Cristovão Tezza: “Um escritor não pode ter medo de nenhum tema”


Foto: Ana Tezza

Embora alguns dos livros anteriores já tivessem sido premiados e bem recebidos pela crítica, foi com O Filho Eterno (acabadinho de chegar às livrarias portuguesas, numa edição da Gradiva) que Cristovão Tezza alcançou um raro consenso no Brasil, ao vencer os principais prémios literários de 2008, incluindo o Jabuti para melhor romance e o Prémio PT de Literatura. «As pessoas deveriam falar por escrito», diz uma personagem do livro. E foi justamente por escrito, via e-mail, que Tezza falou nesta entrevista.

Neste romance, o protagonista partilha consigo o essencial daquilo a que se costuma chamar biografia: um percurso de vida, profissões, livros escritos, memórias e, sobretudo, o nascimento de um primeiro filho com síndrome de Down, chamado Felipe. Entre confissão e ficção, onde é que se traça aqui a fronteira?
A linguagem é a fronteira, em vários sentidos. O fundamental é a intencionalidade ficcional, isto é, de fazer um recorte de fatos reais e imaginários (que entram no texto com força idêntica) e dar a eles uma unidade temática e estrutural, um sentido particular, que a biografia jamais terá. O recorte é uma seleção que leva em conta a narrativa romanesca, e não a fidelidade biográfica (nesse sentido, o livro está cheio de «falhas» terríveis). Para mim, a ficção é um modo muito particular de ver o mundo; a biografia, ou a autobiografia (uma distinção mais ou menos irrelevante) é um outro modo. O autor vive o evento aberto da vida, que não tem «sentido», que é um amontoado de fatos em sequência; um personagem submete-se a uma moldura que lhe dá exatamente aquilo que lhe faltaria na vida, se real fosse.

Enquanto avançava no romance, alguma vez sentiu ameaçado o equilíbrio entre a vida e a escrita, que nas suas palavras devem manter «uma relação respeitosa» mas «não muito íntima»?
Sim, na verdade antes de começar a escrever. Eu sabia que se não acertasse a «porta de entrada» daquele mundo romanesco, acabaria por me perder completamente, pela proximidade com o personagem. Tive de me manter fiel à figura do narrador, muito mais do que a mim mesmo.

Optar pela terceira pessoa facilitou o distanciamento narrativo?
Sem dúvida. Tecnicamente, foi a minha «porta de entrada». Claro que é perfeitamente possível escrever um livro assim na primeira pessoa sem se confundir com o personagem. Mas como eu vivi o que ele viveu, a terceira pessoa me deu muito mais segurança. E, é claro, é uma terceira pessoa permeável, que avança frequentemente para a cabeça do personagem, embora nunca se confunda plenamente com ele.

Em dado momento do livro, diz-se que as crianças com Trissomia 21 não existem na literatura, são «seres ausentes». Mas, na sua própria obra, o aparecimento de Felipe, nascido em 1980, só se deu agora. Que bloqueios ou hesitações foi preciso vencer para transformar este tema delicado em literatura?
Um pouco pela proximidade emocional, que é muito intensa; e excesso de emoção é terrivelmente perigoso para a literatura; eu não conseguia me afastar da própria vida, por assim dizer, para escrever em seguida sobre o tema. E um pouco por preconceito, talvez – a idéia (jamais formulada, na verdade; apenas uma intuição) de que esse tema não tinha um «estatuto literário»; de que se eu me metesse a escrever sobre isso fatalmente resvalaria para a má literatura. Criei uma auto-defesa. Com os anos fui naturalmente corroendo essa defesa. E recentemente já achava que seria uma covardia eu jamais enfrentar o fato mais duro da minha vida. Um escritor não pode ter medo de nenhum tema.

Numa das epígrafes, retirada de Kierkegaard, equipara-se o filho a um «espelho no qual o pai se vê». Ao olhar para a criança, da vergonha inicial à estabilidade afectiva, é sempre de si mesmo que o pai fala, das suas inseguranças e superações, não é?
Há uma relação inextricável entre pai e filho, que é, aliás, um dos grandes temas da literatura. Num momento o narrador diz que «um filho é a ideia que fazemos dele», e sempre que essa ideia não corresponde à realidade parece que há um fracasso pessoal em jogo.

Assistimos neste livro a vários tipos de aprendizagem: a do filho, que amplia aos poucos um mundo à partida «reduzido a dez metros quadrados»; a do pai, forçado a alterar as premissas de uma sempre problemática relação com a realidade; mas também a do escritor em construção. Pode dizer-se que O Filho Eterno fixa as várias etapas do seu crescimento literário?
Sim, acho que sim. É um livro de maturidade, em todos os sentidos. Relendo-o, de certa forma percebo a técnica narrativa que fui intuitivamente usando, as mudanças de tempo e de espaço que vão se fundindo na voz do narrador representam de fato o que aprendi escrevendo meus livros; e a visão de mundo que «o filho eterno» encerra (ou talvez «abre» seja a palavra exata) é também a de alguém que já passou dos cinquenta anos e não tem mais tanto tempo para se perder com detalhes. Foi um livro que escrevi para ir quebrando «modelos», por assim dizer.


Foto: Guilherme Pupo

Um dos pontos fortes do romance está no facto de nunca resvalar para moralismos fáceis ou derrames sentimentais. Como é que se manteve alerta contra a pieguice, essa «forma grudenta, caramelizada, da mentira»?
É esse processo de «quebrar modelos». Em todas as atividades há um discurso social pronto, todo um leque de lugares-comuns à nossa disposição que em geral nos dispensa da angústia de pensar. Mas na área das crianças especiais, pela sua carga emocional, esse discurso é realmente esmagador. Mente-se muito, o que até é compreensível; repetindo o verso de Eliot, «o gênero humano não pode suportar tanta realidade». Uma das forças da literatura é justamente o seu poder de atravessar esse muro de lugares-comuns. O «ficar alerta», para mim, foi uma espécie de eixo que trouxe lá dos anos 1970 e, acho, ainda não perdi.

Há muitas frases neste livro que apetece sublinhar. Por exemplo: «Escrever é dar nome às coisas.» Parece um mandamento.
É uma bonita imagem, não? Afinal, é isso que fazemos o tempo todo. Mas não é um mandamento; a literatura jamais trabalha com eles. É sempre a percepção de alguém falível; o texto literário não fala de verdades, mas de pessoas que tentam compreendê-las, esmiuçá-las, chegar a elas, mesmo sabendo que irão fracassar.

À semelhança do protagonista, você também viveu em Coimbra durante o período pós-revolucionário, quando Portugal estava «quase em chamas» e se sucediam os governos provisórios?
Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Estive em Coimbra (numa meia-água da rua Afonso Henriques) de dezembro de 74 a fevereiro de 76. Estava nos meus 22, 23 anos. Ver o Brasil de longe (nós ainda numa ditadura), testemunhar a virada portuguesa, ler e escrever muito (lá escrevi meu primeiro livro, A cidade inventada, uma coletânea de contos), viajar pela Europa de carona (naquele tempo ainda era possível), tudo isso me marcou para sempre.

Qual a importância do tempo nesta narrativa, entre o presente perpétuo do filho (incapaz de perceber o conceito de «ontem» ou de «amanhã»), os vários passados do pai (que a memória convoca a cada passo) e um futuro deixado em aberto (no fim, ninguém «tem a mínima ideia de como vai acabar»)?
Parodiando os filósofos, «o tempo é o ser». Temos de dar algum sentido – e só a ficção tem esse poder – ao que não tem nenhum, essa passagem esmagadora do tempo.

Embora apareçam em vários momentos, a sua mulher e a sua filha são personagens periféricas, muito esbatidas, quase fantasmas à margem da relação pai-filho que domina o livro. Quis protegê-las de uma exposição indesejada?
Concentrei a narrativa no pai e na sua relação com o filho; nesse sentido, o romance tem um eixo bem fechado, um close narrativo. Mas certamente pesou na minha escolha narrativa, como você diz, a exposição indesejada, na medida em que quanto mais detalhe biográfico houvesse, menos foco o livro teria.


Autoretrato

Estava à espera que o romance conseguisse um impacto tão grande, tanto em termos de público como de crítica?
Sinceramente, não. Eu sabia que o livro teria algum impacto até em função do relativo sucesso do meu romance anterior, O fotógrafo, que havia sido bem recebido pela crítica e pelos leitores. Assim, o novo livro sempre receberia alguma atenção. Mas eu estava bastante inseguro quanto à recepção da crítica. No fim, o livro superou as mais otimistas expectativas.

E a atribuição dos principais prémios literários do Brasil, que importância teve?
Muita. Os prêmios deram uma grande visibilidade ao romance, pelo prestígio que representam. E provocam um efeito multiplicador, do interesse dos leitores ao interesse dos livreiros, passando pelo espaço na mídia, que tem sido generoso. Claro que isso me deixou bastante feliz, até porque continuo sonhando em viver dos meus livros.

Além de Portugal, mais cinco países preparam-se para lançar O Filho Eterno. Com esta internacionalização em curso, acha que a livraria alemã descrita no livro, onde em 1975 a literatura brasileira se resumia a três romances de Jorge Amado, pode vir a vender um livro seu?
Espero que isso aconteça em breve!

O verdadeiro Felipe tem hoje 28 anos. Como é que ele reagiu a tudo isto: sucesso, prémios, cobertura mediática?
Ele está bastante feliz com o livro, embora não tenha abstração para compreender de fato do que se trata. Para ele tem a mesma importância de uma vitória do Atlético Paranaense ou de uma festa de aniversário – para ele o mundo dos fatos não tem uma hierarquia racionalizada, apenas efeitos. No caso, efeitos de bom-humor, que aliás é um traço marcante dele. É claro que se ele tivesse condições de leitura, a vida teria sido outra e este livro também.

[Versão longa da entrevista publicada no suplemento Actual do Expresso]

Reflexos num espelho deformado

O Filho Eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 237
ISBN: 978-989-616-289-4
Ano de publicação: 2008

Quando se decidiu a escrever, ao fim de vinte e tal anos, sobre o seu filho Felipe, Cristovão Tezza sabia perfeitamente que estava a entrar num terreno minado. Felipe nasceu com síndrome de Down e qualquer aproximação literária ao tema, por muito vigiada que seja, está sempre em risco de cair no abismo da pieguice afectivamente correcta. Pela própria natureza da história que conta, O Filho Eterno aproxima-se vezes sem conta do precipício, chega a olhar lá para baixo, mas nunca resvala. Só isto já seria suficiente para o considerar um romance acima da média, num tempo em que os romances acima da média são cada vez mais raros.
Inteligentemente, Tezza optou por escrever o seu livro na terceira pessoa, escondendo-se num narrador que lhe permite uma visão exterior, um olhar-se de perto, mas a partir de fora. Os factos da sua vida surgem assim com uma clareza que o uso da primeira pessoa, demasiado próxima da esfera emocional, talvez não alcançasse. Dito de outro modo: o protagonista, embora partilhe o percurso biográfico de Tezza e as angústias com o filho «diferente», não deixa de ser uma personagem de ficção. E este distanciamento é talvez o principal antídoto contra a autocomplacência.
O livro começa no dia do nascimento de Felipe. Enquanto espera nos corredores da maternidade, o quase pai faz um severo exame do seu lugar no mundo. Aos 28 anos, ele sente que «ainda não começou a viver». Com o curso de Letras a meio, sem profissão definida, sustentado pela mulher, as suas aspirações literárias esbarram na indiferença das editoras. Embora se sinta «predestinado à literatura», duvida das suas capacidades e sofre com isso. No fundo, ele é «delicado demais» (ou «ignorante demais») para a «realidade simples» do quotidiano e tem pânico de ser integrado pelo «sistema». Por isso, bebe muito, racionaliza tudo e encena o seu próprio teatro mental.
Para quem está aprisionado por este «leque de ansiedades felizes», no Brasil de 1980, a viver os «últimos minutos da ditadura», o nascimento do filho poderia funcionar como libertação. Só que o diagnóstico cai logo depois, brutal: Felipe tem trissomia do cromossoma 21. Isto é, síndrome de Down. Ou, como se dizia na época, «mongolismo». O problema do filho altera então o eixo das coisas e Tezza disseca, sem uma réstia de moralismo, as consequências do abalo. Acompanhamos o desespero inicial, as esperanças num falso diagnóstico, a vergonha, as frustrações, o desejo de que o filho morra cedo, a repulsa diante da comiseração alheia. É um processo doloroso e inconfessável, que se passa na cabeça do pai durante o calvário das consultas com especialistas e dos esquemas de estimulação precoce – formas de luta contra a «névoa neurológica», quase sempre violentíssimos, a raiar a tortura.
«Um filho é como um espelho no qual o pai se vê», diz Kierkegaaard numa das epígrafes. Mas se o espelho não é liso, a imagem que nele se projecta fica deformada. Ao olhar para Filipe, o pai vê o seu próprio falhanço: «O problema não é o filho; o problema é ele.» A lenta aprendizagem do amor paterno, assente numa demorada e incerta «rede tentacular de afetos», coincide então com a saída do labirinto que o escritor construira à sua volta (um labirinto que a memória recupera, ao evocar o empenhamento juvenil na «arte popular», uma passagem por Coimbra durante o PREC ou os tempos em que trabalhou na Alemanha, sem papéis, a varrer o chão de um hospital). O presente perpétuo da criança, que não distingue o ontem do amanhã, vai-se encaixando cada vez melhor nos vários passados do pai – sobrepostos pela sua reflexividade quase cartesiana – até ao apaziguamento final diante de um futuro que ninguém pode antecipar.
O consenso em torno de uma obra nem sempre é bom sinal. Mas no caso de O Filho Eterno – vencedor, em 2008, dos dois principais prémios literários brasileiros (Jabuti para melhor romance e PT de Literatura), além dos prémios da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da revista Bravo! para Livro do Ano – é apenas uma questão de justiça.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Pré-publicação: ‘O Filho Eterno’

Excerto do segundo capítulo do romance O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, editado em Portugal pela Gradiva (nas livrarias a partir do próximo dia 20):

«Como agora: e ele deu outro gole da bebida, quase entrando no terreno da euforia. Ele queria criar a solenidade daquele momento, uma solenidade para uso próprio, íntimo, intransferível. Como o diretor de uma peça de teatro indicando ao ator os pontos da cena: sinta-se assim; mova-se até ali; sorria. Veja como você tira o cigarro da carteira, sentado sozinho neste banco azul, enquanto aguarda a vinda do seu filho. Cruze as pernas. Pense: você não quis acompanhar o parto. Agora começa a ficar moda os pais acompanharem o parto dos filhos — uma participação quase religiosa. Tudo parece que está virando religião. Mas você não quis, ele se vê dizendo. É que o meu mundo é mental, talvez ele dissesse, se fosse mais velho. Um filho é a idéia de um filho; uma mulher é a idéia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a idéia que fazemos delas; às vezes não. Quase sempre não, mas aí o tempo já passou, e então nos ocupamos de coisas novas, que se encaixam em outra família de idéias. Ele não quis nem mesmo saber se será um filho ou uma filha: a mancha pesada da ecografia, aquele fantasma primitivo que se projetava numa telinha escura, movendo-se na escuridão e no calor, não se traduziu em sexo, apenas em ser. Preferimos não saber, foi o que disseram ao médico. Tudo está bem, parece, é o que importa.
Ali, era enfim a sensação de um tempo parado, suspenso. Naquele silêncio iluminado, em que pequenos ruídos distantes — passos, uma porta que se fecha, alguma voz baixa — ganhavam a solenidade de um breve eco, ele imagina a mudança de sua vida e procura antecipar alguma rotina, para que as coisas não mudem muito. Tem energia de sobra para ficar dias e dias dormindo mal, bebendo cerveja nos intervalos, fumando bastante, dando risadas e contando histórias, enquanto a mulher se recupera. Seria agora um pai, o que sempre dignifica a biografia. Será um pai excelente, ele tem certeza: fará de seu filho a arena de sua visão de mundo. Já tem pronta para ele uma cosmogonia inteira. Lembrou de alguns dos versos de O filho da primavera — a professora amiga vai publicá-los na Revista de Letras. Sim, os versos são bonitos, ele sonhou. O poeta é bom conselheiro. Faça isso, seja assim, respire esse ar, olhe o mundo — as metáforas, uma a uma, evocam a bondade humana. Kipling da província, ele se sente impregnado de humanismo. O filho será a prova definitiva das minhas qualidades, quase chega a dizer em voz alta, no silêncio daquele corredor final, poucos minutos antes de sua nova vida. Era como se o espírito comunitário religioso que florescia secretamente na alma do país, todo o sonho das utopias naturais concentrando seu suave irracionalismo, sua transcendência etérea, a paz celestial dos cordeiros de Deus revividos agora sem fronteiras, rituais ou livros-texto — vale tudo, ó Senhor! —, encontrasse também no poeta marginal, talvez principalmente nele, o seu refúgio. O empreendimento irracional das utopias: cabelos compridos, sandálias franciscanas, as portas da percepção, vida natural, sexo livre, somos todos autênticos. Sim, era preciso um contrapeso, ou o sistema nos mataria a todos, como várias vezes nos matou. Há um descompasso nesse projeto supostamente pessoal, mas isso ele ainda não sabe, ao acaso de uma vida renitentemente provisória; a minha vida não começou ainda, ele gostava de dizer, como quem se defende da própria incompetência — tantos anos dedicados a… a o que mesmo? às letras, à poesia, à vida alternativa, à criação, a alguma coisa maior que ele não sabe o que é — tantos anos e nenhum resultado! Ficar sozinho é uma boa defesa. Vivendo numa cidade com gênios agressivos em cada esquina, ele contempla a magreza de seus contos, finalmente publicados, onde encontra defeitos cada vez que abre uma página. O romance juvenil lançado nacionalmente vai se encerrar na primeira edição, para todo o sempre, depois de uma rusga idiota com o editor de São Paulo, daqui a alguns meses. «É preciso cortar esse parágrafo na segunda edição porque as professorinhas do interior estão reclamando.» Desistiu do livro. Ele não sabe ainda, mas já sente que aquilo não é a sua literatura. Três meses antes terminou O terrorista lírico, e parece que alguma coisa melhor começa ali, ainda informe. Alguém se debatendo para se livrar da influência do guru, tentando sair do mundo das mensagens para o mundo da percepção, sob a frieza da razão. Ele não é mais um poeta. Perdeu para sempre o sentimento do sublime, que, embora soe envelhecido, é o combustível necessário para escrever poesia. A idéia do sublime não basta, ele começa a vislumbrar — com ela, chegamos só ao simulacro. É preciso ter força e peito para chamar a si a linguagem do mundo, sem cair no ridículo. Há algo incompatível entre mim e a poesia, ele se diz, defensivo — assumir a poesia, parece, é assumir uma religião, e ele, desde sempre, é alguém completamente desprovido de sentimento religioso.
Um ser que se move no deserto, ele talvez escrevesse, com alguma pompa, para definir a própria solidão. A solidão como um projeto, não como uma tristeza. Eu ainda não consegui ficar sozinho, conclui, com um fio de angústia — e agora (ele olha para a porta basculante, sem pensar) nunca mais. Começou há pouco a escrever outro romance, Ensaio da Paixão, em que — ele imagina — passará a limpo sua vida. E a dos outros, com a língua da sátira. Ninguém se salvará. Três capítulos prontos. É um livro alegre, ele supõe. Eu preciso começar, de uma vez por todas, ele diz a ele mesmo, e só escrevendo saberá quem é. Assim espera. São coisas demais para organizar, mas talvez justo por isso ele se sinta bem, feliz, povoado de planos.»

Capa portuguesa de ‘O Filho Eterno’

O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, é o mais premiado romance brasileiro dos últimos tempos (ganhou, entre outros, o Jabuti para Melhor Romance e o Prémio PT de Literatura). A Gradiva vai editar o livro em Portugal e os primeiros exemplares estarão nas livrarias já no próximo dia 20. A capa é esta:

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges