Entre literatura e cinema

«Sinto-me escritor quando filmo, cineasta quando escrevo», diz Atiq Rahimi, o escritor franco-afegão, num artigo sobre a adaptação cinematográfica que fez do seu romance Pedra-de-Paciência, com o qual ganhou o Goncourt em 2008.

O afegão intranquilo

Tudo começa com uma espera. Uma espera que parece infinita, beckettiana. Encostado ao parapeito de uma ponte, Dastaguir, um velho exausto, sujo e com o turbante desfeito, aguarda a passagem de um carro que o leve até Karkar, a mina de carvão onde o filho, Mourad, trabalha há quatro anos. A seu lado, Yassin, o neto, ora brinca ora faz birra: tem fome, quer água. As horas passam; a boleia não chega. Perto, numa guarita minúscula, há um guarda mal-disposto e facilmente irritável, um homem fechado na sua própria solidão. Mais à frente, numa lojeca manhosa, em contraponto, um comerciante gentil capaz de romper, sem forçar, o círculo de arame farpado que é o silêncio de Dastaguir. O círculo da sua mágoa.
Temos portanto um velho, uma criança, dois homens. E mais nada. À volta, só montanhas áridas, poeira, vento, pedras negras, urtigas. O Afeganistão em meados dos anos 80. Sobre a ponte velha passa um camião com uma estrela vermelha na porta. Saberemos mais tarde que os soviéticos arrasaram uma aldeia. Mas, fora isso, podia ser o Afeganistão de há muitos séculos. Podia ser o Afeganistão de hoje.
Enquanto olha para a estrada, naquela ponte inútil que atravessa um rio que secou de vez (querem melhor metáfora do país?), o velho masca naswar, uma espécie de tabaco com propriedades narcóticas, de cor esverdeada. Masca e cospe. Masca e cospe. Masca e ralha com o neto. Espera e afunda-se em sonhos breves, delírios que o levam aos poços da memória e às portas do inferno. E o pior não é a espera. O pior é o que tem para dizer quando, na mina, o filho lhe perguntar: «– Pai, o que te trouxe aqui?»
O que o trouxe ali, o motivo da viagem, é só um. Contar-lhe que os russos bombardearam a aldeia e toda a gente morreu. A mãe, a mulher, o irmão, os amigos, todos foram mortos. A aldeia está em ruínas e toda a gente morta. Menos eles, Dastaguir e Yassin. O velho sofre por antecipação. Como é que se partilha uma dor tão grande? E como é que se explica que Yassin está vivo mas ensurdeceu, por causa das detonações? Para o rapaz, o mundo é mudo desde o dia em que os tanques «substituíram as vozes das pessoas e foram-se embora». Já nem o avô, quando lhe ralha, consegue ouvir. «Os homens perderam a voz», diz Yassin. «O mundo tornou-se silencioso… Mas, nesse caso, porque mexem os homens os lábios?»
Quando um camião passa, finalmente, só Dastaguir segue viagem até à mina. Pelo caminho, o velho há-de apoquentar-se por ter deixado o neto aos cuidados do comerciante, um homem gentil mas que acabou de conhecer. Na estrada poeirenta, descerá de novo aos abismos do sonho e da memória. Chegará ao seu destino e ao desfecho da narrativa, um final em aberto – talvez para que os leitores o resolvam. A mina é, literal e simbolicamente, um buraco negro. Engole tudo, incluindo o próprio Mourad. O ar é denso e o velho perde as poucas forças que lhe restavam. Surge um contramestre sinistro, montanha de força, hipocrisia e poder. O velho resiste-lhe e hesita, até ao limite, sobre o que dizer a Mourad. Não será melhor, para ele, a ignorância? Dastaguir transporta a verdade junto ao peito, como um punhal. E a tragédia é essa: tem que o espetar no coração do filho, mas não sabe como.

Terra e Cinzas. É este o título do livro que narra a viagem de Dastaguir ao mais fundo de um país em colapso, esse Afeganistão que nos fazem crer que foi sempre – e não foi – uma geografia de caos e ruínas. Escreveu-o Atiq Rahimi, um afegão de 39 anos, exilado em França desde 1985. Publicou-o por estes dias, em português (a partir da tradução francesa de Sabrina Nouri, que decifrou as subtilezas da língua persa), a Teorema, uma editora com um enorme sentido de oportunidade. Ou será de oportunismo? Se não fosse Bin Laden e o mullah Omar, se não fosse a guerra e as reportagens em directo de Cabul, se não fosse esta curiosidade mórbida por tudo o que se passa naquela calcinada waste land, o que aconteceria a este livrinho precioso? Estaria agora na banca das novidades, em todas as livrarias?
Rahimi, o autor, exilou-se aos 22 anos, para fugir ao alistamento no exército pró-soviético, à censura recorrente e ao inferno da guerra. Filho do governador de Pandjshir, teve uma infância dourada. Chegada a altura, pôde escolher o objecto dos seus estudos universitários: literatura e cinema. Pelos vistos, não os desperdiçou. Além de um segundo romance, As Mil Casas do Sonho e do Terror, que será publicado na próxima primavera (na editora francesa P.O.L), assinou já diversos documentários. Tem os olhos claros, barba bem aparada, um ar sofisticado. Gosta de dizer que escolheu a França como lugar de exílio porque admira Victor Hugo e Serge Gainsbourg. Ainda não é um grande escritor, mas pode vir a ser. Neste livro, por exemplo, há coisas que não me convencem: o excesso de pontos de exclamação; o narrador omnisciente que trata as personagens por tu; a escatologia de certos sonhos; algumas facilidades de linguagem (atribuíveis porventura à tradução); e o tom demasiado solene do comerciante «sábio».
Tudo o resto é brutal, belo, surpreendente. Yassin, a criança filha da guerra, surda num mundo que se calou, é a imagem perfeita de um povo martirizado. Neste livro não há soldados (nem sequer os russos), não há mujahedines, não há talibans, não há guerrilheiros da Aliança do Norte, não há homens barbudos a sucederem a outros homens barbudos numa espiral de despotismo, barbárie e destruição. Não há bombardeamentos de aviões americanos, nem marines a levantarem pedras, armados até aos dentes. Não há, sequer, uma rajada de Kalashnikov que alguém dispara ao fim do dia, na cidade mais próxima. E no entanto, tudo isso, as histórias que vieram depois, já estão aqui, nestas páginas, a germinar. Durante a ocupação soviética, o Afeganistão transformou-se num imenso cemitério, onde «os homens perderam toda a dignidade» e «os mortos são mais felizes do que os vivos». Nessa época, talvez ainda houvesse esperança, apesar de tudo, no meio dos destroços. Hoje, nem isso há.
Quando pouso o livro, acendo a televisão. A CNN mostra pela enésima vez as mesmas imagens. Homens de turbante desfeito, arrastando-se na lama. Crianças de olhos perdidos. A voz off não fala deles, claro. Fala de consensos políticos em Cabul e de movimentos das tropas americanas. Reparo num velho muito velho, tão velho como Dastaguir. Pela mão, leva uma criança que podia ser Yassin. A cena é muito triste. O que terá ele para contar ao filho?

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

Fiódor em Cabul

Maldito seja Dostoiévski
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Maudit soit Dostoïevski
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-97474-5-6
Ano de publicação: 2011

No momento em que racha o crânio de uma velha com um machado, replicando o célebre gesto de Raskólnikov, Rassul sabe que está a cometer uma espécie de plágio. Ainda antes de a ver caída sobre um tapete vermelho e negro, gradualmente manchado de sangue, «passa-lhe pela cabeça» a história de Crime e Castigo. Atiq Rahimi podia apostar num simples decalque do romance de Dostoiévski, correndo sérios riscos de soçobrar num pastiche pretensioso. Ao fazê-lo como o faz, atribuindo ao protagonista a imediata consciência da emulação de Raskólnikov, mas também um sentimento de impotência e raiva por não conseguir imitar à risca o seu destino, torna muito mais subtil e interessante o jogo da intertextualidade.
Embora replique as traves-mestras da narrativa de Dostoiévski, Rahimi sabe perfeitamente que o Afeganistão dos anos 90, após a retirada das tropas soviéticas, nada tem a ver com a S. Petersburgo do século XIX. Por muito que o crime e os consequentes remorsos se assemelhem, tudo o resto é diferente. A escrita depurada do autor franco-afegão, aliás, preocupa-se mais em sublinhar as diferenças do que as semelhanças. Quando assassina Alia, uma mulher horrenda, agiota e proxeneta, que obrigara a sua noiva a prostituir-se, Rassul pretende não apenas vingar-se mas apropriar-se do seu dinheiro e jóias, com os quais tenciona ajudar a mãe e a irmã, sozinhas após a morte recente do patriarca da família. E é aqui que as histórias se começam a separar. Ao contrário de Raskólnikov, Rassul foge do local do crime de mãos vazias, o que torna algo impalpável e até duvidosa a sua culpa, uma vez que o cadáver e respectivos bens desaparecem misteriosamente – permitindo, até, a hipótese de o crime se ter dado apenas na sua cabeça.
Com o choque emocional, Rassul perde a voz e deambula por uma Cabul de pesadelo que cheira a enxofre e «podridão», sacudida por explosões e dominada pelos «barbudos», mujahedines que depois de expulsarem os soviéticos se digladiam em guerras tribais. Para escapar à «fornalha do ódio» em que se transformou o seu país, Rassul afunda-se nas salas de fumo, por entre nuvens de haxixe, a planar «nos abismos poéticos do cânhamo». Ele sempre preferiu o orgulho à altivez, mas agora sente-se vítima do seu próprio crime, incapaz de lidar com a «lâmina do destino» ou sequer com a ideia de um suicídio redentor. O sofrimento que o rói por dentro, como uma «ferida aberta, incurável», leva-o ainda assim a entregar-se à Justiça, só para descobrir que esta não existe – é um edifício abandonado, vazio, às moscas.
No fim de uma labiríntica sequência de peripécias, Rassul consegue finalmente ser julgado. E a ironia explode-lhe na cara. Porque ninguém se preocupa com o seu crime, a não ser ele. Como lhe explica um comandante militar: «o assassínio é um crime quando a vítima é um inocente. Essa mulher devia ser castigada. (…) Àquilo que fizeste, chama-se vingança. Ninguém tem o direito de te julgar como assassino.» Mais do que sacrificar-se aos seus fantasmas, ele pretende que o seu processo seja um testemunho «sobre estes tempos de injustiça, de mentira, de hipocrisia», e que a punição do seu crime sirva de exemplo, num país em que todos os valores colapsaram.
Muito intensa, muito rápida (abundam as frases curtas, em staccato), muito persa (com fortes imagens poéticas e personagens que contam histórias maravilhosas), a escrita de Rahimi surge ainda mais refinada do que nos livros anteriores, mantendo a sua imensa capacidade efabulatória.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Mal Rassul ergueu o machado para o abater na cabeça da velha, a história de Crime e Castigo passa-lhe pela cabeça. Fulmina-o. Os seus braços estremecem, as suas pernas vacilam. E o machado escapa-se-lhe das mãos. Racha o crânio da mulher, penetra-o. Sem soltar um grito, a velha cai no tapete vermelho e negro. O seu véu, decorado com motivos de flores de macieira, flutua no ar antes de cair em cima do seu corpo flácido e rechonchudo. É agitada por espasmos. Mais um sopro, talvez dois. Os seus olhos arregalados fixam Rassul, de pé no meio da sala, respiração cortada, mais lívido do que um cadáver. Ele treme, o seu patu a cai-lhe dos ombros salientes. O seu olhar assustado absorve-se no jorro de sangue que, brotando do crânio da velha, se confunde com o vermelho do tapete, cobrindo os seus traçados negros, escorrendo depois, lentamente, para a mão carnuda dela, que segura um maço de notas. O dinheiro ficará manchado de sangue.»

[in Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teodolito, 2011]

Como é que se pode ser afegão em Paris?

Atiq Rahimi, vencedor do Prémio Goncourt 2008 com Pedra-de-Paciência, escreveu uma carta-aberta que reclama medidas que resolvam o problema de muitos afegãos sem-abrigo que dormem ao frio nas margens do canal St. Martin, em Paris.
Um excerto:

«Ils sont jeunes, certains ont à peine quinze ans, aucun plus de trente. Les plus chanceux ont une écharpe et un bonnet. Presque pas un n’a de gants. Le thermomètre pointe zéro. Qu’est-ce que ça change ? De toute façon, ce n’est pas le maigre brasier, deux planches minables, quatre cageots humides qui vont les réchauffer.
Ils sont cent cinquante à peu près. Cinq cents dans tout Paris, à marcher dans des tennis troués, à tourner, sans trouver où s’arrêter au chaud.
(…) Souvenez vous de ce temps : on appelait encore un mineur un enfant. Aucun ministre alors ne se serait permis de nous laisser croire qu’il est bon de laisser un enfant l’hiver dans la rue. Même étranger.
Et il y a certainement eu une époque où on appelait un immigré un homme. Même s’il était sans papier. (…)»

A carta foi escrita no dia 7 e ontem, domingo, algumas centenas de pessoas manifestaram-se junto ao canal. Várias personalidades da vida cultural francesa – como Jane Birkin, Charlotte Gainsbourg, Patrice Chéreau, Agnès Jaoui, Marie Darrieussecq, Laurent Cantet, Charlotte Rampling e a iraniana Marjane Satrapi – subscreveram o texto de Rahimi, aqui.

O inferno dentro de quatro paredes

Pedra-de-Paciência
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Syngué sabour – Pierre de patience
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teorema
N.º de páginas: 113
ISBN: 978-972-695-784-3
Ano de publicação: 2008

Dedicado a Nadia Anjuman, uma «poetisa afegã selvaticamente assassinada pelo marido», Pedra-de-paciência (vencedor do Prémio Goncourt 2008) pode ser lido como uma narrativa de denúncia contra os maus tratos a que são submetidas as mulheres no mundo inteiro, sobretudo nas sociedades islâmicas mas não só. Rahimi situa o livro «algures no Afeganistão ou em outro lugar», justamente para lhe conferir um carácter universal.
No primeiro romance escrito em francês – os anteriores, igualmente publicados pela Teorema (Terra e Cinzas, 2001; As Mil Casas do Sonho e do Terror, 2004), foram traduzidos do persa –, Rahimi apura a sua prosa lírica, de frases curtas e cadenciadas, desta vez posta ao serviço de uma história que se enrola sobre si mesma, à espera de explodir, um terrível huis clos construído com precisão matemática, mas por vezes exasperante, tantas são as esperas, as alucinatórias repetições de gestos e o sufoco que a narrativa induz.
Num quarto pequeno, rectangular e quase vazio, um velho esquelético, combatente de uma qualquer guerra santa, está entre a vida e a morte, depois de lhe terem enfiado uma bala na nuca. Quem cuida dele é a sua mulher: lava-o, põe-lhe colírio nos olhos, muda-lhe as embalagens de soro (e, quando este acaba, enche-as de água açucarada), lê-lhe o Corão e invoca os muitos nomes de Alá. Trata também das duas filhas, incapazes de compreender o estado do pai, antes de as entregar a uma tia. À volta da casa ouvem-se bombardeamentos e rajadas de Kalashnikov, há um vento de destruição que entra pelas janelas, mas os rituais da devoção conjugal nunca são interrompidos.
Aos poucos, a mulher começa a partilhar com aquele corpo inerte as suas memórias, os seus segredos mais íntimos e os ressentimentos acumulados ao longo dos anos. O homem que a brutalizava, o marido que sempre preferiu a frente de batalha à vida familiar, está finalmente ali, ao seu alcance, sem poder de resposta. E ela aproveita para saldar todas as contas, uma a uma, num crescendo emocional que conduz à catarse, tão intensa que lhe chega a parecer um estado de loucura ou possessão demoníaca.
Na mitologia persa, chama-se syngué sabour a uma pedra mágica, a «pedra-de-paciência», diante da qual as pessoas confessam as suas infelicidades e sofrimentos, até ao dia em que ela se desfaz, levando consigo a tristeza acumulada. O marido catatónico é, claro está, o syngué sabour da sofrida protagonista da história. Mas quando por fim a pedra se parte, retirando o homem do limbo onde vegetava, o desenlace (no seu exagero operático) é tudo menos libertador.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]

Capa da edição portuguesa do Goncourt 2008

O romance Pedra-de-Paciência, com que Atiq Rahimi ganhou o Prémio Goncourt, em Novembro, está prestes a sair do prelo, com chancela da Teorema e tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. A capa é esta:

Quem desejar conhecer a obra anterior do escritor afegão radicado em França, igualmente publicada pela Teorema, pode comprar na FNAC, por apenas cinco euros, um pack com os seus dois primeiros romances (Terra e Cinzas + As Mil Casas do Sonho e do Terror).

Diário do Goncourt (9)

Ao vasculhar em ficheiros antigos, guardados em pastas do Windows que já nem me lembrava de ter criado, encontrei uma crónica de 2001 em que escrevi sobre o primeiro livro de Atiq Rahimi, Terra e Cinzas, publicado em Portugal pela Teorema, sete anos antes da recente consagração do escritor de origem afegã, vencedor do Goncourt 2008.
Eis o essencial dessa prosa perdida num suplemento DNA, agora com folhas amarelecidas e cheio de pó:

Tudo começa com uma espera. Uma espera que parece infinita, beckettiana. Encostado ao parapeito de uma ponte, Dastaguir, um velho exausto e descomposto, sujo e com o turbante desfeito, aguarda a passagem de um carro que o leve até Karkar, a mina de carvão onde o filho, Mourad, trabalha há quatro anos. A seu lado, Yassin, o neto, ora brinca ora faz birra: tem fome, quer água. As horas passam; a boleia não chega. Perto, numa guarita minúscula, há um guarda mal-disposto e facilmente irritável, um homem fechado na sua própria solidão. Mais à frente, numa lojeca manhosa, o contraponto é dado por um comerciante gentil, capaz de romper, sem forçar, o círculo de arame farpado que é o silêncio de Dastaguir. O círculo da sua mágoa.
Temos portanto um velho, uma criança, dois homens. E mais nada. À volta, só montanhas áridas, poeira, vento, pedras negras, urtigas. O Afeganistão em meados dos anos 80. Sobre a ponte velha passa um camião com uma estrela vermelha na porta. Saberemos mais tarde que os soviéticos arrasaram uma aldeia. Mas, fora isso, podia ser o Afeganistão de há muitos séculos. Podia ser o Afeganistão de hoje.
Enquanto olha para a estrada, naquela ponte inútil que atravessa um rio seco desde sempre (querem melhor metáfora do país?), o velho masca naswar, uma espécie de tabaco com propriedades narcóticas, de cor esverdeada. Masca e cospe. Masca e cospe. Masca e ralha com o neto. Espera e afunda-se em sonhos breves, repentinos delírios que o levam aos poços da memória e às portas do inferno. E o pior não é a espera. O pior é o que tem para dizer quando, na mina, o filho lhe perguntar: «– Pai, o que te trouxe aqui?»
O que o trouxe ali, o motivo da viagem, é só um. Contar-lhe que os russos bombardearam a aldeia e toda a gente morreu. A mãe, a mulher, o irmão, os amigos, todos foram mortos. A aldeia está em ruínas e toda a gente morta. Menos eles, Dastaguir e Yassin. O velho sofre por antecipação. Como é que se partilha uma dor tão grande? E como é que se explica que Yassin está vivo mas ensurdeceu, por causa das detonações? Para o rapaz, o mundo é mudo desde o dia em que os tanques «substituíram as vozes das pessoas e foram-se embora». Já nem o avô, quando lhe ralha, consegue ouvir. «Os homens perderam a voz», diz Yassin. «O mundo tornou-se silencioso… Mas, nesse caso, porque mexem os homens os lábios?»
Quando um camião passa, finalmente, só Dastaguir segue viagem até à mina. Pelo caminho, o velho há-de apoquentar-se por ter deixado o neto aos cuidados do comerciante, um homem gentil mas que acabou de conhecer. Na estrada poeirenta, descerá de novo aos abismos do sonho e da memória. Chegará ao seu destino e ao desfecho da narrativa, um final em aberto – talvez para que os leitores o resolvam. A mina é, literal e simbolicamente, um buraco negro. Engole tudo, incluindo o próprio Mourad. O ar é denso e o velho perde as poucas forças que lhe restavam. Surge um contramestre sinistro, montanha de força, hipocrisia e poder. O velho resiste-lhe e hesita, até ao limite, sobre o que dizer a Mourad. Não será melhor, para ele, a ignorância? Dastaguir transporta a verdade junto ao peito, como um punhal. E a tragédia é essa: tem que o espetar no coração do filho, mas não sabe como.
Terra e Cinzas narra a viagem de Dastaguir ao mais fundo de um país em colapso, esse Afeganistão que nos fazem crer que foi sempre – e não foi – uma geografia de caos e ruínas. Escreveu-o Atiq Rahimi, um afegão de 39 anos, exilado em França desde 1985. Publicou-o por estes dias, em português (a partir da tradução francesa de Sabrina Nouri, que decifrou as subtilezas da língua persa), a Teorema. Rahimi exilou-se, aos 22 anos, para fugir ao alistamento no exército pró-soviético, à censura recorrente e ao inferno da guerra. Filho do governador de Pandjshir, teve uma infância dourada. A seu tempo, pôde escolher o objecto dos estudos universitários: literatura e cinema. Tem os olhos claros, barba bem aparada, um ar sofisticado. Gosta de afirmar que escolheu a França como lugar de exílio porque admira Victor Hugo e Serge Gainsbourg. Ainda não é um grande escritor, mas pode vir a ser. Neste livro, por exemplo, há coisas que não me convencem: o excesso de pontos de exclamação; o narrador omnisciente que trata as personagens por tu; a escatologia de certos sonhos; algumas facilidades de linguagem (atribuíveis porventura à tradução); e o tom demasiado solene do comerciante «sábio».
Tudo o resto é brutal, belo, surpreendente. Neste livro não há soldados (nem sequer os russos), não há mujahedines, não há talibans, não há guerrilheiros da Aliança do Norte, não há homens barbudos a sucederem a outros homens barbudos numa espiral de despotismo, barbárie e destruição. Não há bombardeamentos de aviões americanos, nem marines a levantarem pedras, armados até aos dentes. Não há, sequer, uma rajada de Kalashnikov que alguém dispara ao fim do dia, na cidade mais próxima. E no entanto, tudo isso, as histórias que vieram depois, já estão aqui, nestas páginas, a germinar. Durante a ocupação soviética, o Afeganistão transformou-se num imenso cemitério, onde «os homens perderam toda a dignidade» e «os mortos são mais felizes do que os vivos». Nessa época, talvez ainda houvesse esperança, apesar de tudo, no meio dos destroços. Hoje, nem isso há.
Quando pouso o livro, acendo a televisão. A CNN mostra pela enésima vez as mesmas imagens. Homens de turbante desfeito, arrastando-se na lama. Crianças de olhos perdidos. A voz off não fala deles, claro. Fala de consensos políticos em Cabul e de movimentos das tropas americanas. Reparo num velho muito velho, tão velho como Dastaguir. Pela mão, leva uma criança que podia ser Yassin. A cena é muito triste. O que terá ele para contar ao filho?

Diário do Goncourt (2)

De Atiq Rahimi, um escritor afegão radicado em França desde 1985, já conhecia os dois romances publicados em Portugal pela Teorema: Terra e Cinzas (2001) e As Mil Casas do Sonho e do Terror (2004). Em ambos recordo um estilo muito lírico, entrecortado e cinematográfico, com cenas curtas e descrições precisas. Rahimi é também cineasta, tendo adaptado e filmado o seu primeiro romance, que apresentou no Festival de Cannes de há quatro anos.
Syngué sabour – Pierre de patience (P.O.L.), embora escrito directamente em francês (os outros foram traduzidos do persa), não traz grandes novidades estilísticas, mas revela um domínio ainda mais apurado das formas narrativas, que em Rahimi estão sempre enraízadas nas tradições, sobretudo orais, do seu país de origem.
Dedicado a uma «poeta afegã selvaticamente assassinada pelo seu marido», este romance é quase um manifesto feminista, um grito de denúncia contra os maus tratos a que são submetidas as mulheres no mundo inteiro – e não apenas nas sociedades islâmicas. Rahimi coloca, de resto, a acção da história «algures no Afeganistão ou noutro lugar».
A narrativa começa com uma espécie de zoom. Estamos num quarto pequeno, rectangular e vazio. Na parede, um punhal (kandjar) e o retrato de um homem jovem, de bigode. Deitado no chão, sob o retrato, está o mesmo homem, mas velho, esquelético, inerte e com um catéter espetado no braço, por onde corre um líquido incolor. Finalmente, surge uma mão feminina, pousada sobre o peito do homem, acompanhando a sua respiração, enquanto a outra mão se atarefa com as contas de um rosário. A mulher lê o Corão e repete, como um mantra, o décimo sexto nome de Deus: «Al-Qahhâr». E é o décimo sexto nome porque faz dezasseis dias que o homem, o seu marido, está naquele estado catatónico, entre a vida e a morte, com uma bala enfiada na nuca.
Definido o huis clos, Rahimi narra com uma minúcia que chega a ser exasperante o quotidiano da mulher: lavar o marido, pôr-lhe as gotas de colírio nos olhos, mudar as embalagens de soro (e, quando este acaba, enchê-las com água açucarada), tratar das duas filhas pequenas que não compreendem o silêncio e a imobilidade do pai.
À volta da casa, a cidade está em guerra. Explosões aleatórias, bombardeamentos, rajadas de Kalashnikov. E a mulher tenta ignorar esse caos, acertando os seus gestos e movimentos pela respiração cadenciada do marido. Mas aos poucos a dedicação feminina ao herói ferido, ao homem brutal que sempre preferiu a frente de batalha à vida familiar, vai sendo minada pelo desespero e pelo desamparo. A mulher começa a partilhar as suas memórias, os seus segredos, os seus pesadelos e a ajustar contas com o homem, dizendo o que nunca lhe seria permitido dizer se ele estivesse acordado e lúcido.
Na mitologia persa, chama-se syngué sabour a uma pedra mágica diante da qual as pessoas confessam as suas infelicidades e sofrimentos. A pedra escuta o que lhe é dito, absorve toda a tristeza e um dia parte-se, libertando quem a ela se entregou. É isso que acontece aqui. O marido catatónico é o syngué sabour da mulher, o pretexto para reflectir sobre as violências que sobre ela foram exercidas, sobre a memória de um casamento falso e sobre as faces mais secretas da sua vida íntima (incluindo a sexualidade). No fim, previsivelmente, a pedra parte-se. Isto é, o marido regressa do limbo onde vegetava, mas o desenlace é tudo menos libertador.
Com uma toada encantatória, Rahimi consegue erguer uma história cheia de simbolismos. Demasiados, até – pelo menos para o meu gosto. E não é só a saturação lírica que se torna por vezes cansativa. Há nesta escrita um voluntarismo demasiado centrado na urgência da denúncia e menos no equilíbrio dramático da obra, um problema que já detectara nos anteriores romances. Syngué sabour não é ainda o grande livro que Rahimi pode um dia vir a escrever, mas está mais próximo.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges