Versos animais

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Versos de Cacaracá
Autor: António Manuel Couto Viana
Editora: Texto
N.º de páginas: 43
ISBN: 978-972-47-4161-1
Ano de publicação: 2010

Desaparecido em Junho, aos 87 anos, António Manuel Couto Viana ainda viu a maquete deste livro, reedição de um volume publicado em 1984 (então com ilustrações de Juan Soutullo, filho do escritor). Ao contrário do que o título sugere, estes Versos de Cacaracá são tudo menos insignificantes. Recuperando a alegria da infância em poemas desenvoltos e com boas rimas, Couto Viana explora temas clássicos da literatura infantil: as estações do ano, as cores, a vida secreta dos animais. Há peixes macambúzios, borboletas parecidas com elefantes, marinheiros e vendedores, ameaças e fulgores, uma motorizada renitente que segue a trote como um burro e um mocho que compra ao leitão o seu «rabinho torcido» para com ele fazer um anel de casamento.
A alguns dos poemas falta golpe de asa (Os dias da semana; Impertinências), outros parecem ficar a meio caminho entre a historinha engraçada e o mero exercício verbal (Originalidades; Quem sou eu). Mas quando o poeta afina pelo seu melhor diapasão, surgem pequenas jóias como esta:

Vi um dia no mar alto
uma nau maravilhosa:
todo d’oiro era o costado
e as velas verde e rosa.

Desde o porão ao convés
abarrotava de caixas
com caramelos, confeitos,
biscoitos, bombons, bolachas.

Levava, por equipagem,
vinte e quatro marinheiros:
duas dúzias de ratinhos
diligentes e ligeiros.

Um pato almirante, à popa,
de galões e barretina,
comandava a nau doirada
pelo mar de prata fina.
Não deixando de cumprir o seu papel, as ilustrações de Vasco Gargalo ganhavam em serem menos literais.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

Politicamente, não podia estar mais distante deste escritor. Nunca consegui, aliás, ler os seus textos de pendor mais direitista e patrioteiro. Mas, para lá do António Manuel Couto Viana com cheiro a mofo, havia um poeta e ficcionista que me surpreendeu várias vezes com a sua verve, o seu arrojo, a sua ironia. É esse artista desconcertante e difícil de arrumar no cenário da literatura portuguesa que recordo no momento da sua morte.
Sendo hoje o Dia de Camões, resgato um soneto que Couto Viana escreveu sobre o autor de Os Lusíadas:

CAMÕES

Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?

Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?

Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
– Até o longínquo China navegou…

Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges