Jardins da carne

De Amore
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 72
ISBN: 978-972-0-79306-5
Ano de publicação: 2012

Em De Amore, Armando Silva Carvalho explora dois tipos de sentimento amoroso: o erótico, na primeira parte (intitulada Os que fazem o amor); e o fraternal, nas espantosas 42 Canções entre 2 Portas (exercício de luto pela sua irmã, Genoveva, recentemente desaparecida). Não surpreende por isso que o registo seja muito diferente nas duas secções. Ao tom maior dos poemas em que descreve a atracção da matéria pela matéria, o choque dos corpos cegos que se devoram na «geometria do desejo exposto», sucede o tom menor de quem sinaliza o apego à «doente acamada» mas muito «desenvolta» a «orquestrar as arestas diárias», essa mulher com quem partilhava muito mais do que «o mesmo sangue» da herança familiar.
Logo na epígrafe a Os que fazem o amor, sob o signo de Agustina Bessa-Luís, Armando Silva Carvalho alude à impossibilidade de fixar objectivamente o tema a que se propôs: «O que fica aqui dos amorosos, lembrados ou surgidos no discursar do invento, será sempre a imagem dos dois lados inseparáveis, ignotos». Na verdade, o amor nunca mostra completamente o seu rosto, há nele uma dimensão incognoscível com a qual o poeta se conforma, não deixando por isso de tentar sucessivas aproximações à sua essência. Por estes poemas desfilam então «figuras mentais» que assumem as muitas faces do júbilo ou do tormento amoroso: viúvas e adolescentes («no corpo que cresce só e se repete na noite / numa fala só»), onanistas e velhos «insensatos», assassinos passionais.
Este é um «mundo mudo», atravessado por uma energia visceral que se liberta em imagens fulgurantes: o «coração amarrado às patas turbulentas / do desejo», os «jardins da carne», os «gritos / de álcool». O amor propriamente dito, esse, é visto como um «exército / que conquista as idades, derrota o pó do tempo, / e avança pelo país dos mortos / montado na delicadeza dos murmúrios, / na leviana / argúcia musical, na dor exacta». Mas por muito que os poemas pretendam subir «à condição sublime», dificilmente se desfazem da sua condição animal, terrena, próxima do corpo perecível de quem «paga o tributo / antes do massacre». É como se os versos, muitas vezes emergindo de brumas e neblinas, tivessem consciência dos seus limites: mesmo recolhidos os vocábulos certos, «deles resulta um escasso ouro / de luz, de sémen escrito». A «tímida vertigem da invocação» está assim condenada ao fracasso num tempo em que tudo arde, o horror é planetário e um «manto que se diz babélico cobre de silêncio / a maravilha do crime organizado».
Mas nem todas as abordagens tendem para a abstracção. Silva Carvalho também convoca amantes concretos, que tanto podem ser os anónimos jovens sujos que nas escadas do metro formam um «novelo», do qual se desprende um «halo amarrotado», de «carne sôfrega / exposta à multidão», como os inevitáveis Pedro e Inês, cuja tragédia «abre a flor dos sentidos, desfeita / a golpes de espada, / de traição». Há ainda um belo poema sobre «os dois de Lanzarote», Saramago e Pilar del Río: «(…) Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica. / E o ar que acolhe os seus impulsos / com a firme decisão de fazer estremecer / o mundo».
É porém na segunda parte, no comovente «ofício de treva» sobre o definhar da irmã, que a escrita de Silva Carvalho sobe mais alto. Sem artifícios, o poeta assume o papel do «vivo de serviço», o sobrevivente, algures «entre fantasma e mendigo», atentíssimo às minúsculas reverberações de uma existência que se apaga. A dor surge inteira, brutal, mas não rompe o recato da intimidade. Fica algures no quarto, olhada de fora com infinita delicadeza: «O sol, largo animal de lume, encolhia-se / junto das janelas / e tudo era uma sombra, calada, sôfrega de sinais, / suspensa, à tua cabeceira».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Prémio Teixeira de Pascoaes para Armando Silva Carvalho

Anthero Areia & Água, o belíssimo livro de poemas que Armando Silva Carvalho publicou recentemente na Assírio & Alvim, acaba de vencer a sétima edição do Prémio Teixeira de Pascoaes, promovido pela Câmara Municipal de Amarante. Do júri fizeram parte António Cândido Franco (Associação Marânus), António José Queirós, Luís Adriano Carlos, Paula Morão e Virgílio Alberto Vieira.

O universo em ondas de beleza

Anthero Areia & Água
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-972-37-1493-7
Ano de publicação: 2010

Na génese desta extraordinária aproximação à figura e à voz poética de Antero de Quental (1842-1891) está um texto publicado por Armando Silva Carvalho (ASC), já este ano, na revista Colóquio – Letras (n.º 173, Janeiro/Abril). Ao evocar o suicídio «sem qualquer espécie de retórica» de Antero — os célebres dois tiros disparados na boca, em Ponta Delgada, num banco de jardim —, ASC explica a natureza do fascínio que sente pelo autor das Odes Modernas: «Por mim, pois sou eu que estou aqui / Por trás da escrita, Queria perceber — entre a leitura dos textos / E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos / Que ainda estremecem — / A estranha sedução que me provoca / O que ficou do corpo, que dizem que foi teu». Mais adiante, concretiza: «Hoje entrego-me total e mentalmente a Anthero // Direi depois se puder / E em livro / As causas desta minha decadência / Já surda à voz das grandes multidões, / Cansadas também elas / Das palavras que lhes deitam por cima como bombas / Em árias suicidas / No palco da mentira universal, / Como ele também dizia». O livro prometido, e que ASC felizmente conseguiu escrever, é este Anthero Areia & Água, que daquele poema fundador toma o título e também os versos, em jeito de prefácio.
Uma entrega tão radical a Antero, num processo que coincidiu com a leitura das suas cartas (publicadas por Ana Maria Almeida Martins na Imprensa Nacional – Casa da Moeda), implicava um risco enorme. Porque estes não são meros poemas sobre Antero, escritos por alguém que veio depois; são poemas em que Antero é o sujeito poético, é a voz que fala, naquele tom solene dos seus sonetos «em que hoje ninguém toca». No fundo, é um Antero em potência, olhando do alto — talvez do Infinito por ele tantas vezes invocado — para o que foi a sua vida, um Antero que abrange o futuro que não teve (o vibrante início do século XX, com o seu fulgor de máquinas, imagens em movimento, «tudo em labareda») e esse outro futuro, ainda mais distante, que é o nosso presente, um tempo em que os poetas «já não deixam escorrer das suas bocas / o espesso mel da tragédia» e em que se insinua o «pulsar cansado das multidões / frente ao lugar comum e democrata / do vosso dia-a-dia».
Se para o vate das «barbas nimbadas de melancolia» a memória era «o túmulo dos meus versos», o mínimo que se pode dizer é que ASC procede à exumação com total desvelo. O retrato do «ilhéu descentrado em maresias», de corpo «incandescente, eléctrico, lucífero», vergado ao «peso terrível da insónia» e com olhos «magoados pelo sol da solidão», emerge de uma espécie de bruma, surge-nos ao mesmo tempo difuso e muito nítido. À semelhança da biografia — recordações de Coimbra, Paris, Vila do Conde, Açores, dos amigos (Bulhão Pato, Eça) e das leituras (Cesário Verde, Whitman, os vituperados russos) —, em que se convocam os factos da existência, mas como que atrás de uma cortina. A matéria essencial dos poemas são as «ideias», as «afamadas damas» que acenam com «abstracto lenço». E o lugar de onde não saímos é a cabeça de Antero, «palco ético» para uma busca da transcendência e da justiça, essa «concreta forma da justiça, / onde o universo explode em ondas de beleza».
Mencionámos o risco que ASC correu ao assumir a voz de Antero como sua. E o risco podia manifestar-se de duas formas: ou transformando ASC num epígono caricatural; ou fazendo de Antero o boneco nas mãos do ventríloquo. Nenhuma das hipóteses se verifica. Pelo contrário, o que acontece é uma espécie de fusão entre universos poéticos distintos, que se acrescentam um ao outro num «êxtase virtual». O poema que aborda esta convergência intitula-se Quântica, talvez porque é a um nível quase subatómico que ela se processa. Eis o início da segunda estrofe: «Doem-me os nervos batidos num teclado / Por dedos intraduzíveis.» Os «dedos» de um (ASC) a tocarem os «nervos» do outro (Antero) através da experiência da escrita. Ou seja, da linguagem, erguida aqui a alturas poucas vezes alcançadas pela poesia portuguesa contemporânea:

«(…) Mas o meu destino foi belo como um cisne.
Não disse, mas escrevo agora,
Que canto prolongado, esse meu canto,
Asas levíssimas, um peito branco em chamas,
Uma permanente brancura no negro noite da vida,
Sobre uma água sem fúria, lisa, dominada.

E se o cisne me foge
Tenho todas as frentes da alma em medievo,
Sei como armar a ciência em cordas desavindas
Que não dão para salvar, talvez para curar,
O corpo atrofiado, os nervos meio convulsos,
A boca esfíngica do mal na minha boca.

Tentamos sempre disfarçar nos textos
Uma pequena história metafísica que nos livre da dor,
Da pequenina, íssima dor de sermos animais. (…)»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Grande Prémio de Poesia APE para Armando Silva Carvalho

O poeta, ficcionista e tradutor Armando Silva Carvalho é o vencedor da edição deste ano do Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT, no valor de cinco mil euros. A obra distinguida é O Amante Japonês (Assírio & Alvim), sobre a qual escrevi aqui. O júri, que decidiu por unanimidade, foi composto por Maria João Reynaud, Gastão Cruz e Carlos Mendes de Sousa. Armando Silva Carvalho bateu uma concorrência fortíssima, da qual se destacavam Herberto Helder (A Faca Não Corta o Fogo, Assírio & Alvim), Manuel Gusmão (A Terceira Mão, Caminho) e Luís Quintais (Mais Espesso que a Água, Cotovia).

A máquina lírica

capa_Amante Japonês

O Amante Japonês
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-972-37-1308-4
Ano de publicação: 2008

Armando Silva Carvalho reuniu recentemente a sua obra poética, iniciada há mais de quatro décadas, num volume cujo título é todo um programa (O Que Foi Passado a Limpo, Assírio & Alvim, 2007). Existe de facto nesta escrita uma procura do rigor a partir de sucessivas depurações, rasuras e insistências, partindo da ética oficinal aplicada ao trabalho da linguagem – na linha de um Carlos de Oliveira, por exemplo.
Neste O Amante Japonês, último opus de ASC, surge-nos uma “máquina lírica” que está longe de ser, como em Herberto Helder, uma abstracção. Muito pelo contrário: o japonês a que o título alude é simplesmente um automóvel made in Japan. Tão prosaico quanto isto. É com esse “animal acabrunhado” feito de chapa e quatro rodas, esse “Pégaso cansado” que voa baixinho rente ao asfalto (e no interior do qual se erguem “palácios de palavras no ar ao nível do volante”), é com esse interlocutor mudo que o sujeito poético estabelece uma cumplicidade sempre mais melancólica do que eufórica.
Estamos, como se adivinha, diante de um tour de force que nem sequer dispensa a intertextualidade assumida (envios a Camilo Pessanha, Pessoa, Novalis, Herberto, William Blake, entre outros) e que só não se desmorona porque consegue manter um distanciamento irónico, ou uma sombria lucidez, em relação ao seu objecto: “Pobre carro de um pobre num país de pobres. / Um cão lento e sem pêlo que vai onde lhe permite o dobrar da pobreza / Forçando a pele da boca contra a resistência / Do açaime.”

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 70 da revista Ler]

Um poema de Armando Silva Carvalho

Transportaste os meus versos, e a prosa corrida e manuscrita
Chegava a descer ao nível dos pedais,
Amarfanhada.
Quando solta de mim, a prosa era uma crueldade
Meio oculta.
Sentias-me a tremer, nas minhas mãos
As lâminas
Degolavam as sílabas,
Era um sangue confuso, incongruente,
Que manchava os estofos e vinha, gota a gota,
Turvar a placenta do texto
Nascido no meu colo.

Loucura tão apertada em ti
E à nossa volta as árvores erguendo a nobreza vegetal
Que subia dos alicerces
Da terra,
Da água ao abandono pelas inclinações
Que eu dava à língua.

Anos e anos e dias que chegavam à noite ofegantes
Sem saber o que fazer às frases.
Um mistério indefeso, infante e natalício
Cruzava-se nos teus vidros
Com a névoa tensa, densa, cimentada.

Eu não sabia dizer, puxava devagar as linhas novas,
Nervosas, cordões umbilicais
Toda essa baba azul da esferográfica
Ao redor do produto, ali, parido,
Deitado no papel.

Lembro agora esse tempo acrobático,
Em que a cabeça reclinava
E declinava
Ao volante o lume, os nossos breves lumes
Nas paragens,
As palavras roxas, franzinas, às cegas, enrodilhadas no tempo,
Na tua paciência,
No parque maternal da minha escrita.

[in O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges