A pulga e o elefante


À esquerda, Bruce Holland Rogers (elefante); à direita, o autor deste blogue (pulga); ao centro, Pedro Marques (editor da Livros de Areia) – Foto: Mariana Tavares

O título da sessão de ontem na Pó dos Livros era simpático – Birds & Butterflies – mas, se quisermos ser zoologicamente correctos, aquilo foi mais o encontro de uma pulga (eu) com um elefante (o Bruce). Aliás, fiz questão de o dizer logo de início, mais para sinalizar a diferença de escala literária do que outra coisa. Se tiverem dúvidas, procurem o paquidérmico currículo do meu companheiro de mesa e compreenderão o que quero dizer.
Com leituras cruzadas, em português e inglês, intervaladas por reflexões sobre a nobre arte da micronarrativa, a conversa fluiu e os espectadores, que foram chegando e ficando, não terão dado por mal empregue, creio, aquele fim de tarde numa das melhores livrarias de Lisboa, minuciosamente descrito neste post do excelente blogue de Maria João Freitas.
No fim, aproveitei para me tornar subscritor do Bruce: por dez dólares anuais, receberei as suas histórias em primeira mão, via e-mail. E como paguei em euros, moeda que continua mais forte do que o dólar, o Bruce fez questão de me dar troco. Um generoso troco de cinco mil milhões de dólares:

Cinco mil milhões de dólares do Zimbabué, entenda-se. Ou seja, pouco mais do que nada. Mas a nota é extraordinária em si mesma (na forma como simboliza o descontrolo económico e a inflação galopante, em contraste com o grafismo sóbrio e a aparente solidez das rochas empilhadas na paisagem). Talvez inspire uma micronarrativa, um dia destes.
Ideias: entre escritores, não há melhor forma de pagamento.

Sábado à tarde

O Mau Leitor

O mau leitor começa a ler um conto intitulado O mau leitor e julga, a príncipio, tratar-se da história de uma personagem fictícia chamada “o mau leitor”. Só depois da primeira frase é que o mau leitor se apercebe que o conto talvez esteja dirigido simplesmente ao leitor que, agora mesmo, lê estas palavras. De que forma pode um leitor ser considerado mau? Antes, que leitor não é por vezes um mau leitor?
O mau leitor consegue lembrar-se de pelo menos um exemplo de ter sido mau, de ter visto “É uma hora” quando, na realidade, a frase dizia “É uma nora”. O mau leitor recorda-se de não ter apanhado aquela pista que todos parecem ter descoberto na história policial. Ou talvez o mau leitor não se recorde de nenhuma ocorrência de má leitura, sendo que, nesse caso, o leitor tem memória fraca ou uma imaginação pobre. Há mais do que uma forma de se ser mau leitor.
Nesta altura da história, o mau leitor começa a ofender-se com o escritor. Decerto haverá algum princípio da escrita que este conto viola. Um escritor que insulta o seu leitor só pode ser parvo. Os leitores não querem insultos. Um mau leitor, um que não seja suficientemente astuto para detectar o objectivo da história, é capaz de se enervar bastante ao ser insultado. O mau leitor é capaz de achar que um conto intitulado O mau leitor não é nada um conto, mas um acto de vingança. O mau leitor é capaz de achar que o preguiçoso do escritor o ataca em vez de se dar ao trabalho de escrever um conto a sério.
Na realidade, é igualmente provável que o leitor ache muita graça ao texto. Eis a que ponto é mau este leitor. Eis a que ponto pode ao mau leitor escapar o sentido da coisa.
Perto do final, o mau leitor chega a uma frase animadora: “O mau leitor lê na divisão mais pequena da casa.”
Ora, quem não lê na divisão mais pequena da casa? Mas o mau leitor pensa, Não sou o mau leitor descrito no conto. Também leio noutras divisões!
O mau leitor experimenta uma sensação de tranquilidade. Uma sensação enganadora.
O mau leitor, tendo terminado a leitura do conto, não voltará a pensar nele. Ou, pior, continuará a pensar no conto sem lhe discernir o verdadeiro e subtil significado.

© Bruce Holland Rogers (texto)
© Luís Rodrigues (tradução)

The Bad Reader

The bad reader begins to read a story called “The Bad Reader” and thinks at first that the story will be about a fictional character called “the bad reader.” Only after the first sentence does the bad reader consider that the story may actually be aimed squarely at the reader who is, even now, reading these words. In what sense can the reader be considered bad? Rather, what reader is not sometimes the bad reader?
The bad reader can think of at least one example of having been bad, of having seen “It was hot Tuesday” when the sentence actually read “It was not Tuesday.” The bad reader remembers having missed the clue that everyone else seems to have detected in the detective story. Or perhaps the bad reader can think of no instances of bad reading, in which case the reader has a poor memory or a weak imagination. There is more than one way to be a bad reader.
At this point in the story, the bad reader begins to resent the writer. Surely there is some principle of writing that this story violates. A writer who insults the reader must be a fool. Insults are not what readers want. A bad reader, one who isn’t smart enough to detect the purpose of the story, might get quite worked up about being insulted. The bad reader might feel that the story called “The Bad Reader” is not a story at all but an act of revenge. The bad reader might think that the lazy writer is attacking the reader instead of doing the hard work of writing a real story.
Actually, the bad reader is just as likely to think that the story is clever. That’s how bad the bad reader is. That’s how badly the bad reader can miss the point.
Near the end, the bad reader comes to a reassuring sentence: “The bad reader reads in the smallest room of the house.” Well, who does not read in the smallest room of the house? But the bad reader thinks, I am not the bad reader portrayed in this story. I read in other rooms as well!
The bad reader feels a sense of assurance. A false sense.
The bad reader, having finished reading the story, will not give it another thought. Or, worse, will keep thinking about the story without teasing out its true and subtle meaning.

© Bruce Holland Rogers

Um conto inédito de Bruce Holland Rogers

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Bruce Holland Rogers, o escritor com quem era suposto encontrar-me em Julho, é um mestre da ficção curta. Além de um site dedicado à flash fiction, ele criou um sistema de assinaturas através do qual, por uma módica quantia (dez dólares anuais), os seus leitores recebem 36 histórias, ao ritmo de três por mês. É precisamente uma dessas histórias, enviada por e-mail há poucas semanas e nunca antes publicada em livro (ou noutro formato), que o Bibliotecário de Babel se orgulha de publicar já a seguir, primeiro na versão original e depois traduzida para português por Luís Rodrigues, nem mais nem menos do que o tradutor de Pequenos Mistérios (Livros de Areia), a primeira obra de Rogers editada no nosso país.
Enjoy.

[A ambos, Bruce Holland Rogers e Luís Rodrigues, o meu agradecimento.]

Uma pena

Regresso a casa, abro o GMail e deparo logo com a má notícia: por motivos de força maior, o escritor Bruce Holland Rogers teve que cancelar a sua vinda a Portugal. Logo agora que eu me preparava para defender a honra dos lepidópteros face à biologicamente comprovada superioridade dos passariformes:

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Espero que o encontro de quarta-feira não tenha sido cancelado de vez mas apenas, como diria o Rogers, postponed.

Silêncios, elipses, epifanias

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Pequenos Mistérios
Autor: Bruce Holland Rogers
Título original: The Keyhole Opera
Tradução: Luís Rodrigues
Editora: Livros de Areia
N.º de páginas: 234
ISBN: 978-989-81180-2-8
Ano de publicação: 2007

Querem saber qual foi para mim a maior revelação de 2007, no que à literatura estrangeira publicada em Portugal diz respeito? Então anotem: Bruce Holland Rogers. Não é ainda um nome de primeira linha nos EUA, longe disso, mas tem tudo para vir a ser, sobretudo se se libertar da conotação com o género fantástico, que como se sabe é um empecilho para quem pretenda triunfar fora daquela espécie de “gueto” literário.
Aos 49 anos, este nativo de Tucson, Arizona, já ganhou dois prémios Nebula, um Bram Stoker e dois World Fantasy Awards. Mas reduzi-lo a um só género seria tão injusto como dizer que Eusébio só sabia marcar golos de penalty.
Basta ler este precioso volume de contos, editado com o habitual esmero gráfico da Livros de Areia, para perceber que Rogers não é catalogável. Embora tenha sido com esta obra que obteve o World Fantasy Award em 2006, não esperem narrativas com naves espaciais, universos paralelos ou relatos de História alternativa. Há vários momentos de terror e mistério, sim, passam-se por vezes coisas estranhas, obscuras e inexplicáveis, sim, mas também há muitos contos sobre a vida de todos os dias, com personagens normalíssimas em situações normalíssimas, pessoas que vão às compras, dão aulas e podiam estar num livro de Raymond Carver. Ou seja, a escrita de Rogers é sempre fantástica, se fantástica for mais um adjectivo do que um substantivo.
O único denominador comum dos 40 contos aqui reunidos é a concisão. Bruce Holland Rogers é um mestre do que se convencionou chamar short short stories (histórias mesmo muito curtas) e oferece-nos em Pequenos Mistérios um vasto catálogo de textos em que a dimensão mínima é inversamente proporcional ao efeito que a prosa — muito trabalhada, com requintes de ourives — provoca no leitor desprevenido.
Rogers tem um fraquinho por fábulas e alegorias, por vezes com inspiração mitológica. Não faltam homens que se tornam golfinhos ou corações que se convertem em melros de asa vermelha. E variações sobre o medo, a morte, a esperança, o mundo dos sonhos, sempre com um desenlace irónico que coloca as histórias a salvo de moralismos fáceis. Há ainda divertidíssimos exercícios sobre a própria escrita literária, momentos em que Rogers espicaça o leitor ou lhe tira o tapete, mostrando os bastidores do jogo ficcional e a forma como o autor todo-poderoso, lá atrás, na sombra, vai mexendo os cordelinhos, as alavancas e as roldanas.
As melhores narrativas, porém, são as mais simples de todas, aquelas que não carecem de quaisquer artifícios e parecem existir desde sempre, à espera de quem fosse capaz de as contar. Histórias cheias de silêncios, elipses, gestos precisos e suaves epifanias. Histórias inesquecíveis, como Os poetas menores de San Miguel County, Para leste, Brancos mortos ou O plano maior que ofusca o céu e a terra.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges