Bairro Amélia, meu amor

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As Primeiras Coisas
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 301
ISBN: 978-989-722-121-7
Ano de publicação: 2014

No magnífico prólogo de As Primeiras Coisas, primeiro romance de Bruno Vieira Amaral, o narrador regressa ao fictício Bairro Amélia, na Margem Sul do Tejo, onde cresceu. Cerca de dez anos antes, saíra de lá «convicto da vitória» que representaria o afastamento definitivo daqueles prédios de «paredes encardidas», mas agora está de volta, sob o «fardo» do fracasso. À beira do divórcio, «cabisbaixo», «desempregado», «desamparado», fica em casa da mãe e confronta-se com um universo que em parte já não reconhece.
A sua «sensibilidade apocalíptica» leva-o a pensar nos sobreviventes de Hiroxima, expostos a um «clarão absoluto que os cegou». Tal como esses hibakusha, ele sente que transpôs um limiar qualquer, a partir do qual se alteram os mecanismos da percepção. Com a ajuda de um fotógrafo, Virgílio, embarca numa descida aos círculos infernais da memória, materializados em cada recanto do bairro que só o guia de ressonâncias dantescas, pedalando na sua bicicleta, conhece em toda a extensão – esse «grande labirinto» que lhe é agora «tão estranho como uma terra fictícia, não cartografada». As histórias vêm de todo o lado, amontoam-se, sucedem-se, entrelaçam-se e fixam-se, havendo nelas a «beleza mortal» da «sombra que os objectos varridos da face da terra pela explosão nuclear deixam nas paredes». Bruno, o narrador, acredita que «também nós deveríamos olhar para as coisas sob esse novo ângulo de luz, passando os dedos pelas arestas invisíveis, estabelecendo ligações musicais», porque haverá «em toda esta sequência aparentemente aleatória de acontecimentos não uma ordem metafísica mas, sem dúvida, uma harmonia, um ritmo, uma canção, um segredo que não se ouve, que não se vê e, no entanto, existe».
A harmonia tem de ser reconstituída pelo leitor, enquanto avança pelo corpo do romance, que mais não é do que um «dicionário incompleto» de figuras humanas singularíssimas ou banais, com as suas tragédias, melancolias, crendices, actos de grandeza ou malvadez. BVA descreve com extraordinária precisão (e conhecimento de causa) a vida num bairro ocupado por retornados nos anos 70, sem nunca cair em simplismos sociológicos. O que lhe interessa é registar os sobressaltos das vidas simples, os «movimentos orgânicos» da comunidade, o lastro de um lugar (dado através do inventário de sons, de nomes, de comidas ou de sítios para namorar), mas sobretudo fazer-nos sentir o inefável «peso das coisas» que mantém as pessoas presas ao chão. A variedade de registos, que inclui inflexões irónicas (nomeadamente no recurso a intratextualidades e a desconcertantes notas de rodapé), confirma o talento do prosador e a solidez do seu olhar. O olhar de um verdadeiro escritor, capaz de frases perfeitas como esta: «A tristeza de dona Cremilde era um incêndio circunscrito que não se propagara ao resto do corpo.» Ou esta: «Os mortos não ignoram mais sobre a morte do que nós, os vivos, ignoramos sobre a vida.»
O epílogo, em tom elegíaco, traz-nos páginas que estão entre as mais belas da literatura portuguesa recente, confirmando o fôlego raro desta estreia triunfal.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado na revista Ler]

Post do mês

Este extraordinário pequeno texto de um grande romancista adiado.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges