Quando Bret Easton Ellis ataca David Foster Wallace

Aconteceu no Twitter. Ao ler a biografia de David Foster Wallace, de D. T. Max, o autor de Menos que Zero decidiu descarregar a sua fúria sobre o autor de Infinite Jest. Além de ver em DFW o escritor mais entediante, sobreavaliado e pretensioso da sua geração, Easton Ellis chega ao ponto de o considerar uma «fraude». A bílis recai também sobre os admiradores de DFW. Pela minha parte, os seis tweets resumem-se em três palavras: dor de cotovelo.

Sexo, mentiras e niilismo

Quartos Imperiais
Autor: Bret Easton Ellis
Título original: Imperial Bedrooms
Tradução: José Luís Luna
Editora: Teorema
N.º de páginas: 177
ISBN: 978-972-695-929-8
Ano de publicação: 2010

Em 1985, Bret Easton Ellis irrompeu na cena literária norte-americana com Menos Que Zero, escrito no final da adolescência e publicado quando o autor não tinha mais do que 21 anos. Num estilo neutro e seco, Ellis fazia o retrato brutal de uma certa juventude: a dos miúdos ricos de Los Angeles. Narcisos sombrios e passivos, entregues ao hedonismo mais desbragado, eles simbolizavam ao mesmo tempo o apogeu da euforia consumista dos anos 80 (materializada no culto obsessivo das marcas) e a apoteose do tédio, que os conduzia à indiferença absoluta e à amoralidade mais crua — claramente nos antípodas do idealismo, por vezes ingénuo, das gerações anteriores.
Vinte e cinco anos, quatro romances e um livro de contos mais tarde, Ellis regressa, com Quartos Imperiais (editado em Junho nos EUA), a Los Angeles e às personagens de Menos Que Zero. Como estas não faziam planos para o futuro, insistindo em viver numa espécie de presente perpétuo e desligado da realidade, não espanta que trabalhem agora no mundo do cinema, ou gravitem em seu redor. Há produtores, cineastas, fura-vidas de Hollywood. Julian passou de prostituto a proxeneta de luxo. Rip Millar, o traficante de droga, subiu uns bons degraus na hierarquia do crime. E Clay, o narrador, tornou-se argumentista.
É nessa qualidade, aliás, que volta a L. A. para participar no casting de um filme que escreveu. Ao envolver-se com uma actriz candidata a um dos papéis, deixa-se arrastar para uma alucinante trama de perseguições, mentiras, paranóia, homicídios e traições. Mas se o enredo aparenta ser labiríntico e desconcertante, na linha dos romances negros de Raymond Chandler, logo abre brechas, mostrando que é só confuso, mal estruturado e francamente aborrecido. Em certas passagens, há ecos de Lunar Park (a materialidade do fantasma que assombra a casa) ou de Psicopata Americano (a violência extrema das cenas de tortura, descritas com a frieza de um paisagista), embora a narrativa não ganhe nada com isso. Antes pelo contrário, torna-se ainda mais opaca e gratuita.
Quartos Imperiais podia e devia ser um prolongamento de Menos Que Zero. Na prática, é uma repetição. Os mecanismos são os mesmos. Toda a gente explora toda a gente. Toda a gente manipula toda a gente. O niilismo, a misoginia e a misantropia são os mesmos (resumidos na frase final: «Nunca gostei de ninguém e tenho medo das pessoas»). O poder do dinheiro também é o mesmo, sinalizado pela exibição ostensiva da riqueza: limusinas e automóveis topo de gama, festas com celebridades, condomínios fechados, restaurantes da moda nas zonas mais caras (Beverly Hills, Sunset Boulevard, Bel Air). E as personagens nunca bebem uma água mineral qualquer; bebem Fiji. Isto no intervalo das linhas de coca, do sexo selvagem, da troca de mensagens no iPhone ou da dose de Xanax, claro.
Entre 1985 e 2010, houve o fim da Guerra Fria, o ataque às torres gémeas, os anos Bush, as guerras no Iraque e no Afeganistão, a crise do subprime, um presidente negro na Casa Branca. Nada disso transparece em Quartos Imperiais, o que não deixa de ser sintomático. No fundo, talvez Ellis mereça a frase que Clay lhe dirige logo no início do livro, quando se queixa da forma como o autor de Menos que Zero fixou a sua história: «Foi simplesmente alguém que passou a flutuar pelas nossas vidas sem parecer importar-se com o modo superficial como viu toda a gente.»

Avaliação: 3,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A sinceridade de Bret Easton Ellis

«Tem uma bela voz…
Toda a gente me diz o mesmo, mas eu não sou capaz de me ouvir nem de me ver e não leio as críticas aos meus livros. Na semana passada, aqui nos Estados Unidos, fui ao “Charlie Rose Show” – muito popular entre os escritores – e só ontem à noite, depois de beber uns copos, é que consegui ver o programa. Estava a passar-me completamente, mas as pessoas dizem-me que eu estava óptimo e até a minha mãe me telefonou para dizer “Querido, estavas fantástico, tão bonito e maravilhoso na televisão”. Eu acho que estava horrível.
Diz isso para que, tal como a sua mãe, lhe digamos que tem uma imagem excelente…
Talvez. A verdade é que a minha autoconfiança é mínima, o que me faz sofrer muito.
Não pense mais nisso, isto é uma entrevista pelo telefone.
Mas eu estou muito preocupado com a entrevista. Sou um escritor que já não quer ser entrevistado, que já não quer fingir que sabe o que deve dizer em relação ao seu trabalho, que já não sabe as respostas. É este o ponto da situação.»

Início da entrevista de Bret Easton Ellis a Helena Vasconcelos, a propósito da edição portuguesa de Quartos Imperiais (Teorema), publicada hoje no suplemento ípsilon, do Público.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges