Energia Clinton para o motor de Obama

Com os seus cobiçadíssimos 13 votos no Colégio Eleitoral, a Virginia pode ser um dos «campos de batalha» eleitoral onde se desempatará, amanhã, uma das Presidenciais mais renhidas de sempre nos EUA. A média das muitas sondagens feitas nas últimas duas semanas apontam para uma ligeiríssima vantagem de Barack Obama sobre Mitt Romney (48% contra 47,7%), uma diferença ainda mais curta do que a verificada nos outros principais swing states: Ohio (2,9% para Obama), Florida (1,8% para Romney) e Colorado (0,6% para Obama). Acresce que este estado relativamente pequeno – oito milhões de habitantes – só se tornou azul (democrata) nas últimas eleições, em 2008, depois de ter sido vermelha (republicana) desde 1964.
Compreende-se assim a forte aposta no último comício de campanha na Virginia, sábado à noite, com a presença de dois presidentes dos EUA: o actual, em luta por um segundo mandato; e Bill Clinton, que governou o país em tempos de prosperidade (1993-2001) e se tornou um dos principais trunfos políticos de Obama, desde o seu galvanizador discurso na convenção democrata, em Setembro. No enorme anfiteatro ao ar livre de Jiffy Lube Live, em Bristow (Prince William County), 24 mil apoiantes levantaram cartazes azuis com a palavra-chave da campanha deste ano («Forward!») e não se cansaram de gritar «Mais quatro anos! Mais quatro anos!», colocando momentaneamente em suspenso a ideia, cada vez mais generalizada, de que a onda popular em torno de Obama é muito menos intensa este ano do que foi em 2008.
Em noite de temperaturas muito baixas (o termómetro desceu aos quatro graus, com rajadas de vento gélido), o comício começou por oscilar entre o religioso – uma oração dita por um pastor baptista – e o profano: o hino nacional cantado pela Miss América 2010, com toda a gente de mão no peito. Seguiu-se o primeiro discurso forte da noite, com ataques a Mitt Romney por parte do ex-governador e candidato ao Senado Tim Kaine, e o momento por que muitos espectadores esperavam: o mini-concerto acústico de Dave Matthews, que apareceu em palco de guitarra em punho, sem a sua banda, mas com repetidos apelos à necessidade de convencer toda a gente a votar em Obama.
A primeira grande explosão de euforia deu-se com a entrada em cena de Bill Clinton. Muito rouco, o antigo presidente começou por ironizar, encolhendo os ombros: «desculpem-me, mas perdi a voz ao serviço do meu presidente». Se perdeu a voz, não perdeu os dons de oratória, nem a capacidade de desferir golpe atrás de golpe a Mitt Romney e aos seus planos, que ameaçam «destruir tudo o que de bom foi feito por Obama até agora»: 5,5 milhões de novos empregos, a retirada das tropas do Iraque, os sucessos diplomáticos («conseguiu aumentar os nossos amigos no plano internacional e diminuir os nossos inimigos»), a aposta na reforma do sistema educativo (com a contratação de mais professores), a ampliação dos cuidados de saúde para todos, o salvamento da indústria automóvel. A propósito deste último tema, Clinton aproveitou para fazer um dos ataques mais duros a Romney, assinalando que o candidato republicano não só nada fez para salvar as grandes empresas de Detroit da falência como mentiu ao apoiar um anúncio em que se dizia que a Jeep ia deslocalizar postos de trabalho para a China (na realidade, vai fazer uma nova fábrica no Oriente, mantendo ou ampliando a força laboral nos EUA). Pior ainda, reincidiu na mentira em anúncios posteriores, lamentou Clinton. «Quando eu era pequeno, se me apanhavam a meter a mão na jarra dos bolinhos, corava e desaparecia dali para fora, envergonhado. Mitt Romney não só não cora como volta a meter a mão na jarra.» Pelo contrário, Obama tem carácter e «a filosofia certa», sendo o único que merece ganhar, resumiu no fim da sua intervenção, depois de garantir que está mais entusiasmado agora do que há quatro anos. Uma frase com algum grau de ambiguidade, diga-se, já que nas primárias de 2008 começou, naturalmente, por apoiar Hillary Clinton. Há de resto quem veja neste seu empenhamento uma forma de preparar o terreno para que a actual Secretária de Estado se lance na corrida à nomeação democrata em 2016.
Quando subiu por fim ao palanque, após um dia cansativo em que passou por três outros estados (Ohio, Wisconsin, Iowa), Obama não se esqueceu de agradecer a energia motriz que Bill Clinton confere à campanha: «Ele é o grande explicador (explainer-in-chief), o homem que nos mostra as coisas como elas são.» E lembrou que o rival republicano se opôs nos anos 90 ao plano económico de Clinton (cujo mandato terminou com um excedente orçamental histórico, logo depois desbaratado por George W. Bush): «A aritmética de Romney funcionou tão mal na altura como funciona agora.» Num discurso em crescendo, Obama reapropriou-se de um lema de 2008 («só nós sabemos o que a verdadeira mudança quer dizer»), recapitulou as suas promessas cumpridas e garantiu que irá fazer no segundo mandato o que não conseguiu no primeiro, muitas vezes por obstrução da maioria republicana no Congresso. «Não me importo de ficar ainda com mais cabelos brancos e estarei ao lado de todos os que, nos dois partidos, mostrarem vontade de resolver os problemas que enfrentamos» – uma referência indirecta ao governador republicano de Nova Jérsia, Chris Christie, com quem acompanhou esta semana os efeitos devastadores do furacão Sandy na costa atlântica.

De capuz amarelo na cabeça e manta vermelha sobre os joelhos, para se proteger do frio, Kindness Pigford sorria, exultante, a ouvir as palavras de Obama. Aos 45 anos, esta funcionária dos caminhos de ferro, na Virginia desde 2006 (antes vivia em Newark, numa casa alugada a um senhorio português), disse ao Expresso que os apoios sociais são um factor essencial da sua opção pelos democratas, até porque a filha de 26 anos, licenciada mas no desemprego, ainda não saiu de casa e depende dos seus parcos rendimentos. «Em caso de desinvestimento nos transportes públicos, eu posso ser despedida e não sei o que vai ser de nós. Tenho medo que o Romney ganhe, porque se ele ganhar vamos voltar ao século passado, com uma sociedade para os ricos e outra para os pobres.»

De calções, sweatshirt e boné de basebol, Daniel Marshall, 35 anos, admite que veio sobretudo pela música. «O Obama foi esperto em trazer o Dave Mathews. Muitos dos que vieram hoje são fãs. Ele é da Virginia, é um dos nossos.» Marshall trabalha numa estação de rádio especializada em programas desportivos e sempre viveu em Manassas, a poucos quilómetros de Bristow. «Não digo que seja perfeito, porque também cometeu erros, mas Obama é a nossa melhor escolha. Estamos aqui a ouvi-lo e vê-se que é alguém em quem se pode confiar.» Ao contrário de Romney: «Esse já mudou tantas vezes de opinião, e em tantos assuntos, que não consigo levar a sério nenhuma das suas propostas.»

Nos momentos finais do discurso, Obama pede um último esforço aos seus apoiantes: «Agora é a vez dos voluntários. É a vez de quem vai bater às portas. É a vez de quem faz os últimos telefonemas para convencer os indecisos. É a vossa vez. Porque, numa democracia, são vocês que têm o poder.» Sentada na plateia em êxtase, ajeitando a manta vermelha, sorrindo sempre, Kindness não podia concordar mais.

[Texto escrito em Washington, ao abrigo do programa José Rodrigues Miguéis, da FLAD, e publicado na edição online do jornal Expresso]

Grandes americanos

De Ti Eu Canto – Carta às Minhas Filhas
Autor: Barack Obama
Ilustrações: Loren Long
Título original: Of Thee I Sing : A Letter to my Daughters
Tradução: Maria Marques
Editora: Alêtheia
N.º de páginas: 35
ISBN: 978-989-622-262-8
Ano de publicação: 2010

Lançado em Novembro nos EUA, numa edição de meio milhão de exemplares que rapidamente entrou nas listas de best-sellers, De Ti Eu Canto – Carta às Minhas Filhas é o primeiro livro que Barack Obama publica desde que foi eleito presidente, em 2008. Poucas semanas após uma significativa derrota eleitoral, que lhe vai dificultar a governação nos próximos tempos, este volume destinado a crianças com idades entre os quatro e os oito anos funciona como um regresso às origens do projecto político de Obama, fundado num incondicional optimismo, num desejo de mudança e na fé inabalável de que a América pode mostrar de novo a sua melhor face ao mundo, depois dos anos negros da Administração Bush.
Como é evidente, o livro não pretende doutrinar as criancinhas. Mas também não é uma historieta anódina para ler à hora de dormir. Escrito para as filhas Sasha (hoje com nove anos) e Malia (doze), De Ti eu Canto pode ser visto como um tributo a 13 homens e mulheres que simbolizam, para Obama, o espírito americano e os princípios que foram moldando o país desde a sua fundação. Nas suas escolhas, há uma certa ideia da América que emerge: tolerante, multicultural, capaz de integrar as diferenças. Se algumas são óbvias (Albert Einstein, Martin Luther King, Neil Armstrong, Abraham Lincoln ou George Washington) e outras menos óbvias (Georgia O’Keeffe, Helen Keller, Billie Holiday ou Jackie Robinson, o primeiro negro a jogar numa equipa da primeira liga de basebol), outras há que são no mínimo surpreendentes, casos de Cesar Chavez, um sindicalista que defendia os direitos dos camponeses pobres (e que usou o slogan «Sí se puede», inspiração directa para o famoso «Yes, we can»), ou de Touro Sentado, o chefe sioux que fez frente ao governo dos EUA e derrotou Custer na batalha de Little Big Horn. Obama realça o facto de ele ter sido um curandeiro «que sarava corações partidos e promessas desfeitas», mas é previsível que os opinion makers republicanos não lhe perdoem a inclusão de uma tal figura no cânone dos heróis da nação.
A estrutura do livro é muito simples. Obama começa por dirigir-se directamente a Sasha e Malia, por baixo de uma ilustração em que as meninas marcham à frente de Bo, o cão presidencial de origem portuguesa: «Já vos disse como são maravilhosas? Como o som dos vossos passos a correr lá ao longe traz música ao meu dia?» As perguntas tornam-se depois mais específicas e são o pretexto para falar das tais figuras exemplares que encarnam as qualidades que o pai vê nas filhas: «Já vos disse que são inteligentes?» (Einstein), «Já vos disse que são bondosas?» (Jane Addams), etc. As perguntas aparecem sempre na página da esquerda, ao alto, enquanto na página da direita meia dúzia de linhas resumem o essencial da personalidade ou feitos do herói evocado. À esquerda, podemos ainda ver o dito herói ou heroína em criança, olhando para si próprio na idade adulta, diante de um grupo formado por Malia, Sasha e as crianças que foram surgindo nas páginas anteriores. O grupo vai crescendo até que no fim acaba por fundir-se com uma multidão de crianças anónimas. A moral da história é clara como a água: Obama não só reconhece as qualidades dos grandes americanos nas suas filhas, como as reconhece em todas as crianças do país, dando a entender que serão eles os grandes homens e mulheres do futuro.
Apesar da brevidade dos textos, encontramos neles a habitual eloquência de Obama, aqui e ali empolada por uma retórica delicodoce ou empobrecida pelo recurso a lugares-comuns (Jackie Robinson «balançava o taco com a graça e a força de um leão»; Luther King «deixou-nos o sonho de que todas as raças e credos caminhem de mãos dadas»; a voz de Billie Holiday, «plena de tristeza e de alegria, tocava fundo nos corações»; etc.). Mas Obama quando acerta no tom, acerta em cheio. Veja-se a descrição que faz de Georgia O’Keeffe: «Uma mulher chamada Georgia O’Keeffe foi viver para o deserto, onde pintou pétalas, ossos, cascas de árvores. Ajudou-nos a ver beleza nas pequenas coisas: na dureza da pedra e na suavidade das penas.» O efeito destas evocações singelas é aumentado pela subtileza das magníficas ilustrações de Loren Long. Por exemplo: o rosto de Touro Sentado é formado com elementos da paisagem em que vivia (cavalos, bisontes, árvores, a terra, o crepúsculo), enquanto o de Maya Lin, que aos 21 anos desenhou o memorial aos veteranos do Vietname, em Washington, aparece reflectido na parede de basalto do monumento.
Obama escreveu o livro antes de entrar para a Casa Branca, em Janeiro de 2009, e junta-se a outros dois presidentes que também publicaram livros para crianças: Theodore Roosevelt (Hero Tales from American History) e Jimmy Carter (The Little Baby Snoogle-Fleejer), embora estes apenas o tenham feito depois de abandonarem o cargo. Segundo a Associated Press, Obama enriqueceu à conta dos seus primeiros livros (A Minha Herança e A Audácia da Esperança, ambos publicados em Portugal pela Casa das Letras), com os quais terá feito, desde 2007, mais de 12,5 milhões de dólares em direitos de autor. Neste caso, porém, não receberá um único cêntimo, uma vez que já destinou a parte que lhe cabe nas vendas a um fundo de bolsas escolares para filhos de soldados mortos ao serviço dos EUA.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

E se Obama fosse poeta?

Poeta, poeta, não será, mas o certo é que publicou dois poemas, aos 18 anos, numa revista literária chamada Feast. A revista New Yorker pediu uma opinião sobre os versos a Harold Bloom, um dos mais respeitados críticos literários dos EUA. Se o Obama estudante lhe tivesse mostrado os textos, diz Bloom, ele não teria alimentado ilusões («Your future is not as a person of letters»), mas admite que um dos poemas (Pop) «não é mau» e que o actual presidente já era, na altura, «a much better poet than our former Secretary of Defense William Cohen, who keeps publishing terrible poetry».
Eis os dois poemas:

POP

Sitting in his seat, a seat broad and broken
In, sprinkled with ashes,
Pop switches channels, takes another
Shot of Seagrams, neat, and asks
What to do with me, a green young man
Who fails to consider the
Flim and flam of the world, since
Things have been easy for me;
I stare hard at his face, a stare
That deflects off his brow;
I’m sure he’s unaware of his
Dark, watery eyes, that
Glance in different directions,
And his slow, unwelcome twitches,
Fail to pass.
I listen, nod,
Listen, open, till I cling to his pale,
Beige T-shirt, yelling,
Yelling in his ears, that hang
With heavy lobes, but he’s still telling
His joke, so I ask why
He’s so unhappy, to which he replies…
But I don’t care anymore, cause
He took too damn long, and from
Under my seat, I pull out the
Mirror I’ve been saving; I’m laughing,
Laughing loud, the blood rushing from his face
To mine, as he grows small,
A spot in my brain, something
That may be squeezed out, like a
Watermelon seed between
Two fingers.
Pop takes another shot, neat,
Points out the same amber
Stain on his shorts that I’ve got on mine, and
Makes me smell his smell, coming
From me; he switches channels, recites an old poem
He wrote before his mother died,
Stands, shouts, and asks
For a hug, as I shink, my
Arms barely reaching around
His thick, oily neck, and his broad back; ‘cause
I see my face, framed within
Pop’s black-framed glasses
And know he’s laughing too.



UNDERGROUND

Under water grottos, caverns
Filled with apes
That eat figs.
Stepping on the figs
That the apes
Eat, they crunch.
The apes howl, bare
Their fangs, dance,
Tumble in the
Rushing water,
Musty, wet pelts
Glistening in the blue.

Tiago Nené traduziu os dois poemas para português, aqui.

As primárias no caucus das livrarias

Nos EUA, depois da derrota no Iowa, Hillary Clinton vingou-se no New Hampshire e acredita estar finalmente no caminho certo para ser escolhida como candidata do Partido Democrata à eleição presidencial de Novembro. Ainda assim, na frente editorial, Barack Obama leva-lhe grande avanço (talvez devido ao apoio de Oprah Winfrey). Segundo o Nielsen BookScan, o seu livro programático, The Audacity of Hope, que esta quarta-feira chegou ao top-20 da Amazon, vende sete mil exemplares por semana e as suas memórias, Dreams From My Father, dois mil. Já Living History, da ex-primeira dama, fica-se pelos mil exemplares semanais.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges