Prazo do Prémio Literário Casino da Póvoa termina sábado
Quem quiser concorrer ao Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, tem que entregar a sua candidatura até ao próximo dia 30. Este ano, podem candidatar-se autores de língua portuguesa ou castelhana, com obras de poesia (1.ª edição) publicadas em Portugal entre Julho de 2006 e Junho de 2008. Nas seis edições anteriores, foram distinguidos Ruy Duarte de Carvalho (2008), Ana Luísa Amaral (2007), Carlos Ruiz Zafón (2006), António Franco Alexandre (2005) e Lídia Jorge (2004).
O vencedor será anunciado na sessão de abertura do X Correntes d’Escritas, encontro literário que decorre entre 11 e 14 de Fevereiro de 2009.
Mais informações aqui.
Eduardo Mendoza: “Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção”
O escritor Eduardo Mendoza, 65 anos, nome maior das letras espanholas contemporâneas, participou na edição deste ano das Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde lançou o romance Mauricio ou as Eleições Sentimentais (ASA). Nesta entrevista, fala do livro, das suas circunstâncias e da sequela que está a escrever neste momento. Uma sequela que pode ficar pelo caminho, como muitas outras das suas tentativas ficcionais.
Neste último romance, situa como sempre a acção na cidade onde nasceu, Barcelona, mas pela primeira vez num período histórico recente. O que é que o levou a abordar um momento político tão concreto como as eleições autonómicas de 1984, na Catalunha?
Para ser sincero, não sei. Um dia dei comigo a interessar-me por esse momento. Há muitos livros escritos sobre a transição para a democracia, mas ninguém se debruçara ficcionalmente sobre esta fase concreta que foi, para mim, o parêntesis pior da História Contemporânea espanhola posterior ao fim da ditadura. Após um período de alegria e grandes mudanças, começávamos a pagar a factura. A lua-de-mel acabou, deixando-nos perguntas a que não sabíamos responder: “E agora? Para onde vamos?”
Depois da euforia, o choque com a realidade.
Sim. Havia também uma crise económica muito forte, que complicava tudo.
A primeira parte do livro sugere um enredo sobre a política catalã, vista do campo socialista. Mas ao fim de apenas 90 páginas dá-se a derrota eleitoral, face aos nacionalistas conservadores de Jordi Pujol. Daí em diante, o romance muda de foco, centrando-se nos dilemas amorosos de Mauricio, o protagonista. Já tinha prevista esta inflexão quando começou a escrever ou foram as personagens que lhe roubaram a trama?
Não tinha nada previsto à partida, mas quis evitar que esta fosse uma história meramente política. O que me interessava era seguir uma pessoa enquanto ela passa por várias etapas, do entusiasmo ao desencanto. Mas se abordas uma campanha eleitoral, a dimensão política do livro vai estar sempre em primeiro plano. Não há nada a fazer. Aliás, é a mesma coisa se te lembrares de introduzir um homicídio na história: o teu livro converte-se imediatamente num policial. Neste caso, a minha ideia inicial era acompanhar o regresso de um homem à sua cidade. Porque foi isso o que me aconteceu, mais ou menos naquela altura.
Voltou de Nova Iorque, onde foi tradutor na ONU durante quase uma década.
Eu vivia em Nova Iorque e ao voltar a Barcelona encontrei uma situação que não esperava. Nos Estados Unidos e noutros lados ainda se falava da transição espanhola, mas em Espanha ela já tinha terminado.
O livro é também sobre esse culminar de um ciclo, sobre o fim das ilusões quanto a uma mudança mais radical da sociedade.
Claro. Esse desencantamento coincide com a emergência de uma geração mais jovem do que a minha, uma geração que muda de vida enquanto o país vai mudando. A evolução de Espanha coincide com a sua, na passagem da juventude à maturidade. Era esta a geração que me interessava descrever.
Descreve-a com um olhar clínico, onde outros teriam um olhar cínico.
Não quis fazer julgamentos. Se escrevo livros, é para desenhar um panorama, ver o que se passa. Habituei-me a viajar com um caderno e um lápis. Eu não tenho um grande traço, não sou um artista plástico, mas acho que me safo menos mal. E gosto do exercício de esboçar no papel as realidades com que deparo. Ao desenhar, observas coisas que à vista desarmada te escapariam. E com a escrita passa-se o mesmo. Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção.
Para que não escapem os detalhes, as coisas mínimas?
Precisamente. Não basta dizer como foram as coisas, é preciso explicá-las. E no acto de explicar, tu próprio entendes melhor o que se passou.
O seu protagonista está longe de ser um alter-ego. Quais são as maiores diferenças entre a criatura e o criador?
Creio que Mauricio é demasiado passivo. Eu não era assim. Ele fica à espera que as coisas lhe aconteçam, revela uma atitude expectante. Não sei, talvez eu devesse tê-lo feito menos plano. Acontece que os romances, por natureza, comprimem o tempo. Se as personagens fossem tão complexas e contraditórias como as pessoas reais, os livros não acabariam nunca. Bem, houve quem fizesse quase isso, como Proust…
Em sete volumes.
Pois. É sempre preciso cortar algo e quando se corta, perde-se.
Sendo este um livro passado em Barcelona, como quase todas as suas obras, é interessante verificar que há poucas descrições da cidade. Sabemos que é ali que as coisas se passam, mas Barcelona não se vê. É quase como um estado de espírito das personagens, mais do que uma realidade física.
Eu não queria que fosse um romance sobre Barcelona. O que se passou é que me interessava contar o que realmente aconteceu na cidade durante aquela época, que não era o mesmo que acontecia em Madrid, muito pelo contrário. Durante muitos anos, Madrid foi a cidade burocrática e Barcelona a cidade rica, activa. Mas naquele período isso mudou. Barcelona perdeu importância, devido à crise económica que se seguiu à entrada de Espanha na Comunidade Europeia, uma entrada que a longo prazo trouxe grandes benefícios mas no curto prazo foi problemática. Os preços subiram muito, havia desemprego, o que também contribuiu para a decepção das pessoas. O romance termina justamente quando começa a mudança.
Ou seja, no dia em que a cidade é escolhida para organizar os Jogos Olímpicos de 1992.
Tendo esse projecto em mira, Barcelona deixa de ser uma cidade industrial para se converter numa cidade de turismo, de serviços, de grandes centros de medicina, informática, alta tecnologia. E onde antes havia fábricas, passou a haver complexos habitacionais, uma cidade moderna. Esta transformação, que se deu muito, muito depressa, era outro tema que gostaria de tratar.
Ficcionalmente, a porta está aberta. Ao chegarmos à última página do livro, fica implícito um eventual casamento entre Mauricio e Clotilde, com tudo o que isso implica. Os seus leitores podem esperar uma sequela, qualquer coisa como Mauricio e as Olimpíadas?
(Risos) O título é prematuro, mas sim, já estou a avançar numa continuação, embora não saiba ainda o que lhe vai acontecer. Eu começo muitos romances que depois ficam pelo caminho. Este é suposto passar-se dez anos mais tarde, em 1996. Mauricio e Clotilde casaram e Barcelona já mudou. Têm filhos e veremos o que lhes acontece.
A escrita corre-lhe bem?
Não, neste momento estou sem saber o que fazer. E entretanto escrevi outra coisa, uma novela.
Quando é que sabe que um romance vai mesmo até ao fim?
Isso é terrível. Nunca. Nunca sei. Às vezes, depois de terminar um livro que me consumiu quatro anos de trabalho, fico sem saber se o devo publicar ou destruir. É nessas alturas que peço ajuda à minha mulher ou a alguns amigos. Mas antes de estar concluído, nunca mostro nada a ninguém. Guardo o texto à chave.
Essa incerteza não o angustia?
Muito. Muitíssimo. Por isso peço a opinião dessas pessoas próximas. Às vezes dizem-me que sim, outras que não. E o mais normal é que digam: “esta parte está bem”, “aquele capítulo ficou grande demais” ou “isto não se percebe”.
Acolhe essas opiniões?
Sim. E volto a escrever. Mas aí já é um processo rápido. Outro motivo de angústia tem a ver com este desfasamento: o que o escritor levou vários anos a escrever, é julgado pelo leitor de uma só vez, em dois ou três dias. Sinceramente, considero um milagre o livro manter sempre o mesmo nível, porque um dia acordas optimista, noutro estás deprimido ou doente, umas vezes estás em casa, outras em viagem. Às vezes é difícil que o livro não registe tamanhas oscilações.
O humor e o sarcasmo são marcas do seu estilo e este romance não foge à regra.
Muitas vezes me perguntam porque recorro ao humor nos meus livros e a verdade é que não há nenhuma razão. Se fosse japonês, escreveria de outra maneira. Se fosse uma mulher, também. Sou como sou e por isso escrevo como escrevo.
Alguns dos episódios mais divertidos de Mauricio ou as Eleições Sentimentais ocorrem em sessões de esclarecimento do PSOE catalão. Frequentou na altura esse tipo de acções de campanha?
Sim, claro. Foi uma época bonita. A democracia ainda estava no começo e as pessoas dos bairros pobres acreditavam que todos podiam e deviam participar no processo democrático. Eram tão empenhados quanto ingénuos. As reuniões eternizavam-se porque nunca ninguém se punha de acordo.
Mais ou menos a meio do romance surge o tema da Sida, doença nova que atinge um dos vértices do triângulo amoroso. Quando Porritos morre, há quem a associe ao fim de um tempo, que tanto pode ser o da esperança ideológica na revolução como o da verdadeira liberdade sexual.
Naqueles primeiros anos da epidemia, a Sida foi vista por muita gente como uma espécie de castigo a pairar sobre a liberdade sexual conquistada nas duas décadas anteriores. Porritos poderia simbolizar o fim dessa ilusão, como simboliza o ocaso de uma certa forma de luta política, a dos velhos militantes que se sacrificavam e corriam perigos, mas que os partidos foram afastando porque já não serviam para nada. De certa forma, Mauricio tenta lutar contra isso, contra a transformação de Porritos em símbolo. Ela é apenas uma pessoa que morreu com uma doença terrível. Mais nada. Nenhuma pessoa deve ser reduzida a um símbolo. E por isso fiz aquele epílogo em que remeto esse peso para figuras mitológicas como os anjos, que são, esses sim, símbolos de símbolos.
[Versão ampliada de uma entrevista publicada no suplemento Actual do Expresso]
Correntes d’Escritas por quem as faz (participantes - 2)
Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema
Maria do Rosário Pedreira, editora da QuidNovi e poeta
Luís Filipe Cristóvão, gestor editorial, livreiro, poeta e blogger
Memórias das Correntes
A livraria improvisada, na Casa da Juventude, onde se podiam comprar os livros de que se falava lá dentro, nos debates.
O escritor Ondjaki na manhã do último dia, já de malas feitas, depois de uma directa.
Correntes d’Escritas por quem as faz (participantes - 1)
Ruy Duarte de Carvalho, vencedor do Prémio Casino da Póvoa (com o livro Desmedida, publicado pela Cotovia)
Manuel Rui, veterano entre os escritores veteranos (participa no encontro desde a primeira edição, em 2000)
Pepetela (Prémio Camões 1997)
Correntes d’Escritas por quem as faz (organização)
Luís Diamantino, vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim
Manuela Ribeiro, coordenadora do encontro e faz-tudo
Coisas que se ouvem
Em 2006, o autor guineense Waldir Araújo começou a escrever um blogue (Rio Geba). Entusiasmado, aproveitou o telefonema ao pai para falar da sua nova actividade na Internet:
— Pai, queria dizer-lhe outra coisa. Há uns dias que tenho um blogue.
— …
— Pai, eu tenho um blogue.
— [silêncio ainda mais longo]
— Pai, percebeu o que eu disse?
— Ó filho, percebi, percebi. Mas vamos com calma. Pode ser que seja benigno.
O que aí vem (e eu esfrego as mãos de contente, em antecipação)
- Num dos almoços das Correntes, o Jorge Sousa Braga garantiu-me que sairá em breve, na Assírio, a sua tradução de uma antologia do poeta polaco Zbigniew Herbert (de que faz parte este poema, revelado aqui no BdB). O título: Escolhido pelas Estrelas.
- Leonardo Padura revelou estar a escrever neste momento um romance sobre Leon Trotsky e o seu assassino, Ramón Mercader.
- Diogo Madre Deus, da Cavalo de Ferro (a editora que em 2007 publicou a primeira tradução completa do Orlando Furioso para a nossa língua), garantiu-me que na Primavera dará à estampa um romance que já se perfila como o grande acontecimento editorial de 2008: Rayuela, de Julio Cortázar. O título português será, em princípio, O Jogo da Vida.
Imagens do último dia (sábado)
Às 10h30, o Auditório Municipal ficou cheio como um ovo para ouvir Leonardo Padura, Mia Couto, Onésimo Teotónio de Almeida, Pepetela e Tabajara Ruas (com moderação de Maria João Seixas) dissertarem sobre o tema “Cada Homem é uma Língua”
Ruy Duarte de Carvalho (Prémio Casino da Póvoa) abraçou e foi abraçado, com enorme entusiasmo, por Pepetela e Luandino Vieira (ambos vencedores do Prémio Camões)
No final da mesa-redonda, Mia Couto tinha esta fila de pessoas à espera de um autógrafo. O contacto com os fãs teve que prosseguir no exterior do Auditório, porque era preciso preparar o palco para a sessão de encerramento
O vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Luís Diamantino, fez questão de chamar ao palco todos os autores convidados para as Correntes e ainda o vasto staff que garantiu o excelente funcionamento da organização, dos elementos do secretariado aos motoristas que zelaram pela eficiência e pontualidade dos transportes
Ruy Duarte de Carvalho fechou as Correntes d’Escritas 2008 ao receber o Prémio Literário Casino da Póvoa (20 mil euros e a miniatura de uma caravela) pelo seu livro Desmedida, que reúne crónicas de viagem
Os títulos das sessões
Nas Correntes d’Escritas, os motes lançados pelos organizadores são sempre um desafio. Leonardo Padura perguntou-se mesmo onde raio vão a Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes buscar aquelas frases que tantas vezes encostam à parede os autores convidados. “Devem começar a pensar nelas logo que uma edição acaba”, rematou o cubano. Carme Riera foi ainda mais longe: “Cada um destes títulos parece um verso e acho que se os juntássemos todos conseguiríamos fazer um poema.”
A mim, pareceu-me uma óptima ideia. Eis como poderia ficar a coisa, com acrescentos mínimos de pontuação:
CORRENTES D’ESCRITAS
A meu favor tenho a poesia,
a lenta volúpia de escrever
poesia: a bem dita e a mal dita.
Escrever é um gesto perverso,
dar a palavra à voz.
A literatura rasga a realidade,
a rua faz o livro,
cada homem é uma língua.
Sou do tamanho do que escrevo.
Balanço pessoal
- sete mesas-redondas (quase todas interessantes, algumas memoráveis)
- conversas com escritores
- histórias avulsas à mesa do restaurante
- uma dezena de livros (entre oferecidos e comprados)
- alguns reencontros
- novas amizades
- três entrevistas na memória do gravador digital
- uma série de pequenos depoimentos em vídeo
- a sensação de que os três dias foram uma semana
- estas olheiras:
Versão impressa (3)
O texto sobre o encerramento das Correntes, aqui.
Aviso
Com grande esforço e dedicação à causa, tenho conseguido assistir a quase todas as mesas-redondas, das quais vou tirando notas em folhas A4, agora muito dobradas no bolso do meu casaco (desde sempre um poço sem fundo de papelada e caligrafia caótica). Não esperem é que transcreva tudo num repente, do pé para a mão. O acesso à internet é limitado e dirigido para as obrigações urgentes (enviar textos para o DN), pelo que o resto virá aos poucos, durante os próximos dias.
Caçador caçado
Ontem à noite
O jantar foi num restaurante apropriadamente chamado Zé das Letras, com uma muralha etílica na parede a zelar pelo bom rumo das conversas.
[Na mesa da direita, podem ver-se Carlos Quiroga, José Carlos Vasconcelos, Onésimo Teotónio de Almeida e Luís Ricardo Duarte, jornalista do JL]
Versão impressa (2)
Não há link para o artigo no Diário de Notícias de hoje, por isso transcrevo:
A literatura que nasce na rua
e por vezes rasga a realidade
A história foi contada ontem por Carlos Quiroga, moderador do sétimo debate do encontro Correntes d’Escritas, que tinha “A Rua faz o Livro” como mote. Há uns anos, num colóquio de escritores em Moçambique, um grupo de que faziam parte Onésimo Teotónio de Almeida e Manuel Rui decidiu regressar a pé para o hotel. No caminho, os literatos cruzaram-se com um bando de jovens que em condições normais não hesitaria em roubar-lhes as carteiras. Contudo, ao ver Manuel Rui, o líder do gang apontou: “Ei! Aquele ali é o da Onda [o romance Quem me dera ser Onda].” Resultado: o que era para ser um assalto transformou-se numa guarda de honra.
Este tipo de efeito da literatura sobre a realidade quotidiana (e vice-versa) foi o grande tema que atravessou as várias mesas-redondas que voltaram a levar muito público ao Auditório Municipal da Póvoa de Varzim. Por exemplo, na sessão intitulada “A Literatura Rasga a Realidade”, moderada por Michael Kegler, o brasileiro João Paulo Cuenca contou como o seu romance sobre Copacabana, Corpo Presente, “virou um atractor de mulheres loucas”, que o assediam e por vezes até o perseguem. Se os outros escritores presentes — Eduardo Halfon (Guatemala), Ignacio del Valle (Espanha) e os portugueses Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe — não tinham intromissões tão explícitas nas suas vidas privadas para contar, o certo é que todos viram na fronteira entre a literatura e o real um “rasgão” que dá passagem e permite contaminações nos dois sentidos.
Na mesa de Quiroga, a rua também foi vista como metáfora dos vários caminhos que podem levar à ficção, vista no contexto das suas obras pelo peruano Oscar Málaga Gallegos, pela moçambicana Paulina Chiziane, pela espanhola Susana Fortes, pela luso-argentina Cristina Norton e por Júlio Moreira.
Quanto à sessão da manhã, sobre “Poesia: a bem dita e a mal dita”, juntou Filipa Leal, Jorge Sousa Braga, Teresa Rita Lopes e Janet Nuñez, com moderação de Luís Machado e animada participação do público no período de perguntas e respostas.
O lugar das palavras
É lá dentro, durante as sessões de duas horas. É cá fora, no resto do tempo.
Segundas impressões
Bom ambiente, organização impecável, horários cumpridos à risca. Tudo normal? Sim. Mas a normalidade, neste tipo de acontecimentos, é justamente o que é mais difícil de conseguir.
Coisas que se ouvem
— Ó pá, tu já vens às Pontes desde quando?
— Quais Pontes?
— As Pontes d’Escrita, o que é que havia de ser.
— Não são Pontes, pá, são Correntes. E não é d’Escrita, é d’Escritas.
— Pois. ‘Tá bem. É desde 2000, não é?
Um western gaúcho
O brasileiro Tabajara Ruas veio às Correntes com um duplo estatuto: escritor e cineasta. Ontem à noite, exibiu no Auditório Municipal Netto e o domador de cavalos, filme que escreveu e realizou (com assistência de Ondjaki). Apesar das cores desbotadas, “por causa de uma incompatibilidade entre o DVD que eu trouxe e o sistema de leitura das imagens daqui”, o público entusiasmou-se e comoveu-se com o fôlego desta espécie de western passado nas paisagens imensas do Rio Grande do Sul, em 1835. Narrativamente bem construído, em torno da lenda de um neguinho que foi morto pelo patrão por ter perdido uma corrida de cavalos, despertando a revolta e vingança dos outros escravos, a película tem cenas de tirar a respiração (o duelo num campo com formigueiros a perder de vista, por exemplo) e longas sequências de chibatadas que fazem lembrar o martírio de Cristo no filme de Mel Gibson (ainda assim com menos sangue). Ao meu lado, uma senhora levou o tempo todo a tapar os olhos e a limpar as lágrimas, enquanto murmurava: “ai que horror, mas isto não acaba?” Já as breves aparições do poeta poveiro Aurelino de Sousa, que antes da sessão não escondia o orgulho por ter feito parte do elenco, foram sendo recebidas com aplausos.
Versão impressa
Aqui.
No smoking
Ao jantar, desalentado, o jornalista Vítor Quelhas (Expresso): “Este ano, nota-se uma diminuição na qualidade das tertúlias, que noutros anos duravam até às cinco da manhã, entre copos e nuvens de fumo. É o efeito ASAE. Não se pode fumar no bar do hotel e por isso as pessoas vão lá para fora queixar-se da lei. Passados uns minutos, voltam para dentro e continuam a queixar-se de ter estado lá fora a queixar-se da lei. Acabam por ficar fartos de tanto queixume mas não saem do assunto. E por não sairem do assunto começam a sentir falta de outro cigarro. Então saem outra vez à rua e o ciclo recomeça.”
Sexo e amor
Na última sessão da tarde, a que não pude assistir, o escritor brasileiro André Sant’anna (publicado pela Cotovia) causou algum desconforto com a leitura do excerto de um dos seus livros, uma longa litania cheia de referências a “bocetas” e “paus”. Pelo que me contaram, houve quem gritasse da plateia “por que no te callas” mas o tímido Sant’anna, que garantiu só ser excessivo na escrita, lá prosseguiu como se nada fosse.
Uns minutos após o fim da sessão, encontrei-o à conversa na feira do livro das Correntes, instalada na Casa da Juventude. A outros dois participantes, o autor de Amor e outras histórias e de Sexo explicava: “O meu editor sempre me diz: ‘Olha, André, não vou dar nenhuma novidade para você: o Sexo vende mais do que o Amor.’”
Espertos
Há por aí uma dúzia de Smart pintados com a cara dos escritores da Dom Quixote presentes na Póvoa mas ainda não os vi.
Coisas que se ouvem
À mesa do almoço, já depois das fatias de picanha e de umas quantas garrafas de vinho: “Estavam na cama, ele diz-lhe ‘Vá lá, fode, fode’ e ela ‘Ai meu deus, essa palavra’. Às vezes é mais difícil passar do acto à palavra do que da palavra ao acto. Eis um tema sobre o qual tipos como o Lacan deviam ter escrito um livro.”
“A meu favor tenho a Poesia”
Mesa redonda n.º 2 (dia 14, 10h30). Com Amadeu Baptista, Uberto Stabile, José Emílio-Nelson, Vicente Martín Martín e Ondjaki. Moderador: Vergílio Alberto Vieira.
Amadeu Baptista respondeu ao repto com a leitura do seu poema O Bosque Cintilante. Alguns excertos:
«(…) Não traumatizemos as crianças, diz-se, hoje em dia,
mas a verdade é que a consciência do que me vai acontecendo
sempre me pareceu soberba e exaltante,
tanto mais que sempre quis ser poeta,
e para se ser poeta é sempre necessário estar no fio da navalha,
é necessário sentir o fio da navalha sobre a carne,
é necessário saber como se abre a ferida e o sangue corre,
e como a dor alastra sobre tudo, sem que haja esquecimento ou redenção,
mesmo se a redenção vier e a deslembrança
tiver que ser a última recompensa.
(…) quanto maior for a violência maior é o tirocínio do poeta:
a empreender o abalroamento do real para que resulte frontal a colisão,
derrapa, um dia, no troço da auto-estrada, a fazer
do ligeiro um monte de sucata e, do passageiro, lama,
não mais restando do que somos na energia cósmica, que ao pó regressa.
(…) Tive dois filhos, os quais eu vi nascer com estes olhos olhos que a terra
há-de conter, e vê-los a chegar, a suscitar ternura, fez-me querer
ser um guerreiro a combater o efémero, desarmado, embora,
mas pronto para a luta e a conquista dessa muralha inerme
com que a realidade arma ciladas sem nunca nos dar tréguas.
(…) Se sou poeta, ou não, interessa pouco.
O que escrevo é só um tempo breve,
em que os mortos e os vivos se procuram
para que haja testemunho e não seja longa a espera
do fim que há em tudo. Ah, que quem venha
a seguir se não esqueça o que é o norte,
e onde fica.»
Uberto Stabile, poeta espanhol, começou por lembrar o pai, “que enterrei faz hoje precisamente dez anos”, um pai que nunca compreendeu a sua vocação para a escrita e o preferia ver médico ou arquitecto. “A poesia foi sempre para mim uma questão de rebeldia e continua a ser.” Além disso, “escrevo poesia porque não sei escrever música, escrevo poesia como um proscrito em busca da música perdida”.
Depois deste breve intróito, Stabile leu dois textos curtos. Um mais ensaístico (Maldita sea la poesia) e um poema que funciona como arte poética de um dos seus livros. Resumo de algumas das ideias principais: a poesia vista como “inútil e necessária” e o poema como “consagração efémera do tempo”, algo que “morre para ser ressuscitado e também esquecido”; a importância da palavra na compreensão do mundo; a poesia enquanto entidade ambígua, de natureza insolente, transgressora dos limites, espaço vazio à espera de um sentido, realidade que alimenta e se alimenta das coisas, “virgem e canalha, fé e dúvida, crédito e descrédito da filosofia”.
José Emílio-Nelson, poeta nascido em Espinho, “colheita de 1948″, foi o orador que melhor se preparou para o debate. Em vez de trazer um texto já publicado noutras circunstâncias ou de improvisar um raciocínio em cima do momento, leu um curto ensaio escrito de propósito para esta mesa-redonda, com o título Interrogações a um versículo, de que revelo algumas passagens:
«Na minha poesia vive um bestiário medieval: a Fénix que desaparece e ressurge, creio eu, nos que a lêem, ora cinza ora flama, e o Grifo, aura ambivalente de luzes e obscuridade do além, e a impura Íbis, e o incisivo veneno da Hidra, a sedução de Sirena, a perversão do Centauro que exalta o corpo “como o corno do Unicórnio”, segundo o Salmo bíblico.
Com esta poesia de componente escatológica ou, como a entendo, de temática escato-ateológica, percebo o versículo (”a meu favor tenho a poesia”) se o entender do avesso, quer dizer, no seu inverso, no seu recto-verso, no seu reverso. Não seria estúpido da minha parte, no contexto económico e político, de ideologia judaico-cristã, não parafrasear o versículo proposto para a presente sessão das Correntes d’Escritas, reformulando-o? Contra mim tenho a minha poesia.
(…) Para quem escreve, para quem se embaralha entre entrecruzamentos de escritas purgatoriais, o apolíneo de uns e o dionisíaco de outros, também entenderá, por certo, que a poesia se move cintilante em não-respostas e por isso a indefinição. Quando muito proponho aproximações como a que adianto para concluir: a poesia é essa maneira compungida e voluptuosa, que resplende de alto a baixo, tensa, que reconduz o homem ao homem, diria Marx, “o homem como homem”, ou talvez, o que reconduz o homem como homem à poesia.»
Para Vicente Martín Martín, poeta espanhol (nascido em Ávalos, 1945), a poesia corresponde a uma “necessidade quase biológica de expressão”. Depois de muitos anos de sofrimento, foi através da poesia que conseguiu lidar melhor com o denso labirinto da instabilidade identitária, até então combatido apenas com antidepressivos. Poeta tardio, começou a publicar já nesta década e entrega-se agora à escrita em permanência, com um ritmo constante. “Estou agradecido à poesia porque ela me permitiu formular perguntas que não podia colocar a ninguém, porque me permitiu enfrentar coisas que existem dentro de mim e não compreendo, porque me permitiu ser o meu próprio confessor e psiquiatra.”
Ondjaki esteve na mesa em substituição do poeta brasileiro Lêdo Ivo, que cancelou à última hora a sua participação nas Correntes. Num texto muito ao seu jeito, mas sem nunca se afastar de uma linha de raciocínio (a defesa da língua escrita enquanto reflexo da oralidade), o escritor angolano elogiou as várias “mestiçagens da Humanidade”, reivindicou o português como “coisa para ser falada” de muitas maneiras diferentes, elogiou os poetas que “ouvem o teatro da vida” antes de escrever e por isso conseguem “tocar o corpo da escrita”, defendeu o “improviso” (que deve ser um “instinto trabalhado”) e deliciou a plateia com as suas citações em “brasileiro” de Guimarães Rosa ou com a sua imitação perfeita da voz e sotaque angolano de Manuel Rui.
Primeiras impressões
Estou no espaço Internet da Casa da Juventude, junto ao Auditório Municipal da Póvoa de Varzim. O computador portátil no colo, um autocarro lá fora à espera, perdoem por isso o laconismo.
Quem acha que a literatura não implica sacrifícios nunca apanhou o Alfa pendular em Santa Apolónia às seis da manhã. Lá fora a escuridão, a cidade um vulto impreciso, cais vazios, o Tejo só negrume. E uma coincidência daquelas que me acontecem com uma frequência assustadora. Ao retomar a leitura de O Amante Albanês, de Susana Fortes, uma escritora espanhola nascida na Galiza [ver debate nos comentários ao post] que vou tentar entrevistar durante as Correntes, tropeço logo nesta frase: “O fascínio do comboio provinha do mistério da distância, uma rota fixa de ferro cosida à terra, os sulcos fundos dos carris, os nomes das estações (…)”. Continuo a ler mas depressa adormeço, vencido pelo cansaço acumulado, acordando já para lá de Coimbra B, uma paisagem sufocada pela neblina a fugir na janela.
Entretanto o Porto, Campanhã, alguém à minha espera, a estrada, a Póvoa erguendo-se junto ao mar. Bagagem no hotel, água fria na cara, autocarro. E uma sessão sobre poesia, às 10h30, de que falarei mais tarde.
Até já.
Prémio Casino da Póvoa para Ruy Duarte de Carvalho

É a primeira notícia importante a sair das Correntes d’Escritas 2008: o Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, foi esta manhã atribuído ao livro Desmedida, de Ruy Duarte de Carvalho (editado pela Cotovia em 2006). O júri foi composto por Maria Lúcia Lepecki, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Ana Paula Tavares, escritora; Luiz Fagundes Duarte, professor da Universidade Nova de Lisboa; Carlos Quiroga, professor da Universidade de Santiago de Compostela; e Patrícia Reis, escritora e editora da revista Egoísta.
Os outros oito finalistas foram Santiago Gamboa (A Síndrome de Ulisses, ASA), Mário Cláudio (Camilo Broca, Dom Quixote), Tabajara Ruas (O Amor de Pedro por João, Ambar), Lídia Jorge (Combateremos a Sombra, Dom Quixote), António Lobo Antunes (Ontem não te vi em Babilónia, Dom Quixote), Pepetela (Predadores, Dom Quixote), Mia Couto (O Outro Pé da Sereia, Caminho) e Bernardo Carvalho (O sol se Põe em São Paulo, Cotovia).
Ruy Duarte de Carvalho é neste momento objecto, no Centro Cultural de Belém, de um ciclo sobre a sua obra intitulado “Dei-me portanto a um exaustivo labor“.
Correntes d’Escritas
Começa hoje (eu chego amanhã).
Destaques das ‘Correntes’
Já está completo o programa da 9.ª edição do Correntes d’Escritas, que tem início na próxima quarta-feira e se prolonga até sábado, na Póvoa de Varzim. Das muitas actividades previstas e que tentarei acompanhar (consciente de não possuir o dom da ubiquidade), destaco para já estas:
Dia 14
- 10h30 — mesa redonda “A meu favor tenho a Poesia”, com Amadeu Baptista, José Emílio-Nelson, Lêdo Ivo, Uberto Stabile e Vicente Martín Martín (moderação de Virgílio Alberto Vieira)
- 15h00 — mesa redonda “A Lenta Volúpia de Escrever”, com Almeida Faria, Francisco José Viegas, Ivo Machado, J. J. Armas Marcelo e José Manuel Saraiva (moderação de José Carlos Vasconcelos)
- 17h15 — Sessão fotográfica multimedia de Daniel Mordzinski
Dia 15
- 15h00 — mesa redonda “A Literatura rasga a Realidade”, com Eduardo Halfon, Ignacio del Valle, João Paulo Cuenca, Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe (moderação de Rui Zink)
- 22h00 — mesa redonda “Sou do tamanho do que escrevo”, com Carme Riera, Eduardo Mendoza, Isabel da Nóbrega, José Eduardo Agualusa e Miguel Real (moderação de José Manuel Vasconcelos)
Dia 16
- 10h30 — mesa redonda “Cada Homem é uma Língua”, com Leonardo Padura, Mia Couto, Onésimo Teotónio de Almeida, Pepetela e Tabajara Ruas (moderação de Maria João Seixas)
Eu vou

Onde está Rock in Rio leia-se Correntes d’Escritas. Onde está uma guitarra eléctrica, imagine-se o teclado do computador portátil e um gravador digital.
Fica o anúncio: de 14 a 16 de Fevereiro, este blogue muda-se de armas e bagagens para a Póvoa de Varzim.
18 lançamentos em quatro dias
Durante o encontro Correntes d’Escritas, que decorrerá de 13 a 16 de Fevereiro na Póvoa do Varzim, serão apresentados os seguintes livros:
- A Neblina do Passado, de Leonardo Padura (ASA)
- Admirável Diamante Bruto e outros contos, de Waldir Araújo (Livrododia)
- Bricabraque e Horismós, de Mário Pinheiro (edição de autor)
- Eis a dor, o que me resta, de Vicente Martin Martin (Bitrúbio)
- Maurício ou as Eleições Sentimentais, de Eduardo Mendoza (ASA)
- Música de Viagem, de Cristino Cortes (Papiro)
- No Último Azul, de Carme Riera (Teorema)
- O Amante Albanês, de Susana Fortes (ASA)
- O Anjo Literário, de Eduardo Halfon (Cavalo de Ferro)
- O Homem na Cozinha — Seduções e Volúpias, de Luís Machado (Parceria AMP)
- O Segredo da Trapezista, de Oscar Málaga Gallegos (Teorema)
- O Sorriso de Mona Lisa, de Pedro Teixeira Neves (Deriva)
- O Tempo dos Imperadores Estranhos, Ignacio del Valle (Porto Editora)
- Obras Completas de Nemésio — Poesia vol. 1 (1916-1940) e vol. 2 tomo 1 (1950-1959) / Caderno de Caligraphia, vol. III, de Luiz Fagundes Duarte (INCM)
- Olá, eu sou um Livro, de Rui Grácio (Pé de Página)
- Pecados de Intención, de Janet Nuñez (Dyagones)
- Quilómetro Zero, de Ivo Machado (6 Dias 7 Noites)
- Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique (Teorema)
Correntes d’Escritas
Daqui a exactamente um mês, começa a nona edição do Correntes d’Escritas. Durante quatro dias (13 a 16 de Fevereiro), a Póvoa de Varzim acolhe um encontro de literatura ibero-americana que vem crescendo de ano para ano e já é o principal acontecimento literário do nosso país.
O momento alto será a entrega, no último dia, do Prémio Casino da Póvoa (20 mil euros), anunciado logo na abertura dos trabalhos, dia 13. Os anteriores premiados foram Lídia Jorge (O Vento Assobiando nas Gruas, 2004), António Franco Alexandre (Duende, 2005), Carlos Ruíz Záfon (A Sombra do Vento, 2006) e Ana Luísa Amaral (A Génese do Amor, 2007). Os finalistas deste ano são:
- A Síndrome de Ulisses, Santiago Gamboa
- Camilo Broca, Mário Cláudio
- Combateremos a Sombra, Lídia Jorge
- desmedida, Ruy Duarte de Carvalho
- O Amor de Pedro por João, Tabajara Ruas
- O Outro Pé da Sereia, Mia Couto
- O sol se põe em São Paulo, Bernardo Carvalho
- Ontem não te vi em Babilónia, António Lobo Antunes
- Predadores, Pepetela
Neste momento está confirmada a presença, nos debates e conferências, de mais de 60 autores, entre os quais Almeida Faria, André Sant’Anna (Brasil), Baptista-Bastos, Daniel Mordzinski (Argentina), Eduardo Halfon (Guatemala), Eduardo Mendoza (Espanha), Jorge Sousa Braga, José Eduardo Agualusa (Angola), José Tolentino Mendonça, Lígia Walper (Brasil), Leonardo Padura (Cuba), Mia Couto (Moçambique), Ondjaki (Angola), Onésimo Teotónio de Almeida, Pepetela (Angola), Rui Zink, valter hugo mãe e Waldir Araújo (Guiné-Bissau).
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