Carlos Pinto Coelho (1944-2010)

Era um jornalista à antiga, de voz colocada e entusiasmo contagiante. A cultura, para ele, era uma festa e por isso festejava-a, soletrando muito bem as palavras, como que para sublinhar a matéria (os sons) de que elas são feitas. A música da língua. Cumpriu-se como jornalista à frente da equipa do Acontece, um programa que foi durante anos um importantíssimo bastião das artes na televisão pública (mesmo se imperfeito e com uma linguagem demasiado convencional). Para a rádio, meio em que se sentia particularmente bem, o Carlos entrevistou-me duas vezes. A primeira ainda nos tempos do DNJovem, quando recebeu em estúdio, gentil sem ser paternalista, alguns dos colaboradores do suplemento. A segunda há cerca de ano e meio, num estúdio quase secreto em Miraflores. Num caso como no outro, relembro a alegria e generosidade de quem encarava a divulgação cultural como um desígnio.
Há cada vez menos jornalistas assim. Há cada vez menos homens assim. E a falta que eles fazem.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges