro do mundo / mas não aos frutos da Terra».
Na sua qualidade de muçulmano zeloso, para quem a «total entrega ao Alcorão» está acima de tudo, Barahona dedica muitos poemas a louvar o Profeta ou a descrever os rituais nas mesquitas de Lisboa. Mais interessantes, porém, são as suas aproximações ao amor, com forte carga erótica, muito na linha da tradição oriental: «O teu corpo é mais belo na minha cama / do que um céu de alegria sobre o mundo.» Na quarta parte do livro, talvez a melhor, é a memória dos mortos que se impõe, mas sem rasto de lágrimas, «a menos / que sejam d’alegria, em versos plenos / de fúnebre alabastro». As várias evocações de amigos perdidos têm o seu vértice num poema extraordinário, Memória do Café Gelo, em que se recupera a célebre tertúlia de «conversas incendidas, sismo a sismo, / no desabar da época», com Barahona a ver-se adolescente no meio do grupo de poetas, sentado «quase à margem / numa fresta de céu».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Quatro poemas de António Barahona

CORRESPONDÊNCIA COM SOHRAB SEPEHRÍ

Nasci na Andaluzia:
o meu sangue vem dos tempos do Profeta
e continua a fluir na consciência da brisa.
Ibn Arabí estudou numa madrassah em Lisboa.

Sou muçulmano:
o meu mihrab é uma rosa vermelha
ou um ventre de mulher adormecida
e, o mundo inteiro, o meu tapete de oração.
Faço as abluções com fogo refrescante.

Cada partícula, do que rezo, cristaliza,
quando o vento de vidro
chama os fiéis do alto do cipreste.

***

CORRESPONDÊNCIA COM IBN ZAYDUN

Serenidade tão desencantada
d’Ibn Zaydun, um bom poeta eleito,
que leio e releio com respeito
e d’alma deslumbrada.

Serenidade vinda dum olhar
azul, que lhe furtou o coração,
devolvido depois, mas só no som
do seu êxul cantar.

E cantou o pescoço da donzela
que atraía as pérolas, tal como, perto,
a água atrai camelos no deserto
e a sedenta gazela.

E cantou o pudor que lançou luz
sobre a fatal beleza feminina,
que, nua, se mostrou nessa menina,
ao poeta andaluz.

***

CORRESPONDÊNCIA COM MÁRIO CESARINY

Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos
À luz do vidro e do metal
mato pulgas de oiro azul
em homenagem ao António
Maria e dele me despeço
Já ganhei a idade das barbas:
agora sou um barbo
a ‘violinar’, como diria o Herberto,
o rio poluído
Toco no fundo
‘o botão entre os limos’,
Mário,
mas ‘olho muito depressa como se fosse de moto’
e não posso em ti deter-me por mais tempo

Acelero a lucidez,
a alâmpada e a luva:
a estrada é muito larga sob a chuva,
o meu chapéu de sol acende a água:
intensamente álacre a minha mágoa
recusa-se a ser triste
e desço ao inferno
como Dante
pleno de esquizofrenia
e alegria

Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos,
de todos me despeço,
dos novos e dos velhos
e solitário amanheço

***

ADVERTÊNCIA

Poeta
em verdade em verdade te digo
que, para ser genuíno e ficar vivo,
em glória corporal, não apenas em livro,
é-te necessário morrer primeiro que tudo
na Grande-Guerra-Santa dedicada ao estudo
da grã fonética de mil murmúrios
e do vôo das aves, pródigo em augúrios.

[in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno, 2011]

Seis poemas de António Barahona

COMPOSIÇÃO

Sequer um gesto fica por esboçar
nem hora sem a sua liturgia:
realidade inteira a respirar
Deus, por todos os poros, à porfia.

Só então o poeta bebe a bica
e, discreto, compõe versos à lupa.

***

A GRANDE OBRA

Frondoso espírito de tantas páginas.

Estas partículas de lume pegam
fogo à água, e o símbolo assume
seu aspecto de som em labaredas.

***

PULSAÇÃO

Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d’árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sôpro do seu sangue num coágulo.

***

LARGO DO BARÃO DE QUINTELA

A estátua da verdade está sempre de braços partidos
cada vez que vou a caminho dos teus braços inteiros

***

ARTE POÉTICA

Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
dêste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.

***

CADÁVER ESQUISITO HETERODOXO COM JOÃO RODRIGUES NO CAFÉ GELO EM 1961

Intimidade côr de bombazina
a cercar uma aranha de bambú
passa um polícia a cheirar a benzina
parte-se uma vidraça e surges tu

Sobrenadavam carpas na baía
um novo ritmo que vem de Las Vegas
daquele lado já nada se ouvia
quadrilha de gaivotas quase cegas

Por dentro era o som dum violino
por fora havia um vago marulhar
menos que nunca penso no destino
e bebo a tua sombra devagar.

[in O Som do Sôpro, Poesia Incompleta, 2011]

Três poemas de Muhammad Abdur Rashid Ashraf (também conhecido por António Barahona)

PULSAÇÃO

Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d’árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sôpro do seu sangue num coágulo.

***

ORIENTAÇÃO

Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas
sêcas de flores mortas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

***

ARTE POÉTICA

Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
deste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.

[in revista Criatura, n.º 5, Outubro de 2010]

Três poemas de António Barahona

REAPARIÇÃO DE CESÁRIO VERDE

Na alvura do piquenique
houve esta coisa simplesmente bela:
o voo duma borboleta a pique
no alvo da aguarela

JARDIM DO TOREL

Lá vem a Dama do Lago
com seu galgo de platina;
há mistério no seu passo,
tem leveza de menina.

Sua beleza é altiva,
sereno e loiro o seu ar;
nela, distância, cativa,
faz-nos logo aproximar.

Lá vem a Dama do Lago
com seu galgo de platina:
há no seu rosto passado
amor, de dor funda e fina.

Sua beleza é tão sábia,
envolta em livros e plantas;
e nela, distância, é d’águia
de sólidas asas brancas.

Lá vem a Dama do Lago
com seu galgo de platina;
o seu vulto impõe respeito:
direitura peregrina.

AFINADOR DE POEMAS

Agora já tem eco o som da chuva,
o assobiar dos Anjos rente ao vidro,
tudo, tudo tão nítido insinua
segredo ciciado ao meu ouvido.

Agora tem poder o som dos versos:
sílabas do Invisível pelas veias
que já desfraldam velas de navios
tão prestes a zarpar d’ignotas praias

antes que caia a tempestade com seus raios.
Escruto agora uma só voz e não me engano,
voz que nunca responde ao que pergunto:

devolve intacta a minha angústia e calafrios
de passarão de trilo dissonante:
ouvem-se quilhas de navios cortar o sangue.

[in O Sentido da Vida é só Cantar, Assírio & Alvim, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges