Desenhos que pensam

Bem Dita Crise!
Autor: António Jorge Gonçalves
Editora: Documenta
N.º de páginas: 118
ISBN: 978-989-8618-01-6
Ano de publicação: 2012

Um Cavaco Silva ligeiramente curvado estende a sua língua pelo chão como uma passadeira vermelha para José Eduardo dos Santos pisar (título: «a importância da língua portuguesa»). O Papa Bento XVI carrega uma cruz em forma de pénis. A meio do segundo mandato, George W. Bush utiliza uma carta do presidente iraniano, Ahmadinejad, como papel higiénico. O Dalai Lama transfigura-se num panda, animal raro, preso em gaiola made in China. A lentidão da ONU no Líbano materializa-se na imagem de um capacete azul condenado a ser casca de caracol. Os cartoons que António Jorge Gonçalves vem publicando no suplemento Inimigo Público há uma década (começou em 2003) são quase todos assim: intensos, provocadores, ácidos, rudes, desbragados, politicamente incorrectos e capazes de sabotar, com requintes de malvadez, a lógica informativa que é servida todos os dias nos telejornais.
Os desenhos de AJG não servem para fazer rir. Servem para fazer pensar. Se há riso, é um riso nervoso, de quem se sabe à mercê de forças demasiado violentas e incontroláveis. Num meio tão ameaçado como a imprensa portuguesa, louve-se tamanho desassombro. Diz o autor, num texto muito lúcido que acompanha a sequência de trabalhos e comenta a sua génese: «Os jornais morrem todos os dias: um cartoon de imprensa tem apenas uns segundos de vida, morrendo com o virar da folha. Esta volatilidade é frustrante quando julgo ter feito um bom desenho, mas também é uma bênção quando estou desinspirado.» Tudo menos voláteis, os trabalhos de António Jorge Gonçalves raramente precisam de bênçãos e ganham até novos sentidos com o passar do tempo. Não haverá talvez maior glória ao alcance de um cartoonista.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Vida subterrânea

No início da década de 90, eu era aluno da Faculdade de Ciências de Lisboa e cumpria quase diariamente um percurso de vinte minutos no metropolitano, entre o Rossio e a Cidade Universitária. Quando não tinha a sorte de encontrar um lugar sentado, que me permitisse um prolongamento da sessão de leitura iniciada no barco que me trazia da outra margem do Tejo, entretinha-me a observar os outros passageiros, olhando para eles como um escritor olha para as suas personagens. Na forma como se sentavam, como inclinavam a cabeça, como bocejavam ou sacudiam uma mosca, via sinais do que poderiam ser as suas vidas, as suas tristezas e alegrias, as suas personalidades. E imaginava histórias para aqueles corpos, tantas vezes ligeiramente encolhidos (por se sentirem observados?). Os outros passageiros eram páginas em branco, portas de entrada para ficções à espera de serem escritas, mas os seus rostos esfumavam-se mal saía da carruagem e subia em passo rápido as escadas, procurando lá fora, por trás da Aula Magna, o perfil do edifício C2.

subway_life

Uma das grandes virtudes dos desenhos de António Jorge Gonçalves, reunidos no volume Subway Life (edição Assírio & Alvim), é esta: os rostos dos passageiros não se esfumam. Muito pelo contrário. O pequeno jogo que eu fazia (e que provavelmente toda a gente faz nas mesmas circunstâncias) foi elevado pelo co-criador de Filipe Seems a uma forma de arte súbita. Quando vivia em Londres, estes retratos instantâneos da primeira pessoa que se sentasse à sua frente no metro, feitos nos poucos minutos dos trajectos entre estações, funcionavam como um exercício de rapidez e acaso, com o qual se obrigava «a desenhar aquilo que não podia escolher». Mas depois a coisa foi ficando séria, à medida que o projecto se estendeu a outras cidades, em vários continentes, e o respectivo site se tornou um lugar de referência na Internet, com mais de cinco milhões de visitas desde 2002.

Dos cerca de 3000 desenhos que enchem os seus cadernos, Gonçalves revela-nos agora cerca de 400, divididos cronologicamente pelas nove cidades em que foram feitos: Londres, Lisboa, Berlim, Estocolmo, Nova Iorque, São Paulo, Tóquio, Atenas, Moscovo e Cairo. Os modelos involuntários (a quem nunca foi pedida autorização) aparecem literalmente arrancados da carruagem em que seguiam. Não há bancos nem portas nem argolas penduradas do tecto. Só corpos (estranhamente suspensos no vazio) e o modo como se expõem. Dá ideia que o objectivo é encontrar, para cada um deles, o punctum barthesiano: uma inclinação das pernas, o ângulo do cotovelo, os objectos pousados sobre os joelhos, um pé em cima do outro, certa expressão facial melancólica ou galhofeira.

Em tempo de globalização, constatamos sem surpresa que são mais as semelhanças do que as diferenças entre os passageiros das várias cidades. Mas ainda assim as diferenças existem, mesmo se a escassez da amostra aleatória não permita fazer extrapolações estatísticas. Por exemplo: a cidade com mais pessoas adormecidas é Londres (7); aquela em que mais se lê é Moscovo (17); o maior número de passageiros com óculos está em Atenas (22); o maior número de crianças transportadas ao colo junta Estocolmo e São Paulo (2); enquanto a única máscara anti-germes surge, previsivelmente, em Tóquio; e a única sósia de Zita Seabra surge, também previsivelmente, em Lisboa.
Gonçalves nunca explica nem contextualiza. Limita-se a mostrar-nos, em bruto, a humanidade dispersa por vários continentes. E a resumir as suas experiências em breves linhas, com a concisão de um haiku: «tudo chega, tudo parte. como podemos ter fé no meio de tanto trânsito» (Atenas); «os meus modelos ignoram-me, mas às vezes é como se sentisse as cócegas que lhes faço com a minha caneta sobre o papel» (Londres).

[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]

‘Subway Life’ (booktrailer)

«António Jorge Gonçalves desenha num jogo de observar e ser observado.» O projecto online existe aqui. A versão em papel é posta à venda no próximo dia 15, com chancela da Assírio & Alvim.

‘Subway Life’ em livro

Segundo uma informação colocada hoje no seu site, António Jorge Gonçalves já entregou a um editor as artes-finais do livro Subway Life, súmula de vários anos a desenhar passageiros nos metropolitanos de todo o mundo.

[Uma dica do Rui Almeida]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges