António Lobo Antunes e os ex-combatentes
Sobre a absurda presunção de que o escritor António Lobo Antunes seria cobarde, por não ter comparecido a um encontro público no dia em que o Expresso publicou uma notícia sobre uns certos senhores que lhe querem «ir ao focinho» [sic], eu tinha esboçado um post que deixei em draft. Quando li a coluna de Ferreira Fernandes, na edição de hoje do DN, apaguei-o porque FF diz exactamente o que eu queria dizer (e com mais elementos factuais).
Eis a crónica, na íntegra:
«BARDAMERDA PARA A COBARDIA
Em Setembro de 2009, foi lançado um livro de entrevistas a António Lobo Antunes, onde ele falou da guerra em Angola de forma que não agradou a antigos combatentes. Desde aí, apareceram ameaças na Internet. Vou enumerar datas e locais onde teria sido possível partir a cara a Lobo Antunes, de 67 anos. Em 22 de Outubro, no São Luiz, Lisboa, ele lançou o seu novo romance. Em 26 de Novembro, esteve em Caldas da Rainha a apresentá-lo. E, a 6 de Dezembro, na Biblioteca de Nelas. Em 5 de Março esteve com Fátima Campos Ferreira no Casino da Figueira. Em Maio casou, em cerimónia que a revista Caras avisou. A 20 desse mês apresentou o livro de Pedro Rosa Mendes, na livraria Buchholz, em Lisboa. A 7 de Julho deu uma conferência de imprensa, em Lisboa, com artistas franceses. Em 24 de Julho debateu com Eduardo Lourenço na Faculdade de Letras de Lisboa… São sítios públicos onde ele foi quando já circulavam ameaças de agressão. Destas não sei nada. De Lobo Antunes vejo que não fugiu delas. No sábado, o Expresso contou as ameaças que já circulavam há meses na Internet e que o escritor conhecia. Nesse dia, ele ia a um encontro em Tomar. Por razões que ele já explicou, não foi. Mas juntaram a não ida ao medo de ser agredido! Lobo Antunes disse, ontem, ao DN: “Querem fazer–me passar por aquilo que não sou: um cobarde.” É o que diz o rol que aqui deixo. Não é.»
O Mondego, gota a gota
«(…) Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro. Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou. Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta:
– Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
– Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim. (…)»
[in De livros e editores, crónica de António Lobo Antunes, no último número da revista Visão]
2011: o ano de António Lobo Antunes em França
A MC93, uma das principais instituições teatrais francesas, vai dedicar a primeira metade da sua temporada de 2011 a António Lobo Antunes. Entre Janeiro e Junho, os 25 livros do escritor português editados em França (pelas Éditions Christian Bourgois) serão o mote para uma homenagem inédita – nunca a MC93 dedicara uma parte tão significativa da sua programação a um só escritor. Para as três salas deste teatro de Bobigny, estão previstas, sucessivamente ou em simultâneo, leituras, conferências, ateliers, instalações e espectáculos inspirados nas obras de Lobo Antunes.
Entre os participantes na homenagem estão os encenadores Georges Lavaudant, Patrick Sommier, Toni Servillo e Jean-Michel Rabeux, os actores Patrick Pineau, Maria de Medeiros, Luís Miguel Cintra, Gilles Arbona, Hervé Briaux e Claude Degliame, entre outros. Está também prevista a participação do escritor Olivier Rolin e do dramaturgo David Lescot. O programa definitivo será anunciado no próximo mês de Outubro.
Quase (2)
Dirão os detractores de António Lobo Antunes: antes «quase romance» do que «poema».
Dois e-mails, um sonho (ou Dançar com António Lobo Antunes num terraço inclinado)

Ontem à noite, recebi do escritor brasileiro Alfredo Aquino o seguinte e-mail:
«Boa Noite.
Li a crônica do Lobo Antunes [no último número da revista Visão, sobre o suposto abandono da escrita, anunciado dia 16 em entrevista ao Diário de Notícias]… e não a entendi. Um sentimento de perplexidade frente ao texto revelado ou desejado.
Fiquei um pouco chocado com a afirmativa de que só escreverá para si e para destruir, no futuro.
Que o seu leitor ideal é um que não lê, o sem-teto de hábitos bizarros.
Estamos agora a descobrir a obra de Lobo Antunes no Brasil e procurando divulgá-la aos leitores, jornalistas, livrarias, bibliotecas e certames culturais. Com as dificuldades naturais dessa tarefa.
Daí ele produz essa abdicação e nos deixa a todos aqui um tanto desanimados e frustrados com a nossa própria palavra em favor do autor. É importante esclarecer que se trata de uma palavra espontânea sem vínculo a editoras, veículos editoriais, jornais ou qualquer atividade remunerada. Apenas a leitura e a admiração da boa literatura… o blog em sua essência.
Daí vem essa crônica e o homem desmancha de um golpe o que se está a construir com afinco e resta um sentimento de desalento, frustração e tristeza, como se tudo fosse um engano e um engodo, em que participávamos como paspalhos sem convites. Um equívoco amargo… será isso mesmo?»
Mais ou menos 40 minutos depois, respondi-lhe assim:
Caro Alfredo,
Há coisas muito estranhas.
Ainda agora estava a deitar os meus filhos e fiquei por lá, junto à Alice e à sua girafa de peluche, contando histórias. Como estou absolutamente exausto, depois de uma semana duríssima, com passagem intensa pelas Correntes d’Escritas (onde se fala muito, se bebe, se dança, mas se dorme quase nada) e um excesso de trabalho no regresso a Lisboa, adormeci. No escuro do quarto, só iluminado por um móbil de libelinhas luminosas (como pirilampos), adormeci e sonhei, um sonho muito estranho que me deixou um sabor acre na boca quando acordei, com a chamada de um amigo para o telemóvel (afinal de contas, ainda não eram onze da noite, uma hora razoável para quem me conhece). Levantei-me estremunhado, respondi como pude, arrumei a mesa do jantar e vim aqui ver os e-mails. Comecei lendo o seu e de repente lembrei-me do sonho.
Sabe com quem eu sonhei? Não vai acreditar. Sonhei com o Lobo Antunes. Ele vestia um casaco preto de cabedal, muito comprido, um chapéu de cowboy e estava bêbedo. Podia sentir o bafo à distância. E depois muito próximo, porque ele abraçou-se a mim, como se eu fosse um amigo de muitos anos (na realidade, nunca sequer estivemos juntos). A cena passava-se numa espécie de terraço, inclinado sobre Lisboa e o Tejo. Ao longe, uma música melancólica. E então ele pôs-se a dançar comigo. A sério. Eu oferecia resistência, «o que é isso, António?», mas ele, com voz arrastada, dizia «Eu gosto mesmo de si, do que escreve, do seu olhar sobre as coisas» (devia estar a referir-se aos livros que escreverei um dia; se é que algum dia escreverei algo que lhe agrade mesmo), e eu «António, vá lá, cuidado, o terraço é muito inclinado, não faça um diparate», e nisto ele rodopia, tropeça e quase cai dali abaixo, eu fico a segurá-lo por um pé, não está ninguém por perto, e é com muita dificuldade que consigo por fim puxá-lo cá para cima. Quando vou olhar para o rosto dele (o chapéu caído na escuridão, ou talvez no Tejo), toca o telemóvel e sou arrancado ao sonho, como se de repente alguém tivesse acendido todas as luzes de um teatro.
Agora que começo a ficar um pouco mais acordado e lúcido (mas não muito), apercebo-me que devia estar a sonhar isto tudo enquanto você escrevia o seu e-mail. O escritor que há em mim (o escritor que o Lobo Antunes do sonho julgava que eu era, não o escritor que realmente sou) talvez arriscasse uma explicação: a pergunta que o Alfredo se coloca («será que o Lobo Antunes vai abandonar mesmo a literatura?») teria a resposta no meu sonho (sim, ele está namorando o vazio, o abismo, mas quando decidir lançar-se nele, alguém, um dos seus leitores, simbolizado por mim naquele devaneio onírico, salvá-lo-á). Era a saída perfeita. Mas, infelizmente, temo que o sonho tenha sido apenas isso: um sonho. E a pergunta continua por responder.
Um grande abraço,
José Mário
António Lobo Antunes em Passo Fundo
No blogue de Alfredo Aquino, fiquei a saber que o romancista português, Prémio Camões 2007, vai participar na 13.ª Jornada de Literatura, na cidade gaúcha de Passo Fundo, entre 24 e 28 de Agosto.
Cordão sanitário
O crítico António Guerreiro viu o booktrailer em que António Lobo Antunes fala do seu último romance e não gostou mesmo nada, ao ponto de sugerir a necessidade de um «cordão sanitário» entre o discurso público do escritor e a sua obra. Eis o texto completo da pequena crónica, publicada hoje no jornal Expresso:
«Há um booktrailer do último romance de António Lobo Antunes que é doloroso de se ver. O escritor, carregando todo o peso do mundo e torcendo-se sobre si, fala com voz lutuosa e diz: “Ninguém escreve como eu.” E daí passa a uma arte poética: “encher os livros de silêncio”; “os livros tratam todos de uma paisagem interior”; “a angústia do homem no tempo”; “a procura da natureza do homem”. Estes derrames de uma banalidade tão excessiva e enfática não podem, seguramente, ser interpretados em primeiro grau. Ou o escritor representa diante de nós uma comédia ou há algo de indecifrável. Mas em nenhum caso aquele que fala assim sobre os seus livros pode ser o mesmo que os escreveu. Mas como esta dissociação é difícil de fazer, como é difícil evitar a contaminação recíproca dos dois planos, A. Lobo Antunes devia ser protegido de si mesmo, devia-se erguer um cordão sanitário entre o seu discurso público e a sua obra, entre os seus livros e o que diz sobre eles. Eu, que tenho sempre grandes hesitações quando leio os seus romances, e quando os acho maus não consigo deixar de pensar que talvez não os tenha sabido ler, gostaria de remover o obstáculo deste booktrailer.»
Tocar na ferida
Na pele de Wanderley, o repórter brasileiro do programa Vai Tudo Abaixo, Jel entrevistou António Lobo Antunes na Biblioteca Pública de Nova Iorque. Os momentos em que Wanderley confunde Lobo Antunes com a sua Nemésis, José Saramago, referindo-se primeiro à adaptação que Fernando Meirelles fez do Ensaio sobre os Ceguinhos (sic) e depois às vantagens de ganhar o Nobel, são antológicos. A sequência começa aos dois minutos e 43 segundos mas a peça é, toda ela, um achado.
[via Insónia]
‘O Arquipélago da Insónia’ (booktrailer)
Com quase dez minutos de duração, este pequeno filme produzido pela Dom Quixote, mais do que um booktrailer, é um minidocumentário. De resto, a aposta promocional no mais recente romance de António Lobo Antunes (já na 7.ª edição) está a ser fortíssima, como se comprova por estas imagens captadas por Isabel Coutinho na estação de metro do Chiado.
Um escritor português on the road nos EUA
Durante uma semana, António Lobo Antunes andou em digressão promocional pelas terras de Barack Obama e John McCain. Hoje, no suplemento P2, do Público, o jornalista e escritor Rui Cardoso Martins conta na primeira pessoa a viagem bem sucedida, por Nova Iorque, Boston e Washington, do autor de What Can I do When Everything’s on Fire?. Eis um excerto:
«O editor de Lobo Antunes, o imparável Bob Weil, da Norton, talvez a mais prestigiada editora independente americana, gritava na sala cheia da New York Public Library (NYPL) que, no dia em que leu a segunda cópia da tradução, ele que já leu e publicou dos melhores,
- Fiquei literalmente, mas literalmente, blown away [siderado, estraçalhado...], como não aconteceu com nenhuma outra obra de ficção com a qual tivesse trabalhado antes, senhoras e senhores!
Se falarmos com Bob Weil vemos logo que ele não tem exactamente uma vida sua por detrás dos óculos, dos passinhos rápidos, da saqueta de livros a tiracolo para distribuir como um ardina.
- Bob, sabe de alguma coisa interessante a acontecer, um espectáculo em Nova Iorque…?
- Eu só faço livros.
Para o ano publicará mais um livro de crónicas de Lobo Antunes, é o que ele faz. Na New York Public Library, ouvi Bob entusiasmar-se e apontar para What Can I do When Everything’s on Fire?, a tradução de Que Farei Quando Tudo Arde? (ed. Dom Quixote, Portugal). Quatro ou cinco anos nas mãos de Gregory Rabassa, que universalizou em inglês García Márquez, Cortázar, Vargas Llosa, Lezama Lima, etc. O velho professor tem 86 anos e um laço de seda ao pescoço, adora Nova Iorque mas ainda vai a todo o lado, e suspira
- Mestre António…
quando se abraçam. Traduziu Fado Alexandrino e As Naus, antes deste.
Na contracapa do livro, George Steiner, um dos cérebros lúcidos do mundo, chama génio ao português. E Harold Bloom, o mais famoso crítico literário: “Este é um extraordinário romance de um dos escritores vivos que mais importância terão no futuro. Lobo Antunes escolhe manifestar a sua dívida a Freud, Joyce, e Faulkner, à superfície, mas nas profundezas é um grande original.” E acrescenta que o livro é uma visão negra da realidade, e cruel, que vai deixar a sua marca nos leitores por todo o lado… palavras para quê?
Vi Paul Holdengraber, director de programas da Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL), numa semana em que outros convidados de honra seriam Paul Auster e Spike Lee, tentar tirar de Lobo Antunes mais coisas do que ele queria dar nessa noite, mas cada vez mais divertido com os exemplos e paradoxos que ouvia do escritor:- Descobri o que é a democracia com La Fontaine. Um cão pode olhar um bispo. Eu nasci num país em que só o bispo podia olhar o cão.
ou
- A polícia política era tão estúpida que apreendia as obras de Lenine e de Estaline e guardava-as no meio de Racine.
ou
- Portugal não é Europa, é um lugar estranho. Gosto das mulheres portuguesas, pequeninas, de bigode.
e
- Não sou um homem modesto, mas sou humilde. Sou uma galinha que guarda os seus ovos.
e
- O que é a história num bom livro? Anna Karenina: uma mulher tem um marido aborrecido, começa a dormir com outros homens e… olhe!
- Nunca tinha ouvido o resumo de Anna Karenina de forma tão concisa, vou recomendá-lo aos estudantes de liceu, concordou Paul Holdengraber.
- Então e a história de Ulisses, da Odisseia? “Chego tarde a casa”.
E todos riam, porque além disso
- Comecei a escrever por causa do Mickey Mouse, do Flash Gordon, do Sandokan, aos cinco.
Até que, por falar em cinco anos, e quase de repente, contou do hospital de crianças cancerosas onde trabalhou depois de voltar da guerra de Angola e de como nesse hospital se zangou com Deus, apesar de não ser um homem religioso. Estava lá um miúdo de cinco anos com leucemia, muito bonito, de olhos grandes e, na sua opinião, Deus não tem o direito de pôr uma criança a gritar por morfina. O rapaz morreu e vieram dois homens com uma maca, mas como o morto era muito pequeno, bastou um homem enrolá-lo num lençol e levá-lo ao colo pelo corredor, mas um pé da criança saiu do lençol e ele viu o pé afastar-se, balançando no ar.
- Nesse dia decidi: vou escrever para aquele pé.
Talvez já tenham visto uma plateia de nova-iorquinos, professores, académicos, leitores, intelectuais, as pessoas mais cosmopolitas do mundo, a engasgarem-se nas próprias salivas silenciosas. E Paul Holdengraber é um orador nato, um conversador de resposta pronta. Uma hora antes tínhamos visitado a sala de leitura. Por baixo de nós, sete andares subterrâneos com 52 milhões de livros. Quarenta funcionários invisíveis nas caves, a carregar vagõezinhos como no tempo do carvão. Mas há um sistema hidráulico e de ar comprimido para os livros chegarem à superfície rapidamente. E computadores pessoais abertos em cima das mesas não fazem mal aos livros.
António lia uma inscrição dourada por cima da porta, na madeira, onde se dizia que um bom livro é o precioso sangue da vida do espírito, que nos poderá levar para uma vida para além da vida. Nunca ali tinha estado e disse ao director:
- Para mim isto é o paraíso.
- Sim.
E discutiram Borges.»
O resto é para ler em papel (ou aqui). Ler mesmo. Reportagens assim não aparecem por aí todos os dias.
Lobo Antunes light*
É Alexandra Lucas Coelho quem o diz na sua notícia de hoje, no Público, sobre a atribuição do grau de Comendador da Ordem das Artes e das Letras, por parte do Estado francês, a António Lobo Antunes. O Arquipélago da Insónia, novo romance do escritor, circulou entre as pessoas que assistiam à cerimónia. E «o que logo salta à vista é ser tão fino», sublinha ALC. «Tem apenas 263 páginas.»
* Por light entenda-se a leveza que se mede na balança dos quilogramas (e não do estilo)
Sr. Comendador
Depois de ter ganho recentemente o Prémio Literário da Feira Internacional de Guadalajara (antigo Prémio Juan Rulfo), António Lobo Antunes recebe hoje, pelas 18h30, na Embaixada de França em Lisboa, as insígnias de Comendador da Ordem das Artes e das Letras, condecoração atribuída pelo Ministério da Cultura francês. A cerimónia será presidida pelo embaixador Denis Delbourg.
António Lobo Antunes vence Prémio FIL de Literatura
Um júri composto por escritores e académicos espanhóis, norte-americanos, franceses, ingleses, mexicanos e peruanos atribuiu a António Lobo Antunes o Prémio da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México), anteriormente conhecido como Prémio Juan Rulfo, um dos mais prestigiados de entre os que são atribuídos na América Latina.
Segundo uma notícia do El País, momentos depois de saber que ganhara, Lobo Antunes terá dito, numa conversa telefónica entre Portugal e Guadalajara, que “agora só falta el gordo“. Uma referência, claro está, ao Nobel que se escapou para o rival Saramago há uma década e que o autor de Manual dos Inquisidores, pelos vistos, ainda não perdeu as esperanças de receber um dia.
Lobo Antunes em Torres Novas
Segundo notícia do DN, António Lobo Antunes pondera ceder o seu espólio à Câmara Municipal de Torres Novas durante 20 anos, “no âmbito de um contrato de comodato” (à maneira do que Joe Berardo fez com o Ministério da Cultura, cedendo ao Estado a sua colecção de arte contemporânea, mas com prazo fixo e perspectiva de negócio).
Para a autarquia, o interesse no espólio de Lobo Antunes — composto pela sua “biblioteca pessoal” e por “manuscritos, objectos pessoais, fotografias, pinturas, prémios e condecorações” — é óbvio. A futura Casa da Literatura, que ocupará um lugar nobre (os futuros ex-Passos do Concelho), será decerto um pólo de actividade cultural importante no projecto de uma Cidade Criativa e o empréstimo de uma casa, para o escritor viver perto das suas coisas, representa apenas uma aposta na “descentralização” de um dos principais nomes da literatura nacional.
O que me causa alguma perplexidade é a justificação de Lobo Antunes para a mudança de vida. Se ele pretende apenas “descansar” e escrever, longe da agitação lisboeta, muito bem. Está no seu direito. Mas invocar como ligação à cidade o facto de o seu irmão, Pedro Lobo Antunes, “ali residir e ser um político local” é no mínimo caricato. Mesmo que em Torres Novas também existam marquises de alumínio e casas com naperons em cima da televisão (e existem, decerto), o lugar que mais merecia uma Casa da Literatura António Lobo Antunes é, sem sombra de dúvida, o bairro de Benfica.
Será por isso que o escritor negociou um comodato e não uma cedência definitiva? Em 2028 saberemos.
António Lobo Antunes em Paris
Le Cul de Judas, uma versão teatral do romance Os Cus de Judas (1979), de António Lobo Antunes, estreada em 2005 no Festival Off de Avignon, vai ser reposta na Grande Salle da Maison de la Poèsie de Paris, de 3 de Abril a 25 de Maio. François Duval adapta, encena e interpreta o segundo livro do escritor português, que descreve a sua experiência enquanto médico durante a Guerra Colonial, em Angola. O DVD do espectáculo pode ser encomendado aqui, por menos de 20 euros.
O almoço agradável
Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.
Proeza
Com a compra da Dom Quixote, Miguel Pais do Amaral conseguiu um feito inédito: juntar debaixo do mesmo telhado José Saramago e António Lobo Antunes, dois rivais que à partida se excluem mutuamente. Não deve ser aliás por acaso que o autor de A Ordem Natural das Coisas diz o que diz. As ameaças servem apenas para marcar posição, sublinhar o seu estatuto e exigir tratamento VIP. Mas o fulcro dos receios de Lobo Antunes está nesta frase: “Quero garantias muito claras de que as pessoas que têm trabalhado comigo o continuem a fazer.” Onde se lê “pessoas que têm trabalhado comigo” leia-se Tereza Coelho. Por outro lado, se o romancista defende com unhas e dentes os “seus”, o que só lhe fica bem, lá por baixo esconde-se, parece-me, o receio de ter de partilhar o palco com outros autores de primeira grandeza, nomeadamente aquele que já teve o desplante de lhe roubar o Nobel.


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