Cronos cruel

O Tempo Envelhece Depressa
Autor: Antonio Tabucchi
Título original: Il tempo invecchia in fretta
Tradução: Gäetan Martins de Oliveira
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 144
ISBN: 978-972-20-4962-7
Ano de publicação: 2012

O elemento comum às narrativas que compõem este volume é a «inclemência do tempo» e os seus efeitos nefastos (mas também, nalguns casos, regeneradores) sobre personagens solitárias ou à deriva. Consumidas pelo vazio existencial, pela insónia, pela «mudança da idade», desorientadas num mundo que «perdeu a lógica», entregues a deambulações nostálgicas ou à adivinhação do futuro pela forma das nuvens, elas sentem o tempo como algo que se perde, «ar» que deixamos «fugir por um furo minúsculo» sem nos darmos conta. As histórias chegam obliquamente, como que de fora, contadas a alguém que as transmite ou escreve em segunda mão. Há por vezes figuras mais velhas (uma tia moribunda, um pai confuso) que recuperam a custo o passado, em diálogo com um descendente que assiste, sem nada poder fazer, à crueldade de Cronos. Tal como os pintores do barroco italiano, Tabucchi é exímio a «captar o movimento inacabado das personagens» que nunca se fixam completamente, talvez por saberem que «o verdadeiro protagonista da história que vivemos não somos nós, é a história que vivemos».
No primeiro conto, O Círculo, uma mulher participa num encontro familiar junto ao Lago Léman, em Genebra, quando elementos fortuitos da conversa provocam uma espécie de suspensão mental que a conduz às origens magrebinas dos seus antepassados. De repente, ocorrem-lhe «lugares de areia» nunca vistos directamente (viveu desde a infância nos Grands Boulevards de Paris) mas que lhe induzem uma «falsa recordação», memória em que vê a avó a espremer leite das tetas de uma cabra para uma bacia de zinco. Este súbito lampejo, causador de um «profundo sentimento de si própria», vem de onde? «Do nada, aquele sentimento provinha do nada, tal como a sua recordação, que a bem dizer não era uma recordação, mas a recordação de uma história.» Escapando da festa para uma paisagem nas montanhas, onde em tempos foi feliz com o marido, confronta-se com as suas angústias (não conseguiram fazer um filho em 15 anos de casamento). Aproxima-se então, ameaçadora, uma manada de cavalos. Os animais cercam-na e começam a girar à sua volta, cada vez mais rápido. É o momento da catarse, rapidamente desfeita diante de um horizonte circular: «era essa a única coisa em que conseguia pensar, que o horizonte é circular, como se o círculo desenhado pelos cavalos se tivesse dilatado até ao infinito, transformando-se no horizonte». Estamos perante um efeito de ampliação metafísica, característico das ficções de Tabucchi, mas que surge nestes textos de forma muito subtil, quase inadvertidamente.
Em vários dos contos, o escritor italiano parece preferir uma aproximação a realidades que se desfizeram, vítimas do seu próprio imobilismo histórico – e por isso revisitamos o cinzentismo absurdo dos regimes comunistas do Leste europeu (Hungria, Roménia, Polónia, RDA). Um antigo agente da Stasi, responsável pela vigilância a Bertolt Brecht nos anos 50, vagueia pela Berlim dos nossos dias e suspira: «Ah, o muro, que saudades. Tinha-o ali, sólido, concreto, assinalava uma fronteira, marcava a vida, dava a segurança de uma pertença.» Agora essa pertença esfumou-se e o controlador (que o omnipotente Estado também controlava) pode por fim confessar-se à estátua do dramaturgo, que lhe deu uma «trabalheira» e sobre o qual sabia tudo: «Cretino, (…) eu era teu amigo, gostava de ti, surpreende-te que eu gostasse de ti?” (Os mortos à mesa). Não menos irónico é o desabafo de um antigo resistente húngaro, proscrito depois da invasão soviética de 1956, segundo o qual os melhores dias da sua vida foram os que passou em Moscovo, já na velhice, em visita a um antigo inimigo (Entre generais).
O melhor conto do livro é o último: Contratempo. Um escritor imagina a viagem de um homem que, chegado a Creta para participar num convénio, se decide pela direita num cruzamento em que devia virar à esquerda, acabando num mosteiro perdido nas montanhas, depois de experimentar uma «leveza insólita». É uma história simples mas, para conseguir escrevê-la, o escritor sente falta do «princípio da realidade» e por isso viaja ele próprio para Creta, refazendo – ou inventando – o percurso da personagem. Quando experimenta um déjà vu e o efeito se prolonga, como se uma «membrana» envolvesse «as árvores, os montes, as sombras do entardecer, o próprio ar que respirava», estamos já no mais puro território tabucchiano: «Sentiu-se tomado por uma forte vertigem e receou ser sugado por ela, mas foi coisa de um instante porque, ao dilatar-se, aquela sensação sofria uma estranha metamorfose, como se uma luva, ao voltar-se do avesso, levasse consigo a mão que protegia. Tudo mudou de perspectiva, num ápice experimentou a embriaguez da descoberta, uma náusea subtil e mortal melancolia. Mas também um sentimento infinito de libertação, como quando percebemos finalmente qualquer coisa que sabíamos desde sempre e queríamos ignorar: não era o já visto que o engolia num passado nunca vivido, ele é que o capturava num futuro ainda por viver.”

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges