Alerta Castanho (Brown Alert)

Uma das grandes vantagens de Dan Brown sobre José Rodrigues dos Santos, além de ser the real thing em vez do sucedâneo, é a sua frugalidade editorial. Ao contrário de JRS, Brown não publica um romance todos os anos, para bem do equilíbrio ecológico e literário do planeta. Ainda assim, volta não volta, lá nos chega mais uma variação de O Código Da Vinci. A deste ano, acaba o autor de anunciar, intitula-se Inferno e vai andar à volta da Divina Comédia de Dante. Preparem-se. O livro sairá em Maio nos EUA e em Portugal lá mais para Julho, com chancela Bertrand.

Mistérios piramidais

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O Símbolo Perdido
Autor: Dan Brown
Título original: The Lost Symbol
Tradutores: Carlos Pereira, Ester Cortegano, Fernanda Oliveira e Marta Teixeira Pinto
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 571
ISBN: 978-972-25-2014-0
Ano de publicação: 2009

Seis anos após O Código Da Vinci, um livro que lhe deu o estatuto de romancista mais imitado dos últimos anos (é só conferir a quantidade absurda de epígonos que continuam a invadir as livrarias com réplicas manhosas), Dan Brown regressa ao activo com O Símbolo Perdido. Infelizmente, tal como os seus imitadores, o escritor norte-americano não resistiu a fazer do seu novo romance um clone pobrezinho do anterior. Desta feita, em vez de Paris, temos Washington. Em vez dos segredos e rituais da Opus Dei e do Priorado de Sião, temos os segredos e rituais da Maçonaria (mais o deísmo dos «pais fundadores» da América). Em vez de um vilão albino e autoflagelador (Silas), temos um vilão coberto de tatuagens, castrado, sádico e desejoso de se transformar num deus das trevas por via de uma apoteose mística (Mal’akh). Mas o resto é igual. Acção a rodos, personagens unidimensionais a correr de um lado para o outro e o nosso conhecido Professor Robert Langdon – um castiço professor de Harvard, supostamente céptico mas que acaba por acreditar nas teorias mais inacreditáveis – a perorar sobre os Mistérios Antigos e a simbologia maçónica, enquanto desvenda, com a presteza de quem resolve um sudoku de nível médio, toda a sorte de enigmas e códigos dentro de códigos, que são a chave de outros códigos ainda.
Mais do que um thriller, O Símbolo Perdido é uma sucessão de desafios mentais e enciclopedismos básicos, um rally paper para frequentadores da Biblioteca Nacional. Dos quadrados mágicos de Albrecht Dürer e Benjamin Franklin aos últimos avanços da ciência noética (segundo os quais o pensamento humano pode ter um efeito físico sobre a matéria), passando por vários tipos de pirâmides e pela escultura Kryptos, de James Sanborne (instalada na sede da C.I.A. em Langley, Virginia), neste enredo cabe tudo e mais alguma coisa. Tudo menos um bocadinho de bom senso. Na sua ânsia de abrir portas que iluminem os maiores segredos do universo, sempre à beira de serem revelados, Brown consegue agarrar o leitor, não o largando nem por nada (esse mérito ninguém lho tira), mas depois deita tudo a perder, ao defraudar as expectativas com um desfecho tão pífio que se torna risível. Após quase 600 páginas de leitura compulsiva, a revelação do extraordinário tesouro escondido no subsolo de Washington merece entrar directamente para o top dos maiores anticlímaxes da história da literatura. Isto, claro, se tivermos a generosidade de considerar que O Símbolo Perdido é literatura.
Entendamo-nos num ponto. Enquanto exercício de entretenimento puro, este livro, como os outros de Dan Brown, funciona muito bem. Embora abuse dos efeitos de suspense no final dos capítulos (curtíssimos, às vezes quase sinópticos) e não seja propriamente subtil na articulação dos vários sub-enredos, o mecanismo narrativo é robusto e de uma surpreendente eficácia. Quem entra neste carrossel de pistas e revelações tem dificuldade de sair, entre outros motivos porque o grau de inverosimilhança atinge tais proporções que o leitor quer perceber até onde consegue Dan Brown esticar a célebre «suspensão da descrença».
Por outro lado, se esta viagem se torna muitas vezes penosa não é tanto pela insistência do autor em dar-nos enfadonhas lições sobre os temas que lhe interessam, por vezes repetindo a mesma ideia com poucas páginas de intervalo. É porque Brown escreve mal e o seu estilo – desastradamente pomposo, enfático, vulgar – parece uma pirâmide de chumbo. Uma pirâmide sem mistério algum e que nem o esforçado Robert Langdon, com a sua arte de descodificação simbólica, alguma vez conseguirá transformar em ouro.

Avaliação: 2/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Exeter

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Foi na biblioteca da Phillips Exeter Academy (PEA) que entrevistei Dan Brown. Fundada em 1781, a PEA é uma das escolas secundárias privadas (só para alunos do 9.º ao 12.º ano) com maior prestígio nos EUA. Entre os seus antigos alunos contam-se o presidente Franklin Pierce, uma série de figuras que ocuparam lugares importantes na administração pública, desportistas, músicos e uns quantos homens de letras, como George Plimpton (fundador da The Paris Review), Gore Vidal ou John Irving.
No piso quatro da enorme biblioteca – um edifício de linhas austeras, com tijolo vermelho por fora e betão por dentro, desenhado nos anos 60 pelo arquitecto Louis Kahn (tudo sobre esta obra, aqui) – ficam as salas com os livros mais preciosos. Atrás de uma vitrina, podem ver-se primeiras edições dos romances de Virginia Woolf, editados pela Hogarth Press. E depois há as estantes com as obras dos antigos alunos, divididas conforme os anos passados na PEA: a classe de 1876, a classe de 1927, a classe de 1964, etc. Lá estão os livros de Gore Vidal, os de John Irving, os de Daniel C. Dennet, os de muitos outros escritores conhecidos. E os de Dan Brown, que não só frequentou a PEA como era filho de um dos mais distintos professores de matemática da escola (noutra sala, há uma prateleira inteira preenchida com os manuais de Álgebra que o tornaram conhecido de todos os alunos de Ciências do país). Em destaque neste sector Dan Brown da estante dos antigos alunos, também chamados «exonians», a capa dourada e escarlate do último romance: The Lost Symbol.
A conversa começou justamente por aí, pelo novo livro, mera repetição de uma fórmula narrativa literariamente nula, enquanto lá fora a tarde declinava e as folhas das árvores brilhavam com o seu amarelo muito vivo, quase sobrenatural.

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Versão digital do novo livro de Dan Brown vende mais do que a versão em papel (pelo menos na Amazon)

É um facto extraordinário. Ou um sinal dos tempos. Segundo esta notícia da revista The Bookseller, a versão para o Kindle do romance The Lost Symbol, de Dan Brown, está à frente da versão impressa nos tops de vendas da Amazon. Stephen Windwalker, que mantém um blogue destinado aos utilizadores do Kindle, não esconde a euforia: «Maybe that isn’t the biggest story of 2009 in the world of reading. But I am having trouble imagining what could be bigger.» E há mesmo quem veja nisto uma mudança de paradigma: «The electronic book age is really about to burst upon us.»
Curiosamente, o novo opus de Dan Brown também consegue resultados muito bons no tradicional mundo dos hardcovers. A Random House anunciou que o livro vendeu, num único dia, mais de um milhão de exemplares nos EUA e no Reino Unido.

‘O Símbolo Perdido’, de Dan Brown, chega às livrarias portuguesas a 29 de Outubro

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Tiragem inicial: 120 mil exemplares. A edição da Bertrand será uma das primeiras traduções mundiais do romance (a par das versões espanhola e alemã).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges