Maria do Céu Guerra lê poemas de António Ferra

Excerto da leitura que a actriz fez no lançamento do livro Marias Pardas, de António Ferra (&Etc), no bar d’A Barraca, em Abril.

Três fragmentos de António Ferra

«Tremia-lhe a garganta com a vibração do comboio.
Chegou a casa alarmado com a explosão do próprio corpo que enfrentara no dia em que foi às sortes.
E no domingo, com as gargalhadas à volta, bebeu o vinho que lhe tingia as despedidas.
Sentiu na pele a farda de caqui, o peso da mauser, o despropósito das botas.

***

Tornou-se igual à cidade que viera habitar. Tinha dentro de si espaços novos e rectilíneos, bairros com casas todas iguais, habitações fechadas em pátios, zonas de utilização pública.
E pedaços degradados, ruínas de lojas cadentes, à espera de trespasse ou liquidação total.

***

Às seis horas, arrumava os papéis da secretária, cobria a máquina de escrever com uma capa de pergamóide e saía entre até-amanhãs, sem contabilizar as beatas num cinzeiro esmaltado.
Quando chegava à rua, olhava uns plátanos, sobranceiramente, e distraía-se no recorte das folhas – memória de uma infância arborizada.»

[in Bio grafia, Europress, 2010]

Sátiras, ironias e sarcasmos

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Amanhã, a partir das 17h30, na livraria Círculo das Letras (R. Augusto Gil, 15B).

Dois poemas de António Ferra

GÓTICA DE CORPETE NEGRO

Que bem que passa aquela gótica,
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!

Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,

é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.

De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.

Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.

E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.


TATUAGEM

Ele tem um tigre gravado no braço
ela uma fada colada para sempre
ele uma árvore crescendo nas costas
ela uma ave voando no ventre

ele traz um gato pregado no braço
ela uma rosa bordada no seio
ele um lagarto atrelado à perna
ela uma estrela mesmo no meio

ele mostra a caveira rodeada de rosas
ela ramagens correndo-lhe o corpo
ele uma cobra subindo ao pescoço
ela mensagens de um pássaro morto

Eles pertencem àqueles que posam
entre cardumes azuis e vermelhos
ele com sorte, silêncio e futuro
ela com música a sair dos joelhos

Aqueles que adornam o seu próprio corpo
trazem imagens que alimentam a crença
de serem marcados por quem lhes pintar
um sinal na alma que lhes diga a pertença

[in Livro de Reclamações, Fabula Urbis, 2010]

Quatro poemas em prosa de António Ferra

SINAIS DE UMA LUZ

A minha boca enchia-se de areia, pedras e peixes pequenos entravam-me pelas narinas e pelos olhos turvos de sal, o impulso da água levava-me pela teia do mar, tropeçando num coral de gesso.
Talvez os peixes sejam sinais de uma luz que armou o pano em vela de cruz aberta ao mar, onde ninguém sabe qual é o meio, se a guerra se a espuma.


UMA ÁRVORE

Nunca uma árvore pode ser derrubada, quando a melodia da tarde envolve o tronco, a copa, as folhas dispersas pelo céu, recortando nuvens, e um rasto de luz fica preso à sombra projectada no solo, pouco antes de o sol desaparecer completamente.

UM SORRISO DE NÁCAR

Sem o céu das latadas de Verão, guardo as estrelas da noite que a cidade esconde, porque talvez alguém se vá embora de vez, conduzindo um Chevrolet de 1940, ou qualquer outro carro de carroçaria vermelha, a brilhar, cheia de cromados deslumbrantes, como num anúncio onde uma mulher exibe um sorriso de nácar.
E nem sequer uma palavra, um postal de aniversário, um toque de lápis que limite a boca.


INSÓNIA

Já passa das quatro da manhã e não consigo dormir. A escuridão prolonga-se no meu peito cheio de suor e taquicardia, a noite passa como um flashback imprescindível para compreender o resto do filme. No sonho acordado, correm aquelas imagens condensadas nas pessoas conhecidas, mas que não são elas, são outras disfarçadas de mim, uma florescência.
Levanto-me e ligo a televisão. Passeio a insónia pela publicidade aos utensílios de cozinha, aos instrumentos de tortura de perder peso, e talvez memória, com imagens de o antes e o depois, como se fosse possível a mudança anunciada em sonhos cabalísticos ou nos sonhos onde se voa sobre uma montanha, e que nos fazem acordar em grande aflição, a perder o pé.
Daqui a pouco tenho de acordar de vez e esquecer-me de mim, meia hora no chuveiro, ensaboar-me três ou quatro vezes, distraído, sem reparar no corpo, na carne, na flacidez do tempo
(muita gente pensa que eu sou um anjo alinhado pelo meridiano de Greenwich, com uma flor acorrentada no bolso do colete.)

[in Estação Suspensa, Europress, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges