A Verdadeira Biblioteca Ou Uma História Em Três Metades

Eis o belíssimo texto de Raquel Patriarca, lido nas Correntes d’Escritas, numa mesa intitulada ‘Quantos Livros Tem Um Livro':

«Primeira Metade: Sobre Começar um Texto
Quando eu era pequena, tinha muitos sonhos. Agora que sou maior, estou igual. Sonho com os pedaços do mundo que quero conhecer, os abraços que quero apertar, as imagens que quero criar, os livros que hei-de escrever. Estar aqui é um desses sonhos da idade adulta, arrumado na rubrica das coisas admiráveis de que é preciso fazer parte. Quando me imaginava aqui, começava sempre por agradecer às Correntes porque correm e por me levarem na correnteza. Agradecer o estar aqui agora e todas as vezes que estive aí e que, no fim do dia, regressei a casa maior. Não de tamanho, mas maior. Quando me imaginava aqui, depois de agradecer, fazia uma comunicação brilhante. Não me parecia muito difícil. Não sei porquê, nessa altura as ideias eram transparentes e ordenadas, as palavras respondiam à chamada sem atraso e sem engulho. Era preciso citar um autor de referência: Pessoa, Benjamin ou Borges; Camus, Barthes, ou Foucault. Falar de literatura e arte, de coisas verdadeiras e universais. Como se no mundo – ou em mim – não restassem dúvidas da minha sabedoria sobre todas as matérias.
Mas estas coisas só acontecem na minha imaginação. Sonho e nada mais. No momento em que chegou o convite, todo o dia me parecia feito de irrealidade. A cabeça ficou vazia e a página em branco. Afinal, é tudo muito difícil.
Sentei-me para escrever e não chegavam as frases que deviam iluminar-me as ideias. Fui à procura dos cadernos e das notas amarelas com os registos da genialidade alheia, e nada rimava com o tema ou a situação. Em ressonância longínqua das traseiras do cérebro, soava uma espécie de conselho que ouvi quando era pequena: “Sabendo muito do que falas, fala pouco. Sabendo pouco, fala quase nada. Sabendo nada, sorri”.
… (Pausa para o sorriso)
E assim, em vez de Benjamin, Borges ou Barthes, veio ajudar-me uma espécie de aforismo de Joaquim Patriarca, mestre-escola, guarda-livros, organista na Igreja de S. Pedro, emigrante, retornado, avô. E a conselho dele, porque falamos de livros, vou falar pouco.

Segunda Metade: Sobre o Meu Avô
Quando eu era pequena, fascinava-me a capacidade que o meu avô tinha para guardar objectos. Para ele nada existia que fosse imprestável. Mais cedo ou mais tarde, tudo ganhava serventia e, por isso, tudo se guardava em lugar próprio, rigorosamente ordenado. Esta filosofia, vim a percebê-lo mais tarde, levava-me a intuir que, até para mim – criatura algo estouvada, grande consumidora de mercurocromo, tantas vezes nas imediações de coisas indesejáveis como cacos ou nódoas –, até para mim, dizia eu, se guardava um lugar e uma função. E, enquanto não descobria o meu lugar e a minha função, fui absorvida no fascínio de como o meu avô se movia pelo mundo e da serenidade com que coleccionava todo o tipo de objectos.
As folhas soltas de papel e os fios de diferentes materiais, os tocos dos lápis que já mal serviam para escrever, as sementes que havia de pôr na terra, os pequenos pedaços de plástico que, mais tarde e com a ajuda de um canivete, transformava em mistérios de rezar, perfeitamente redondos e recortados: um buraco ao centro para o indicador, dez saliências em forma de pétala, uma para cada ave-maria, a cruz na décima primeira pétala, no lugar do pai-nosso.
Cada gesto do meu avô era feito com esmero e ternura. O vinco nas arestas dos embrulhos de correio e o nó direito que unia, em absoluta perpendicularidade, o cruzamento do cordão, a caligrafia pausada, aprumada, perfeita, a adivinhar que, naquele endereço, tinha de erguer-se um palácio. As canas enterradas na horta a estender fios de sisal que desenhavam uma espécie de guias, por onde se alinhavam os sulcos na terra, as sementes e as plantas.
Fascinavam-me as coisas que ele fazia mas, mais ainda, o vagar sereno que colocava em tudo. Uma alegria simples que enchia de plenitude os gestos mais comuns. Curiosamente desimportado do resultado final, o meu avô parecia absorver-se no encantamento – para nós invisível – de todas as tarefas a que se entregava, como se a função inteira da existência se guardasse naquele momento. Punha, de verdade, quanto era no mínimo que fazia, de maneira que despachar uma encomenda ou plantar morangueiros se transformavam em formas de arte.
Foi nesta altura, enquanto os meus avós se transformavam em memórias nucleares, que aprendi a relacionar-me com os livros. Eu não fui uma daquelas crianças adoráveis que, sentadamente sábias, amam os livros desde que se lembram de respirar. Gostava muito que me contassem histórias, como todas as crianças, mas adorava correr desenfreadamente pelas ruas íngremes que desciam da casa dos meus avós ao fundo da vila. Saltar muros e inventar barcos feitos de casca de árvore que depois fazia navegar nos ribeiros que desciam da serra pela primavera. Subir às tílias descalça, com um saco de pano para apanhar os raminhos de fazer chá, sair nos dias de feira, a cheirar os bolos de leite ainda quentes, e ajudar a avó a escolher os figos mais maduros e as colheres de pau mais redondas e fundas. Havia uma televisão, e não é que não gostasse de a ver, mas o aparelho era muito demorado de arrancar, apanhava a televisão espanhola e não havia desenhos animados, só programas de agricultura e notícias. Naquele tempo, a televisão era mais um entroncho que uma distracção a sério. E havia a escola, claro, e a catequese para onde eu ia sempre muito contente porque, no regresso, a minha avó me dava uma bolacha de chocolate. Era uma obra-prima em forma de estrela, vinha embrulhada em papel de prata colorido, começava a derreter-se mal me tocava nos dedos e inspirava-me um conforto interior que eu me habituei a confundir com o sentimento da fé.
Os livros trouxeram a calma e a profundidade que eu não me dava ao trabalho de procurar em nenhuma outra dimensão na vida a não ser, talvez, na minha família.

Terceira Metade: Sobre os Livros
Quando eu era pequena passava muito tempo em casa dos meus avós. Viviam por lá muitos livros, uma condição que eu entendia como decorrência natural de, num tempo antes de mim, o meu avô ter sido guarda-livros. Um guarda-livros era, evidentemente, uma espécie de bibliotecário com um título singelo. Naquele tempo e lugar, tudo era menos pretensioso, sobretudo os nomes das profissões. Foi o meu avô quem ensinou a minha avó a ler e eu, que assistia a toda aquela circunstância de meiguice, mais convencida ficava de que a sua função no mundo era a de guardador de livros. Na dimensão preservável do objecto, como fazia com todas as coisas, e na dimensão partilhável do conteúdo, que lia para si e para nós, ensinava a ler e ajudava a compreender.
Quando eu era pequena o meu avô ensinou-me a encadernar os livros e eu entendi que devia aprender a fazê-lo com a ternura e o esmero que ele trazia sempre nas mãos. Ele levava horas a reforçar as capas e a cobri-las com papéis de cores e texturas diferentes, impecavelmente vincados nas dobras, os títulos nas lombadas claramente desenhados naquela caligrafia brilhante e impossível de copiar. Eu aprendia a vincar as dobras com os dedos pequeninos e mal capazes. Queria muito imitar-lhe a arte mas, com a mesma naturalidade que os gestos do meu avô se inclinavam para a perfeição, os meus obedeciam a um desvio incontrolável para o desastre e, muitas vezes se rasgavam os papéis e se estragavam os títulos com erros de ortografia. O meu avô suspirava, sobrepunha a sua paciência à minha frustração, deitavam-se à lareira os papéis rasgados e os erros de ortografia, e a tarefa começava de novo. Desta vez, melhor.
O meu primeiro livro contava a história da fuga de uma tal Alice através do espelho. Foram precisas várias tentativas até o serviço ficar aceitável e foi maravilhoso ver o meu avô sorrir e dizer que sim com a cabeça enquanto examinava o meu primeiro projecto: um desconchavo de papel manteiga com as dobras quase tão espessas como o próprio livro. Foi um triunfo indizível. E, logo a seguir, chegou uma nova dificuldade.
No momento de colocar o livro na estante, havia um banco para eu subir e ficar da mesma altura do meu avô, e havia uma única regra de arrumação, muito simples que se baseava – em partes iguais – nos conceitos de ordem e de caos, um critério difícil de definir e que ordenava os títulos alfabeticamente segundo o destino geográfico do assunto.
O meu avô levou algum tempo a explicar-me que cada livro é como uma viagem e que cada viagem se faz rumo a um destino diferente. Eu não compreendi e ele foi buscar um volume grosso que trazia na lombada as palavras Crime e Castigo. Explicou que era um livro muito importante para conhecer os conceitos de bem e mal, certo e errado que vivem nas aspirações e atitudes de cada um. Uma viagem que se fazia rumo àquilo que uma pessoa deseja para si e ao percurso que está disposto a fazer para lá chegar. Como eu fiquei muito calada, a segurar nas mãos a minha Alice sem ideia de onde a guardar, o meu avô pegou num outro livro – 20.000 Léguas Submarinas – a aventura de uma viagem pelas profundezas do mar, ou então, uma viagem pelo engenho humano e pela vontade de ultrapassar o medo que é natural sentir-se em relação ao desconhecido.
Eu olhava para as minhas mãos.
Tens de descobrir onde te leva o teu livro, revelou por fim o meu avô.
E eu compreendi que precisava de o ler e, só passados muitos dias, voltei a subir ao banco resolutamente à procura da prateleira marcada com M de Maravilhas.
Fui compreendendo aos poucos o sistema de arrumação de livros que o meu avô praticava, garantindo-me sempre que era assim que se faziam as coisas nas verdadeiras bibliotecas. Acontecia por vezes termos de mudar os livros e as viagens de um lugar para outro. A cabana do Pai Tomás – muito muito bonito – teve morada no E de Escravatura, depois mudou-se para o A de Abolicionismo e acabou, mais tarde, por inaugurar uma nova secção no L para Livros que Salvaram o Mundo.
Quando eu era pequena aprendi com o meu avô a ternura de todas as coisas. Aprendi que é possível ser feliz em sossego. Que os livros devem ser lidos antes de arrumados, que cada livro propõe uma viagem e que cada leitura pode criar novos rumos a um caminho já percorrido. Aprendi a ser guardadora de livros.
Mais tarde, muito mais tarde, depois de graduada, pós-graduada e especializada, recebi um papel carimbado que me fez bibliotecária, que é só um nome diferente para uma prática muito antiga. Estudei catalogação e indexação, as listas ordenadas de termos e as tabelas de autoridade, os sistemas de triagem das espécies bibliográficas e os códigos alfanuméricos das cotas e descobri que, afinal, já não existem verdadeiras bibliotecas, como aquelas de que falava o meu avô. Descobri que nas bibliotecas onde hoje se guardam os livros não é possível compreender-se o mapa das viagens da humanidade. Da humanidade que escreve e da humanidade que lê.
Mas em casa, guardo uma verdadeira biblioteca, com estantes e prateleiras em que se faz um esforço genuíno de procura da verdade. Ainda lá está o volume mal encadernado da pequena Alice que agora repousa no I onde se alinham as viagens Interiores.
Foi com esse o livro que tudo começou. Quantos livros se guardam lá dentro? Suponho que terei de o ler outra vez. Por agora, não sei. E como não sei, devo apenas sorrir.»

Voltar às Correntes

correntes

Começa amanhã mais uma edição das Correntes d’Escritas, desta vez no Cine-Teatro Garrett (Póvoa de Varzim), onde até sábado passarão pelo palco mais de 50 escritores de «expressão ibérica», distribuídos por sete mesas, cada uma com um dos habituais temas espinhosos que a organização sugere aos participantes. Eu participarei na mesa 3, sexta-feira (15h00), na companhia de António Cabrita, Clara Usón, Manuela Gonzaga e Virgílio Alberto Vieira, com moderação de Michael Kegler.
A programação completa pode ser consultada aqui.

Já há programa para as Correntes d’Escritas 2014

Ei-lo:

Mesa 1
Quinta-feira, dia 20, 17h30
Tema: Pensamentos não são correntes de ninguém
Participantes: António Gamoneda, Eduardo Lourenço, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge, Ungulani Ba Ka Khosa
Moderador: José Carlos de Vasconcelos

Mesa 2
Sexta-feira, dia 21, 10h00
Tema: palavras + correntes = x
Participantes: Afonso Cruz, Helder Macedo, Ivo Machado, Miguel Real, Patrícia Portela, Valério Romão
Moderador: João Gobern

Mesa 3
Sexta-feira, dia 21, 15h00
Tema: A ficção nos livros é corrente de verdade
Participantes: Ana Margarida de Carvalho, António Mota, Boaventura Cardoso, João Ricardo Pedro, José Ovejero, Michel Laub
Moderador: Francisco José Viegas

Mesa 4
Sexta-feira, 21, 17h30
Tema: De correntes e cont(r)a-correntes se faz a poesia
Participantes: Ana Luísa Amaral, Golgona Anghel, João Moita, Margarida Ferra, Valter Hugo Mãe
Moderadora: Isabel Pires de Lima

Mesa 5
Sexta-feira, 21, 22h00
Tema: Cada livro é a antologia corrente da existência
Participantes: Carlos Quiroga, Joana Bértholo, Manuel da Silva Ramos, Manuel Jorge Marmelo, Miguel Sousa Tavares, Ondjaki, Rui Zink
Moderador: Michael Kegler

Mesa 6
Sábado, 22, 10h00
Tema: Coração de correntes desabitado: a poesia
Participantes: Helga Moreira, Inês Fonseca Santos, Manuel Rui, Pedro Teixeira Neves, Uberto Stabile, Vergílio Alberto Vieira
Moderador: José Mário Silva

Mesa 7
Sábado, 22, 15h30
Tema: Não são minhas as correntes que escrevo é outro que as escreve em mim
Participantes: Andrés Neuman, Inês Pedrosa, José Rentes de Carvalho, Manuel Rivas, Onésimo Teotónio Almeida
Moderadora: Ana Sousa Dias

Todas as sessões decorrerão no Hotel Vermar, na Póvoa de Varzim.

O lápis na água

Ana Luísa Amaral pegou no copo e verteu água lá para dentro até meio. «Alguém tem um lápis que me empreste?» Estávamos, eu e ela, na Escola Básica 2/3 de Rates, perto da Póvoa de Varzim. À nossa frente, dezenas de alunos do oitavo e nono ano convocados para um encontro com autores, incluído na programação das Correntes d’Escritas. De uma das filas do meio, levantou-se um rapazinho tímido, lápis na mão. Ana Luísa agradeceu, pegou no pequeno cilindro de grafite e madeira, mergulhando-o na água. «Estão a ver?», perguntou, copo levantado no ar. «Reparem na percepção que têm agora do lápis. Ele não perdeu nenhuma das suas características, mas, devido ao fenómeno físico da refracção, parece maior. Parece outra coisa, parece diferente.» Onde está o copo com água até meio e lápis, leia-se poema e seu objecto. O poema não deve reflectir a realidade, deve refractá-la. Silenciosos, atentos, os miúdos perceberam a analogia, sem necessidade de grandes explicações.
«As Correntes d’Escritas são um lugar de resistência», lembrou Jaime Rocha, no final da sexta mesa. Resistência cultural. E resiliência. Numa altura em que os cortes orçamentais se tornaram regra e em que muitos projectos são suspensos, ou ficam congelados, ou pura e simplesmente desaparecem, porque não há dinheiro, porque as autarquias deixam de apoiar, porque os subsídios se eclipsaram (ou emagreceram tanto que deixam de ser suficientes), é admirável ver como as Correntes se mantêm de pé, firmes, com o auditório municipal ainda mais cheio do que em edições anteriores – aliás, a rebentar pelas costuras, mesmo em sessões habitualmente menos concorridas (quinta à tarde, sexta de manhã). Como sempre, os escritores foram subindo ao palco, respondendo aos motes nunca lineares que a organização sugere, desta vez versos retirados das obras finalistas do Prémio Casino da Póvoa, atribuído ao livro A Terceira Miséria, de Hélia Correia (Relógio d’Água).
Um dos aspectos mais marcantes da edição de 2013 foi a omnipresença da crise e do seu reverso: a revolta cada vez mais generalizada contra o sufoco da austeridade. Noutras edições das Correntes, já se tinham ouvido referências à situação económica e política do país, mas nunca como este ano. Volta não volta, quando algum orador se referia a um certo ministro com obscuras habilitações académicas, ou fazia uma piada sobre a obrigatoriedade de pedir factura, o público logo respondia com um burburinho cúmplice, bruáá, gargalhadas. «Já faltou mais para se ouvir a Grândola», dizia alguém na tarde de sexta-feira. E foi profético. Nessa mesma noite, Rui Zink precipitou o inevitável. No fim da sua intervenção, durante a qual se referiu à importância da acção cívica dos escritores e ao novo verbo que circula pelas redes sociais (grandolar; isto é, cantar a Grândola em sinal de protesto), lançou uma das suas provocações: «Eu não sou menos do que o ministro Relvas. Se ele, só com uma licenciatura, foi interrompido pela Grândola, eu, que sou doutorado, também quero ser. Vou continuar a falar durante mais três horas se vocês não me interromperem com a canção do Zeca.» O resultado foi o que se imagina. Apoteose, vozes ao alto e uma desculpável desafinação.
Logo no primeiro dia, ao reagir ao prémio para A Terceira Miséria, Hélia Correia dissera que os seus poemas cantam um país (a Grécia) massacrado pelo horror económico e devem ser lidos como o grito da «cantiga de alevantar», de José Mário Branco. Alevantemo-nos, então. Grandolemos. É extraordinário ver músicas quase esquecidas renascerem de um momento para o outro como instrumento de luta e mobilização. No hotel Axis Vermar, onde à noite os escritores, editores e jornalistas se juntam para conversas e copos, a Grândola teve direito a vários encores, ouviu-se ainda o Acordai, de Fernando Lopes-Graça, e até a Internacional. Na brincadeira, discutiu-se o que seria mais importante numa futura revolução: as palavras ou uma AK-47? Nas Correntes d’Escritas, o ar do tempo não fica à porta. Entra nos debates e nos momentos de lazer. É como o poema da Ana Luísa Amaral, o lápis dentro de água, refracção à espera de quem lhe dê um novo sentido.

[Texto publicado no n.º 122 da revista Ler, em Março de 2013]

Correntes d’Escritas no Hotel Axis Vermar

Até este ano, o epicentro das Correntes d’Escritas era o Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, onde decorriam todas as sessões de debate. Na 15.ª edição do principal encontro literário português, que decorrerá entre 20 e 22 de Fevereiro, a principal novidade será a mudança das mesas redondas para a Sala de Congressos do Hotel Axis Vermar. Tudo o resto se mantém: sessões nas escolas, lançamentos de novas edições, uma feira do livro, leituras de poesia e longas noites de convívio no bar do hotel.
A programação definitiva está quase fechada e será anunciada durante a próxima semana.

A ressaca

Volta-se a Lisboa. Volta-se à rotina. Mas é como se ainda estivéssemos lá, junto ao mar da Póvoa.

Bye bye Correntes


Clique para aumentar

Voltaremos, como sempre, em 2014.

Noites longas

As noites no Hotel Axis Vermar, onde dormem os participantes nas Correntes d’Escritas, costumam ser longas e animadas. No bar do hotel, ouvem-se conversas sobre livros já lidos e por ler, romances já escritos ou por escrever, campeonatos de futebol já perdidos ou por ganhar, além de tricas laborais, reflexões sobre o calamitoso estado da nação e outros temas prosaicos a que os literatos também se entregam com entusiasmo (quem julga que os escritores só falam de literatura, desengane-se). Este ano, com algum álcool à mistura, voltou a haver cantoria até às tantas, mas com o inevitável upgrade que os tempos entroikados exigem: várias abordagens à Grândola, Vila Morena, claro, mas também o Acordai, de Lopes-Graça, e até a Internacional. Grande revelação: Nuno Camarneiro, Prémio LeYa 2012, que surpreendeu toda a gente com uma voz de belo timbre e repertório ecléctico (embora se notasse um particular empenho na exploração do cancioneiro alentejano).

Hélia Correia, ao receber o Prémio Casino da Póvoa

Imagens desta tarde, no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, durante o encerramento das Correntes d’Escritas, um acontecimento cultural que Hélia comparou à ágora grega, acrescentando que «não pode acabar», nem que seja preciso «fazer a revolução aqui».

O mistério da Póvoa

Escrevo este post sentado no chão de madeira do segundo balcão do Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, enquanto lá em baixo Ana Luísa Amaral, António Victorino D’Almeida, Domingo Villar, Onésimo Teotónio de Almeida, Susana Fortes, Vasco Graça Moura e Maria Flor Pedroso (moderadora) falam na sétima mesa das Correntes d’Escritas. Escrevo no chão de madeira, no meio de dezenas de outras pessoas sentadas junto à porta, porque não há um único lugar livre no auditório, sentado ou de pé, nos degraus das escadas ou ao longo das paredes laterais. E isto aconteceu em quase todas as sessões. As Correntes sempre foram isto, um extraordinário e quase inexplicável sucesso de público, mas nunca vi tanta gente como este ano.
Em tempo de depressões e cortes, valham-nos as Correntes, iniciativa cultural resistente a todas as crises. Parabéns, Manuela Ribeiro e Francisco Guedes. Chega-se à Póvoa para matar saudades. Sai-se daqui cheio de esperança.

Mesa 6


Clique para aumentar

Da esquerda para a direita: Possidónio Cachapa, Jaime Rocha, Cristina Carvalho, Onésimo Teutónio de Almeida (moderador), Andréa Del Fuego, João Tordo e Joel Neto.

O que não se sabe

(glosa oblíqua de um verso de Ferreira Gullar)

Murmuras
Só o que não se sabe é poesia
e eu vejo-te à janela,
observando o movimento das coisas
na rua Duvivier, seu lento desfile,
sua prodigiosa vertigem, sua incerta glória,
uma miríade de coisas simples e pequenas
que desembocam numa grandeza cósmica,
coisas que se agitam, que se inflamam,
que brilham, coisas já matéria verbal
a aninhar-se no poema ainda no limbo,
esse novelo crescendo algures no
labirinto das circunvoluções cerebrais,
acendendo-se na tua consciência durante
o simples acto de olhar a rua, o poema
à espera de encontrar quem não saiba
o suficiente para o escrever, para o dizer.

Estás à janela, com o poema
expandindo-se dentro da cabeça,
poema silencioso, pés de lã, a erguer-se
do nada para uma espécie diferente
de silêncio, o som áspero das palavras
agora no papel, andaimes de tinta, carena
de um navio invisível mas que flutua
e avança leitor adentro, com os porões
carregados da melancolia que julgavas
só tua, mas que cedes agora ao
estranho comércio da poesia,
esse tráfico de ouro e pólvora,
brilho e deflagração.

Estás à janela, a cabeleira branca
reflectida no vidro, consciente
de cada um dos teus ossos,
e sobre os telhados do Rio de Janeiro
o céu que escurece é o de São Luiz
do Maranhão, paira no ar o cheiro
das bananas apodrecendo na tua infância,
a sombra das mil faces da miséria, a violência
venenosa do jasmim, o passado inteiro
com a sua carga ora sublime, ora abjecta,
e tudo isso cai no buraco do poema ainda
por existir, ainda buscando a sua forma
mas já em aproximação brusca
a quem um dia o lerá, compreendendo
ou não todos os sinais, a ordem
dentro da desordem, as asas da mosca
pousada no parapeito e a espiral
da mais longínqua das galáxias.

A rua Duvivier, não a conheço.
Fica numa cidade, o Rio de Janeiro,
onde nunca estive. Por isso, o teu
prédio, a tua janela, assumem na minha
imaginação uma forma que nasce
dos prédios todos de que me lembro
(prédios que não ficam na rua Duvivier)
e de todas as janelas que não são janelas
de prédios que fiquem na rua Duvivier.
É imaginária a janela em que te imagino,
no alto de um prédio também ele imaginário,
mas reais ambos, janela e prédio, porque
és tu e a tua cabeleira branca que se
reflectem no vidro enquanto o poema
ganha forma no labirinto das minhas
circunvoluções cerebrais.

Agora sou eu que murmuro:
Só o que não se sabe é poesia.
Não há poucos poetas porque
saibamos pouco. Há poucos
poetas porque sabemos demais.
Escrever é levantar uma cerca,
arame farpado na planície:
para cá da cerca, as nossas certezas;
para lá da cerca, o que desconhecemos.
Se tivermos sorte, o poema vem ter
connosco quando insones,
sonâmbulos, abrimos o portão
sem fazer barulho e nos perdemos lá
fora, nessa noite que escurece sobre
a nossa ignorância, sobre o Rio,
sobre a verdadeira rua Duvivier
e sobre a que imagino, sobre ti
e sobre mim, perdidos os dois
no reflexo da janela que não há.

[Poema escrito anteontem à noite, na Póvoa de Varzim, e lido ontem à tarde, na mesa 3 das Correntes d’Escritas]

Grandolar nas Correntes

Muito ao seu estilo, quase no fim da mesa 5, Rui Zink, que havia elogiado o verbo grandolar, divulgado por Sara Figueiredo Costa no Facebook, chantageou o público: «Eu não sou menos do que o ministro Relvas. Se ele, só com uma licenciatura, foi interrompido pela Grândola, eu, que sou doutorado, também quero ser. Vou continuar a falar durante mais três horas se vocês não me interromperem com a canção do Zeca.» O público, que enchia até à porta o Auditório Municipal, respondeu logo, levantou-se e cantou, maravilhosamente desafinado, os versos que tanto incomodam o governo da nação. Era inevitável. Tinha de acontecer. Neste tempo em que nos apequenam, é preciso grandolar em grande. E grandolámos.

Mesa 3

De onde vem o verso

O mote para a mesa 3 saiu do primeiro texto do livro Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (edição portuguesa da Ulisseia). Eis esse magnífico poema, sem a devida formatação gráfica (que o WordPress, hélas, não permite):

FICA O NÃO DITO POR DITO

o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer

e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?

por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo

do andar
do galo
no quintal
e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite

“só o que não se sabe é poesia”

Logo à tarde, a partir das 15h00, na mesa 3 das Correntes d’Escritas (Auditório Municipal da Póvoa de Varzim), este verso de Ferreira Gullar servirá de mote à sessão em que participo com Aurelino Costa, Ivo Machado, João Luís Barreto Guimarães, Lauren Mendinueta e Vergílio Alberto Vieira. Moderação de Francisco José Viegas.

Elas aí estão, as Correntes d’Escritas

Já começaram hoje e continuam até sábado. A programação completa pode ser consultada aqui.
Acabadinho de chegar à Póvoa, não prometo grandes reportagens, mas tentarei dar conta, com apontamentos e imagens, do que for acontecendo nas sessões (e fora delas).

Balanço final

Seja qual for o ângulo de análise (público, qualidade das mesas, organização), a 13.ª edição das Correntes d’Escritas foi um êxito. As dificuldades económicas fizeram-se sentir na duração do encontro (menos um dia), mas não no empenho dos participantes nem na adesão dos espectadores. A Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, à frente de uma grande equipa (e com o apoio da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim), estão mais uma vez de parabéns. E se a crise para o ano apertar ainda mais os cordões à bolsa, talvez seja de ponderar o pagamento simbólico das entradas (dois euros, por exemplo). Era uma forma de controlar o crescimento desmesurado do público, que já não cabe no Auditório, ao mesmo tempo que se financiaria um projecto que é demasiado importante para correr o risco de extinção.
Enfim, com maiores ou menores dificuldades, estou certo que para o ano há mais. E cá estaremos para dias intensos de debates em série, pouco sono e muito convívio.

Soundbytes

«O ruído do lápis no papel é uma música celeste», Almeida Faria (mesa 1)

«O escritor é um roubador do fogo, quer criar o mundo, quer transformá-lo num objecto que os outros podem contemplar», Eduardo Lourenço (mesa 1)

«Somos todos loucos nesta mesa, mas cada um à sua maneira», Rubem Fonseca (mesa 1)

«Como tenho poucos leitores, todos os meus poemas são sempre inéditos», Luís Quintais (mesa 2)

«O fôlego do leitor é o ritmo do poema», Manuel António Pina (mesa 3)

«Há um desequilíbrio no universo: o bem tende para zero, o mal para infinito», Afonso Cruz (mesa 3)

«O escritor não é Ulisses, o escritor é a Penélope», Rui Zink (mesa 3)

Últimas mesas

A mesa 5 («A escrita é um investimento inesgotável no prazer») foi talvez a mais animada de todas. Afonso Cruz cerziu várias histórias, no seu modo fragmentário e erudito, terminando com aquela em que o filho de quatro anos deu a entender, a um adulto, que gostava muito do Tolstoi (o pai, espantado, foi verificar a precocidade literária do miúdo e percebeu que afinal ele gostava mesmo era do «toi stoi»; ou seja, do Toy Story). Júlio Magalhães teve a humildade de reconhecer que era um não-escritor numa mesa de escritores e contou episódios engraçados da sua relação com os leitores (nomeadamente arrumadores de carros e pedintes). Ana Luísa Amaral, às voltas com um abcesso, leu um belo texto, todo ritmo e ímpeto. Valter Hugo Mãe fez uma extravagante e divertida declaração de amor a Rubem Fonseca, com a sugestão de um engate casto que acabaria com o escritor português deitado na cama do octogenário brasileiro, muito quietinho, abrindo de vez em quando os olhos «para o admirar». Manuel Moya foi evocativo, lírico, nostálgico. E Rui Zink correspondeu às expectativas, saltando de digressão em digressão, num caos calculado para ultrapassar o tempo da prometida franqueza («Juro dizer a verdade e só a verdade nos próximos dez minutos»), de modo a poder terminar, com mais wishfull thinking do que verosimilhança, fazendo o relato de uma suposta facadinha no casamento, com o pretexto do «trabalho de campo» para um romance sobre a infidelidade. No período de perguntas do público, uma leitora confessou que também vai para a cama com o Valter (quer dizer, com os seus livros), e uma outra anunciou a intenção de se deitar com todos os participantes da mesa, ao que o moderador da mesma, Henrique Cayatte, se apressou a dizer «Mas olhe que eu não sou escritor, eu não sou escritor».
Embora melhor do que a mesa 2, a mesa 6 («Da crise da escrita não se pode fugir») também deixou muito a desejar. Carmo Neto e João Pedro Marques não arrancaram os espectadores ao torpor de sábado de manhã (a sessão começou às 10h30), Miguel Real fez uma abrangente panorâmica da cultura portuguesa dos últimos séculos, com o foco nos intelectuais que se viram obrigados a passar os seus anos mais criativos fora de Portugal (um discurso com muita informação interessante, mas demasiado enumerativo, ao ponto de se tornar fastidioso), e Salgado Maranhão mostrou excelentes dotes de comunicação, só que ao serviço de uma abordagem do tema que pecou por ser impressionista e errática. As intervenções mais interessantes couberam aos oradores mais novos: Valeria Luiselli, que falou sobre a eternização das crises mexicanas e o lugar excessivo que a questão do narcotráfico ocupa no imaginário da literatura contemporânea do seu país; e Sandro William Junqueira, que leu um conto em que a crise real (a da austeridade, das dívidas, das contas por pagar) se intromete nas crises da criação literária.
Finalmente, a mesa 7 bateu todos os recordes de adesão por parte do público e os espectadores (que ultrapassaram largamente a lotação do Auditório Municipal) não se sentiram defraudados. Eugénio Lisboa deu uma notável lição de sapiência em que questionou as duas versões da frase-tema («As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento», em tradução que inverte o sentido original da frase de Antoine Rivarol). Helena Vasconcelos explorou a ambiguidade etimológica da palavra «talento». Luís Sepúlveda improvisou um devaneio algo preguiçoso. Gonçalo M. Tavares aproximou-se do tema muito ao seu jeito, analiticamente, em círculos, a partir de notas escritas na viagem de comboio entre Lisboa e o Porto. Onésimo explorou todas as variações possíveis da frase, no meio da habitual vertigem de anedotas. E João de Melo estreou-se nas Correntes em grande estilo, mostrando as suas qualidades narrativas numa intervenção brilhante, irónica e autodepreciativa, que partiu das memórias de infância nos Açores, à sombra de uma família numerosa em que o pai o considerava um fardo («Este não vale sequer a água que bebe»), passando pela parábola bíblica dos talentos.

Economia e poesia

Na mesa 3 das Correntes, discutiu-se o seguinte mote: «A poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras». Gostei particularmente da intervenção da Margarida Vale de Gato, cheia de verve e magnífica prosódia, sem medo de ser «barroca e verborreica». Eis o texto completo, com dois poemas integrados no torrencial fluxo de um discurso empolgado e empolgante:

«Economia e poesia, era o que mais querias. Poupar as palavras, pô-las a render. Às palavras contadas descontávamos o encontro, que necessita de logística, criávamos o supérfluo, um desejo imperativo e virtual, sem matéria nem peso nem carne, mas de aparência premente e vital, e exigíamos resultados ao poeta de serviço, corretor da Babel. O poeta de serviço metia ao bolso as palavras negativas e enjorcava um poema cheio de afirmações e de bons sentimentos. A balança de pagamentos bajulava a poesia alemã, esforçando-se por honrar a eterna dívida externa. O texto vai na sétima, agora oitava, linha, passou por isso a perfeição, e ainda não disse a palavra austeridade. Ai pois não, se somos lixo tomai lá que palavras são luxo, e poesia não é circuito nem é fluxo nem refluxo que ignore o que por aí se diz, o que por aí se canta e sofre, a manta que se pinta, poesia é sopro, sim, haverá quem o guarde só para si, mas não será soma nem resultado nem produto, quando muito é lucro, quando muito é estupro desta acrítica gramática, será serviço, por que não, mas servil? Uuuhhh põe-te em guarda poeta se já douras a pílula e arranjaste um sistema, ou ainda pior um esquema, desconfia muito do governo, se tens um, e sobretudo se te elege, a vida custa a ganhar já se sabe, mas dizemos por aí, nós, os que saímos à rua, marcha pequena que finalmente acorda e se põe a palrar, que à falta de papel andamos aos cartões e com eles enchemos as esquinas e as praças e nos pomos a abanar as mãos e a discutir seriamente as nossas vidas e a democracia com os fundilhos nas calçadas, dizemos por aí que basta, que inevitável é a tua tia e não se sabe como vai isto acabar, é como o amor, interminável enquanto dura, e há tanto tempo que por aqui não havia nada que se pareça, poesia é isto, não é soma feita, é procura e processo, imperfeita,

barroca e verborreica como eu, mas sem peneiras, meu bem,
experimentando a mão e a maneira
a poesia, como a gente, acha-se linda, desce à primavera.
e a água muda em madeira e a densidade em arco
devemos arejar o fígado, tratar a raiva,
laurear a pevide
trazer à brisa os cascos dos barcos
pois temos vivido submersos;

há amantes sem dinheiro, há pedintes de versos ao peito,
e há quem esqueça o trato cordato e queira pegar em pedras do fundo de perspectivas em falta
a reguilice desconjunta abala o planeamento
urbano mais do que a luta organizada,
que chatice, nem todo o grito é exacto, há revolta que não sabe que forma quer, dor sem acordo de discurso, balbucio, palavrões que inquietam, letreiros tão diversos.

Não é a desordem nem o excesso que impede um estado, mas o movimento que difícil e admiravelmente se põe em marcha num estado de austeridade.
Por mim sei que pouco me une aos meus semelhantes e porém não creio que haja pior solidão nem caminho mais perto para o fim.
Cada um no meio dos outros, alguns pelo seu bem comum: vamos ver.
A poesia nem sempre resulta nem nunca dá de comer.
Mas se falhar a economia haja outras coisas com matéria
para nos darmos
o que livre da miséria.

Só abdicando da respeitabilidade, nesta vida competitiva, podemos suspeitar da infinita realidade desmedida. Posso e já escandi versos e admito que há modéstia e coragem na procura de uma única frase bem lançada e precisa. Ao contrário da economia a matemática não me faz estrilhar. Gosto dela desde que não seja resultado, nem seja medição nem muito cálculo mas assim mais equação. Há beleza no pensamento abstracto, na eterização, na condensação, como há nos números primos e solitários, o belo de se ser único, o mistério de se ser regular até ao infinito ou irracional como pi. A poesia participa dessa esfera também mas faz falta que se suje, bem como que a admiração do rigor abra lugar ao riso. Este é um tempo profano e de nada serve a aparência do religioso se não for também aparição. Eu quero hoje que a palavra mova, necessito da palavra denúncia e da palavra nova que me darás, táctilintactotérmica, o que eu gostava da palavra mágica, da palavra ternura, coanilada, e viçoardente.
É maravilha e tristeza isto da escrita a correr além daqui e de mim, tão fácil montar e povoar mundos assim, iludir solidão, construir abrigos. Foram talvez os surrealistas que mais denunciaram este risco e impunidade do literário, reclamando a palavra-acção. E que fizeram? Desataram a desenterrar o sonho no mundo, a fazer armas automáticas de arremesso ao edifício da razão, queriam a revolução e marimbavam-se para a economia, e terão desconhecido pelo menos de início que dariam meios sofisticados à publicidade, ao marketing, ao mercado de ilusões, às campanhas de marcas e de partidos.
Colocamo-nos então uma pergunta cheia de gravidade: há alguma coisa que se possa fazer? Tens olhos, ninguém tem de te dizer para ver. Aqui na Póboa, por exemplo, eu beijo com os meus olhos e aqui bou, bôo eu, a tourear-te outra bês com a minha berbe. Somos muito perigosos nós com os nossos sotaques, as nossas falas malabares, corremos o risco, com tanta falta de contenção e despojamento de não estar preparados nunca para a verdade e, pior, para o gesto. Na minha história e neste tempo que lugar há para tudo isto que digo e como devo dizê-lo. E já pensei até em calar-me, não dizer mais, que estou a azular o mundo e a escritura não cura. Mas não, isso ainda eu não quero. Quero falar para que façamos. E no meio disto há o medo de parecer frívola ou assim de com alguma alegria te convidar à partilha e te chamar para aquilo que não sei como vais querer e se calhar quererás com ideal diferente do que eu achava que era bom para ti. Mas não quero estar mais sozinha nem pensar que a poesia é dedicação mais alta, ou que consigo brincar aos deuses e ao fim do mundo guardando a palavra archote, pelo que reflecti um poucochinho e fiz estes versos para ti:

Democrítica

Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
do que a fazer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,
herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,
e deixa que o isente a lucidez
da desprendida rota da unidade
além da sua esfera. Mais consola
levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.
Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.
Agora, se descerem os médios
à rua os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência translação,
a derrubar consumo e cómodo sem afecto
e esta economia ávida que há muito não vê
pessoa que não faça género ou número, então
não seja eu por mim avara na poesia,
e, mais que busque luz, eu desconhecendo, dê.

Margarida Vale de Gato»

Enchentes

Em vários anos que levo de Correntes d’Escritas, acho que nunca vi tanto público como nesta edição. Nas mesas mais concorridas (como a 7) até as escadas do primeiro balcão ficaram completamente ocupadas. Por vezes o Auditório esgotava 20 minutos antes do início do debate e cheguei a ver senhoras septuagenárias sentadas durante duas horas em desconfortáveis degraus de madeira, sem queixumes, dizendo umas para as outras que todos os sacrifícios valem a pena em nome da cultura.

Jornalistofobia

Toda a gente sabe que Rubem Fonseca não dá entrevistas nem contacta com a imprensa. Não o faz no Brasil, não o fez também na sua curta estadia em Portugal. Só a simples presença de um jornalista é suficiente para lançar o alarme. Sexta de manhã, tomava eu o pequeno-almoço com três camaradas de profissão quando o gigante brasileiro se aproximou da nossa mesa, sorrindo muito. Por trás dele, ouvimos a voz da filha dizendo: «Atenção, papai, são jornalistas!» Rubem pôs-se muito direito, muito hirto, exclamou «Vamos embora, vamos embora» e lá se dirigiu, em passo rápido, para a mesa mais distante que conseguiu encontrar.

Aplausos

Nas Correntes d’Escritas, é habitual ouvirem-se aplausos no final das sessões ou durante, quando uma determinada intervenção galvaniza a plateia. Este ano, na sessão de encerramento, houve um outro tipo de aplauso, intenso apesar de silencioso. Quando uma turma de alunos com deficiência auditiva subiu ao palco para receber um prémio, o público reagiu assim:

Mãos no ar, agitando-se. Foi o aplauso mais ruidoso de 2012.

Uma arte de poucas palavras

Eis um dos textos mais interessantes (e certamente o mais divertido) de entre os que foram lidos até agora nas Correntes d’Escritas. Foi trazido pelo poeta João Luís Barreto Guimarães para a mesa 3, com o tema “A poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras”:

O tema que nos é imposto hoje, confere-me uma certa insegurança ensaística, vamos dizer assim, em primeiro lugar porque entendo muito pouco de economia e ainda menos em tempos de escassez como estes pelos quais passamos; em segundo lugar, e talvez resida aqui uma verdade insofismável, porque tanto quanto me vou conseguindo aperceber pelo que vou ouvindo e lendo, a palavra «perfeita» e a palavra «economia» não se costumam entender a dançar juntas, qual casal de namorados que a cada passo pisa o dedo grande do pé um do outro. Com a diferença de que à «economia» nunca ninguém a ouvirá pedir desculpa.
Há, porém, neste mote provocador, duas palavras que me agradam sobremaneira e que têm o bom hábito de conviver entre si: «poesia» e «palavras». A «poesia», como se sabe, pode ser feita de «palavras», embora num sentido igualmente belo, também o possa ser de acordes musicais, ou de imagens fotográficas ou cinematográficas, por exemplo; e as «palavras», até prova em contrário, também têm a sua «poesia». Até mesmo a palavra «dinheiro», escreveu Pedro Paixão.
A poesia actual é uma arte de poucas palavras. Pode mesmo ser austera. É verdade que ainda existe quem, epicamente, insista em espalhar palavras e mais palavras por longos lençóis de papel, com o fito de fazer «grandes poemas». Mas se me perguntam, – e eu queria agradecer à Manuela Ribeiro e ao Francisco Guedes por uma vez mais se terem lembrado de me perguntar, – a poesia que me parece maior é, de facto, a mais pequena. Em tamanho e em tom. É essa, de facto, que me interessa actualmente.
Uma poesia que não fale muito. Acima de tudo, que não fale de mais. Que diga o que tem a dizer de forma concentrada, alusiva, sintética, compacta, elíptica, e depois se cale. Sobre o assunto que a toma desde o princípio a página, que tenha a amabilidade de o sugerir ao alto da página e depois, chegada esta ao fim, diga mais nada.
Pode até voltar à fala na página seguinte. Mas, também aí, o mais provável é que se alongue pouco, descendo pelo poema abaixo, degrau a degrau, surpreendendo-se ela própria por alguns lanços serem mais curtos, outros um pouco mais longos, mas de uma forma ou de outra sempre com um final à vista. Uma «escultura de som», escreveu António Barahona.
Suspeito que esses poemas extensos a que atrás aludi, se estendem por lençóis e lençóis de palavras por falharem em apreender o essencial, atirando em todas as direcções numa interminável verborreia, esquecendo a lição da Arquitectura mais recente que mostra, à exaustão, que «nunca a quantidade se tornou qualidade» (J.M.F.J.).
Mas desculpem se me antecipo com genuíno entusiasmo e me esqueço de que a maior parte dos presentes não está muito familiarizada com esse termo – como é mesmo que se diz? – «poesia». Senão, vejamos, quantos dos presentes terão no último ano adquirido algum desses objectos a que teimosamente insistimos em chamar, por resistência, «livro de poesia»?
Vou então tentar explicar, muito brevemente, o que é isso de um «livro de poemas» e, já agora, tentar perceber em que medida é que esse exótico objecto pode ser útil, digamos, nestes tempos de austeridade por que agora estamos a passar aqui no rectângulo.
Um livro de poesia é uma coisa, o mais das vezes, fina, em que as páginas vêm meio escritas, meio em branco. É verdade. Não há engano. Não se dá o caso de o autor não ter acabado de escrever a página até ao fim, por esquecimento ou acédia. Não. Um livro de poesia é mesmo assim.
Porque os poemas são feitos de coisas que se dizem e de coisas que não se dizem. Ou seja: uma página de um livro de poesia, habitualmente, é constituída por uma parte falada e uma parte muda. A parte falada tem palavras. A parte muda tem silêncios brancos.
Devo aliás referir que o silêncio que se segue ao final de um poema é parte integrante do poema sendo, aliás, a forma mais económica de fazer poesia. O silêncio encerra em si a mais perfeita forma de economia das palavras.
Alguns editores têm até algum pudor em editar livros de poesia, não porque lhes pareça que os livros de poesia não vendem o suficiente para justificar a edição, não, nada disso, mas porque sentem verdadeiro pudor em propor uma coisa que só está escrita pela metade.
Não se sentem bem a vender o silêncio, parece-me a mim, porque isso seria como, por exemplo, tentar vender o buraco do meio do pão-de-ló. A outra parte do poema, a do miolo gráfico, ainda vá, mas a parte em branco, realmente, custa-lhes. É por isso, e só por isso, que optam por não publicar mais poesia.
Devo confessar que não tenho razão de queixa. Fui recentemente adoptado por uma excelente editora, a Quetzal, que acaba de publicar os meus sete livros de poesia num só volume de 326 páginas. Intitula-se «Poesia Reunida» e está à venda lá fora.
Por uma questão de honestidade intelectual, devo desde já prevenir aqueles se possam sentir tentados a adquirir o referido livro que das 326 páginas que constituem o volume, só 228 contêm, de facto, poesia. O restante são cortinas, fichas técnicas, vinhetas, dedicatórias e epígrafes, – ah, as epigrafes, – essas frases em língua estrangeira que os poetas colocam no início dos livros, ou como incipit a alguns poemas para parecerem mais inteligentes que o leitor.
Alguns de nós chegam mesmo a colocar epigrafes em latim ou em grego, ou pior que isso, em alemão, – embora nunca, nestes tempos conturbados, em grego e em alemão no mesmo poema, – epigrafes essas que, convenhamos, em termos práticos têm um efeito muito semelhante a pedir Carne de Porco à Alentejana e aquilo ser servido com amêijoa vietnamita, a gente vê que a amêijoa está lá, sim senhor, em epigrafe à carne, mas não lhe chega a provar o sabor.
Duzentas e vinte e oito páginas em 326 parecem ser poucas páginas escritas, dirão os leitores de ficção presentes no auditório. Que mau negócio de leitura! Então aguardem pela verdade nua e crua: essas 228 páginas só estão escritas pela metade.
Era para falarmos de economia? Então continuemos: se estivéssemos a falar de prosa, essas 228 páginas corresponderiam somente a 114 páginas de ficção, o que significa que apenas 1/3 da área total disponível em papel no livro é que traz poesia. Os outros 2/3 são vasilhame.
Claro que isso pode revelar-se providencial em tempos de crise. Não é de mais chamar a atenção para o facto de que, por essa mesma razão, pelos espaços em branco que contém, um livro de poesia que fique esquecido lá por casa, pode vir a revelar-se um excelente bloco de notas, exactamente porque cada página tem ainda um pedacito de área em branco onde se pode escrever, digamos, uma lista de compras anotada à pressa, de pé, junto à copa, mesmo ao sair de casa, como aliás terá feito certa pessoa junto à sua escrivaninha favorita.
Reciclar é economizar. Numa página de Camões escolhida à pressa, quiçá mesmo aquela que começa com «Alma minha gentil que te partiste», a Dona Alzira, – que Deus a conserve por muitos e muitos anos, – pode sempre acrescentar, aproveitando aquele espacinho em branco que ainda sobra: «uma dúzia de ovos de galinha pica no chão»; «dois litros de leite magro, marca branca»; «400 gramas de maminha de vaca para grelhar», três singelas linhas que são, já por si, um poema.
E cá está! Aqui temos o argumento que faltava para esbater a barreira que os puristas insistem em traçar entre literatura e gastronomia, que a meus olhos sempre foi tão ténue como aquela linha oscilante que confunde a areia seca da areia molhada numa praia de inverno. Exactamente onde o mar costuma depositar «conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos».
Um soneto de Camões, um rol de séculos depois, a condicionar de forma implícita a ementa do jantar dos senhores doutores de Leça. Maminha de vaca. Quem sabe até, se essa página arrancada ao azar, – sem desprimor por outras do nosso maior poeta, – abandonada depois ao acaso na grade de um carrinho de hipermercado e colhida pelo cliente seguinte, não poderia vir a tornar-se um importante objecto de estudo universitário de literatura comparada, numa tese peregrina que versasse o tema «Camões, precursor do hiper-realismo – o pergaminho perdido».
Mas nestas questões de economia, os mais poupados com as palavras sempre foram os Orientais. São assim na vida e nos negócios, como o são na poesia. Chegaram mesmo a desenvolver um tipo de poesia, digamos, low-cost, denominada «haiku», – na verdade um modelo derivado da poesia japonesa, – constituído apenas por 3 linhas com um número fixo de sílabas: 5 no primeiro verso, 7 no segundo (e, antes que o poeta se entusiasmasse a esbanjar 9 sílabas no terceiro:), outra vez 5 no derradeiro verso.
Esta fórmula tornou-se, aliás, um género literário muito apreciado nestes dias conturbados e há até um Ministro do nosso Governo, de seu nome Vítor Gaspar, que adoptou o «haiku» como forma de comunicação ao país, embora com maior largueza de sílabas como é habitual nas derrapagens à portuguesa.
Senão recordemos dois dos seus mais recentes poemas, tal e qual como apareceram publicados nesse curioso hebdomadário de poesia a que chamam «Diário da República»:

O sol brilha na manhã
de mais um dia feriado:
«Saiam para o trabalho!»

Ou estoutro:

A borboleta tem nome:
«Décimo-terceiro mês».
A borboleta voa.

É realmente verdade que a poesia é pessoa de poucas palavras. A melhor poesia não deve poupar nos leitores, não deve poupar os leitores, mas deve, de facto, poupar nas palavras.
Num bom poema tudo conta, cada palavra conta. Em verdade, um bom poeta não precisa de fazer um grande esforço para economizar nas palavras porque à partida já não está na sua natureza gastar de mais. Para um poeta, cada palavra é valiosa demais na sua denotação e nas suas conotações, para ser gasta ao desbarato.
A poesia, esse grande enigma: «o que se perde na tradução».
Ou, como escreveu Juan José Almagro Iglésias no prefácio a uma tradução castelhana da poesia do norte-americano Billy Collins: «a única história documentada que possuímos do sentimento humano».
Ou ainda, como dizia outro poeta, «as palavras certas na ordem certa».
Texto e contexto. A poesia que mais me interessa atende a ambos. Tomemos como último exemplo a palavra «maçã» em diferentes contextos. Não é a mesma coisa aludir num poema à maçã de Newton, ou à maçã de Adão. Já tive oportunidade de escrever sobre ambas.
No episódio de Newton, quem cai é a maçã. No episódio com Eva, como é sabido, quem caiu foi mesmo Adão.

Outros blogues

Vale a pena espreitar o que vão escrevendo sobre as Correntes outros bloggers presentes, como a Sara Figueiredo Costa e o Luís Ricardo Duarte.

Cesariny dito por Sandro William Junqueira

Ontem à noite, numa das salas do Hotel Vermar, Sandro William Junqueira, que lançará amanhã nas Correntes d’Escritas o seu segundo romance (Um Piano para Cavalos Altos, Caminho), disse um excerto do poema Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, de Mário Cesariny. Belo momento.

Primeiro balanço

Em rascunho, no backoffice do blogue, há posts sobre as três primeiras sessões das Correntes (à quarta, no final da tarde de hoje, não pude assistir). Conto publicá-los amanhã, se tiver tempo para os limar. Mas é já possível fazer um balanço telegráfico dos debates iniciais. Sem grande surpresa, a primeira mesa foi a melhor, com boas intervenções de Eduardo Lourenço, Almeida Faria, Hélia Correia e Ana Paula Tavares, seguidas de um autêntico show de Rubem Fonseca, que andou pelo palco, interpelou a plateia e a «torrinha» (o primeiro balcão), bem como os seus companheiros de mesa. Inteligente, erudita, provocatória, a intervenção de Rubem foi um exemplo do melhor que as Correntes podem oferecer, quando os seus convidados revelam extraordinárias capacidades de comunicação.
Esta amanhã, pelo contrário, vimos na mesa 2 um exemplo do pior que as Correntes também podem oferecer. O ensaísmo pessoano bacoco, pretensioso e excessivamente demorado de Alberto S. Santos, as historietas sem pés nem cabeça de Sofia Marrecas Ferreira e a girândola de lugares comuns de José Jorge Letria lançaram ondas de tédio no auditório. Salvaram-se da sessão, ingrata até no tema («O fim da arte superior é libertar»), as intervenções de Care Santos, Fernando Pinto do Amaral e Luís Quintais, que cumpriram os mínimos mas estiveram longe de brilhar.
Com a mesa 3, em que participaram Jaime Rocha, João Luís Barreto Guimarães, Margarida Vale de Gato, Manuel Rui e Manuel António Pina, os níveis de qualidade voltaram a subir. Destaco o brilhante texto de Barreto Guimarães, o manifesto poético de Margarida Vale de Gato e a intervenção improvisada, mas densa, lúcida, irónica e divertida, de Manuel António Pina.

Dois momentos de Rubem Fonseca nas Correntes d’Escritas

Agradecendo a medalha de mérito cultural que lhe foi entregue pelo Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

Final da intervenção «peripatética» (sempre a andar e falando directamente para a plateia) na primeira mesa das Correntes d’Escritas, sobre as coisas de que um escritor necessita para ser mesmo escritor.

Singrando, entre auroras e sofias

O discurso de abertura das Correntes d’Escritas, proferido por D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, pode ser lido na íntegra aqui. Eis um excerto:

«Recortado pela espada dum rei meio-borgonhês, expandido pela visão dum príncipe meio-inglês, regenerado de oitocentos para novecentos por vagas meio-francesas, quando não francesas de todo, das militares e políticas às literárias e ideológicas, Portugal foi e é ainda uma importação inculturada, nunca tendo terra nem recursos para ser doutro modo.
Isto mesmo poderíamos dizer também de outros e até generalizar. Mas a nossa geografia terminal ou o grande cais em que nos (re)tornámos, trouxeram-nos tanta terra e tanto mar que ganhámos esta atual condição de pátria de todos e ninguém – ou de ninguém para renascer de todos. Creio que Vieira e Pessoa aceitariam a caracterização. Sendo aqui profético o Romeiro de Garrett (Frei Luís de Sousa), como Portugal perdido e no entanto ali, quase pedindo um reconhecimento que o salvasse, passando do “ninguém” que se chamava ao merecido “alguém” que o despertasse, muito merecidamente despertasse. Estamos nisto tão perto dos últimos versos da Mensagem pessoana: “ … (que ânsia distante perto chora? / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro… / É a Hora!”.
Sim, saberiam trovar os poetas provençais, mas aqui trovava-se sempre; poderiam outros fazer algo em suas terras, mas daqui só se podia adivinhar tudo; poderiam outros manter grandes impérios, mas aqui só do nada se renasceria enfim.
Portugal culturalmente é uma teima, como geograficamente é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir.»

Rubem Fonseca lê um soneto de Camões

O soneto Busque Amor novas artes, novo engenho, de Luís Vaz de Camões, lido por Rubem Fonseca nas Correntes d’Escritas.

[Um vídeo postado por Sara Figueiredo Costa no Cadeirão Voltaire]

Uma entrevista com E. L.

Foi em Março de 1998, poucas semanas antes da abertura da Expo’98. Num domingo à tarde, sentei-me à conversa com Eduardo Lourenço, então prestes a fazer 75 anos. Pretexto: uma entrevista de fundo para o suplemento DNA, do Diário de Notícias. Lembro-me perfeitamente do átrio do hotel lisboeta, com cadeirões confortáveis, à média luz. Em surdina, chegava da recepção um relato de futebol. O professor recebeu-me com um aperto de mão firme, rosto ameno, gestos cordiais. Vestia casaco castanho, calças cinzentas, gravata malva. Antes de nos sentarmos a uma mesa do canto, enquanto eu testava o gravador e a microcassete de fita castanha, apoquentou-se. Apalpando os bolsos, admitiu não saber dos óculos: «Acho que os deixei no Vá-Vá» (o café da Avenida de Roma onde passara parte da manhã). Ao aperceber-se da agitação, um empregado aproximou-se, lembrando que vira «o senhor professor» a subir para o quarto com os óculos postos. Eduardo Lourenço pediu desculpa, dirigiu-se rapidamente para o elevador e demorou um quarto de hora a voltar ao átrio. Já a luz vermelha do gravador se acendera, quando rematou: «Uma parvoíce, isto dos óculos, na verdade não precisava deles para falar, pois não?»
A bonomia do primeiro contacto prolongou-se pelas quatro horas seguintes. Quatro horas de discurso contínuo, de elocubrações e memórias, de inteligência e lucidez. O mais espantoso de tudo foi ver como Eduardo Lourenço, nunca se assumindo como filósofo (apenas como «pensador»), exercia à minha frente a arte de reflectir. As suas frases tinham uma frescura inesperada, como se estivessem a ser ditas pela primeira vez (e algumas estariam mesmo). Entre ideias mais fortes, havia por vezes longas pausas, como se os nexos entre elas requeressem o tempo de serem devidamente ponderados. Coisa extraordinária, esta: ouvir um pensador no acto de pensar. Aqui e ali, um sorriso sublinhava as palavras que se arredondavam em soundbytes. Por exemplo: «Portugal não sairá nunca de si.» Ou: «Este é um país pequeno mas que tem um imaginário hiperbólico.» Ou ainda: «A Arte, se virmos bem, acaba sendo a verdadeira Internet de Deus. É o lugar onde ao mesmo tempo navegamos e somos navegados.»
Lourenço falou de Camões e Pessoa, de Husserl e Kierkegaard, as suas grandes referências literárias e filosóficas. Lamentou não ter sido médico ou historiador, em vez de transportar em si a consciência de um trabalho interminável: «A minha vida é não produzir sentido. É uma vontade de dar essa ideia de sentido, algo de que me aproximo como de um objecto quase idolátrico. Era Hegel que dizia ter sido condenado por Deus a ser filósofo. Condenado porquê? Porque é uma tarefa infinita.» E lembrou a infância, «esse espaço dentro do qual se coloca algo de parecido com a felicidade», os primeiros anos na aldeia beirã onde nasceu, S. Pedro de Rio Seco, e que hoje em nada se assemelha ao que era na década de 20. «Entre as diversas temporalidades, a mais difícil de pensar é a do nosso próprio tempo, porque de algum modo é ele que nos pensa a nós», resumiu, vagamente comovido.
Houve também espaço para pequenas surpresas. A confessada admiração por Corto Maltese, «que andou pelo mundo fora em viagem»; admiração com um toque de inveja («infelizmente sou pouco aventureiro»). Ou o entusiasmo ao evocar o «erotismo platonizante» de Ingrid Bergman: «Além da beleza inacreditável, há nela uma espécie de inocência, uma espécie de aura, qualquer coisa que se assemelha a uma aparição.» O cinema, de resto, tem uma carga simbólica tão poderosa que Lourenço lhe atribui a origem do domínio cultural americano: «Foi no grande ecrã que os americanos criaram a América. Atribuíram-se um imaginário e um passado que não tinham.»
No fim das quatro horas de conversa, enquanto agradecia a generosidade do tempo dispensado, perguntei-me: «Caramba, como é que um homem de quase 75 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» Catorze anos depois, a pergunta mantém-se: «Caramba, como é que um homem de quase 89 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» A resposta também se mantém: não sei. Não sei mesmo. Mas assistir à persistência de tamanho brilho intelectual é um consolo para quem vê diariamente a estupidez a ganhar terreno em todo o lado.

[Texto publicado no número de 2012 da revista Correntes d’Escritas]

Aproximações a Eduardo Lourenço

O número deste ano da revista das Correntes d’Escritas foi apresentado durante a sessão de abertura do maior encontro literário português. Integralmente dedicada a Eduardo Lourenço, a revista inclui textos de Almeida Faria, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Almeida, Emílio Rui Vilar, Francisco José Viegas, Gonçalo M. Tavares, Guilherme d’Oliveira Martins, Hélia Correia, Inês Pedrosa, Jaime Rocha, João de Melo, João Morales, José Carlos de Vasconcelos, José Jorge Letria, José Mário SIlva, Lídia Jorge, Miguel Real, Onésimo Teotónio de Almeida, Patrícia Reis, Pedro Vieira, Rui Zink, Sara Figueiredo Costa e Virgílio Bento.

Prémio Casino da Póvoa para Rubem Fonseca

O romance Bufo & Spallanzani (Sextante), de Rubem Fonseca, acaba de ser anunciado como o vencedor da edição deste ano do Prémio Casino da Póvoa. O escritor brasileiro encontra-se na Póvoa de Varzim para participar na edição deste ano das Correntes d’Escritas, que começa hoje. Logo à tarde, a partir das 17h00, Fonseca estará na primeira mesa redonda, com a frase “A Escrita é um risco total” como mote. Neste debate participam ainda Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Eduardo Lourenço e Hélia Correia, com moderação de José Carlos de Vasconcelos.

A caminho das Correntes d’Escritas

20120223-122859.jpg

Correntes d’Escritas 2012 – programa

Acaba de ser apresentado, na Póvoa de Varzim, o programa completo da 13.ª edição das Correntes d’Escritas. Este ano, haverá sete mesas redondas na Póvoa e uma em Lisboa:

MESA 1
Dia 23 de Fevereiro, quinta-feira, 17h00 (Auditório Municipal)
Tema: “A Escrita é um risco total” – Eduardo Lourenço
Participantes: Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Eduardo Lourenço, Hélia Correia e Rubem Fonseca
Moderador: José Carlos de Vasconcelos

MESA 2
Dia 24, sexta-feira, 10h30 (Auditório Municipal)
Tema: “O fim da arte superior é libertar” – Fernando Pessoa
Participantes: Alberto S. Santos, Fernando Pinto do Amaral, José Jorge Letria, Luís Quintais, Sofia Marrecas Ferreira e Care Santos
Moderador: João Gobern

MESA 3
Dia 24, sexta-feira, 15ho0 (Auditório Municipal)
Tema: A Poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras
Participantes: Jaime Rocha, João Luís Barreto Guimarães, Manuel António Pina, Manuel Rui e Margarida Vale de Gato
Moderador: Ivo Machado

MESA 4
Dia 24, sexta-feira, 17h30 (Auditório Municipal)
Tema: Toda a literatura é pura especulação
Participantes: Eduardo Sacheri, Inês Pedrosa, João Bouza da Costa, Manuel Jorge Marmelo, Pedro Rosa Mendes e Rosa Montero
Moderadora: Bia Corrêa do Lago

MESA 5
Dia 24, sexta-feira, 22h00 (Auditório Municipal)
Tema: A escrita é um investimento inesgotável no prazer
Participantes: Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe
Moderador: Henrique Cayatte

MESA 6
Dia 25, sábado, 10h30 (Auditório Municipal)
Tema: Da crise da escrita não se pode fugir
Participantes: Carmo Neto, João Pedro Marques, Miguel Real, Sandro William Junqueira, Valeria Luiselli e Salgado Maranhão
Moderador: Onésimo Teotónio Almeida

MESA 7
Dia 25, sábado, 16h00 (Auditório Municipal)
Tema: “As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento” – Antoine Rivarol
Participantes: Eugénio Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Helena Vasconcelos, João de Melo, Luís Sepúlveda e Onésimo Teotónio Almeida
Moderadora: Maria Flor Pedroso

MESA 8
Dia 28, terça-feira, 18h30 (Instituto Cervantes, Lisboa)
Tema: Traços de crise enriquecem o texto literário
Participantes: Afonso Cruz, Ana Paula Tavares, Care Santos, Manuel Moya e Valeria Luiselli
Moderadora: Helena Vasconcelos

A sessão de abertura está marcada para dia 23, às 11h00, no Casino da Póvoa, com a presença de Francisco José Viegas, Secretário de Estado da Cultura. Logo depois, será apresentado o novo número da revista das Correntes (inteiramente dedicada à figura de Eduardo Lourenço) e anunciados os vencedores de vários prémios literários: o Prémio Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros (ver lista de finalistas aqui); o Prémio Papelaria Locus (para jovens com idade compreendidas entre os 15 e os 18 anos); o Prémio de Conto Infantil Ilustrado (organizado pela Porto Editora); e o Prémio Fundação Dr. Luís Rainha (para um livro inédito de poesia, prosa, contos ou ensaio cuja temática seja a Póvoa de Varzim).
Haverá ainda uma conferência proferida por Dom Manuel Clemente, bispo do Porto (dia 23, 15h00), uma exposição de fotografias de Jorge Barros (Aproximações, na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto), as habituais visitas de autores às escolas do concelho, o lançamento de 15 livros e a cerimónia de entrega dos prémios Ler/Booktailors (sábado, dia 25, às 19h30, após a sessão de encerramento).

Correntes d’Escritas: apresentação do programa na quinta-feira

A apresentação do programa completo da edição deste ano das Correntes d’Escritas acontecerá no dia 2 de Fevereiro, a partir das 11h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, na Póvoa de Varzim.

Rubem Fonseca vem mesmo às Correntes d’Escritas

Segundo a Sara Figueiredo Costa, há fumo branco: Rubem Fonseca, um dos maiores e mais reservados escritores brasileiros da actualidade (geralmente avesso a qualquer tipo de exposição pública), virá mesmo a Portugal em Fevereiro, para participar no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. É uma excelente notícia, claro, ainda por cima quando a visita coincide com a reedição, pela Sextante, de uma das suas obras-primas: A Grande Arte. Mas para já convém não embandeirarmos em arco. Tendo em conta o passado de RF, só quando o vir em carne e osso, no Auditório Municipal da Póvoa, é que acredito.

Poema e meio de Kirmen Uribe

O meio poema é este, dito em basco durante as Correntes d’Escritas (fala dos pássaros que morrem no Inverno e das crianças que os tentam salvar):

Espantosa, a música do Euskera (tão diferente de tudo o que nos pudesse parecer familiar). Não concordam?
E agora um poema inteiro, em castelhano. Intitula-se Lunares. Ou seja, em português, Sinais. Os sinais do corpo, os sinais da pele, elementos da cartografia dos amantes:

Correntes d’Escritas 2011 – o programa

Nas Correntes d’Escritas acontecem muitas coisas: debates, lançamentos de livros, convívios à mesa e fora dela, visitas a escolas secundárias, exposições, recitais de poesia e música, noitadas no bar do hotel, etc. Mas, embora tudo isso faça parte daquilo a que se chama o “espírito das Correntes”, as pessoas juntam-se na Póvoa de Varzim essencialmente para assistir às mesas redondas no Auditório Municipal. A lista dos respectivos temas, convidados e moderadores, anunciada hoje, é a seguinte:

Dia 23 (quarta-feira)

17h00 – 1.ª MESA: «Falta futuro a quem tem no presente as ambições/passadas»
– Aida Gomes
– Almeida Faria
– Eduardo Lourenço
– Fernando Pinto do Amaral
– Maria Teresa Horta
– Ricardo Menéndez Salmón
Moderador: José Carlos de Vasconcelos

Dia 24

10h30 2.ª MESA: «Eu começo depois da escrita»
– Ignacio del Valle
– João Paulo Cuenca
– Júlio Conrado
– Karla Suarez
– Maria João Martins
– Miguel Miranda
Moderador: Carlos Vaz Marques

15h00 3.ª MESA: «A minha arte é uma espécie de pacto»
– David Toscana
– Juva Batella
– Luís Represas
– Manuel Jorge Marmelo
– Mário Lúcio Sousa
– Ricardo Romero
Moderador: Rui Zink

17h30 4.ª MESA: «Nua de símbolos e alusões é a poesia»
– Ana Luísa Amaral
– Carmen Yáñez
– Conceição Lima
– Gastão Cruz
– Ivo Machado
– Uberto Stabile
Moderador: Francisco José Viegas

Dia 25

10h30 5.ª MESA: «As palavras são apenas uma memória»
– César Ibáñez París
– Ignacio Martínez de Pisón
– João Paulo Borges Coelho
– Mário Zambujal
– Nuno Júdice
– Rui Zink
Moderador: João Gobern

15h00 6.ª MESA: «Espalho sobre a página a tinta do passado»
– Alberto Torres Blandina
– António Figueira
– Francisco José Viegas
– Inês Pedrosa
– Maria Manuel Viana
– Paulo Ferreira
Moderador: José Mário Silva

17h30 7.ª MESA: «A obra que faço é minha»
– Álvaro Magalhães
– David Machado
– Francisco Duarte Mangas
– João Manuel Ribeiro
– José Jorge Letria
– Vergílio Alberto Vieira
Moderador: Ivo Machado

Dia 26

10h30 8.ª MESA: «Não há palavras exactas»
– José Manuel Fajardo
– Kirmen Uribe
– Nuno Crato
– Pedro Vieira
– Raquel Ochoa
– valter hugo mãe
Moderador: Onésimo Teotónio Almeida

16h00 9.ª MESA: «Nada no mundo deve ser subestimado»
– António Victorino d’Almeida
– Luis Sepúlveda
– Manuel Rui
– Mário Delgado Aparaín
– Onésimo Teotónio Almeida
– Yvette K. Centeno
Moderadora: Maria Flor Pedroso

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges