Parênteses

«Às vezes de noite – meditava naquela ocasião a Pulga – quando a insónia não me deixa dormir como agora e leio, faço um parênteses na leitura, penso no meu ofício de escritor e, olhando fixamente o tecto, por breves instantes imagino que sou, o que poderia ser se a isso me propusesse com seriedade desde manhã, como Kafka (claro que sem a sua existência miserável), ou como Joyce (sem a sua vida cheia de trabalhos para sobreviver com dignidade), ou como Cervantes (sem os inconvenientes da pobreza), ou como Catulo (ainda que contra o seu prazer em sofrer pelas mulheres, ou talvez por isso mesmo), ou como Swift (sem a ameaça da loucura), ou como Goethe (sem o seu triste destino de ganhar a vida no Palácio), ou como Bloy (apesar da sua firme inclinação para se sacrificar pelas putas), ou como Thoreau (apesar de nada), ou como Sóror Juana (apesar de tudo); nunca Anónimo; sempre Lui Même, o cúmulo dos cúmulos de qualquer glória terrestre.»

[in A Ovelha Negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso, tradução de Ana Bela Almeida, Angelus Novus, 2008]

Aproximações ao dinossáurio

Oito realizadores apresentam versões diferentes do célebre microconto de Augusto Monterroso: «Quando acordou, o dinossáurio ainda estava ali.»

[via BiblioFilmes]

Os pulmões (e o resto) de Monterroso

Bárbara Jacobs, viúva de Augusto Monterroso, doou o espólio do escritor guatemalteco à Universidade de Oviedo. São mais de cinco toneladas de manuscritos, desenhos, notas, arquivos, livros com dedicatórias, primeiras edições e todo o tipo de documentos, acumulados durante a vida pelo autor de centenas de geniais textos curtos mas apenas um romance (O Resto é Silêncio, Oficina do Livro, 2007).

desenho Monterroso
Toureiro desenhado por Monterroso (incluído no espólio)

Que no meio de tanta tralha, que inclui todos os prémios e condecorações atribuídos ao longo dos anos, conste uma radiografia dos seus pulmões e um calendário de 1986 (ilustrado pela imagem de uma pin-up, ao melhor estilo das oficinas de automóveis), diz bem da ironia com que Monterroso olhava para si mesmo e para esse território de ilusões a que chamamos posteridade.
Uma ironia bem expressa neste fragmento do livro Movimiento Perpétuo:

A LO MEJOR SÍ

Pero lo poco que pudiera haber tenido de escritor lo he venido perdiendo a medida que mi situación económica se ha vuelto demasiado buena y que mis relaciones sociales aumentan en tal forma que no puedo escribir nada sin ofender a alguno de mis conocidos, o adular sin quererlo a mis protectores y mecenas, que son lo más.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges