Mater dolorosa

testamento

O Testamento de Maria
Autor: Colm Tóibín
Título original: The Testament of Mary
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 109
ISBN: 978-972-252-602-9
Ano de publicação: 2013

Sentindo a morte próxima, Maria, mãe de Jesus, conta-nos a sua versão da história. É o seu testamento, o seu testemunho, o seu evangelho íntimo – narrado na primeira pessoa com raiva, mágoa e arrebatamento lírico. Colm Tóibín já escreveu antes sobre a problemática relação entre mães e filhos, sobre os extremos de amor ou ressentimento que o mais visceral dos vínculos humanos pode desencadear. Aqui vai mais longe e questiona directamente um dos mais poderosos arquétipos civilizacionais da maternidade: a figura de Maria, mater dolorosa, chorando o filho pendurado na cruz. Sem grande surpresa, descobrimos que a Maria deste livro não é a figura resignada e submissa do Novo Testamento, mas uma mulher que se revolta com o martírio e se recusa a cumprir o papel que lhe destinaram, mostrando a têmpera de uma heroína grega.
Quando a narração começa, muitos anos após a morte de Cristo, Maria vive em Éfeso, numa casa visitada regularmente por dois dos evangelistas, que cuidam dela, alimentam-na, vestem-na, protegem-na. Ela vê neles «uma espécie de fome e rudeza». Quando lhe pedem que relembre o que se passou, exasperam-se ao compreender que a sua história não encaixa na narrativa com que querem fundar um novo mundo, um novo tempo, uma nova religião. Tentam vergá-la, mas ela não se verga. A memória que lhe preenche o corpo, «da mesma maneira que o sangue e os ossos», não é matéria moldável. Por isso, recusa-se a «acrescentar o que eles querem que acrescente» e não cede aos seus «esforços para darem um sentido simples a coisas que não são simples».
Nunca nomeando o filho («algo se quebrará dentro de mim se eu disser o nome dele»), Maria recorda com especial doçura os momentos em que ele ainda «precisava do meu peito para beber leite, da minha mão para se equilibrar enquanto aprendia a andar e da minha voz para o reconfortar até adormecer». O estranhamento começa mais tarde, quando o rapazinho «frágil» dá lugar ao homem «radiante», que passou a falar às multidões com «voz falsa» e «tom empolado». O caminho messiânico de Jesus afasta-o da mãe e esta parece condoída com esse afastamento. Nas bodas de Caná, embora se sentem lado a lado, quase não falam. E Maria demonstra ainda reticências diante dos proclamados milagres de Cristo, não escondendo um certo desprezo pelos seus seguidores (um bando de «inadaptados») e uma aberta indignação com a ideia de que ele seja «Filho de Deus».
Inevitavelmente, as memórias acabam por convergir para o dia fatal da crucificação, essa «coisa feroz e exata», cuja «sombra maldita» nunca mais a abandonará, como um coração que bombeia trevas «de uma ponta à outra do meu corpo». Se é dura com os evangelistas que tentam forçá-la a uma verdade construída, mais dura ainda se mostra consigo própria. «Não gritei nem corri para o salvar, porque não teria mudado nada. Teria sido afastada para o lado como uma coisa que o vento arrastou. Mas o que é igualmente estranho, o que parece estranho passados estes anos todos, é o facto de eu ter tido a capacidade, naquela altura, de me controlar, de pesar as coisas, de ver e não fazer nada.» A esta racionalização de uma dor que «era dele e não minha», junta-se o facto de ter fugido antes de tudo estar terminado, antes do último suspiro. Nesta versão da história, não há Pietà, só o arrependimento de quem sobreviveu à visão do horror supremo, sem sequer o consolo de um desígnio maior. Quando os evangelistas lhe explicam que o filho morreu para redimir o mundo e libertar a humanidade do pecado, ela usa todo o seu fôlego para lhes responder: «Eu estive lá. Fugi antes do fim, mas se querem testemunhas, eu sou uma delas e posso dizer-vos que, enquanto vocês afirmam que ele redimiu o mundo, eu direi que não valeu a pena. Não valeu a pena.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hemingway e Cézanne

«En un fragmento eliminado de su relato El gran río de los dos corazones, Ernest Hemingway escribía a propósito de su alter ego: “Quería escribir como pintaba Cézanne. Cézanne empezaba por emplear todos los trucos. Luego lo descomponía todo y construía la obra de verdad. Era un infierno… Quería… escribir sobre el campo de forma que quedase plasmado como había conseguido Cézanne con su pintura… Le parecía casi un deber sagrado”. En su remembranza de sus primeros años en París, París era una fiesta, Hemingway escribió también sobre la influencia que había tenido en él el pintor francés cuando estaba aprendiendo su oficio: “Estaba aprendiendo de la pintura de Cézanne algo que hacía que escribir simples frases verdaderas no fuera suficiente, ni mucho menos, para dar a los relatos las dimensiones que yo quería darles. No sabía expresarme lo bastante bien como para explicárselo a nadie. Además, era un secreto”.
El secreto estaba en las pinceladas de Cézanne, cada una abierta y de textura visible, con repeticiones y variaciones sutiles, cada una llena de algo parecido a la emoción, pero una emoción profundamente controlada. Cada pincelada trataba de captar la mirada y retenerla y, al mismo tiempo, construir una obra más amplia, en la que había riqueza y densidad, pero también mucho de misterioso y oculto. Eso es lo que Hemingway quería hacer con sus frases. Después de contemplar la obra de Cézanne por primera vez en Chicago, luego en los museos de París y en casa de su amiga Gertrude Stein, lo que deseaba era seguir el ejemplo de esta última y escribir frases y párrafos a primera vista simples, llenos de repeticiones y variaciones extrañas, cargados de una especie de electricidad oculta, llenos de una emoción que el lector no podía encontrar en las propias palabras, porque parecía vivir en el espacio entre ellas o en los repentinos finales de algunos párrafos determinados.»

Início de um texto de Colm Tóibín, publicado na edição desta semana do suplemento Babelia, do El País.

Colm Tóibín: “A página não é um espelho”

Lá fora já escureceu. A noite esconde a lezíria. As janelas tornaram-se espelhos. Ao fundo da carruagem, o mostrador electrónico do Alfa Pendular informa que nos dirigimos para Lisboa a 193 quilómetros por hora. Apesar da longa jornada, Colm Tóibín não parece minimamente cansado. O porco preto servido ao jantar por um diligente e bem-humurado funcionário da CP não o entusiasmou, ao contrário do vinho tinto alentejano. Seria de esperar pelo menos uma certa languidez pós-prandial, mas o autor de O Mestre parece imune a quaisquer quebrantos. «Quando viajo estou sempre atento a tudo e o contacto com outras pessoas enche-me de energia», diz, antes de se ajeitar na cadeira para uma conversa que tanto pode durar 20 minutos como 50 (durou 50).
Cinco horas antes, Tóibín, considerado um dos melhores escritores irlandeses da actualidade (juntamente com Seamus Heaney, John Banville ou Roddy Doyle), tinha falado para uma sala cheia de alunos, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Com um ar tímido, rugas fundas a atravessarem-lhe a testa de lado a lado, olhos postos num lugar para lá da última parede, dissertou sobre uma genealogia de romances com mulheres como protagonistas, de Jane Austen ao seu último livro, Brooklyn, uma história de emigração que o levou a uma outra linhagem ficcional, a dos autores irlandeses que escreveram sobre a diáspora, o exílio e o sempre difícil regresso a casa, muitos anos após a partida. Com tarimba de professor, Tóibín nunca perdeu o fio ao raciocínio, mesmo quando evocou Cézanne para explicar a forma como Hemingway criava texturas narrativas nos seus textos. Além de uma defesa do ritmo e da atenção aos detalhes, como instrumentos essenciais do romancista, deixou no ar uma ideia curiosa: «A mim não me interessam as figuras que estão no centro da fotografia, os rostos reconhecíveis, a história oficial. Interessa-me o que está na margem, quase a sair de campo, o cotovelo meio desfocado de alguém que já está fora do enquadramento. É sobre o cotovelo meio desfocado que eu quero escrever.»
À saída da Faculdade, embarcámos numa visita-relâmpago ao centro do Porto. Tóibín já conhecia a antiquíssima livraria Lello, considerada há tempos pelo jornal The Guardian a terceira mais bonita do mundo, mas quis voltar. Faltavam cinco minutos para o fecho. Indiferentes aos avisos dos empregados, ainda subimos pela célebre escada ornamental, para logo a descermos, gabando-lhe as curvas, o brilho da madeira, as simetrias. Na secção de arquitectura, alguém lhe chama a atenção para uns álbuns com projectos de Álvaro Siza. Mas o que ele queria mesmo era uma fotobiografia de Fernando Pessoa, o poeta que comparou com Jorge Luis Borges e Flann O’Brien num ensaio recente. «Esgotado», foi a resposta ao pedido.
O desânimo, porém, não durou muito. Antes de nos dirigirmos a Campanhã, ainda parámos na Feira do Livro e lá estava, num dos stands montados na Avenida dos Aliados, o volume com imagens de Pessoa em várias idades, incluindo a do copinho goela abaixo em flagrante delitro. «Great», exclamou Tóibín, que ainda fez questão de dar uma volta quase completa à Feira. Já na estação, fumaram-se cigarros, improvisou-se uma sessão fotográfica e depois avançámos para a linha 8, onde o Alfa Pendular vindo de Braga não demoraria a passar. Uma hora e meia depois, a noite esconde a lezíria, as janelas tornaram-se espelhos e a luz vermelha do meu gravador acendeu-se.

Tóibín gosta tanto de comboios como odeia aviões. «Das primeiras vezes que deixei a minha aldeia, em direcção a Dublin, ia sempre de comboio, junto ao mar. Ainda hoje adoro viajar assim, por exemplo no percurso de uma hora entre Nova Iorque e Princeton, onde dou aulas.» Aliás, nem de propósito, a ideia para o seu primeiro romance (The South, 1990) ocorreu-lhe num comboio: «Um dia, vi subir para a minha carruagem uma mulher fora do vulgar, bem vestida, de uma certa idade e com um ar preocupado. Olhei para ela e imaginei que voltava a casa depois de um longo afastamento, estando o filho que não via há 20 anos à espera na estação. A cena está no livro, tal e qual.» Mas as coincidências não se ficam por aqui: este romance foi parcialmente escrito em Lisboa, num hotel do Rossio, onde Tóibín se fechou um mês a martelar a sua máquina de escrever, quase sem sair à rua. Quando saía, cruzava-se com «senhores de chapéu» que tinham uma tertúlia «num café ali perto» – o Nicola, quase de certeza. Passava-se isto nos anos 80, quando Tóibín trabalhava como repórter para várias publicações, muito na linha do new journalism americano. Desses tempos, o romancista guardou uma lição: «Ao trabalhar para jornais e revistas, aprendi que deves ter sempre presente que escreves para um leitor concreto.» Além disso, a escrita jornalística aguçou-lhe o estilo.
Sobre Brooklyn, explicou que a história andava com ele desde que a ouviu, aos 12 anos, contada pela mãe da protagonista. Mas só depois de começar a dar aulas nos EUA, e de sentir na pele as saudades da Irlanda, é que a pôde escrever como quem desenha a lápis, «traçando linhas simples, precisas, e fazendo sombreados». Mais do que o retrato de um lugar ou de um tempo, ele quis fazer «o retrato de uma psicologia». E sabe que a ficção não pode limitar-se a reflectir experiências, próprias ou alheias: «A página não é um espelho.» Ao contrário das janelas do comboio, penso eu, enquanto uma voz anuncia que o Alfa Pendular está prestes a chegar à Gare do Oriente.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O retrato de uma rapariga

Brooklyn
Autor: Colm Tóibín
Tradução: C. Santos
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 254
ISBN: 978-989-96340-4-6
Ano de publicação: 2010

Num encontro com estudantes da Faculdade de Letras do Porto, a que tive a sorte de assistir, Colm Tóibín lembrou que o romance, entre outras coisas, consegue dar sentido ao silêncio. Nenhum realizador ou dramaturgo se atreve a mostrar uma personagem sentada, sem falar com ninguém, por mais de cinco ou dez minutos, mas Henry James, no famoso capítulo 42 de O Retrato de uma Senhora, faz precisamente isso: cercada pela escuridão da noite, junto a uma lareira, a protagonista permanece imóvel durante horas, sem dizer palavra, totalmente imersa nos seus pensamentos. Tóibín, que observou de perto uma certa fase da vida de James no seu romance anterior (O Mestre, Dom Quixote, 2007), vê no relato minucioso da introspecção de Isabel Archer um exemplo maior do poder da literatura: o de iluminar as regiões mais recônditas da psicologia humana.
Em Brooklyn, sexto romance de Tóibín (vencedor do Costa Award), também há muitos silêncios, introspecções e um ponto de vista feminino. Mas a protagonista, Eilis Lacey, embora viaje para outro continente, busque a sua identidade e tenha que lidar com as consequências das suas escolhas, está nos antípodas de Isabel Archer. Enquanto esta é uma americana sofisticada e rica (depois de receber uma herança), atravessando o livro em deambulações ociosas pela Europa, onde acaba gradualmente por perder a independência e o controlo sobre o seu destino, Eilis é uma pobre rapariga de Enniscorthy, limitada e provinciana, que segue o caminho inverso, procurando em Nova Iorque algo que escasseava na Irlanda do pós-guerra: trabalho e a perspectiva de uma vida melhor.
Tóibín começa por nos mergulhar no quotidiano de Enniscorthy, no início dos anos 50 do século XX. Bem integrada na comunidade, Eilis vive com a mãe e a irmã mais velha, Rose, depois da morte recente do pai e da debandada dos três irmãos rapazes, todos a trabalhar em Inglaterra. Apesar da aptidão para a contabilidade, ela não consegue encontrar um emprego digno desse nome. Por isso, quando Rose, com a cumplicidade de um padre amigo da família, lhe sugere a hipótese de emigrar para Brooklyn, ela aceita o desafio sem pensar muito no que a espera. E o que a espera é a dureza extrema do desenraizamento, vivido até numa dimensão física: primeiro no enjoo de vários dias a bordo do navio em que viaja, sob uma feroz tempestade atlântica; depois ao experimentar a violência das saudades de casa numa terra estranha, ampliadas pela leitura das cartas de familiares, com o seu lastro de melancolia e tristeza paralisantes.
Em Brooklyn, ela acaba por adaptar-se depressa. Habita numa casa de hóspedes irlandesa, frequenta os bailes da paróquia, trabalha numa loja de roupas, tira um curso nocturno que lhe permitirá ser guarda-livros num escritório, e acaba por se envolver com Tony, um canalizador italiano, decente e atencioso, que vai sempre um passo adiante no que toca a fazer planos para um futuro a dois. A vida corre-lhe bem, aliás cada vez melhor, até que uma má notícia vinda da Irlanda a obriga a regressar. E é quando volta a Enniscorthy, transformada pela experiência americana, mais segura e atraente (como nota até quem, dois anos antes, a ignorava), que o dilema emerge. Eilis percebe que tem duas vidas diante de si – uma com Tony; outra junto à mãe, na terra natal, onde agora a olham com outros olhos – e hesita na hora de escolher. A decisão difícil, de certa forma o nó do romance, acaba depois por depender mais da pequenez do mundo – digamos assim – do que da sua vontade.
Partindo de uma história linear e simples, Tóibín fez de Brooklyn o extraordinário retrato de uma rapariga muito mais complexa do que parece à primeira vista. Através da acumulação de pequenos detalhes, conseguimos ver o mundo pelos olhos de Eilis e deparamos com as suas emoções mais íntimas, sem que seja preciso verbalizá-las. Em termos de subtileza psicológica, este assumido discípulo de James tornou-se ele mesmo, por direito próprio, um mestre.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A teimosia de Lorenzo Lotto

O romancista irlandês Colm Tóibín escreve, na London Review of Books, sobre um pintor italiano do século XVI, muito do agrado de um certo blogger português que também aprecia sobremaneira o escritor alemão Heinrich von Kleist e a cor verde alface.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges