A noite dos homens

Pai Nosso
Autora: Clara Ferreira Alves
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 474
ISBN: 978-989-724-270-0
Ano de publicação: 2015

Chamam-lhe «O Fantasma». Maria, a protagonista de Pai Nosso, primeiro romance de Clara Ferreira Alves, é uma figura misteriosa, difusa, uma esfinge. Para acender os muitos cigarros que fuma, risca fósforos. Bebe gin no bar do Al-Rashid, o hotel mais luxuoso de Bagdade. Tem aura de antiga estrela de cinema. Apropriadamente, tratando-se de uma lenda viva do fotojornalismo, o seu retrato, logo na primeira página, não podia ser mais fotográfico: «Sopra uma coluna de fumo que dissolve as linhas da expressão. A claridade dos olhos corta vidro. A Leica em cima da mesa. Tem as unhas cuidadas e envernizadas. Os dedos nodosos, a pele da mão manchada de sardas.» Ela está ali, no centro do «ninho de cobras» que é o Iraque, um país destruído, entregue ao caos, com as milícias do ISIS a poucos quilómetros da capital, porque esse é o destino mais lógico para quem viu e captou, em imagens que correram mundo (e até chegaram à capa da revista Time), os principais conflitos das últimas décadas. Ela esteve no Afeganistão, no Kosovo, em Jerusalém, nos territórios palestinianos ocupados, em Telavive, conhece o Médio Oriente como a palma das mãos. Após tantos anos de contacto com a guerra, a guerra já faz parte dela, da forma como olha para a realidade à sua volta. «Só existe a barbárie. Entrámos na noite dos homens.» Uma noite que se espalha pelo mundo e chega a todo o lado. Até à Europa. Até a Lisboa.
Quando o livro começa, a capital portuguesa já foi abalada por um acontecimento maior, inimaginável, tremendo, mas que só será revelado nas páginas finais. É atrás da explicação desse acontecimento, da sua história «mal contada», que chega ao Al-Rashid a narradora, Beatriz, professora de Estudos do Médio Oriente em Inglaterra. Um editor português desafiou-a: «Minha cara amiga, depois daquilo que se passou, ficámos no mapa. Se ficámos no mapa!» Só que para compreender o que se passou é preciso ouvir o testemunho de Maria, peça-chave no labirinto da tal história mal contada, a mulher que «permaneceu anos em silêncio», mas talvez esteja disposta a libertar-se de um segredo. «Tente», diz-lhe o «especialista de best-sellers», assim como quem atira barro à parede. E Beatriz tenta.
No ambiente saturado de testosterona dos correspondentes de guerra, «durões» da velha guarda, «sanguessugas da desgraça», ameaçados pela horda dos freelancers «dispostos a tudo por um furo que ninguém quer», Beatriz consegue quebrar a película de desdém com que Maria enfrenta os outros e torna-se a sua protegida, a sua confidente. Fechadas no quarto, conversam dias a fio, desbravando as «paisagens» do passado. Maria é a Sherazade de Beatriz, uma voz fluida, um rio interminável de palavras que o gravador regista, relato em expansão acelerada e cada vez mais denso, à medida que mergulha nas memórias íntimas da fotógrafa portuguesa, quase sempre tingidas de melancolia e sobrepostas como se fossem estratos geológicos.
Ao longo do livro vão surgindo muitos «figurantes», personagens que entram na história para sair no momento seguinte, mas o centro de Pai Nosso está numa única pessoa: Maria. A sua personalidade determina o ritmo da escrita. Cheia de certezas, sentenciosa, ela gosta de exagerar («Sem a hipérbole, as descrições sofreriam») e de impor a sua visão das coisas. A prosa acompanha essa cadência afirmativa. É sincopada. Feita de frases curtas e incisivas. Stacatto verbal. Poucas vírgulas, muitos pontos finais. Um estilo forte, enérgico, quase sempre brilhante, mas que se torna cansativo, sobretudo porque não há outros registos que se lhe oponham e criem um contraste. A voz de Maria contamina tudo à sua volta. A própria Beatriz admite: «Estou a falar como ela.»
A estrutura narrativa não é propriamente original. O romance funciona como o gravador de Beatriz. Por isso há capítulos intitulados «play» (a acção no tempo presente, em Bagdade), «rewind» (os mergulhos no passado) e «fast forward» (avanços cronológicos). Embora simples, o dispositivo é eficaz. O problema não está aí, mas na articulação entre dois tipos de materiais que nunca chegam a coexistir de forma harmoniosa. Ou seja, o jornalismo e a ficção pura. As deambulações de Maria pelos palcos das várias guerras correspondem a uma realidade que Clara Ferreira Alves conhece muito bem e desdobra à nossa frente com mestria. Já os enredos propriamente romanescos revelam uma enorme fragilidade, sobretudo os que abarcam as relações amorosas de Maria e as figuras do passado português.
Se a trajectória da infância, no eixo Campolide-Benfica, sob o signo de uma mãe suicida e de um pai distante, racista, antigo combatente em África, espécie de último soldado do Império, até nos oferece belas páginas, o mesmo não se pode dizer dos episódios relativos à amizade com a filha de um banqueiro com «olhos de réptil», casada com um tal de Eduardo Allen Carneiro, ex-maoísta que se torna primeiro-ministro de Portugal e depois «Presidente da Europa». Estamos no território do roman à clef pouco subtil. Apoiante entusiástico da invasão do Iraque em 2003, Allen Carneiro não se liberta do peso de ser uma caricatura de Durão Barroso. E não é preciso um grande esforço de imaginação para atribuir ao sogro de Eduardo, uma espécie de eminência parda, os traços de um mediático banqueiro recentemente caído em desgraça. Outro aspecto que não resulta é a inclusão, no corpo do texto, de preces das três ‘religiões do livro’: invocações tanto ao Deus dos cristãos (o Pai Nosso do título), como ao dos muçulmanos (Alá) e dos judeus (Adonai). Por muito que se fale de Jerusalém, a questão religiosa nunca assume uma centralidade que justifique a repetição, algo forçada, de excertos das referidas preces.
A ideia com que se fica, ao concluir a leitura deste romance, é que Clara Ferreira Alves se deixou dominar pela torrencialidade da protagonista. Consequência: o romance sofre de hipertrofia e leva demasiado tempo a chegar ao seu poderosíssimo desenlace. Ainda assim, pelo caminho algo acidentado, a autora oferece-nos uma muito razoável colecção de belas frases, a confirmar o seu reconhecido virtuosismo verbal. Exemplos: uma mulher «a polir as unhas com uma lima neurótica»; o pátio de hotel onde «faleceu uma piscina vazia com mosaicos partidos»; o canto do muezim, «lamento líquido como mercúrio derramado»; os nómadas que se enfiam «pela bainha da guerra apascentando os rebanhos»; ou o calor do corpo «retido na prata» do frasco de gin.
Pai Nosso é um excelente livro sobre os horrores deste início de século e suas múltiplas causas, mas fica aquém do grande romance que prometia ser. Falta-lhe em espessura ficcional o que lhe sobra em reflexão apaixonada sobre o porquê da “noite dos homens”, em cujas sombras há quem decapite inocentes.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges