Um kosovar que lê Kavafis em francês no meio do Atlântico

Estórias Açorianas
Autor: Carlos Alberto Machado
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 45
ISBN: 978-989-8592-04-0
Ano de publicação: 2012

Surgida em Maio deste ano, na vila de Lajes do Pico (Açores), a Companhia das Ilhas é mais uma microeditora que pretende fintar a crise, maximizando os escassos meios de que dispõe. As edições são pequenas – quer no formato, quer na tiragem – mas graficamente muito cuidadas e com preço acessível (abaixo de cinco euros). Entre os seis livrinhos lançados no arranque do projecto, dividido em duas colecções (a transeatlântico e a azulcobalto), estão as singelas Estórias Açorianas de Carlos Alberto Machado, 19 vinhetas insulares publicadas há uns anos no Jornal do Pico.
São textos breves e desenvoltos que captam momentos na vida da comunidade ou traçam o retrato de figuras carismáticas. Se por um lado se busca um efeito de reconhecimento social, por outro é criada uma certa distância em relação aos factos narrados, que advém do recurso aos instrumentos da ficção. Logo no primeiro relato, o «Autor» intromete-se na conversa de duas vizinhas coscuvilheiras, fazendo uma espécie de exegese erudita do que elas vão discutindo, só para se ver expulso com uma reprimenda: «E olhe, não acrescente mais nada, para depois os leitores não se porem a pensar que a estória quer dizer uma coisa diferente do que afinal diz.»
Por muito que nos troquem as voltas, as estórias de facto não se afastam desta premissa: a de dizerem apenas o que dizem, mesmo quando não dizem nada. O que as traz à página, no fundo, é o desejo de fixar seres humanos na sua singularidade, concreta ou imaginária: regressados das Américas, maridos cornudos, baleeiros com segredos que não partilham, uma idosa de «flamejante cabelo vermelho», aldrabões e miseráveis, Penélopes resignadas, um kosovar que lê Kavafis em francês.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Açougue de palavras

«Açougue de palavras, pedaços de carne roubados e atirados às feras», escreve Carlos Alberto Machado, no seu excelente blogue/site, sobre esse movimento de «predação» que é sempre a leitura dos outros.

Dois poemas de Carlos Alberto Machado

São três horas da madrugada
o comboio galga quilómetros
diz-se
as metáforas são o que são
e isso
sente-se
sobretudo nas curvas
mais apertadas
metaforicamente
chiando e chispando
de cada vez que a metáfora
galopante galopando cada quilómetro
entra numa dessas curvas de forma
friccionantemente indelicada
(violenta?) felizmente
tudo isto não passa
de uma ilusão é uma metáfora
demasiado arriscada para tão pouco
e velho comboio
ele que só gosta de deslizar
como um cisne
em largo e calmo
verde lago
metonímico.

***

O meu corpo enrosca-se na noite do teu corpo
adormecidas as minhas palavras ondulam na tua boca
da tua respiração soltam-se borboletas azuis
acordado sigo ainda os seus invisíveis trajectos
é neles que leio as palavras esquecidas na noite
uso cautelosamente o antigo saber divinatório
enquanto danças sobre a terra vestida de lavanda.

[in Registo Civil – poesia reunida, Assírio & Alvim, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges