Lobo Antunes em Torres Novas
Segundo notícia do DN, António Lobo Antunes pondera ceder o seu espólio à Câmara Municipal de Torres Novas durante 20 anos, “no âmbito de um contrato de comodato” (à maneira do que Joe Berardo fez com o Ministério da Cultura, cedendo ao Estado a sua colecção de arte contemporânea, mas com prazo fixo e perspectiva de negócio).
Para a autarquia, o interesse no espólio de Lobo Antunes — composto pela sua “biblioteca pessoal” e por “manuscritos, objectos pessoais, fotografias, pinturas, prémios e condecorações” — é óbvio. A futura Casa da Literatura, que ocupará um lugar nobre (os futuros ex-Passos do Concelho), será decerto um pólo de actividade cultural importante no projecto de uma Cidade Criativa e o empréstimo de uma casa, para o escritor viver perto das suas coisas, representa apenas uma aposta na “descentralização” de um dos principais nomes da literatura nacional.
O que me causa alguma perplexidade é a justificação de Lobo Antunes para a mudança de vida. Se ele pretende apenas “descansar” e escrever, longe da agitação lisboeta, muito bem. Está no seu direito. Mas invocar como ligação à cidade o facto de o seu irmão, Pedro Lobo Antunes, “ali residir e ser um político local” é no mínimo caricato. Mesmo que em Torres Novas também existam marquises de alumínio e casas com naperons em cima da televisão (e existem, decerto), o lugar que mais merecia uma Casa da Literatura António Lobo Antunes é, sem sombra de dúvida, o bairro de Benfica.
Será por isso que o escritor negociou um comodato e não uma cedência definitiva? Em 2028 saberemos.
António Lobo Antunes em Paris
Le Cul de Judas, uma versão teatral do romance Os Cus de Judas (1979), de António Lobo Antunes, estreada em 2005 no Festival Off de Avignon, vai ser reposta na Grande Salle da Maison de la Poèsie de Paris, de 3 de Abril a 25 de Maio. François Duval adapta, encena e interpreta o segundo livro do escritor português, que descreve a sua experiência enquanto médico durante a Guerra Colonial, em Angola. O DVD do espectáculo pode ser encomendado aqui, por menos de 20 euros.
O almoço agradável
Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.
Proeza
Com a compra da Dom Quixote, Miguel Pais do Amaral conseguiu um feito inédito: juntar debaixo do mesmo telhado José Saramago e António Lobo Antunes, dois rivais que à partida se excluem mutuamente. Não deve ser aliás por acaso que o autor de A Ordem Natural das Coisas diz o que diz. As ameaças servem apenas para marcar posição, sublinhar o seu estatuto e exigir tratamento VIP. Mas o fulcro dos receios de Lobo Antunes está nesta frase: “Quero garantias muito claras de que as pessoas que têm trabalhado comigo o continuem a fazer.” Onde se lê “pessoas que têm trabalhado comigo” leia-se Tereza Coelho. Por outro lado, se o romancista defende com unhas e dentes os “seus”, o que só lhe fica bem, lá por baixo esconde-se, parece-me, o receio de ter de partilhar o palco com outros autores de primeira grandeza, nomeadamente aquele que já teve o desplante de lhe roubar o Nobel.


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