Dentro do quarto amarelo

O Papel de Parede Amarelo
Autora: Charlotte Perkins Gilman
Editora: Fyodor Books
Título original: The Yellow Wallpaper
Tradução: José Manuel Lopes
N.º de páginas: 41
ISBN: 978-989-691-444-8
Ano de publicação: 2015

Escrito em 1890, quando a autora ainda não completara 30 anos, este conto andou muitos anos perdido em antologias de literatura de terror, só sendo recuperado do esquecimento na década de 70, quando começa a ser visto, enfim, como aquilo que é: um grito simbólico contra a dominação masculina exercida sobre as mulheres. Coerente, de resto, com o percurso intelectual de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), uma das precursoras do feminismo americano, ao escrever ensaios em que defendia reformas sociais tendentes a uma efectiva igualdade entre os sexos.
Inspirado na experiência da autora, que sofreu uma crise de neurastenia nos meses seguintes ao nascimento da filha, O Papel de Parede Amarelo é o relato de uma depressão pós-parto. A narradora, forçada a um regime de repouso absoluto pelo marido, um médico rígido e controlador, escreve às escondidas e vai lamentando o deserto de estímulos a que está reduzida. O sufoco da vida doméstica conduz a um estado de sofrimento que a família desvaloriza por não apresentar manifestações físicas, só psíquicas.
Enquanto a diligente cunhada trata do bebé, ela passa o tempo na cama, a contemplar obsessivamente os horríveis padrões geométricos do papel de parede que reveste o quarto: «se nos demorarmos a percorrer as suas irregulares e imperfeitas curvas, repararemos que de repente se suicidam – afundam-se em excêntricos ângulos». No papel de parede, transformado em espelho, dá-se então o movimento de libertação. A narradora começa por pressentir uma figura feminina a rastejar por trás do padrão, a abaná-lo, «como se quisesse sair». Um fantasma abstracto? Um reflexo de si mesma? O que perdura deste conto é a assombrosa resposta a estas perguntas que chega nos parágrafos finais.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges