Inventário de assombros

Contos Carnívoros
Autor: Bernard Quiriny
Título original: Contes Carnivores
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: Ahab
N.º de páginas: 233
ISBN: 978-989-97228-0-4
Ano de publicação: 2011

Por vezes, há livros que provocam uma inveja saudável: «Caramba, como eu gostava de ter escrito isto.» Ou uma certa raiva: «Mas porque não me ocorreu a mim, em devido tempo, tão espantosa ideia?» Contos Carnívoros, de Bernard Quiriny, é um desses livros. Depois dos cumes a que Jorge Luis Borges a elevou, poderia pensar-se que a literatura fantástica estava condenada ao declínio, à repetição, ao pastiche, ao esgotamento. Este jovem autor belga (n. 1978) prova precisamente o contrário. E não é, evidentemente, caso único. As extraordinárias narrativas deste seu segundo livro representam mesmo, para quem a elas se saiba entregar, um atestado de vitalidade criativa de um género que já nos ofereceu no passado – de Edgar Allan Poe a Julio Cortázar ou Italo Calvino – um sem-número de obras-primas.
Para além do recorte clássico da escrita (muito trabalhada, elegante, buriladíssima), o que mais impressiona nas 14 histórias de Quiriny é o rigor da sua construção e o esmero do acabamento literário. Cada conto revela uma unidade perfeita, em que um certo conjunto de ideias ou pressupostos são testados e explorados até aos limites da sua potencialidade narrativa, até ao cerne da sua lógica interna. O modelo recorrente consiste no embate (umas vezes divertido, outras inquietante) de personagens vulgares com situações inauditas, quase sempre anomalias da percepção ou fenómenos sobrenaturais. Como as histórias são narradas na primeira pessoa, o leitor partilha o espanto, os medos, as angústias e as epifanias dos protagonistas, vive o desconcerto por dentro, sofre na pele os mecanismos do absurdo, e acaba por aceitar a precária verosimilhança do que lhe vai sendo descrito.
Logo no primeiro conto, Sanguínea, deparamos com uma mulher que tem o corpo literalmente coberto por casca de laranja, uma mulher-citrino que se deixa beber pelo seu amante. Dito assim, parece um disparate grotesco. Lido no papel, é uma fantasmagoria erótica lancinante, que fica a pairar na memória como uma assombração. Outro exemplo: o bizarro ovo humano que um artista pinta em A ave rara. Ou o bispo cuja alma se divide entre dois corpos (O episcopado da Argentina), invertendo a situação da mais conhecida personagem de Stevenson – Dr. Jekyll/Mr. Hyde – que tinha num só corpo duas almas. Há depois quem beba o que não é suposto beber (Uma embriaguez perpétua), quem oiça o que não é suposto ouvir (Qui habet aures…), quem veja o que não é suposto ver (Miscelâneas amorosas). E há quem encomende a própria morte por razões artísticas ou por enfado (Recordações de um assassino a soldo).
Os leitores que se aventurarem nestas páginas ficarão também a saber o que são «homonimografias», em que consiste o «gaudiofone» e o que leva pessoas aparentemente sãs a atravessarem a Europa para assistirem, em êxtase, ao triste espectáculo de uma maré negra a chegar às praias galegas. Expansiva, a fantasia de Quiriny cria ainda catálogos inteiros de músicos e escritores imaginários, com destaque para uma personagem-fetiche que surge em vários contos e já aparecia no livro anterior: Pierre Gould, autor sem obra, homem tímido, excêntrico e desligado da realidade, que tem como lema «Já não acreditar senão nas lendas» e talvez seja o duplo de Quiriny. Ou seja, o verdadeiro autor destes Contos Carnívoros, como sugere Enrique Vila-Matas no seu brilhante posfácio, cheio de malícia e alguma da tal saudável inveja.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

Impaciência

«A impaciência de Pierre Gould não tem limites. No dia em que, sendo jovem, decidiu que seria escritor, começou por redigir uma nota testamentária para legar os seus futuros manuscritos à Biblioteca Nacional. No dia seguinte, andava pela cidade à procura de tradutores. No terceiro dia, registava duzentos títulos no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual. No quarto, telefonava aos jornalistas para garantir boas críticas. E dez anos mais tarde, evidentemente, continuava sem ter escrito uma palavra.»

[in Contos Carnívoros, de Bernard Quiriny, trad. de Miguel Serras Pereira, Ahab, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges