Invenção da melancolia

Da Natureza dos Deuses
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 574
ISBN: 978-972-20-5846-9
Ano de publicação: 2015

Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que consiste em dizer o que se quer, da maneira que se quer, sem pensar em coisas vulgares como, por exemplo, a inteligibilidade.
A maior surpresa que nos proporciona Da Natureza dos Deuses, o mais recente romance de Lobo Antunes, é justamente uma inflexão na tal trajectória de fechamento que ameaçava alienar muitos dos seus leitores. Num livro com quase 600 páginas, nunca chegamos a sentir cansaço ou exaustão, mesmo quando o autor multiplica os narradores e cria novelos mentais que embatem violentamente uns contra os outros, oferecendo visões distintas dos mesmos acontecimentos. À perícia do escritor, na forma como deixa a narrativa seguir o seu curso, permitindo à mão que escreve ir atrás do fio das histórias que se acumulam no seu imparável carrossel mental, junta-se uma força centrípeta que mantém a coesão do edifício, conferindo-lhe solidez e sentido.
No centro do romance está precisamente um edifício, um palacete na zona de Cascais, perto do Guincho, cenário faustoso para o lento declínio de uma família. «Tudo se gasta e cede», diz alguém. E Da Natureza dos Deuses é a crónica dessa ruína. Uma ruína dos corpos, das relações afectivas, dos impérios financeiros, das casas erguidas contra o vento que vem do mar, contra o imparável cerco das areias que um dia soterrarão o court de ténis, as estátuas de deusas e discóbolos, os canteiros do jardim, a janela na torre (onde uma mulher, reclusa, espreita) e a memória de quem um dia habitou aqueles espaços. O tema central é o poder que o dinheiro traz consigo e a forma como esse poder vai sendo exercido. O Senhor Doutor, nascido na pobreza, sobe a pulso e cria um império de bancos, seguradoras e outras empresas. Esse sucesso nos negócios confere-lhe uma aura que distorce a forma como as pessoas se relacionam com ele. Sem surpresa, é quase sempre em modo de submissão, embora por trás dessa fachada de arrogância e superioridade aparente se possam esconder outras relações de força (como acontece com Marçal, o «criado» fiel, no seu impecável casaco branco).
Os vários laços de afecto ou dependência vão sendo minuciosamente revelados à medida que a narração alterna entre figuras muito diferentes: o próprio Senhor Doutor, eminência parda do Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, íntimo de um Salazar que aparece várias vezes como um espectro moribundo, fragilíssimo, de manta sobre os joelhos; a Senhora, mulher do Senhor Doutor (a reclusa que espreita por detrás dos cortinados); a filha da Senhora, com um cão ao colo, rodeada por livros que lhe são trazidos por uma funcionária da livraria mais próxima e nunca lidos, porque os pacotes são um mero pretexto para ter quem a oiça; e muitas personagens secundárias, que vão destapando o reverso do esplendor burguês, a miséria atávica de uma sociedade supostamente de brandos costumes, mas onde imperam as mais brutais formas de violência.
Lobo Antunes é particularmente feliz no modo como capta os estados emocionais das personagens, os seus abismos íntimos, os seus dilemas morais, essa tristeza entranhada nos corpos, «espécie de melancolia» que os paralisa a meio de um gesto, de uma frase, às vezes de uma palavra. Quando essa ruptura no discurso acontece, a palavra deixada a meio pode ficar assim, partida, suspensa, enquanto novos fios de pensamento se intrometem, para depois, mais à frente, vermos surgir o resto da palavra, retomando o processo mental interrompido. Estes malabarismos não são meros exercícios de virtuoso, antes obedecem a uma necessidade do texto, o mesmo se podendo dizer dos cruzamentos de planos temporais e da hábil sobreposição das várias subjectividades que coexistem em cada capítulo (incluindo a do autor deste mundo, sempre consciente da sua efabulação).
A dada altura, uma personagem refere-se a «certos pormenores que por muito que a gente se esforce não se desvanecem». Esses pormenores, nos livros de Lobo Antunes, prendem-se sempre com a linguagem, com esse espantoso fôlego lírico que faz equivaler a sua arte narrativa a uma arte poética. O que não se desvanece na memória dos leitores é a força das imagens. Por exemplo, aquele homem «abotoando o colete como se tocasse acordeão em si mesmo». Ou as pessoas «cujas sombras parece que têm ossos».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Um remexer no escuro

casa em chamas

Caminho como uma Casa em Chamas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 357
ISBN: 978-972-20-5588-8
Ano de publicação: 2014

Os dois romances anteriores de António Lobo Antunes – Comissão das Lágrimas (2011) e Não é Meia Noite Quem Quer (2012) – centravam-se numa personagem feminina muito forte. Era dentro das protagonistas, no seu espaço mental, que as coisas aconteciam e as histórias, próprias ou alheias, se misturavam. Em Caminho como uma Casa em Chamas, o escritor preferiu uma estrutura aparentemente mais convencional, já utilizada por muitos outros autores (de Georges Perec a Alaa El Aswany, passando por Nuno Camarneiro, um recente Prémio LeYa, e até pelo Saramago de Claraboia), e que consiste em descrever a vida dos habitantes de um prédio. Neste caso um edifício lisboeta, «a um canto da cidade, longe do rio».
Tratando-se de Lobo Antunes, era improvável que o romance se deixasse enclausurar em esquemas formais rígidos. De facto, isso não acontece. Cada capítulo leva-nos a um dos oito apartamentos (do R/C esquerdo ao 3.º direito, mais o sótão supostamente desabitado) mas depressa percebemos que os inquilinos vivem em casulos quase estanques, interagindo pouco uns com os outros. Eles sabem bem «a quantidade de coisas de que o passado é feito», porque só se podem agarrar à memória. São quase todos velhos mais ou menos próximos da morte, solitários com tendência para o delírio, deserdados do amor, esquecidos pelos filhos que só aparecem, quando aparecem, para lhes exigir dinheiro.
Nesta pequena galeria há lugar para um advogado viúvo, submisso toda a vida à mulher, que o humilhava; para uma actriz indiferente às «traições do tempo», alucinada, julgando-se ainda rainha de um público invisível («eles adoram-me!»); para uma juíza com medo da decadência física, a quem um amante mais novo chama «esquilozinho gorducho», e que toca piano rodeada de um «excesso de tralha», enquanto evoca a infância em Castelo Branco e os «vapores da Gardunha ao longe»; para dois judeus ucranianos, irmão e irmã, assombrados pelo terror de que fugiram; para um coronel que esteve em Angola e amou uma mulata (deixada para trás no regresso, talvez grávida), e cuja imagem, mesmo «agora que tudo acabou», ainda o persegue; e para outras figuras igualmente trágicas, patéticas, ou apenas sujeitas à «ruína das coisas».
O mais admirável neste romance é a forma como Lobo Antunes cria a sua habitual polifonia em cada um dos núcleos – essa complexa sobreposição de tempos e espaços que está na matriz da sua escrita – mas depois os consegue misturar através de ecos e estribilhos, rastos de frases que saltam de uma casa para outra. Apesar das diferenças entre os vários planos narrativos que coexistem debaixo do mesmo telhado, há também muito em comum: uma mesma «poeira ténue de imagens, vozes, sons» a «atravessar-nos a cabeça misturando os pensamentos e diluindo as ideias», a permitir «um remexer no escuro», uma exploração do que há de mais íntimo e secreto em cada personagem.
No final, a figura de Salazar, omnipresente ao longo do livro enquanto memória do Portugal em que estas pessoas cresceram, materializa-se no sótão, «cubículo sujo» onde se esconde o «senhor doutor sempre de fato e gravata, sempre bem penteado», mesmo se a roupa já está no fio e as botas gastas, «uma das solas aberta com os preguinhos ao léu». Ele é «a presença atenuada de uma autoridade extinta», convencido de que ainda dirige o país, quando na verdade depende da «sopinha» quotidiana, trazida pela dama de companhia da actriz que mora mesmo em baixo, e terá sido um dia sua amante.
Além de uma síntese dos principais temas lobo-antunianos (famílias em ruínas, África e os restos do império, solidão, miséria existencial, trabalho da memória), este romance é também o retrato duro de um país que ainda tem, sobretudo em gerações mais velhas, as marcas do salazarismo no seu subconsciente colectivo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A casa do fim

ala_2012

Não é Meia Noite Quem Quer
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 455
ISBN: 978-972-20-5094-4
Ano de publicação: 2012

Num ensaio recente, As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes – (In)variantes do feminino (Texto Editora), a professora Ana Paula Arnaut (Universidade de Coimbra) associa ao sexto ciclo romanesco de Lobo Antunes, iniciado com O Arquipélago da Insónia (2008), um progressivo suavizar da «confusão e estranheza causadas por intrincadas redes polifónicas». Nos romances mais recentes, garante a investigadora, «parece mais fácil identificar a voz que fala e, em consequência, diferenciá-la de outras verbalizações que ocorrem num mesmo trecho». A publicação, quase em simultâneo, do 24.º romance de Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, confirma esse processo de simplificação formal que permite ao leitor seguir, mesmo com interrupções e elipses, o fluxo narrativo das múltiplas histórias e respectivos planos cronológicos.
Em vários aspectos, a estrutura deste livro assemelha-se à do romance anterior (Comissão das Lágrimas, 2011). Tudo volta a girar em torno de uma personagem principal feminina, uma dessas que «permanecem, de forma irremediável, em gaiolas de grades inexistentes», segundo Ana Paula Arnaut. Mulheres que se fecham sobre si mesmas e concentram no próprio corpo, dentro da cabeça, as histórias que as atormentam. Se em Comissão das Lágrimas encontrávamos Cristina, internada numa clínica psiquiátrica, perseguida por um círculo de vozes que «se acotovelam, vociferando», conjunto de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», em Não é Meia Noite Quem Quer a protagonista narra os três dias que leva a despedir-se da casa de férias familiar «onde nunca põe os pés», cenário das memórias de uma infância agora transformada em «ruínas moribundas».
Na casa que tantos anos depois «diminuiu de tamanho, sem espaço para eco algum», invadida pelo «bolor do silêncio», cria-se uma espécie de limbo onde ela pode confrontar-se definitivamente com os seus fantasmas e os «desabamentos do tempo». A sua cabeça é como o carrossel das feiras, «girafas e cavalos de madeira» sempre à roda, à roda, desentranhando «a quantidade de tralha, sepultada na gente, que ressuscita». E não só a sua «tralha», também a dos outros, «silhuetas sem nome que me chamam, ao chamarem-me reconheço-as, mal emudecem perco-as». Aos 52 anos, com o casamento desfeito, o trauma de um filho perdido, a experiência de um cancro que lhe levou um dos peitos, desorientada e vulnerável («tudo me aleija, hoje, tudo me fere»), ela deixa-se atravessar pela «melancolia longa», pelas «imensidões comovidas» das vidas alheias («em quantas vozes a minha voz se dividia»), e até pelas interpelações de objectos inanimados (uma maçaneta, um tapete «puído»), da própria casa e do mar que a convida para um encontro fatal.
Se na família ninguém se despede («vamos embora e pronto»), a protagonista tenta ainda perceber «qual a razão de as pessoas se apartarem». E surgem assim, uma a uma, essas figuras que iluminaram ou ensombraram a sua existência: a mãe controladora, sempre a queixar-se dos filhos; o pai fraco que não cumpriu as expectativas nele colocadas e se afunda no alcoolismo; um «irmão surdo», incapaz de se fazer compreender; outro «não surdo», perseguido pelas memórias terríveis da Guerra Colonial, em particular a imagem de uma aldeia africana a arder, num dia de massacre; o «irmão mais velho» que se atirou da falésia e como que chama por ela do fundo das águas; o marido que a trocou por uma vizinha; a colega da escola onde é professora, com quem se envolve numa relação lésbica; etc. Todas estas figuras se chegam à frente e se penduram nas girafas e cavalos de madeira do seu carrossel mental, umas só durante uma voltinha, outras o tempo todo, algumas até com direito a narração própria (como a amante ou o irmão «não surdo»).
Lobo Antunes arrisca pouco neste livro? Talvez. Parece recusar-se a sair da sua zona de conforto? Sim. Mas isso não é necessariamente mau, sobretudo num autor de tamanha exuberância estilística. Se a progressão narrativa se revela algo mecânica e previsível (para quem já conheça bem a obra anterior), atentemos nas muitas frases que apetece recortar: «Tu de roupa caída aos pés num charco de algodão aos quadradinhos»; «um metrónomo para a esquerda e para a direita numa angústia cardíaca»; «daqui a pouco chove porque a terra parece erguer-se ao encontro das nuvens, uma exaltação nas plantas como antes de um beijo». Lobo Antunes continua a ser inigualável na descrição da mediocridade suburbana, rodeada de bibelôs («chinesices, pontezinhas, pagodes, a arca com relevos de árvores anãs e dragões»), e na obsessiva atenção aos pormenores: o homem que carrega uma bilha de gás com uma serapilheira a proteger o pescoço; o outro que na paragem do autocarro «ajeitava o chinó» e «conforme a testa maior ou menor uma cara diferente»; esse animal feito de «sombra sem matéria, capaz de atravessar paredes num assobiozinho subtil e a que as pessoas chamam gato». Mais um exemplo: «olha a maré a encher, olha os leques de espuma, os pescadores a enrolarem as canas com limos nos anzóis, não peixes, que peixes há nestas ondas, há ossos de afogados, roupinha desfeita, despedidas que a água dissolveu». E ainda esta visão desencantada do que nos faz a morte: «existimos à mesma só que não dão por nós, somos um centro de mesa que se entorta ou um preguear de cortina».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]

Vozes sobre vozes

Comissão das Lágrimas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 326
ISBN: 978-972-20-4795-1
Ano de publicação: 2011

Não há nada mais violento do que reduzir a complexidade de um livro com mais de 300 páginas à formulação lapidar, mas necessariamente superficial, de uma sinopse com três ou quatro linhas. No caso dos romances de António Lobo Antunes, sobretudo os mais recentes, não se trata sequer de violência mas de impossibilidade. Dizer-se que Comissão das Lágrimas é sobre o horror vivido em Angola no período pós-independência, quando Agostinho Neto aproveitou o esmagamento da revolta «fraccionista» de Nito Alves, a 27 de Maio de 1977, para eliminar opositores (tanto fora como dentro do MPLA), equivale a resumir o romance anterior – Sôbolos Rios que Vão – à lenta agonia de um homem operado a um cancro, que enfrenta as suas desordenadas memórias e o espectro da morte numa cama de hospital. Os romances também são isto, claro, mas são sempre muito mais, infinitamente mais do que isto, porque Lobo Antunes abandonou há muito os modelos narrativos clássicos, trocando-os por uma praxis poética da ficção, em que a força torrencial da linguagem se sobrepõe a tudo, até à clareza e legibilidade das muitas histórias que convoca para as suas obras.
Num breve ensaio sobre um livro anterior, de 2008, publicado no volume António Lobo Antunes: A Arte do Romance, organizado por Felipe Cammaert (Texto, 2011), o filósofo José Gil escreve: «O que é O Arquipélago da Insónia? Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos. E em cada um destes pode surgir um outro tempo, alguém que se lembra subitamente de um gesto ou de coisas num outro tempo do passado; então a recordação salta para um plano diferente da memória, como uma lembrança de uma lembrança, muitas vezes sem nenhuma ligação com a narrativa que interrompeu. São ilhas de tempo que se conectam pelo poder hipnótico da bruma que a escrita segrega.» A descrição aplica-se, palavra por palavra, a Comissão das Lágrimas. Está tudo lá: a «imensa colagem» de imagens e cenas, os mecanismos da memória, as «ilhas de tempo», o «poder hipnótico» da linguagem, até a «bruma» que torna difusos os meandros dos percursos individuais.
O espaço narrativo coincide com a mente caótica de Cristina, uma mulher que ouve vozes e está internada numa clínica: «as coisas passam-se dentro de mim, não fora». A matéria do livro é por isso, em sentido estrito, uma alucinação. Cristina torna-se o veículo das vozes alheias que «se acotovelam, vociferando ou lamuriando-se», um círculo de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», figuras que a manipulam e confundem: «aproximam-se-me do ouvido, pegam-me no braço, empurram-me, surge uma cara e logo outra se sobrepõe discursando por seu turno, às vezes não discursos, segredos, confidências». No corpo do texto, sincopado e tenso, os narradores interrompem-se, coalescem, tal como os tempos e lugares se misturam e prolongam uns nos outros. Há no que se conta um alto grau de incerteza (por exemplo, a mãe, cujo nome oscila entre Alice e Simone, trabalhou numa fábrica/modista/escritório). O estado natural das coisas é a derrocada, das «lembranças que se emaranhavam trocando de sítio» aos episódios «que ao julgar apanhá-los se escapam». No limite, a única certeza é a dúvida (e a suspeita de que pode ser «tudo mentira»).
Das muitas vozes que irrompem no delírio de Cristina, há duas que se destacam. A da mãe, branca, corista decadente, sofrendo em África com as saudades da província portuguesa de onde veio (mesmo se parte das suas memórias são traumáticas: violações, abusos, miséria). E a do pai, negro, que andou no seminário, foi padre, mas depois abandonou Deus. É ele o eixo central da narrativa. Para vingar a humilhação da mãe, em tempos posta de joelhos, submissa, no chão da cozinha de um chefe de posto, aceita fazer parte da Comissão das Lágrimas, que interrogou, torturou e condenou sumariamente à morte milhares de pessoas, tanto na Cadeia de São Paulo, onde se lançavam granadas para dentro de cubículos cheios de prisioneiros, como em Quibala, onde as vítimas cavavam as fossas em que depois eram sepultadas. A culpa, essa, continua intacta trinta anos depois, no apartamento lisboeta com marquise virada para o Tejo e vidros opacos, um refúgio tão precário como o eterno jogo de xadrez atrás do qual se esconde, porque ele sabe que um dia os fantasmas da História lhe hão-de bater à porta para o fazer pagar pelos seus crimes.
À semelhança dos outros romances da última década, há em Comissão das Lágrimas uma estrutura musical (temas, variações, estribilhos, ritornelos) que permite abordá-lo como uma «partitura literária», para usar a expressão de Catarina Vaz Warrot (num ensaio sobre o «texto como tecido sonoro», incluído no volume citado mais acima). Volta igualmente a verificar-se uma espécie de auto-consciência da ficção: «se as vozes não voltam não se escreve este livro»; «não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se e eu a perguntar-me quais as que devo dar a vocês, não tenho tempo para decidir, escolham».
Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é também aqui que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo se maravilhados). Nas palavras de José Gil, o «poder entrópico» desta «grande máquina formal de escrita» é tão grande que corre o risco de «devorar toda a substância, toda a vida das personagens e dos acontecimentos». Mas enquanto Lobo Antunes não perder as suas qualidades de prosador magnífico – capaz de descrever Luanda como «uma gaveta de facas sempre aberta», uma cidade «que incha e se contrai numa cadência de punho, as avenidas elásticas, os edifícios moles, a Muxima para diante e a arredar-se depois, exprimindo, só para ela, o que eu não entendia» –, enquanto continuar a escrever com um fôlego e um fulgor sem paralelo na literatura portuguesa contemporânea, esse é um risco que vale a pena assumir.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Nada a não ser de tempos a tempos um arrepio nas árvores e cada folha uma boca numa linguagem sem relação com as outras, ao princípio faziam cerimónia, hesitavam, pediam desculpa, e a seguir palavras que se destinavam a ela e de que se negava a entender o sentido, há quantos anos me atormentam vocês, não tenho satisfações a dar-vos, larguem-me, isto em criança, em África, e depois em Lisboa, a mãe chegava-se ao armário da cozinha onde guardava os remédios
– São as vozes Cristina?
aqui na Clínica silêncio, com as injecções as coisas desinteressam-se de mim, uma frase, às vezes, mas sem ameaças nem zangas, o nome apenas
– Cristina
uma amabilidade pressurosa
– Como estás Cristina?
ou uma queixa
– Nunca mais nos ligaste
a cama, a mesa e as cadeiras quase objectos de novo, embora se perceba um ressentimento à espera, não se atrevia a tocar-lhes, deitava-se pesando o menos possível na esperança que a almofada ou os lençóis não a sentissem e pode ser que se distraiam e não sintam, não devem sentir porque nenhum
– Como estás Cristina?
desde há semanas, tirando as folhas num capricho do vento e as bocas de regresso um instante, o que me incomodam as bocas, o director da Clínica
– Ando a pensar dar-lhe uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos
e no interior do
– Ando a pensar dar-lhe uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos
não havia a sombra de uma sugestão, um conselho, a ordem
– Tens de matar o teu pai com a faca
graças a Deus ausente, quase paz se houvesse paz e não há, há pretos a correrem em Luanda, camionetas de soldados, tiros, gritos numa ambulância a arder na praia, sob pássaros que se escapavam, e ao terminar de arder nenhum grito, o pai foi padre, não era padre já e a mãe zangada
– Quem te contou isso miúda? (…)»

[in Comissão das Lágrimas, de António Lobo Antunes, Dom Quixote, 2011]

António Lobo Antunes no Teatro São Luiz

De 15 a 17 de Setembro: Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? (adaptação teatral de Maria de Medeiros); Cartas de Guerra (lidas por José Neves); lançamento do livro Facts and Fictions of António Lobo Antunes (editado pelo Centro de Cultura e Estudos Portugueses da Universidade do Massachussets); uma mesa-redonda com Maria Alzira Seixo (moderadora), Eduardo Lourenço e João Lobo Antunes; antestreia do filme A Morte de Carlos Gardel, de Solveig Nordlund, seguida de conversa entre a realizadora e o produtor Luís Galvão Telles.

Choque de titãs

Para perceber como funciona o Google Books Ngram Viewer (neste caso tomando como ponto de partida o corpus de livros mais vasto do Google Books, o de língua inglesa), lembrei-me dos seguintes duelos literários: José Saramago vs. António Lobo Antunes; Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa; Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez.
Eis os resultados:

José Saramago vs. António Lobo Antunes

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(clique para aumentar esta imagem e as seguintes)

No início dos anos 80, Saramago e Lobo Antunes andavam mano a mano. Depois, em 1988, uma década antes do Nobel, Saramago descola. Não deixa de ser curioso que o auge das referências a Saramago, em livros escritos na língua inglesa, tenha acontecido em 2003.

Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa

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Na década de 40, Camões estava em grande. Depois, veio por ali abaixo, com picos ocasionais. Já Pessoa começa a subir na década de 80 (coincidindo com o centenário e com a internacionalização da sua obra). A tendência é para que a curva do Camões propriamente dito e a curva do putativo «super-Camões» fiquem cada vez mais próximas.

Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez

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Quanto a uma das maiores rivalidades literárias do século passado, a que opôs Vargas Llosa a García Márquez, é nítido que a ligeira vantagem do segundo se acentuou a partir de 1982, quando o colombiano ganhou o Nobel. Infelizmente, os dados disponíveis terminam em 2008. Seria interessante verificar se Llosa, ao ganhar o Nobel este ano, já recuperou da desvantagem e passou de novo para a frente, como no final da década de 60.

António Lobo Antunes em França (2)

A ‘Saison avec António Lobo Antunes’ no MC93 de Bobigny, nos arredores de Paris, começa em Janeiro. Uma série de leituras, instalações, espectáculos e concertos que se prolongarão até Junho.

António Lobo Antunes em França (1)

Capa da tradução francesa de O Meu Nome É Legião (feita por Dominique Nédellec), a lançar pela editora Christian Bourgois a 13 de Janeiro de 2011.

Deste sonho imaginado

Sôbolos Rios que Vão
Autor: António Lobo Antunes
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 199
ISBN: 978-972-20-4144-7
Ano de publicação: 2010

Para título do seu 22.º romance, António Lobo Antunes (ALA) escolheu o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Luís Vaz de Camões, poema extraordinário que fala dos «enganos» que o tempo faz às «esperanças» e do triste fim que aguarda quem «se fia da ventura». Além de anunciar desde logo a principal metáfora do livro, Sôbolos Rios que Vão revela-se um título particularmente feliz porque a proximidade temática entre a prosa de ALA e as 37 estrofes camonianas permite que algumas funcionem como sinopses perfeitas do romance. É o caso, por exemplo, da segunda redondilha:

«Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.»

Fechado num quarto de hospital, o protagonista tem «a morte a cercá-lo sob um céu de catástrofe». O cancro nos intestinos assume para ele a forma de um «ouriço de castanheiro» a dilatar-se dentro das tripas e não há galho onde o «pássaro do seu medo» consiga poisar. Durante duas semanas, ele atravessará cirurgias, recobros e monitorizações clínicas como se já não estivesse no «abismo da enfermaria» mas num outro espaço, uma espécie de limbo no «centro do que não sabemos», talvez o «sonho imaginado» de que fala Camões, povoado de memórias e das tais «cousas ausentes» que se tornam presentes «como se nunca passaram».
Quando olha pela janela, este homem, a quem por vezes chamam Sr. Antunes e outras Antoninho (alimentando a tensão autobiográfica do livro, escrito por alguém que esteve internado nas mesmas datas, 21 de Março a 4 de Abril de 2007, pelas mesmas razões), este corpo em suspenso só consegue ver o seu passado: a infância na vila perdida por entre as serras, com os comboios a passar, a casa da família, o poço dos suicidas, o pilar de granito em volta do qual fazia oitos com a bicicleta, o hotel dos ingleses do volfrâmio, e uma série de defuntos que talvez prossigam «numa existência paralela a esta», como o avô eternamente a ler o seu jornal, a dona Irene que tocava harpa, o pai que lhe mostrou a nascente do Mondego, etc.
Tudo isto lhe chega em «revoadas de imagens», com histórias atropelando-se umas às outras, vindas de épocas muito afastadas para o turbilhão de um «tempo contínuo» em que se fundem «o passado remoto, o presente alheio, o futuro inexistente». Unindo esta amálgama por vezes confusa, uma metáfora: a do rio Mondego, «fiozito entre penedos» quando nasce mas que depois engrossa e se alimenta de outros rios a caminho do mar, tal como o protagonista acaba sendo o leito onde confluem as desordenadas águas das vidas alheias, dando sentido à sua.
Tecnicamente, a escrita de Lobo Antunes é irrepreensível. A cada dia corresponde um capítulo. A cada capítulo, uma única frase. E ninguém domina como Lobo Antunes o ritmo, a fluidez e a respiração da frase, ninguém faz dela uma unidade narrativa tão bem articulada e tão eficaz. O problema é que o trabalho com a linguagem deixa por vezes contaminar-se pela natureza do que descreve. E quando o protagonista se afunda no seu delírio, entre «formas que iam, vinham e tornavam a ir, se sobrepunham e afastavam, rodavam lentamente ou elevavam-se e caíam depressa, pareciam definir-se e em lugar de se definirem dissolviam-se», é a própria escrita que se dissolve e deixa o leitor às escuras, avançando às apalpadelas, tão maravilhado quanto perdido.
À semelhança do que acontece ao corpo preso às máquinas, Sôbolos Rios que Vão desmorona-se enquanto o lemos. É uma experiência dura, difícil, mas magnífica. E estranhamente recompensadora, talvez porque entre as ruínas desta aproximação à morte, contra todas as expectativas, pulsa a vida.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O pássaro do seu medo

«Da janela do hospital em Lisboa não eram as pessoas que entravam nem os automóveis entre as árvores nem uma ambulância que via, era o comboio a seguir aos pinheiros, casas, mais pinheiros e a serra ao fundo com o nevoeiro afastando-a dele, era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas, o ouriço de um castanheiro dantes à entrada do quintal e hoje no interior de si a que o médico chamava cancro aumentando em silêncio, assim que o médico lhe chamou cancro os sinos da igreja começaram o dobre e um cortejo alongou-se na direcção do cemitério com a urna aberta e uma criança dentro, outras crianças vestidas de serafim de guarda ao caixão, gente de que notava apenas o ruído das botas e portanto não gente, solas e solas, quando a avó no muro com ele desistiu de persignar-se sentiu o cheiro das compotas na despensa, vasos em cada degrau da escada e como os vasos intactos não aconteceu fosse o que fosse, por um triz, estendido na maca à saída do exame, não perguntou ao médico
– Não aconteceu fosse o que fosse pois não?
e não aconteceu fosse o que fosse dado que os vasos intactos, a avó que morreu há tantos anos ali viva com ele, o avô defunto há mais tempo a ler o jornal com o seu aparelho de surdo, o silêncio do avô alarmou-o fazendo com que o ouriço se lhe dilatasse nas tripas arranhando, doendo, coloco-o numa placa de granito, bato com o martelo e a doença esmagada, alguém que não distinguia empurrava-lhe a maca corredor adiante, notava a chuva, caras, letreiros, a governanta do senhor vigário no alpendre enquanto pensava
– É o meu esquife que empurram
a oferecer-lhe uvas
– Apetecem-te uvas menino?
e desapareceu logo, não se lembrar do nome da governanta do senhor vigário preocupou-o, lembrava-se do avental, dos chinelos, do riso, não se lembrava do nome e por não se lembrar do nome não iria curar-se, o avô dobrou o jornal no sofá e não o olhou sequer, quis pedir
– Não consegue fazer nada por mim?
e o mais que podia esperar era a concha da mão na orelha
– O quê?
e sobrancelhas juntas no sentido de ninguém
– Que disse ele?
de forma que o pássaro do seu medo continuava aos círculos, olha as raízes dos pés e os dedos que apertam o lençol, os pobres, aqueles que esperavam o elevador deixaram a maca entrar primeiro, fitaram-no um momento e esqueceram-se, achou impossível que não se recordassem dele, a avó punha-lhe um chapéu de palha com o elástico roto durante as vindimas, qual a razão de todos os chapéus de palha com o elástico roto e quase todas as chávenas sem um pedaço da pega, tinha seis, sete anos, descobria calhaus de mica e girava-os para a direita e para a esquerda a reflectirem a luz, não acreditava que o não notassem na varanda para a serra procurando apanhar os insectos da trepadeira com uma caixa de fósforos vazia e nunca apanhou nenhum, não estava no hospital em março, à chuva, estava em agosto na vila, se o mandavam fazer recados trocava de passeio antes de alcançar a moradia com a dona Lucrécia na cadeira de inválida ao alto dos degraus a acenar-lhe a bengala.»

[Início de Sôbolos Rios que Vão, de António Lobo Antunes, D. Quixote, 2010]

Lançamento de ‘Sôbolos Rios que Vão’

sobolos

António Lobo Antunes e os ex-combatentes

Sobre a absurda presunção de que o escritor António Lobo Antunes seria cobarde, por não ter comparecido a um encontro público no dia em que o Expresso publicou uma notícia sobre uns certos senhores que lhe querem «ir ao focinho» [sic], eu tinha esboçado um post que deixei em draft. Quando li a coluna de Ferreira Fernandes, na edição de hoje do DN, apaguei-o porque FF diz exactamente o que eu queria dizer (e com mais elementos factuais).
Eis a crónica, na íntegra:

«BARDAMERDA PARA A COBARDIA

Em Setembro de 2009, foi lançado um livro de entrevistas a António Lobo Antunes, onde ele falou da guerra em Angola de forma que não agradou a antigos combatentes. Desde aí, apareceram ameaças na Internet. Vou enumerar datas e locais onde teria sido possível partir a cara a Lobo Antunes, de 67 anos. Em 22 de Outubro, no São Luiz, Lisboa, ele lançou o seu novo romance. Em 26 de Novembro, esteve em Caldas da Rainha a apresentá-lo. E, a 6 de Dezembro, na Biblioteca de Nelas. Em 5 de Março esteve com Fátima Campos Ferreira no Casino da Figueira. Em Maio casou, em cerimónia que a revista Caras avisou. A 20 desse mês apresentou o livro de Pedro Rosa Mendes, na livraria Buchholz, em Lisboa. A 7 de Julho deu uma conferência de imprensa, em Lisboa, com artistas franceses. Em 24 de Julho debateu com Eduardo Lourenço na Faculdade de Letras de Lisboa… São sítios públicos onde ele foi quando já circulavam ameaças de agressão. Destas não sei nada. De Lobo Antunes vejo que não fugiu delas. No sábado, o Expresso contou as ameaças que já circulavam há meses na Internet e que o escritor conhecia. Nesse dia, ele ia a um encontro em Tomar. Por razões que ele já explicou, não foi. Mas juntaram a não ida ao medo de ser agredido! Lobo Antunes disse, ontem, ao DN: “Querem fazer–me passar por aquilo que não sou: um cobarde.” É o que diz o rol que aqui deixo. Não é.»

O Mondego, gota a gota

«(…) Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro. Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou. Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta:
– Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
– Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim. (…)»

[in De livros e editores, crónica de António Lobo Antunes, no último número da revista Visão]

2011: o ano de António Lobo Antunes em França

A MC93, uma das principais instituições teatrais francesas, vai dedicar a primeira metade da sua temporada de 2011 a António Lobo Antunes. Entre Janeiro e Junho, os 25 livros do escritor português editados em França (pelas Éditions Christian Bourgois) serão o mote para uma homenagem inédita – nunca a MC93 dedicara uma parte tão significativa da sua programação a um só escritor. Para as três salas deste teatro de Bobigny, estão previstas, sucessivamente ou em simultâneo, leituras, conferências, ateliers, instalações e espectáculos inspirados nas obras de Lobo Antunes.
Entre os participantes na homenagem estão os encenadores Georges Lavaudant, Patrick Sommier, Toni Servillo e Jean-Michel Rabeux, os actores Patrick Pineau, Maria de Medeiros, Luís Miguel Cintra, Gilles Arbona, Hervé Briaux e Claude Degliame, entre outros. Está também prevista a participação do escritor Olivier Rolin e do dramaturgo David Lescot. O programa definitivo será anunciado no próximo mês de Outubro.

Quase (2)

Dirão os detractores de António Lobo Antunes: antes «quase romance» do que «poema».

Dois e-mails, um sonho (ou Dançar com António Lobo Antunes num terraço inclinado)

Ontem à noite, recebi do escritor brasileiro Alfredo Aquino o seguinte e-mail:

«Boa Noite.
Li a crônica do Lobo Antunes [no último número da revista Visão, sobre o suposto abandono da escrita, anunciado dia 16 em entrevista ao Diário de Notícias]… e não a entendi. Um sentimento de perplexidade frente ao texto revelado ou desejado.
Fiquei um pouco chocado com a afirmativa de que só escreverá para si e para destruir, no futuro.
Que o seu leitor ideal é um que não lê, o sem-teto de hábitos bizarros.
Estamos agora a descobrir a obra de Lobo Antunes no Brasil e procurando divulgá-la aos leitores, jornalistas, livrarias, bibliotecas e certames culturais. Com as dificuldades naturais dessa tarefa.
Daí ele produz essa abdicação e nos deixa a todos aqui um tanto desanimados e frustrados com a nossa própria palavra em favor do autor. É importante esclarecer que se trata de uma palavra espontânea sem vínculo a editoras, veículos editoriais, jornais ou qualquer atividade remunerada. Apenas a leitura e a admiração da boa literatura… o blog em sua essência.
Daí vem essa crônica e o homem desmancha de um golpe o que se está a construir com afinco e resta um sentimento de desalento, frustração e tristeza, como se tudo fosse um engano e um engodo, em que participávamos como paspalhos sem convites. Um equívoco amargo… será isso mesmo?»

Mais ou menos 40 minutos depois, respondi-lhe assim:

Caro Alfredo,
Há coisas muito estranhas.
Ainda agora estava a deitar os meus filhos e fiquei por lá, junto à Alice e à sua girafa de peluche, contando histórias. Como estou absolutamente exausto, depois de uma semana duríssima, com passagem intensa pelas Correntes d’Escritas (onde se fala muito, se bebe, se dança, mas se dorme quase nada) e um excesso de trabalho no regresso a Lisboa, adormeci. No escuro do quarto, só iluminado por um móbil de libelinhas luminosas (como pirilampos), adormeci e sonhei, um sonho muito estranho que me deixou um sabor acre na boca quando acordei, com a chamada de um amigo para o telemóvel (afinal de contas, ainda não eram onze da noite, uma hora razoável para quem me conhece). Levantei-me estremunhado, respondi como pude, arrumei a mesa do jantar e vim aqui ver os e-mails. Comecei lendo o seu e de repente lembrei-me do sonho.
Sabe com quem eu sonhei? Não vai acreditar. Sonhei com o Lobo Antunes. Ele vestia um casaco preto de cabedal, muito comprido, um chapéu de cowboy e estava bêbedo. Podia sentir o bafo à distância. E depois muito próximo, porque ele abraçou-se a mim, como se eu fosse um amigo de muitos anos (na realidade, nunca sequer estivemos juntos). A cena passava-se numa espécie de terraço, inclinado sobre Lisboa e o Tejo. Ao longe, uma música melancólica. E então ele pôs-se a dançar comigo. A sério. Eu oferecia resistência, «o que é isso, António?», mas ele, com voz arrastada, dizia «Eu gosto mesmo de si, do que escreve, do seu olhar sobre as coisas» (devia estar a referir-se aos livros que escreverei um dia; se é que algum dia escreverei algo que lhe agrade mesmo), e eu «António, vá lá, cuidado, o terraço é muito inclinado, não faça um diparate», e nisto ele rodopia, tropeça e quase cai dali abaixo, eu fico a segurá-lo por um pé, não está ninguém por perto, e é com muita dificuldade que consigo por fim puxá-lo cá para cima. Quando vou olhar para o rosto dele (o chapéu caído na escuridão, ou talvez no Tejo), toca o telemóvel e sou arrancado ao sonho, como se de repente alguém tivesse acendido todas as luzes de um teatro.
Agora que começo a ficar um pouco mais acordado e lúcido (mas não muito), apercebo-me que devia estar a sonhar isto tudo enquanto você escrevia o seu e-mail. O escritor que há em mim (o escritor que o Lobo Antunes do sonho julgava que eu era, não o escritor que realmente sou) talvez arriscasse uma explicação: a pergunta que o Alfredo se coloca («será que o Lobo Antunes vai abandonar mesmo a literatura?») teria a resposta no meu sonho (sim, ele está namorando o vazio, o abismo, mas quando decidir lançar-se nele, alguém, um dos seus leitores, simbolizado por mim naquele devaneio onírico, salvá-lo-á). Era a saída perfeita. Mas, infelizmente, temo que o sonho tenha sido apenas isso: um sonho. E a pergunta continua por responder.
Um grande abraço,
José Mário

António Lobo Antunes em Passo Fundo

No blogue de Alfredo Aquino, fiquei a saber que o romancista português, Prémio Camões 2007, vai participar na 13.ª Jornada de Literatura, na cidade gaúcha de Passo Fundo, entre 24 e 28 de Agosto.

Cordão sanitário

O crítico António Guerreiro viu o booktrailer em que António Lobo Antunes fala do seu último romance e não gostou mesmo nada, ao ponto de sugerir a necessidade de um «cordão sanitário» entre o discurso público do escritor e a sua obra. Eis o texto completo da pequena crónica, publicada hoje no jornal Expresso:

«Há um booktrailer do último romance de António Lobo Antunes que é doloroso de se ver. O escritor, carregando todo o peso do mundo e torcendo-se sobre si, fala com voz lutuosa e diz: “Ninguém escreve como eu.” E daí passa a uma arte poética: “encher os livros de silêncio”; “os livros tratam todos de uma paisagem interior”; “a angústia do homem no tempo”; “a procura da natureza do homem”. Estes derrames de uma banalidade tão excessiva e enfática não podem, seguramente, ser interpretados em primeiro grau. Ou o escritor representa diante de nós uma comédia ou há algo de indecifrável. Mas em nenhum caso aquele que fala assim sobre os seus livros pode ser o mesmo que os escreveu. Mas como esta dissociação é difícil de fazer, como é difícil evitar a contaminação recíproca dos dois planos, A. Lobo Antunes devia ser protegido de si mesmo, devia-se erguer um cordão sanitário entre o seu discurso público e a sua obra, entre os seus livros e o que diz sobre eles. Eu, que tenho sempre grandes hesitações quando leio os seus romances, e quando os acho maus não consigo deixar de pensar que talvez não os tenha sabido ler, gostaria de remover o obstáculo deste booktrailer

Tocar na ferida

Na pele de Wanderley, o repórter brasileiro do programa Vai Tudo Abaixo, Jel entrevistou António Lobo Antunes na Biblioteca Pública de Nova Iorque. Os momentos em que Wanderley confunde Lobo Antunes com a sua Nemésis, José Saramago, referindo-se primeiro à adaptação que Fernando Meirelles fez do Ensaio sobre os Ceguinhos (sic) e depois às vantagens de ganhar o Nobel, são antológicos. A sequência começa aos dois minutos e 43 segundos mas a peça é, toda ela, um achado.

[via Insónia]

‘O Arquipélago da Insónia’ (booktrailer)

Com quase dez minutos de duração, este pequeno filme produzido pela Dom Quixote, mais do que um booktrailer, é um minidocumentário. De resto, a aposta promocional no mais recente romance de António Lobo Antunes (já na 7.ª edição) está a ser fortíssima, como se comprova por estas imagens captadas por Isabel Coutinho na estação de metro do Chiado.

Um escritor português on the road nos EUA

Durante uma semana, António Lobo Antunes andou em digressão promocional pelas terras de Barack Obama e John McCain. Hoje, no suplemento P2, do Público, o jornalista e escritor Rui Cardoso Martins conta na primeira pessoa a viagem bem sucedida, por Nova Iorque, Boston e Washington, do autor de What Can I do When Everything’s on Fire?. Eis um excerto:

«O editor de Lobo Antunes, o imparável Bob Weil, da Norton, talvez a mais prestigiada editora independente americana, gritava na sala cheia da New York Public Library (NYPL) que, no dia em que leu a segunda cópia da tradução, ele que já leu e publicou dos melhores,
– Fiquei literalmente, mas literalmente, blown away [siderado, estraçalhado…], como não aconteceu com nenhuma outra obra de ficção com a qual tivesse trabalhado antes, senhoras e senhores!
Se falarmos com Bob Weil vemos logo que ele não tem exactamente uma vida sua por detrás dos óculos, dos passinhos rápidos, da saqueta de livros a tiracolo para distribuir como um ardina.
– Bob, sabe de alguma coisa interessante a acontecer, um espectáculo em Nova Iorque…?
– Eu só faço livros.
Para o ano publicará mais um livro de crónicas de Lobo Antunes, é o que ele faz. Na New York Public Library, ouvi Bob entusiasmar-se e apontar para What Can I do When Everything’s on Fire?, a tradução de Que Farei Quando Tudo Arde? (ed. Dom Quixote, Portugal). Quatro ou cinco anos nas mãos de Gregory Rabassa, que universalizou em inglês García Márquez, Cortázar, Vargas Llosa, Lezama Lima, etc. O velho professor tem 86 anos e um laço de seda ao pescoço, adora Nova Iorque mas ainda vai a todo o lado, e suspira
– Mestre António…
quando se abraçam. Traduziu Fado Alexandrino e As Naus, antes deste.
Na contracapa do livro, George Steiner, um dos cérebros lúcidos do mundo, chama génio ao português. E Harold Bloom, o mais famoso crítico literário: “Este é um extraordinário romance de um dos escritores vivos que mais importância terão no futuro. Lobo Antunes escolhe manifestar a sua dívida a Freud, Joyce, e Faulkner, à superfície, mas nas profundezas é um grande original.” E acrescenta que o livro é uma visão negra da realidade, e cruel, que vai deixar a sua marca nos leitores por todo o lado… palavras para quê?
Vi Paul Holdengraber, director de programas da Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL), numa semana em que outros convidados de honra seriam Paul Auster e Spike Lee, tentar tirar de Lobo Antunes mais coisas do que ele queria dar nessa noite, mas cada vez mais divertido com os exemplos e paradoxos que ouvia do escritor:

– Descobri o que é a democracia com La Fontaine. Um cão pode olhar um bispo. Eu nasci num país em que só o bispo podia olhar o cão.

ou

– A polícia política era tão estúpida que apreendia as obras de Lenine e de Estaline e guardava-as no meio de Racine.

ou

– Portugal não é Europa, é um lugar estranho. Gosto das mulheres portuguesas, pequeninas, de bigode.

e

– Não sou um homem modesto, mas sou humilde. Sou uma galinha que guarda os seus ovos.

e

– O que é a história num bom livro? Anna Karenina: uma mulher tem um marido aborrecido, começa a dormir com outros homens e… olhe!

– Nunca tinha ouvido o resumo de Anna Karenina de forma tão concisa, vou recomendá-lo aos estudantes de liceu, concordou Paul Holdengraber.
– Então e a história de Ulisses, da Odisseia? “Chego tarde a casa”.
E todos riam, porque além disso
– Comecei a escrever por causa do Mickey Mouse, do Flash Gordon, do Sandokan, aos cinco.
Até que, por falar em cinco anos, e quase de repente, contou do hospital de crianças cancerosas onde trabalhou depois de voltar da guerra de Angola e de como nesse hospital se zangou com Deus, apesar de não ser um homem religioso. Estava lá um miúdo de cinco anos com leucemia, muito bonito, de olhos grandes e, na sua opinião, Deus não tem o direito de pôr uma criança a gritar por morfina. O rapaz morreu e vieram dois homens com uma maca, mas como o morto era muito pequeno, bastou um homem enrolá-lo num lençol e levá-lo ao colo pelo corredor, mas um pé da criança saiu do lençol e ele viu o pé afastar-se, balançando no ar.
– Nesse dia decidi: vou escrever para aquele pé.
Talvez já tenham visto uma plateia de nova-iorquinos, professores, académicos, leitores, intelectuais, as pessoas mais cosmopolitas do mundo, a engasgarem-se nas próprias salivas silenciosas. E Paul Holdengraber é um orador nato, um conversador de resposta pronta. Uma hora antes tínhamos visitado a sala de leitura. Por baixo de nós, sete andares subterrâneos com 52 milhões de livros. Quarenta funcionários invisíveis nas caves, a carregar vagõezinhos como no tempo do carvão. Mas há um sistema hidráulico e de ar comprimido para os livros chegarem à superfície rapidamente. E computadores pessoais abertos em cima das mesas não fazem mal aos livros.
António lia uma inscrição dourada por cima da porta, na madeira, onde se dizia que um bom livro é o precioso sangue da vida do espírito, que nos poderá levar para uma vida para além da vida. Nunca ali tinha estado e disse ao director:
– Para mim isto é o paraíso.
– Sim.
E discutiram Borges.»

O resto é para ler em papel (ou aqui). Ler mesmo. Reportagens assim não aparecem por aí todos os dias.

Lobo Antunes light*

É Alexandra Lucas Coelho quem o diz na sua notícia de hoje, no Público, sobre a atribuição do grau de Comendador da Ordem das Artes e das Letras, por parte do Estado francês, a António Lobo Antunes. O Arquipélago da Insónia, novo romance do escritor, circulou entre as pessoas que assistiam à cerimónia. E «o que logo salta à vista é ser tão fino», sublinha ALC. «Tem apenas 263 páginas.»

* Por light entenda-se a leveza que se mede na balança dos quilogramas (e não do estilo)

Sr. Comendador

Depois de ter ganho recentemente o Prémio Literário da Feira Internacional de Guadalajara (antigo Prémio Juan Rulfo), António Lobo Antunes recebe hoje, pelas 18h30, na Embaixada de França em Lisboa, as insígnias de Comendador da Ordem das Artes e das Letras, condecoração atribuída pelo Ministério da Cultura francês. A cerimónia será presidida pelo embaixador Denis Delbourg.

António Lobo Antunes vence Prémio FIL de Literatura

Um júri composto por escritores e académicos espanhóis, norte-americanos, franceses, ingleses, mexicanos e peruanos atribuiu a António Lobo Antunes o Prémio da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México), anteriormente conhecido como Prémio Juan Rulfo, um dos mais prestigiados de entre os que são atribuídos na América Latina.
Segundo uma notícia do El País, momentos depois de saber que ganhara, Lobo Antunes terá dito, numa conversa telefónica entre Portugal e Guadalajara, que “agora só falta el gordo“. Uma referência, claro está, ao Nobel que se escapou para o rival Saramago há uma década e que o autor de Manual dos Inquisidores, pelos vistos, ainda não perdeu as esperanças de receber um dia.

Lobo Antunes em Torres Novas

Segundo notícia do DN, António Lobo Antunes pondera ceder o seu espólio à Câmara Municipal de Torres Novas durante 20 anos, “no âmbito de um contrato de comodato” (à maneira do que Joe Berardo fez com o Ministério da Cultura, cedendo ao Estado a sua colecção de arte contemporânea, mas com prazo fixo e perspectiva de negócio).
Para a autarquia, o interesse no espólio de Lobo Antunes — composto pela sua “biblioteca pessoal” e por “manuscritos, objectos pessoais, fotografias, pinturas, prémios e condecorações” — é óbvio. A futura Casa da Literatura, que ocupará um lugar nobre (os futuros ex-Passos do Concelho), será decerto um pólo de actividade cultural importante no projecto de uma Cidade Criativa e o empréstimo de uma casa, para o escritor viver perto das suas coisas, representa apenas uma aposta na “descentralização” de um dos principais nomes da literatura nacional.
O que me causa alguma perplexidade é a justificação de Lobo Antunes para a mudança de vida. Se ele pretende apenas “descansar” e escrever, longe da agitação lisboeta, muito bem. Está no seu direito. Mas invocar como ligação à cidade o facto de o seu irmão, Pedro Lobo Antunes, “ali residir e ser um político local” é no mínimo caricato. Mesmo que em Torres Novas também existam marquises de alumínio e casas com naperons em cima da televisão (e existem, decerto), o lugar que mais merecia uma Casa da Literatura António Lobo Antunes é, sem sombra de dúvida, o bairro de Benfica.
Será por isso que o escritor negociou um comodato e não uma cedência definitiva? Em 2028 saberemos.

António Lobo Antunes em Paris

Le Cul de Judas, uma versão teatral do romance Os Cus de Judas (1979), de António Lobo Antunes, estreada em 2005 no Festival Off de Avignon, vai ser reposta na Grande Salle da Maison de la Poèsie de Paris, de 3 de Abril a 25 de Maio. François Duval adapta, encena e interpreta o segundo livro do escritor português, que descreve a sua experiência enquanto médico durante a Guerra Colonial, em Angola. O DVD do espectáculo pode ser encomendado aqui, por menos de 20 euros.

O almoço agradável

Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.

Proeza

Com a compra da Dom Quixote, Miguel Pais do Amaral conseguiu um feito inédito: juntar debaixo do mesmo telhado José Saramago e António Lobo Antunes, dois rivais que à partida se excluem mutuamente. Não deve ser aliás por acaso que o autor de A Ordem Natural das Coisas diz o que diz. As ameaças servem apenas para marcar posição, sublinhar o seu estatuto e exigir tratamento VIP. Mas o fulcro dos receios de Lobo Antunes está nesta frase: “Quero garantias muito claras de que as pessoas que têm trabalhado comigo o continuem a fazer.” Onde se lê “pessoas que têm trabalhado comigo” leia-se Tereza Coelho. Por outro lado, se o romancista defende com unhas e dentes os “seus”, o que só lhe fica bem, lá por baixo esconde-se, parece-me, o receio de ter de partilhar o palco com outros autores de primeira grandeza, nomeadamente aquele que já teve o desplante de lhe roubar o Nobel.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges