Quatro poemas de António Carlos Cortez

ARGILA DO SONO

A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos

Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)

***

ARTE POÉTICA E NÃO

A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.

***

POESIA

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças

***

AO LEITOR

Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?

E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és

ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos

aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)

[in Linha de Fogo, Licorne, 2012]

A matéria mais volátil

Depois de Dezembro
Autor: António Carlos Cortez
Editora: Licorne
N.º de páginas: 73
ISBN: 978-972-8661-55-7
Ano de publicação: 2010

Na sua escrita, tanto a poética como a de reflexão teórica ou crítica, António Carlos Cortez nunca escondeu uma afinidade com o projecto estético de dois autores: Ruy Belo e Gastão Cruz. Em Depois de Dezembro, essa filiação é assumida de forma explícita na sequência intitulada “Alegações Finais”, onde a dado passo se lê: «A vida que nos textos se esconde será aquela / que verdadeiramente em relação à vida / se revela? Talvez concorde quanto à divergência / das duas linhas – a vida, a poesia – de que falas / no livro as leis do caos».
Esta «divergência» como que irradia do diálogo com Gastão Cruz para o resto do livro, que de várias formas vai demonstrando a incapacidade da linguagem para captar a «matéria mais volátil» de que são feitos os dias. Sujeita à erosão provocada pela «água do tempo», a biografia só pode ser «inventada» e o poema passa a ser o lugar da «solidão implacável», em que a realidade se reduz à «arte torpe das palavras», feita sob uma luz «enganadora».
Há como que um paradoxo: por muito que o poeta use uma «lente de aumentar» (a poesia), «a imagem diminui / agora o mundo». O gradual fechamento não impede, ainda assim, a circulação de certas imagens e temas: a ideia de regresso, o espaço da casa, o amor, o vento, a perda, o rio, a memória. E se a desconfiança em relação ao poder das palavras atravessa todo o livro, ela é de certa forma contrabalançada, no belo poema final (Resposta a Drummond), pela «crença de que o canto estale / e o dia venha porque nós lutamos / para além das forças que supomos nossas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de António Carlos Cortez

LENTE

De tarde tudo começava
e lá fora a elipse do vento
desenhava a casa e circulava
um perímetro maior de desalento

Era como se a poesia me ofuscasse
e o corpo em suspensão se mantivesse
à espera da morte ou regressasse à vida
depois do amor que se fizesse

Era a lente de aumentar essa paisagem
quase familiar mas indiferente
de rostos junto ao teu
Mas a imagem diminui
agora o mundo lentamente

***

VARIAÇÃO

Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no siêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta

***

UM BARCO NO RIO (2002, 2009)

Rompem barcos
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio

Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos

a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro

***

RESPOSTA A DRUMMOND

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno

[in Depois de Dezembro, Licorne, 2010]

Quatro poemas de António Carlos Cortez

CLOSE READING

Com as mãos fechadas tropeçamos
nas palavras que nem chegam à boca inteiras
Serão elas verdades ilusórias
ou ainda as coisas verdadeiras:

Objectos presentes do passado
em que molhamos as mãos primordiais
Objectos tão abjectos quando somos
o único presente e nada mais

Vertiginosamente recordamos
como foi beber do amor a sua água
Mas por que é que cerramos as mãos
como quem fecha os olhos?

Porque nos fascina o vidro do Inverno
os livros as roupas os corpos já ardidos
assim que novamente respiramos
o tempo em que fomos iludidos

Como fechamos as mãos ao amor
quando ele vem de madrugada e reacende
o tempo que era o nosso e o tremor
do instante em que tudo se concede


AS PERDAS OS GANHOS

Este não é o poema que eu gostaria de ter escrito:
tudo no fundo se resume no poema
à soma dos ganhos e das perdas
afinal tão semelhante à vida é esse jogo
de querer um verso que dissesse tudo
e nada mais dissesse


LUZ BRUXULEANTE

A luz que é minha não vem de Sena
que a dele era esperança ou coisa assim

A luz que trago é escura e por sistema
é uma nostalgia de outra luz em mim


HUIS CLOS

A criança brincava e os seus olhos azuis
ignoravam o tempo que passava
Respirar não era sinónimo de escrever
e o peso do Inverno
girava naquela roda onde a criança
se adivinhava Escreveste mais tarde
o que estava já inscrito nessa imagem

A roda onde a criança brincava
sabia que era o tempo que passava

[in à flor da pele, Casa do Sul, 2007]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges