Dar forma ao informe

O Poema, a Viagem, o Sonho
Autor: Arménio Vieira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 131
ISBN: 978-972-21-2072-2
Ano de publicação: 2009

Prémio Camões de 2009, o cabo-verdiano Arménio Vieira (n. 1941) tem uma obra curta: apenas dois romances e dois livros de poemas (publicados entre 1981 e 2006), a que se junta agora um terceiro volume de poesia. Em O Poema, a Viagem, o Sonho, o território da escrita confunde-se com a própria literatura (a exploração das suas possibilidades e limites), ignorando olimpicamente a contingência geográfica do seu autor. Mais do que africana, a matriz cultural de Vieira é europeia – dos gregos a Rimbaud – e é nesse denso universo de referências que os seus poemas em prosa procuram a energia lírica de que se alimentam.
A sombra dos mitos clássicos (Orfeu e Eurídice, Sísifo, o Minotauro de Creta) e a luz dos grandes autores do cânone ocidental pairam sobre estes textos. «Li-os todos», assume Vieira, e isso confirma-se na multiplicidade de acenos a Homero, Dante, Milton, Whitman, Poe, Verlaine, Pessoa ou Borges. O impulso é sempre rimbaldiano, expressão de uma vontade de dar forma ao «informe», mesmo quando o poeta se furta a «escandir o verso», por saber vão o gesto de «meter a faca no que não pode ser cortado».
Além das variações metafísicas sobre categorias com direito a maiúscula – o Bem e o Mal, o Destino, a Eternidade, o Tempo – há também poemas sobre sonhos, o difícil amor das mulheres, viagens inventadas que se fazem sem sair do mesmo lugar, reincidências (Hamlet, Ulisses, a morte de César), epifanias, desabafos e até um filme dos irmãos Marx. As frases como que se regozijam da sua própria complexidade, feita de suspensões, recomeços e longos encadeamentos, deixando a sintaxe inclinada, torcida, à beira do desequilíbrio. Os melhores poemas, porém, são os mais curtos. Como este:

Entre duas frutas, uma das quais é só pegar, sendo que um pássaro, voando, alcança a outra, prefiro aquela que, alta, uma nuvem oculta.

Ou este:

A gazela jamais terá sossego, em susto acordará a pomba. Infeliz e amargo o rio onde bebe o caçador.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 86 da revista Ler]

Quatro poemas de Arménio Vieira

Apaga as escrituras todas. Se a missa ou o sino de qualquer igreja chegarem aos teus ouvidos, o que ouves é apenas o vento a sacudir os ramos, é um velho boi ruminando sempre a mesma palha. Em ti há um marinheiro demandando uma ilha onde ninguém ainda esteve. Também em ti encontrarás o mapa, a bússola e o navio. Há coisas a que não deves atribuir nomes. A tua ilha não tem nome.

***

Entre duas frutas, uma das quais é só pegar, sendo que um pássaro, voando, alcança a outra, prefiro aquela que, alta, uma nuvem oculta.

***

Plotino, de quem herdámos os nove tomos, que também de Platão herdara os arquétipos, cujo número só é pouco quando oposto ao que não tem medida, Plotino, conquanto ninguém se lembre, subiu aos vários céus, que são nove vezes nove, sem que em nenhum visse a luz, tal como Dante, que viu Beatriz sem ver a Deus, sendo que da Trindade em Platão nada consta. Teseu, no labirinto, esse viu o Minotauro.

***

De sonho em sonho, chega ao Inferno o sonhador, sendo que, ao despertar, se vê no meio de uma briga de assassinos a que é de todo alheio, da qual porém não acha via de fugir, e assim se arrisca a morrer ou a ter que matar, eis a sina de quem, sonhando muito, nunca cessa de viajar entre um inferno e outro inferno.

[in O Poema, a Viagem, o Sonho, Caminho, 2009]

Arménio Vieira vai publicar o seu mais recente livro de poemas na Nova Vega

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O escritor cabo-verdiano Arménio Vieira, Prémio Camões 2009, que esteve em Lisboa esta semana (para ser homenageado na Casa Fernando Pessoa), terá o seu último livro de poesia, Mitografias, editado pela Nova Vega «já para a próxima rentrée». Ou seja, em Setembro ou Outubro. Vieira mantém assim a ligação ao editor Assírio Bacelar, que publicou em Portugal o seu primeiro livro de ficção: O Eleito do Sol (na então Vega).

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Homenagem a Arménio Vieira

O mais recente Prémio Camões vai ser celebrado em Lisboa no próximo dia 24, a partir das 18h30, na Casa Fernando Pessoa. Manuel Alegre abrirá a sessão, Filipa Leal evocará a obra e vários amigos – Celina Pereira, José Cunha, Mito Elias, Vera Cruz e Xan – lerão excertos dos seus livros.

Quatro poemas de Arménio Vieira

LISBOA – 1971

A Ovídio Martins e Oswaldo Osório

Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela

Em verdade éramos o gado mais pobre
d’África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d’onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d’inverno.

***

Graças dou por Bento Spinoza
e também por Mallarmé,
já que ambos, em seu tempo
e seu lugar, viram o que jazia
oculto sob a máscara da Esfinge.

Sem se importar mesmo nada
com a maldição lançada pelos
rabinos lá do gueto, um judeu
de olhos meigos como as rolas
percebeu que os rios, o mar
e o firmamento não são meros
algarismos em que o Número
se divide, pelo que se torna
redundante dizer que há Deus e Natureza.

Esse ponto em que o texto como um rio
se desdobra e, nítido, surge o poema,
só se vê num mapa que Mallarmé doou
aos filhos que teve com a Musa.

***

Não há guarda-chuva, João,
contra o suão que em Setembro
é uma vespa mordendo
como se para o martírio
não bastasse o calor e a secura.
Tão duro é o suão
que, embora não tenha um som,
se porventura o tivesse,
jamais seria o som
da chuva, que, ainda que molhe
e mate, nunca mata queimando.
Quiça o som de uma pedra
noutra pedra batendo,
talvez fosse esse o som
se acaso o suão, que é mudo,
soltando-se, soasse.

***

CONSTRUÇÃO NA VERTICAL

Com pauzinhos de fósforo
podes construir um poema.

Mas atenção: o uso da cola
estragaria o teu poema.

Não tremas: o teu coração,
ainda mais que a tua mão,
pode trair-te. Cuidado!

Um poema assim é árduo.
Sem cola e na vertical,
pode levar uma eternidade.

Quando estiver concluído,
não assines, o poema não é teu.

[Textos retirados de uma antologia, ainda inédita, organizada por José Luiz Tavares]

Bouquet de estrelas para Arménio Vieira, dito conde, rei à nossa maneira [por um compatriota, longe da pátria]

Mais do que justa é a atribuição do prémio Camões ao poeta Arménio Vieira, senhor duma obra sólida, ainda que escassa. Em meio às pressões identitárias e à vociferação tribunícia, que tempos e circunstâncias impuseram a outros menos radicais na assumpção da condição criadora, Arménio Vieira soube abrir-se à universalidade estética e pensante, sem no entanto deixar de reflectir nas suas obras as atribulações existenciais e as particularidades antropológicas do ser-se caboverdiano.
Embora se possa tomar este prémio como uma reparação devida, ainda que tardia, à literatura caboverdiana, ele é, indubitavelmente, o coroar da obra daquele que dentre nós encarnava por excelência a figura e condição de poeta, e não nobilita, por atacado, toda a produção literária do arquipélago.
Talvez a pátria suspirasse por outros mais conformes aos ditames e cânones da monocultura identitária, a esses que de tanto fincar os pés perderam de vista o horizonte longínquo, como postula um dos meus grandes mestres, o irlandês Seamus Heaney, neste verso, minha divisa e meu lema: «vai para além da segurança do que te é conhecido».
A ele, condor de largo voo, inolvidável coveiro da literatura gastronómica, nobre oficiante das horas salerosas do Cachito e Café Sofia, impoluto cobridor das fêmeas tresmalhadas, a ele nunca lhe foi horizonte o arrazoado folclórico-etnológico, mas o irredutível humano condensado na totalidade dos signos, onde a articulação entre reflexão e sentimento, aliada à discreta inteligência metapoética, são a afirmação extrema do que ainda nos sustém e poderemos chamar, no desconforto de um tempo de imundície terror e morte, beleza.
José Luiz Tavares

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges