Escrever para largar lastro

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Há entrevistas absolutamente lineares: pergunta, resposta, pergunta, resposta. Assunto A leva ao assunto B, o B leva ao C, o C ao D, etc. Tudo muito bem arrumadinho. E depois há conversas que nascem e se expandem no caos, sem princípio nem fim. O encontro com António Gregório, que este texto tentará em vão resumir, é um exemplo perfeito da segunda categoria. Aconteceu num dia gélido, num café do Jardim Zoológico de Lisboa, mesmo em frente ao terminal rodoviário em que o escritor, vindo de autocarro desde Leiria, desembarcou. Antes, houve da nossa parte a leitura entusiasmada de uma novela – O Condómino (Língua Morta) – que merece figurar entre os melhores livros de ficção portuguesa de 2014. Num prédio anódino, um homem fechado em casa, recluso por vontade própria, assiste aos movimentos da vida quotidiana dos outros condóminos através do óculo da porta, dedicando-se com brio ao «meticuloso trabalho da inexistência». A pouca espessura da história dá espaço à inteligência narrativa e a um notável trabalho com a linguagem.
Mas quem é António Gregório? As badanas do seu novo livro não ajudam, porque a Língua Morta (tal como a &Etc) oculta quaisquer informações biográficas sobre os seus autores. O seu livro anterior – American Scientist, poemas publicados pelas edições Quasi, em 2007 – também não adianta muito: revela apenas que António Gregório «nasceu em Leiria, em 1970». Eis então o nosso homem, gorro nova-iorquino na cabeça, diante de uma chávena de café, avançando e recuando, tergiversando, fazendo da conversa um exemplo de desordem produtiva. Do percurso até agora, fica a referência à passagem pelo curso de Física, iniciado na universidade de Braga mas não concluído, às leituras tardias e irregulares, ao impulso da escrita sempre presente («mas adiado por preguiça e desorganização»), aos vários trabalhos braçais por que foi passando («em armazéns de supermercado, coisas dessas») até ao actual estado de desemprego que o levou, finalmente, a dedicar-se de forma mais séria à escrita.
Entre Uma História de Desamor Treze Vezes (Ambar, 2005), o primeiro livro, e O Condómino há um intervalo de quase uma década, com o voluminho de poemas pelo meio (versos «muito prosaicos, uma espécie de polaroides» sobre, mais uma vez, uma situação de perda amorosa, «tema que dá pano para mangas»). A ideia para a novela surgiu pouco depois da escrita, rápida, do livro de contos. «Comecei a trabalhar logo na altura, mas depois a coisa emperrou. Parava, arrancava. Parava, arrancava. Quando a Língua Morta me sugeriu que escrevesse uma colectânea de contos, ainda tentei transformar ‘O Condómino’ numa narrativa mais curta, mas não dava. Decidi então que ou conseguia acabá-la de vez ou desistia. Era agora ou nunca. E lá aconteceu.» Mais do que triunfo, houve uma sensação de alívio: «Aquilo já estava a ocupar muito espaço. Espaço mental. Enquanto não o concluísse, não conseguiria pensar em mais nada.»

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No seu Facebook, Gregório confessou ter escrito uma novela que conta uma história, apesar de embirrar com novelas que contam histórias. E porquê essa embirração? «Para mim, a literatura não pode ser o moço de fretes de uma história. Não pode servir só como veículo. Em tempos, o texto era apenas um acessório de memória. Já não é assim. O meio tornou-se a própria arte. A história é um combustível barato que leva o livro para a frente, mas eu prefiro o que está para lá da história; ou seja, o trabalho de escrita, a linguagem.» Se o enredo é o que sobra de um livro, se for possível contá-lo a alguém, resumi-lo a factos e acções, então «isso quer dizer que o livro não é bom».
Quando foi estudar para Braga, Gregório viveu pela primeira vez num apartamento (até aí morara sempre em vivendas) e descobriu o óculo de porta. «Passou a ser o meu brinquedo.» Espreitando por ali, assistia ao movimento do condomínio, vizinhos passando para baixo e para cima. «Ficou-me daí a ideia. Mas depois pensei em levar aquilo ao extremo. Gosto muito de extrapolar a vivência pessoal, real, e puxá-la para o limite do absurdo, do pouco razoável.» Nasceu assim o misantropo narrador de O Condómino, um enterrado vivo de quem sabemos pouquíssimo. Nunca nos é revelada a sua idade, nem a sua existência anterior, nem as motivações para o isolamento. «Quis que nunca se soubesse porque razão ele vive assim. Passou-me pela cabeça explicar o porquê. Mas a literatura é exactamente não explicarmos isso. Se tivesse explicado, estragava o livro.»
Da mesma forma, não houve qualquer intuito de utilizar o livro como representação de outra coisa qualquer. A solidão extrema do protagonista de O Condómino é só a solidão extrema daquela pessoa. «Nada de parábolas. O livro é o que está aí. Não há sermão, não há moral, não há analogia sobre coisa nenhuma. Tudo o que for para lá do texto é da responsabilidade do leitor.» Ao trabalho de ficção cabe criar a sua própria realidade. «Embora obviamente não me esteja a comparar, procurei fazer o que fazem as grandes obras, as não datadas. Ou seja, oferecer uma grande margem para que o leitor se misture com elas, acrescentando-lhes as suas circunstâncias. É a diferença entre o entretenimento e a arte. Podes ter cem mil pessoas a assistir a uma obra de entretenimento do mesmo modo, mas não há duas pessoas que reajam a uma obra de arte de maneira igual.»
A principal dificuldade durante o processo de escrita, admite António Gregório, teve a ver com «problemas logísticos». Gerir o que vai ficando para trás, a totalidade do que já se escreveu, eis o busílis da questão. «Com um conto, conseguimos facilmente abarcar todo o material narrativo. Numa novela tens de subir mais alto para ver tudo, há mais informação. É muito mais exigente. Tens de te lembrar do que escreveste há 50 páginas. Nunca consegui lidar bem com isso.» A criação de um espaço muito reduzido – pouco mais do que as escadas do prédio – foi um expediente. «Se não queria confinar o texto, tinha de confinar o espaço em que a história decorre. Era a única forma de dar conta do recado. Evitei sair para o exterior, porque talvez não tivesse competência para descrever o mundo real.» A culpa pode ser atribuída a uma memória «pouco prática», que só acumula «lixo, flashes, vislumbres». Mas que tem a seu favor a capacidade de construir uma realidade coerente a partir deles. «Se estivermos muito tempo no escuro, começamos a ver melhor na penumbra. Se estivermos em silêncio absoluto, começamos a ouvir o bater do nosso coração. Passou-se isso com o texto. Como não acontecia quase nada, a atenção aos pequenos acontecimentos ficou cada vez mais aguda.»
Desde sempre, a escrita correspondeu a uma necessidade de «largar lastro». Já era assim com os diários, «que não têm interesse nenhum», continua a ser com a ficção. «Quando li o Proust, uma das coisas que lhe invejei foi o lastro que ele largou, havia um frenesim de soltar memória. A felicidade de escrever será isso: uma maneira de largar o lastro acumulado. Quando acabei, senti essa leveza. Mas depois vem a publicação e ficas um bocado aflito.» As opiniões alheias são sempre uma incógnita. E há a tendência habitual de procurar no livro um espelho do autor. «O condómino não sou eu, claro. Mas também sou eu, na exploração que é feita de um certo tipo de racionalidade. Ele é um frustrado, um tipo que perdeu todos os comboios. Eu se calhar não sinto a frustração porque a escrevo. É essa a parte autobiográfica.»
Aos quarenta e tal anos, António Gregório sente-se bem por não corresponder à imagem instituída do escritor jovem. Não anda pelo mundo a saltar de festival em festival («os escritores assemelham-se cada vez mais a caixeiros viajantes»), não se promove no Facebook, não se imagina a falar eternamente sobre os seus livros, em circuito fechado, nem em diálogos permanentes com os leitores. Numa era de crescente transparência, em que os escritores partilham nas redes sociais quase tudo o que fazem, dizem, ou escrevem, defende o contrário disso tudo. Uma certa opacidade. «Se soubermos pouco, ou nada, sobre um autor, isso adensa ainda mais a leitura. Se soubermos tudo, esvazia-a.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges