A máquina lírica

O Amante Japonês
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-972-37-1308-4
Ano de publicação: 2008
Armando Silva Carvalho reuniu recentemente a sua obra poética, iniciada há mais de quatro décadas, num volume cujo título é todo um programa (O Que Foi Passado a Limpo, Assírio & Alvim, 2007). Existe de facto nesta escrita uma procura do rigor a partir de sucessivas depurações, rasuras e insistências, partindo da ética oficinal aplicada ao trabalho da linguagem – na linha de um Carlos de Oliveira, por exemplo.
Neste O Amante Japonês, último opus de ASC, surge-nos uma “máquina lírica” que está longe de ser, como em Herberto Helder, uma abstracção. Muito pelo contrário: o japonês a que o título alude é simplesmente um automóvel made in Japan. Tão prosaico quanto isto. É com esse “animal acabrunhado” feito de chapa e quatro rodas, esse “Pégaso cansado” que voa baixinho rente ao asfalto (e no interior do qual se erguem “palácios de palavras no ar ao nível do volante”), é com esse interlocutor mudo que o sujeito poético estabelece uma cumplicidade sempre mais melancólica do que eufórica.
Estamos, como se adivinha, diante de um tour de force que nem sequer dispensa a intertextualidade assumida (envios a Camilo Pessanha, Pessoa, Novalis, Herberto, William Blake, entre outros) e que só não se desmorona porque consegue manter um distanciamento irónico, ou uma sombria lucidez, em relação ao seu objecto: “Pobre carro de um pobre num país de pobres. / Um cão lento e sem pêlo que vai onde lhe permite o dobrar da pobreza / Forçando a pele da boca contra a resistência / Do açaime.”
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no número 70 da revista Ler]
Um poema de Armando Silva Carvalho
Transportaste os meus versos, e a prosa corrida e manuscrita
Chegava a descer ao nível dos pedais,
Amarfanhada.
Quando solta de mim, a prosa era uma crueldade
Meio oculta.
Sentias-me a tremer, nas minhas mãos
As lâminas
Degolavam as sílabas,
Era um sangue confuso, incongruente,
Que manchava os estofos e vinha, gota a gota,
Turvar a placenta do texto
Nascido no meu colo.
Loucura tão apertada em ti
E à nossa volta as árvores erguendo a nobreza vegetal
Que subia dos alicerces
Da terra,
Da água ao abandono pelas inclinações
Que eu dava à língua.
Anos e anos e dias que chegavam à noite ofegantes
Sem saber o que fazer às frases.
Um mistério indefeso, infante e natalício
Cruzava-se nos teus vidros
Com a névoa tensa, densa, cimentada.
Eu não sabia dizer, puxava devagar as linhas novas,
Nervosas, cordões umbilicais
Toda essa baba azul da esferográfica
Ao redor do produto, ali, parido,
Deitado no papel.
Lembro agora esse tempo acrobático,
Em que a cabeça reclinava
E declinava
Ao volante o lume, os nossos breves lumes
Nas paragens,
As palavras roxas, franzinas, às cegas, enrodilhadas no tempo,
Na tua paciência,
No parque maternal da minha escrita.
[in O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008]


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