O olhar de Clarice

Sobre uma exposição, ‘A Hora da Estrela’, que esteve patente na Fundação Gulbenkian entre Abril e Junho de 2013:

olho

Antes de a vermos, é ela que nos vê. Ao fundo da sala, o olho de Clarice emerge da escuridão. Só o olho em grande plano, a curva da pálpebra, a ténue sobrancelha, as finas pestanas, um ponto de luz na pupila. Quando nos aproximamos, percebemos que a imagem é transparente. Por trás, uma frase: «Ver é a pura loucura do corpo.» Não há melhor resumo do que foi a vida e a escrita de Clarice Lispector, brasileira assombrosa nascida na Ucrânia, do que esta espécie de epígrafe da exposição A Hora da Estrela, comissariada por Júlia Peregrino e pelo poeta Ferreira Gullar, aberta ao público no Museu Gulbenkian.
A primeira sala é panorâmica. Eis Clarice nas várias idades, o rosto transformando-se, ganhando sombras e uma espécie de alheamento, como se tudo o que importa estivesse na escrita e a escrita nunca chegasse para reflectir o prodígio do mundo. Não há aqui explicações, enquadramentos biográficos, cronologias. Só palavras nas paredes: «O nome da coisa é um intervalo para a coisa». Qualquer explicação de Clarice seria um intervalo entre nós e Clarice. Mais vale por isso a nudez das frases em bruto, isoladas, arrancadas dos livros, sem contexto, aproximando-nos de uma perplexidade essencial: «Escrevo pela incapacidade de entender, sem ser através do processo de escrever». Somos então guiados por fragmentos desse processo de escrita, vislumbres da sua forma de enfrentar a realidade com palavras. Clarice sempre soube que escrever é uma maldição, mas «uma maldição que salva».
As palavras da escritora saem dos livros e colam-se à pele de quem as lê. É essa a sua força tirânica. Não se projectam apenas nas paredes, escavam-nas, abrem sulcos. De forma subtil e inteligente, a exposição lembra-nos isso. Eis as palavras acesas, brilhando: «Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro». As frases são costuras, cicatrizes, tatuagens. Ou então polaroids, imagens que deflagram. Como na sala em que as fotografias instantâneas, quadradas, oníricas, nos surgem através das palavras. «Aí está ele, o mar, a menos ininteligível das existências não-humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos.» A mulher é Clarice e vemo-la, difusa, de fato de banho, junto ao oceano, num tempo perdido que é o tempo sem tempo da literatura.
Cinzenta, a Underwood é um totem. Imaginamos os dedos longos da escritora, matraqueando as teclas noite dentro, com a máquina de escrever pousada no colo. Os dedos longos que pegam, lânguidos, no cigarro. Observem como ela o acende, nessa entrevista televisiva emitida em 1977 (ano da sua morte), de que aqui sobraram só as respostas, o registo da voz, a pronúncia estranha, os silêncios, uma honestidade tão grande e desarmada, a sufocante tristeza. «O horror sou eu diante das coisas», disse noutro lugar. E a sombra desse horror nunca a abandona, enquanto o fumo do cigarro paira no estúdio, onde ela parece estar e não estar, desligada de si, completamente exposta. Ao longo dos anos, Clarice andou pelo mundo, atrás do marido diplomata, e esses percursos de cidade em cidade desenham uma constelação, uma linha que se torna poética no interior de um cubo de vidro, com luzes que crescem e diminuem, espelhando as superfícies.
Chegamos por fim à sala do arquivo, gavetas de alto a baixo, mais de mil, embora só 35, com chave, se abram à nossa curiosidade. Lá dentro: documentos, rascunhos, edições estrangeiras das suas obras. A sala é uma cápsula de memórias. Vale a pena puxar uma das cadeiras e ficar ali, lendo tudo o que há para ler. A correspondência com outros grandes escritores (Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto). Os bilhetes de identificação, com fotos tipo passe. As listas com indicações para o trabalho de revisão literária. Cartas para os filhos, cheias de um amor materno arrebatado (no fim de uma delas, conta ao filho Paulo, então nos EUA, que o «Botafogo ganhou do Flamengo 2×0»).
À saída, Clarice permanece um mistério. A exposição sabe a pouco. E ainda bem. O resto temos de procurar nos seus livros e é para os livros, sempre para os livros, que somos empurrados.

[Texto publicado no n.º 124 da revista Ler]

33 anos sem Clarice

Clarice Lispector morreu a 9 de Dezembro de 1977. Em dia de efeméride, Benjamin Moser, autor de uma excelente biografia da autora de A Paixão segundo G. H., confessa, no blogue da Cosac Naify, ter saudades dessa experiência de imersão absoluta na vida de uma mulher extraordinária.

Colóquio Clarice Lispector

É hoje e amanhã, na Casa Fernando Pessoa.
Programa:

Dia 1

9h30 – Recepção
10h00 – Abertura
10h30 – Conferência: “Clarice Lispector: da biografia à fotobiografia”, por Nádia Battella Gotlib (Universidade de São Paulo)
11h15 – Debate
11h30 – Conferência: “Clarice Revisitada”, por Carlos Mendes de Sousa (Univ. do Minho)
12h15 – Debate
12h30 – Abertura de exposição de fotografias e lançamento do livro Clarice: Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib
13h30 – Pausa para almoço
15h00 – Conferência: “Com uma fixidez reverberada de cego: visão e distorção em Clarice Lispector”, por Clara Rowland (Univ. de Lisboa)
16h15 – Debate
16h30 – Conferência: “Impossível Explicar”, por Francisco José Viegas
17h15 – Debate
18h00 – Peça teatral: Que mistérios tem Clarice, de Rita Elmôr
19h30 – Porto de Honra

Dia 2

10h00 – Leitores de Clarice: Maria Antónia Fiadeiro, Ana Paula Tavares, Patrícia Lino
11h00 – Debate
11h15 – Pausa para café
11h30 – Leituras de Clarice: Inês Pedrosa, Cristina Elias, Vasco Durão, Lauro Moreira
13h00 – Pausa para almoço
14h30 – Palestra: “Clarice no Cinema”, por Lauro António
15h00 – Exibição de curta-metragens baseadas na obra de Clarice Lispector
16h00 – Pausa para café
16h15 – Cinema: exibição de A Hora da Estrela, de Suzana Amaral
18H00 – Encerramento

A entrada é livre.

Projecto Clarice (o filme)

O Mistério segundo C. L., de Patrícia Lino.

O rosto de Clarice


Há alguém a espalhar retratos de Clarice Lispector pela cidade do Porto. Retratos em fotocópia acompanhados de uma pergunta («Já ouviu falar?») e palavras da escritora brasileira de origem ucraniana, ditas em voz alta em sessões de leitura.
Os vários passos deste invulgar, curioso e apaixonado Projecto Clarice, ideia e obra de Patrícia Lino (aluna da cadeira de Métodos e Técnicas de Pesquisa, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto), podem ser acompanhadas neste blogue.

[via Ciberescritas]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges