Primeiros parágrafos

«Senhor Ministro, Excelência

Apenas a minha vontade de em tudo vos agradar, nunca esquecendo a temporada, aliás desafortunadamente curta, que juntos vivemos na minha querida cidade natal de Veneza, e o favor e mercês com que me haveis acolhido em Paris, nos primeiros meses deste ano, me poderia levar a pegar na pena para vos descrever as peripécias que levaram à minha inesperada viagem a esta desgraçada cidade de Lisboa, varrida por um atroz terramoto há cerca de dois anos. Asseguro-vos, Excelência, que, por muitos desconcertos da Natureza que me tenha sido dado ver, ou que ainda verei, nenhum me parece de mais incompreensível extensão ou gravidade. De tal forma que, não fosse acreditar nas obscuras justificações derivadas da vontade divina – que, a manifestar-se assim, seria de maior malevolência que os castigos de Sodoma e Gomorra –, seria tentado a admitir que apenas os muitos pecados e desmandos de um povo podem explicar a desgraça que sobre o seu destino se abateu. Aliás, os jesuítas e o povo miúdo acreditam nesta explicação e, ignorantes das causas naturais que a recta ratio é capaz de identificar, espalham aos quatro ventos a notícia de outras calamidades que a persistência do governo temível do ministro do Rei, Sebastião de Carvalho, não deixará de provocar.»

[in Cartas de Casanova – Lisboa 1757, de António Mega Ferreira, Sextante, 2013]

CCB: sai António Mega Ferreira, entra Vasco Graça Moura

Eis uma notícia que me deixa perplexo. A Secretaria de Estado da Cultura acaba de anunciar a substituição de António Mega Ferreira por Vasco Graça Moura, na presidência da Fundação Centro Cultural de Belém. Se Mega Ferreira, nos dois mandatos à frente da instituição, deu «provas de brilho, criatividade e responsabilidade no cumprimento da missão que lhe foi incumbida», porque razão sai agora, quando por lei ainda podia ficar à frente do CCB durante mais três anos? Não se entende. Ou melhor, percebe-se uma coisa muito simples: sem pôr em causa as qualidades de Graça Moura e a sua grande experiência em cargos desta magnitude, há aqui claramente uma mudança de azimute político. Onde estava um intelectual mais ou menos alinhado com o PS, passa a estar um intelectual ostensivamente alinhado com o PSD. Numa altura em que assistimos ao verdadeiro assalto da EDP e outras empresas de forte participação estatal, por parte dos boys e girls laranjinhas (mais uns quantos centristas), a nomeação de Vasco Graça Moura para o CCB vai parecer mais do mesmo.
Perante o facto consumado, resta enaltecer o excelente trabalho feito por Mega Ferreira no CCB, nomeadamente as muitas iniciativas de cariz literário (as participadíssimas comemorações do Dia Mundial da Poesia, os ciclos de colóquios sobre escritores, as homenagens, as maratonas de leitura, os Dias dedicados a certos autores: Tolstoi, Kafka, Vitorino Nemésio, Tabucchi, etc.) Esperemos agora que Vasco Graça Moura consiga prosseguir este movimento de abertura do CCB aos temas literários.
Cá estaremos para ver.

O romance da raposa

A blusa romena
Autor: António Mega Ferreira
Editora: Sextante
N.º de páginas: 241
ISBN: 978-989-8093-70-7
Ano de publicação: 2008

Num dos vários planos narrativos que se sobrepõem e cruzam em A blusa romena (para deleite de futuros exegetas), António Mega Ferreira recupera uma célebre catalogação de Isaiah Berlin, que divide a humanidade em geral – e os escritores em particular – entre ouriços e raposas. Nos ouriços tudo se orienta para «uma perspectiva central e única, para um sistema, mais ou menos coerente e articulado, em função do qual compreendem, pensam e sentem», enquanto as raposas «prosseguem vários fins, muitas vezes desconexos e até contraditórios».
A personagem central do livro, Vasco de Almeida França, é assumidamente uma raposa. Aos 32 anos, este escritor pouco conhecido vive num estado de «ansiedade grafómana». Ou seja, escreve muito, sobre os mais diversos assuntos (do cinema à música, passando pelas artes visuais), mas de forma dispersa. Embora tenha ambições literárias, mostra-se incapaz de dar sentido ao «magma» das suas «recordações e experiências». O romance que tenta escrever há vários anos – Vida de Belidor, história bloqueada de um «escritor que se faz passar por não-escritor» – é apenas um símbolo da sua impotência criativa.
É então que surge Duarte Lobo, autoproclamado caixeiro-viajante de «almas inquietas», uma espécie de anjo «acelerador de vocações» ao serviço de uma misteriosa «organização» que trabalha em esferas supra-humanas. Quando desafia Vasco a cumprir o adiado projecto de A blusa romena, ficção inspirada pelo quadro homónimo de Matisse, Duarte oferece-lhe ao mesmo tempo a matéria-prima: um esboço de enredo que tem como ponto de partida as memórias do seu envolvimento amoroso com Nádia, filha da mulher que serviu de modelo ao pintor, bem como a possível existência de uma outra versão do quadro (a «autêntica») que ninguém sabe onde foi parar. Ao morder o isco, Vasco sai por fim do impasse, conduzido e manipulado por alguém que pode muito bem ser uma projecção, um alter ego, ou o ouriço que espicaça, desde dentro, a raposa inconsequente.
O resultado é uma engenhosa urdidura onde cabe quase tudo: as duas histórias de amor em espelho (cheias de simetrias e curto-circuitos), mas também evocações de Paris e da Roménia de Ceausescu, referências eruditas (de Joyce a Schubert, de Sonia Delaunay a Espinoza), jogos metaliterários, auto-ironias e um quarteto de personagens bem desenhadas, a executarem na perfeição a sua música de câmara. Pela sua crescente importância ao longo do livro, destaco Lumena, a prostituta por quem Vasco se enamora, cuja beleza está algures entre uma Madonna de Rafael e a «terrível Judite» que decapita Holofernes num quadro de Caravaggio.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 74 da revista Ler]

Pré-publicação: ‘A Blusa Romena’

O primeiro romance de António Mega Ferreira, A Blusa Romena (Sextante), começará a chegar às livrarias nos primeiros dias de Outubro. Em antecipação, revelo de seguida as primeiras quatro páginas do livro:

«Por curiosidade, por simples e fatídica curiosidade, aceitei encontrar-me com Duarte Lobo (um nome suposto, evidentemente), na terceira sala da Bertrand do Chiado, a dos livros de Arte e de História, às três e meia da tarde de uma quarta-feira, um dia muito quente de Junho de 2001. O contacto fora igual a tantos outros que me chegavam diariamente, através do correio electrónico. Eram convites para conferências, anúncios de vernissages e de lançamentos, newsletters e pedidos de patrocínio em teses de mestrado. Às conferências respondia que não, às teses de mestrado não dava saída; como não frequentava inaugurações nem promoções editoriais, a remessa diária terminava invariavelmente no ícone do lixo. Ficavam para resposta posterior as mensagens de amigos ou os questionários de jornais e revistas: mas as primeiras eram escassas, talvez porque deixara escassear os amigos, e, quanto aos segundos, basta dizer que chegaram a pedir que eu me pronunciasse sobre as grandes linhas da política energética («à escala global») até meados do século XXI. Não sei a que título fui consultado, mas admito que me tenham confundido com algum especialista na matéria, se é que existe. Em qualquer caso, era para mim um horizonte temático e temporal suficientemente distante para eu me preocupar com ele.
Quase sempre me esquecia de responder. Com isso, ganhei a fama de ser avesso à utilização do computador e de nunca abrir a minha caixa de correio. Os poderes ocultos que controlam a nossa itinerância no espaço virtual sabem que não é verdade. Todos os dias, sem falha, eu ia ver o que me chegara pela rede, para constatar, melancolicamente, que nada – ou quase nada – merecia a vaga ansiedade com que, de manhã e à noite, colocava o cursor sobre a palavra Inbox e clicava duas vezes no rato, na expectativa de que se me revelasse a surpresa de um contacto inesperado e aliciante. Inesperados, eram quase todos; aliciantes, praticamente nenhum.
O que me despertou a atenção na mensagem que me chegara de dlobo@mail.com foi o título: Blusa Romena. Era um eco longínquo, mas tocara-me na memória como qualquer coisa que nos desperta um sinal sonoro longamente adormecido, o primeiro, quase ofegante, repicar de um sino há muito imobilizado. Era um nome que vivia comigo há tanto tempo, que, provavelmente, eu já conseguira esquecê-lo. Mas a sua invocação como título de uma mensagem electrónica, naquela manhã de um dia muito quente de Junho, teve o efeito de o despertar em mim, rapidamente tornando presente tudo o que eu sabia sobre ele. E não era muito.
Há bastante tempo, talvez uns quinze anos, eu começara a escrever uma história que andava à volta do quadro de Matisse A blusa romena, que o pintor datara de 1940. A reprodução do quadro vinha na capa de um livro de Roland Penrose que, durante muitos anos, ocupara o extremo da prateleira da estante da sala, junto à porta da entrada. Todos os dias, era A blusa romena, a mancha branca da camisa bordada que envolvia o busto de uma mulher sem idade, a primeira impressão visual que me chegava com a manhã.
Devo ter-me habituado à Blusa romena de Matisse como nos habituamos às coisas que, com a rotina dos olhares, se transformam em dados indiscutíveis do nosso quotidiano: o carro do vizinho do 4.º esquerdo coberto por um oleado verde-seco, o duplo toque do carteiro, pendularmente, ao meio-dia e um quarto, a dona do quiosque de jornais apoiada sobre os cotovelos no balcão, como se estivesse numa janela de sacada. Tinha-a ali, todos os dias, diante dos meus olhos, e, pouco a pouco, um novelo qualquer foi-se formando na minha memória, uma espécie de reminiscência pressentida de uma verdade que eu já soubera, mas que fora recuando para o esquecimento, movida pela intensidade cromática do quadro de Matisse. Nunca passei da terceira página da história e nunca soube verdadeiramente porque começara a escrevê-la, muito menos até onde me poderia levar. Numa das arrumações da estante, a capa do livro desapareceu da minha vista, espalmada entre um estudo de Gombrich (O legado de Apeles) e os ensaios de Abraham Moles sobre o kitsch. Nunca mais pensei na Blusa romena.
A mensagem de Duarte Lobo dizia o seguinte:

“exmo. senhor,
contacto-o por causa de um assunto de natureza literária. acontece que li com muito interesse o seu livro sobre caravaggio e, por coincidência, vi, pouco tempo depois de o ter lido, uma entrevista sua na qual referia, de passagem, uma história que nunca conseguiu escrever e a que deu o título de A blusa romena. sei perfeitamente como nos pesam, pela vida fora, os projectos que nunca fomos capazes de concretizar (aliás, se não fosse assim, por que razão o teria referido na sua entrevista?). acho que, pelo menos no que se refere à blusa romena, estou em condições de ajudá-lo. há coisas que se passaram na minha vida, além de elementos que entraram na minha posse, tudo relacionado com esse quadro de matisse. creio que v. exa., como excelente investigador que é, pode encontrar interesse neles. o resto cabe ao seu talento de escritor; acho que tenho a história que dará corpo, finalmente, à sua blusa romena. se a curiosidade do escritor não se atemorizar com a singularidade do contacto, proponho-lhe que nos encontremos na quarta-feira, dia 20 p.f., na livraria bertrand, ao chiado, na sala dos livros de arte. eu terei nas mãos um exemplar do seu livro os últimos dias de caravaggio, mas é natural que o veja primeiro e tomarei a liberdade de me dirigir a si.
com os melhores cumprimentos,
duarte lobo”»

‘A Blusa Romena’

Há muito que uma rentreé literária em Portugal não prometia tanto no campo da ficção. Além dos já anunciados novos romances de José Saramago (A Viagem do Elefante, Caminho), António Lobo Antunes (O Arquipélago da Insónia, Dom Quixote), Maria Velho da Costa (Myra, Assírio & Alvim), Ana Teresa Pereira (O Verão Selvagem dos teus Olhos, Relógio d’Água) e Rui Zink (O Destino Turístico, Teorema), ficou agora a saber-se que António Mega Ferreira, depois de muitos contos e uma novela (Amor, 2003), vai estrear-se como romancista. A Blusa Romena (Sextante) chega no final do mês às livrarias e o título foi roubado a este quadro que Henri Matisse pintou em 1940:

blouse_roumaine1.jpg

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges