Há mais vida para além da Feira

Na livraria Byblos, por exemplo, começa hoje o ciclo “Letras do Mundo” dedicado a Israel. Até 5 de Junho, haverá palestras, concertos, leituras e a oferta de um livro de Amos Oz a quem comprar um dos mais de cem títulos de autores israelitas em exposição.

O Luís Januário veio a Lisboa e foi à Byblos

Não sei se comprou algum livrinho, o LJ, mas pelo menos trouxe de lá um poema:

Esta livraria é grande demais para mim
A estante de FILOSOFIA, hèlas,
é difícil de distinguir da AUTOAJUDA
Enganaram-se trocaram os carros das reposições
ou trocaram a sinalética
ou os olhos
E a estante da LUSOFONIA tem o mesmo
ar desamparado
subsidiado mal lido
mal fodido dos lusófonos
E nos GUIAS de VIAGENS
falta Berlim o meu destino
A Escócia Islândia o deserto
de Atacama
E nos visores de procure você mesmo
os meus autores Roth, o Joseph,
Blanchot, Bolaño, Ángel Vásquez
estão indisponíveis peça ajuda
Felizmente que existe a Alícia Galloti
Aqueço-me à 14ª edição revista e
melhorada como a uma lareira
e como na Blackwell de Leicester em tempos
de emigrante quando olhos parados
no divino triângulo a tesão doía
e a mesma humidade embaraçava

Byblos à moda do Porto

Segundo notícia do DN, a segunda livraria Byblos vai ficar instalada na Praça de Lisboa, junto à Torre dos Clérigos, no centro do Porto. Inserida num projecto de reabilitação urbana liderado pela Bragaparques (olha quem), a nova loja vai ser ainda maior do que a das Amoreiras e supõe-se que igualmente sofisticada. Contudo, tendo em conta as muitas falhas que o projecto lisboeta revelou — tanto ao nível tecnológico como de oferta livreira (o famoso fundo editorial continua incompleto) — talvez fosse melhor afinar a máquina antes de entrar outra vez em delírios de grandeza e promessas megalómanas que enchem o olho da imprensa mas depois ficam por cumprir.
De resto, todos os males fossem esses. Por zunzuns que me chegaram aos ouvidos, o ambiente nas Amoreiras anda de cortar à faca, devido a questões salariais que já motivaram a saída de pelo menos quatro funcionários e estão a causar enorme mal-estar nos que ficaram.

Byblos - Dia 2

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Hoje à tarde, cerca das 18h00, a Byblos estava assim nos dois pisos: cheia de gente e com filas nas caixas. Pelos vistos, a dificuldade dos acessos pode não ser um problema se o boca-a-boca funcionar e se a moda do “ir à Byblos” se for instituindo como se instituiu o “vemo-nos na Fnac”. Uma funcionária com quem falámos, e que andava de um lado para o outro a um ritmo alucinante, garantiu que da parte da manhã a “invasão” ainda foi maior e que as vendas dos dois primeiros dias estavam a superar, de longe, as melhores expectativas.

Ganho o primeiro round, é previsível que o negócio corra bem, pelo menos até ao Natal. Depois disso, cá estaremos para fazer o balanço. 

Quanto mais alta a parada, mais alta a exigência

Que a Byblos tenha sido inaugurada com uma semana de atraso e pouco mais de metade da oferta prometida (80 mil dos 150 mil títulos), compreende-se. Os atrasos dos fornecedores, em Portugal, são a norma e não é fácil pôr de pé uma estrutura tão grande. Mas que o site da livraria continue inoperacional um dia depois da abertura ao público, e nem sequer exista um esboço na Internet (ou fora dela) da badalada “vasta programação cultural”, isso é que já não se percebe.

Quando uso a palavra inoperacional, refiro-me essencialmente à função de pesquisa. E posso dar exemplos. Há cinco minutos, procurei o que havia sobre António Lobo Antunes e obtive “2 artigos encontrados”: as Actas do Colóquio Internacional da Universidade de Évora e as Conversas com a jornalista espanhola María Luisa Blanco (ambos editados pela Dom Quixote). Romances, nem um para amostra. Tentei depois José Saramago. Solitário, o artigo encontrado era o ensaio Para uma Leitura de “Memorial do Convento”, de António Moniz (Presença). Quanto ao próprio Memorial do Convento, nada. E os outros romances todos do Nobel da Literatura, zero.

O vazio estende-se às novidades. Quem queira encomendar os últimos best-sellers de Miguel Sousa Tavares ou de José Rodrigues dos Santos depara-se com a frase: “Não foram encontrados resultados no Catálogo Byblos que obedeçam aos critérios de pesquisa indicados.”

Haverá decerto razões que expliquem isto, mas nenhuma apagará a péssima imagem que os primeiros potenciais clientes já formaram de um serviço que se proclamava inovador na área do comércio online.  

Primeiras impressões

Ainda é cedo para formar uma opinião sobre a Byblos. Em dia de inauguração solene, com gente a mais e sem ter experimentado as novidades tecnológicas, não foi possível aferir as vantagens e desvantagens do «novo conceito de livraria». Eis de qualquer forma, telegráficas, as minhas primeiras impressões:

Aspectos positivos

  • O espaço. Amplo, bem pensado, com recantos e nichos que criam pequenos habitats autónomos, dentro do ecossistema global da Byblos. Apesar da imensa extensão da loja, nunca sentimos o seu gigantismo. É como se houvesse várias livrarias dentro da livraria.
  • A utilização. É fácil circular e aceder aos livros. A informação está em todo lado (através de plasmas) mas sem ser impositiva. Usando a terminologia informática, este é um modelo user friendly.
  • A oferta. Há muito por onde escolher. Muito mesmo. E o que não fica à vista está no armazém, acessível em poucos minutos (se o prometido fundo editorial funcionar). Para já, fiquei com vontade de explorar melhor a secção dos livros estrangeiros, que me pareceu bem fornecida.
  • O potencial. Quando estiver a funcionar a 100%, a Byblos pode tornar-se um ponto de encontro para quem não se contenta em dar uma vista de olhos nas novidades. E um perigoso sorvedouro para bibliófilos com cartão de crédito.  

Aspectos negativos

  • O acesso. Um dos grandes segredos para o sucesso da Fnac foi o facto de se ter instalado em lugares próximos de estações de metro. A Byblos, pelo contrário, ocupa dois pisos de um edifício na fronteira entre as Amoreiras e Campo de Ourique. Ir para ali de transportes públicos parece-me complicado. Levar carro, idem aspas: faltam lugares de estacionamento nas redondezas e os parques enchem com facilidade (para além de não serem baratos). A haver um calcanhar de Aquiles no projecto, pode muito bem estar aqui.
  • A arrumação. A Byblos foi montada em contra-relógio e isso, na primeira noite, notou-se. Se algumas secções estavam impecáveis, noutras percebia-se que foi tudo colocado nas prateleiras a trouxe-mouxe, na vertigem da urgência. Só um exemplo: na estante dedicada aos livros de crónica, estavam os clássicos gregos, mais o Paraíso Perdido do Milton e o Decameron do Boccaccio. Nada que os ajustes dos próximos dias não possam corrigir.
  • A menorização da poesia. Numa livraria tão grande, como é que se justifica que a poesia (portuguesa e estrangeira) fique limitada a duas estantes, bem menos do que oferecem as Fnacs? Além disso, a um primeiro olhar, faltam autores fundamentais (Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão, entre muitos outros), embora pululem por ali dezenas de fraquíssimas edições de autor. Bem sei que no fundo editorial podemos encontrar o que nos interessa, mas as estantes devem ser sempre um espaço nobre para cativar leitores. Como estão, duvido que entusiasmem um único amante de poesia.
  • A importância relativa das secções. Há demasiados best-sellers para o meu gosto, demasiados livros de auto-ajuda e demasiados coffee table books (a ideia é vender, eu sei, mas estes enormes espaços moldados pela ditadura do marketing, com pirâmides de livros por todo o lado, surgem-me como uma forma de poluição visual). Além disso, faz-me espécie ver quatro estantes dedicadas à gestão e duas aos “recursos humanos”, quando a poesia está numa espécie de gueto minúsculo.
  • A iluminação. Julgava que este seria um ponto forte, mas o sistema de focos e pontos de luz pareceu-me mais próximo da atmosfera típica dos centros comerciais do que das livrarias cosy, em que uma pessoa gosta de perder horas a bisbilhotar capas, contracapas, badanas e inícios de capítulos.

Resta a questão central: haverá viabilidade económica para uma mega-livraria que também vende CD’s e DVD’s (estes sem desconto), mas não oferece a parafernália de electrodomésticos e gadgets electrónicos que contribui, em larga medida, para o enorme volume de negócios da Fnac?

Inauguração da Byblos

A abertura da livraria mais falada dos últimos tempos foi muitíssimo concorrida. Editores, representantes do Governo, jornalistas, escritores, bloggers, esteve lá tout le monde (ou quase). Apesar dos 3300 metros quadrados, dos corredores amplos e dos muitos nichos de leitura, aconteceram engarrafamentos, cotoveladas involuntárias e até alguns atropelos.

Eis um pequeno resumo fotográfico da noite:

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A epígrafe da Byblos, lavrada na pedra, é uma frase célebre de Jorge Luis Borges sobre a equivalência entre o Paraíso e a ideia de livraria. É uma escolha quase óbvia, mas feliz.

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A enchente aproximou-se por vezes da atmosfera vivida na Expo’98. Lembram-se?

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Entre os convidados, pairavam anjos sorridentes e anjos melancólicos (talvez saídos da grande biblioteca que se vê no filme Asas do Desejo). 

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Seguranças vigiaram o acesso ao segundo andar enquanto a ministra da Cultura não ”cortou a fita”, simbolizada por uma espécie de arco em cartão. 

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Uma pilha António Lobo Antunes. Há também pilhas José Rodrigues dos Santos e pilhas Miguel Sousa Tavares (várias).

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José-Augusto França apresenta o livro de serigrafias que a Byblos ofereceu aos convidados, junto a Almeida Santos, Isabel Pires de Lima e Américo Areal, o responsável máximo pela livraria.

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Amanhã é a sério. E os empregados da loja, que fizeram directa na noite anterior para que tudo estivesse (mais ou menos) no sítio, vão começar a trabalhar às nove para poderem abrir as portas às dez.  

Byblos

Byblos

A maior livraria do país abre amanhã ao público, pelas 10h00, no Amoreiras Square (Lisboa). Muito já se escreveu sobre os prodígios tecnológicos e as fabulosas dimensões do novo espaço (3300 metros quadrados), mas em nenhum lado de forma tão exaustiva como no BlogTailors. Vale a pena ler estes posts que perfazem uma espécie de contagem decrescente: 4, 3, 2, 1

Ainda hoje, o Bibliotecário de Babel (BB para os amigos, que nunca o confundem com Baptista-Bastos, nem com Brecht e muito menos com Bardot) espera ter tempo para colocar aqui uma entrevista que fez a Américo Areal, o entrepreneur que investiu quatro milhões de euros neste novo conceito de livraria. Mais tarde, e porque recebeu convite para a inauguração de logo à noite (21h00), BB promete partilhar imagens e impressões sobre o mui aguardado acontecimento.  

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges