‘Menina Else’ na Cornucópia

A estreia da versão teatral de Menina Else, um romance curto de Arthur Schnitzler transformado em monólogo dramático (interpretado pela actriz Rita Durão), acontecerá esta noite (21h30) no Teatro do Bairro Alto. Christine Laurent é a responsável pela adaptação e encenação, enquanto Cristina Reis assegurou (como sempre) o cenário e os figurinos. O desenho de luz coube a José Álvaro Correia.
A tradução do texto de Schnitzler, feita por José Maria Vieira Mendes, é a do livro publicado pela Cotovia em 2008 e recenseado por mim aqui. Um excerto:

O que faz a grandeza literária desta novela de Schnitzler, publicada originalmente em 1924, não é tanto a história (drama psicológico de uma burguesa romântica) mas o modo como a narrativa se desenvolve, através de um tumultuoso monólogo interior que regista tudo o que vai cruzando a consciência de Else: imagens, fragmentos de conversas, frases repetidas, inquietações, sonhos, ideias fixas, perguntas sem resposta. A cabeça de Else, prisma que capta (ou distorce) a realidade circundante, é o único local da acção. E Schnitzler, ao mostra-nos de dentro a forma como essa acção implode, transporta-nos, maravilhados, aos limites mais íntimos da experiência humana.

A cabeça-prisma de uma jovem burguesa

Menina Else
Autor: Arthur Schnitzler
Título original: Fraülein Else
Tradução: José Maria Vieira Mendes
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 106
ISBN: 978-972-795-246-5
Ano de publicação: 2008

Fraülein Else, filha de boas famílias vienenses, passa férias no Fratazza, um hotel de luxo em San Martino di Castrozza. Entre «gente barulhenta a quem a vida corre bem», não destoa: sabe movimentar-se com elegância entre partidas de ténis, passeatas ao monte Cimone e jogos de sedução pueris. Aos 19 anos ainda não fez nada da sua vida, mas não se apressa: o ar à sua volta «está como champanhe», é leve, inebria.
Uma carta expresso, enviada pela mãe, chega então para abalar o idílio italiano. Como acontecera de outras vezes, o pai, advogado de renome que esbanja dinheiro no casino e na Bolsa, afundou-se em dívidas e corre o risco de ser preso, caso não entregue certa verba num prazo muito curto. O problema é que nem a família nem os amigos, escaldados com empréstimos anteriores, se mostram dispostos a ajudá-lo. A única hipótese de salvação passa por convencer Dorsday, um marchand que está precisamente instalado no Fratazza. Acontece que Dorsday tem uma proposta indecente na manga: a troca do dinheiro pela contemplação da nudez de Else. Após muitas hesitações, a rapariga entra em pânico e desce a correr a escada da loucura, até à humilhação pública e ao suicídio (com um copo de veronal).
O que faz a grandeza literária desta novela de Schnitzler, publicada originalmente em 1924, não é tanto a história (drama psicológico de uma burguesa romântica) mas o modo como a narrativa se desenvolve, através de um tumultuoso monólogo interior que regista tudo o que vai cruzando a consciência de Else: imagens, fragmentos de conversas, frases repetidas, inquietações, sonhos, ideias fixas, perguntas sem resposta. A cabeça de Else, prisma que capta (ou distorce) a realidade circundante, é o único local da acção. E Schnitzler, ao mostra-nos de dentro a forma como essa acção implode, transporta-nos, maravilhados, aos limites mais íntimos da experiência humana.
A tradução de José Maria Vieira Mendes é exemplar (uma das melhores, se não a melhor, de entre as que li este ano).

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 72 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges