Papagaio pousado no ombro

Na nota final de Barba Ensopada de Sangue (Quetzal) – livro que venceu o Prémio São Paulo de Literatura 2013, ficou em terceiro lugar na categoria de romance do Prémio Jabuti, e foi finalista do Prémio PT –, Daniel Galera agradece ao pai o facto de este lhe ter contado a «história de onde veio todo o resto», sendo o «resto» um exemplo de excelência narrativa, que reforça o lugar de destaque do escritor na nova vaga da ficção literária no Brasil. Em 2012, Galera, nascido em São Paulo (1979) mas de raízes gaúchas, fez parte da lista de autores escolhidos pela revista britânica Granta na sua edição dedicada aos 20 melhores romancistas brasileiros com menos de 40 anos. Apneia, o texto publicado nesse número, oferecia-nos um diálogo duro e cru entre um pai à beira do suicídio e o seu filho, a quem deixa como herança uma cadela para matar e um mistério (sobre o suposto assassinato do avô, numa terra de pescadores). O texto – breve, tenso, poderoso – era anunciado como parte de um trabalho em curso e surge por isso, sem surpresa, transformado no primeiro capítulo do seu quarto romance, agora publicado em Portugal.
«A história que o meu pai me contou girava em torno de um homicídio supostamente ocorrido na cidade de Garopaba nos anos 70», explica Galera, em conversa telefónica a partir de Porto Alegre, onde vive neste momento, depois de muitos anos em São Paulo. «Na altura, Garopaba ainda era uma povoação muito pequena, sem todo o movimento de turismo que tem hoje. O morto seria alguém que andava causando problemas e então a comunidade decidiu dar um jeito para se livrar dele: durante um baile, apagaram as luzes e um monte de gente esfaqueou o homem ao mesmo tempo.» A história pode até não ser verdadeira, pode ter sido inventada pelo interlocutor do pai, mas Galera não a esqueceu. «Ouvi-a antes de decidir ser escritor e guardei-a na minha memória durante muito tempo. Quando fui viver em Garopaba, no estado de Santa Catarina, em 2008, lembrei-me imediatamente dela. E comecei a pensar: se esse relato fosse verdadeiro, como é que poderia ter acontecido? Quem seria a pessoa assassinada? E aí me surgiu a personagem do Gaudério, esse homem rude que veio do campo, do Rio Grande do Sul, que era um forasteiro e foi morto. Depois, veio a ideia do filho dele e do neto, e toda a história do romance começou a desenvolver-se a partir desse núcleo, desse embrião dado pelo relato do meu pai.»
Embora os elementos autobiográficos do romance sejam mínimos (tal como o protagonista, o autor gosta de nadar no oceano e de correr), Galera aproveitou o facto de ter vivido um ano e meio em Garopaba para descrever, com um detalhe que pode ser exasperante para alguns leitores, a vida numa povoação marcada pela sazonalidade: verões de euforia e enchentes de turistas; invernos de letargia, frio, e casas desabitadas. No livro, alguém diz que só se vai para Garopaba para viver ao pé do mar e fazer surf, ou então para esquecer um desgosto amoroso. «No meu caso, não foram essas as razões. Eu tinha a fantasia de viver uma temporada num lugar muito pequeno, onde ninguém me conhecesse. Então, em 2007, quando vivia em São Paulo, dei-me conta de que era hora de cumprir esse sonho. Estava morando sozinho, não tinha mulher, nem filhos, nem emprego, nada que me prendesse, e pensei que talvez não voltasse a ter uma oportunidade tão boa. Peguei nas minhas coisas e fui.»

galera

O protagonista de Barba Ensopada de Sangue sofre de um problema neurológico raro: a prosopagnosia. Ou seja, por muito que se esforce, esquece passado pouco tempo (cerca de 15 minutos) todos os rostos das pessoas com que se cruza. Até mesmo os dos familiares próximos, os das mulheres amadas, o seu próprio rosto. «Quem sofre desse tipo de condição costuma ter problemas sérios de relacionamento social, porque toda a gente encara os outros com a expectativa de ser reconhecido e leva a mal se não o for. Há pessoas que ficam vários anos até serem diagnosticadas, e algumas nunca chegam a ser. Resultado: passam por mal-educadas, distraídas, arrogantes, pessoas que não querem conversar com as outras. Então a maior parte é muito tímida.» Para escrever o livro, Galera baseou-se apenas em pesquisas feitas em livros e na internet, nomeadamente em blogues e fóruns de pessoas que sofrem de prosopagnosia. «Curiosamente, só há cerca de um mês é que conheci alguém, uma rapariga, que tem o problema. Contou-me a experiência dela e é de facto muito parecida com tudo o que tinha lido e com o que está no romance.»
Um dos aspectos mais interessantes do livro tem a ver com o ritmo muito lento da narrativa. O escritor demora-se nas descrições de pessoas e lugares, não tem pressa alguma de chegar onde as histórias o levam, e mostra quase tudo o que se passa no quotidiano das personagens, ao ponto de parecer que estamos a viver com elas em tempo real. «Desde o começo, quis dar ao leitor essa sensação física da passagem do tempo. Para isso, tinha de mostrar a vida do protagonista mesmo nos seus aspectos mais banais. Na verdade, toda a sensação de tempo na ficção é ilusória. É uma construção do autor. Tanto podemos resumir uma saga familiar de cinco séculos em cinco linhas como esticar dez segundos da vida de uma pessoa em mil páginas. Quis que o leitor ficasse o mais próximo possível da sensação concreta do que é viver em Garopaba. Que o leitor sentisse aqueles nove meses, não só os momentos em que acontecem coisas, em que a acção progride, mas também os espaços vazios, os hiatos, os períodos em que nada se passa.»
Para manter esta experiência do tempo, era fundamental prescindir dos flashbacks na narração. Acontece que havia elementos da história – coisas do passado, conflitos familiares, subenredos – que teriam de ser integrados de alguma forma. «Comecei por colocar esses trechos em notas de rodapé, só para me lembrar que tinha de buscar uma solução para isso. Quando fui chegando no fim do romance, pensei: espera aí, e se essa informação fosse passada em nota de rodapé mesmo?» Galera temeu que os editores achassem a ideia «meio maluca», mas eles gostaram, e as notas (em que se incluem mensagens de Facebook, cartas, diálogos telefónicos entre personagens secundárias, etc.) acabaram por ficar. «Há coisas essenciais que o leitor vai descobrindo ali, aos poucos, e que por vezes funcionam como uma revelação.» Isto porque o narrador, embora seja omnisciente e conte a história na terceira pessoa, está fixado na perspectiva do personagem principal e por isso omite tudo o que este faz por esquecer. «No texto propriamente dito, nós vemos apenas o que ele vê, experimentamos só o que ele experimenta. É como se o narrador fosse um papagaio pousado no ombro do protagonista.»
Embrenhada na história, do princípio ao fim, está a questão filosófica do determinismo, em oposição ao livre arbítrio. «É um tema que vai surgindo de forma insinuada e vem à tona no diálogo do capítulo final. Tem a ver com leituras que eu estava fazendo durante o período da escrita do livro. Fui infiltrando isso na vida do personagem, que acaba se transformando num praticante bastante radical da ideia de que a vida é predeterminada mas ainda assim somos responsáveis pelo que fazemos, mesmo que não tenhamos escolhido fazer. Por isso, o perdão para ele é um gesto sem sentido, porque significaria continuar vivendo como se algo não tivesse acontecido. É uma visão que choca com a da ex-mulher, para quem tudo o que fazemos depende da nossa escolha e o perdão também é uma escolha, que permite libertar os outros para fazerem coisas melhores e libertar-se a si próprio. Eles diferem muito nisso. E através deles pude problematizar questionamentos meus.»
Quando terminou o romance, Galera ficou satisfeito com o resultado mas algo apreensivo quanto à recepção que teria: «Este era o livro que eu queria escrever, que eu precisava de escrever, mas pensei que era muito pessoal, talvez um pouco hermético, inacessível, uma história que poderia até aborrecer alguns leitores com a sua lentidão.» A partir do momento em que o entregou na editora, porém, houve uma reacção em cadeia que empurrou a obra para um público mais vasto. «Os editores empolgaram-se, o capítulo publicado na Granta teve bastante impacto, as críticas revelaram-se no geral muito positivas, sem serem unânimes, houve ainda todo o circuito dos prémios, e acabou vendendo mais do que qualquer dos meus livros anteriores. Foi uma grande surpresa.» Tamanho interesse por um autor de 34 anos deixa Galera animado quanto ao futuro próximo da literatura brasileira. «São bons sinais, eu acho. Não só para mim, mas para outros autores da minha geração.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

A sua cara é-me estranha

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Barba Ensopada de Sangue
Autor: Daniel Galera
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 391
ISBN: 978-989-722-139-2
Ano de publicação: 2014

O protagonista de Barba Ensopada de Sangue sofre de uma doença neurológica relativamente rara (prosopagnosia) que o torna incapaz de reconhecer rostos – todos os rostos, não apenas os que foram vistos só uma vez e é natural esquecer. Para ultrapassar esta limitação, ele recorre a outras formas de perceber quem são as pessoas com quem se cruza. Fica atento às inflexões das vozes, à textura dos cabelos, às peças de roupa, ao «jeito de andar», aos adereços. «Eu tenho que estar sempre ligado no que pode identificar uma pessoa, fora o rosto dela. Eu escaneio os detalhes. (…) Quanto mais eu conheço a pessoa, mais fácil é reconhecer. Mas sempre é meio complicado.» Ao mudar-se para Garopaba, fugindo de Porto Alegre, das quezílias familiares e da imagem de um pai que se suicidou, deixando-lhe nos braços a sua cadela, ele não conhece ninguém, começa relacionamentos sociais do zero, pelo que essa dificuldade crónica se torna maior do que nunca.
A escolha de Garopaba, cidade balnear muito frequentada no Verão, mas deprimente no Inverno, não foi um mero acaso. Antes de se matar, o pai contou-lhe que o seu avô teria sido assassinado ali, no final da década de 60, em circunstâncias nunca esclarecidas. Homem de «pavio curto», brigão, sempre a puxar da faca, era visto como forasteiro indesejável pelos habitantes locais. Certa noite, num baile, alguém apagou as luzes, ouviram-se dezenas de lâminas e a escuridão apadrinhou o ajuste de contas colectivo. Só que o corpo nunca apareceu, o suposto crime não foi devidamente investigado e o nome de Gaudério tornou-se um tabu, uma lenda incómoda – mesmo quatro décadas depois, quando o neto daquele gaúcho maldito chega à cidade, ainda por cima deixando crescer a barba, ao ponto de ficar a cara chapada do seu antepassado.
Homem simples, o protagonista é um professor de educação física que dá aulas de natação e corrida, depois de ter treinado atletas para campeonatos de triatlo. Em Garopaba, as suas rotinas não mudam muito. Após um período de adaptação, ele mergulha na modorra da vida quotidiana, enquanto tenta desenterrar a verdadeira história do que terá acontecido ao avô, esbarrando quase sempre na desconfiança ou no silêncio ostensivo de quem o poderia ajudar. Há qualquer coisa de instável no círculo das suas relações mais íntimas – as duas mulheres com quem se envolve (uma garçonete de pizzaria e uma secretária de uma agência de passeios turísticos, ambas com nome de flor), além do budista engatatão que se torna o seu melhor amigo – e as ondas de choque do que deixou para trás acabam por apanhá-lo, quando a mãe, primeiro, e a ex-namorada, depois, o visitam. A certa altura, ele alude à «presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer» e essa demora estrutura todo o romance. Dito de outro modo: a passagem do tempo é em si mesma uma personagem do livro, talvez a principal. O leitor não se limita a assinalar os dias, as semanas, os meses. Vive-os por dentro, sente-lhes o peso, a sua glória, os seus vazios.
Para produzir este efeito, a escrita de Daniel Galera assume radicalmente a perspectiva do protagonista. Ou seja, é como se ela também sofresse de prosopagnosia e amplificasse ao máximo a atenção aos detalhes. Tudo merece descrição exaustiva, seja um gesto, uma paisagem, uma noite no circo, uma quermesse com show de dupla sertaneja, um bordel manhoso, um jogo de póquer (em que os participantes usam fralda geriátrica para não terem sequer de ir à casa de banho) ou um passeio de barco para avistar baleias. O romance expande-se neste movimento de contar tudo, prescindindo das elipses e dos atalhos habituais que nos levam directamente ao que interessa, mas nunca se perde nem se desequilibra. A investigação conclui-se, os problemas familiares tornam-se por fim compreensíveis, as pontas unem-se, enquanto o processo de construir uma lenda se repete. Como a miragem vista na praia, a narrativa está sempre à beira de se desfazer «sem alarde». Mas quem a tenha lido dificilmente esquecerá os contornos do seu ‘rosto’.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

A gravidez utópica

Cordilheira
Autor: Daniel Galera
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2091-3
Ano de publicação: 2010

Em Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo (Campo das Letras), o protagonista confunde a vida do seu escritor favorito – Rubem Fonseca – com a das suas personagens, algo que o próprio Fonseca, quando se vê puxado para dentro da história, apelida de «síndrome de Zuckerman» (referência ao alter ego ambíguo de Philip Roth). Em Cordilheira, de Daniel Galera, assistimos a uma variante ainda mais radical dessa síndrome, já que são os próprios escritores a tomarem a iniciativa de se projectarem nas suas personagens, cumprindo na vida real o que imaginaram na ficção.
Importa explicar que estes escritores fazem parte de um círculo marginal de Buenos Aires, uma espécie de seita literária que se cruza a dado momento no caminho da protagonista, Anita van der Goltz Vianna, quando ela decide trocar o Brasil pela Argentina. Orfã de mãe desde a nascença e de pai há três anos e meio, Anita é uma autora que triunfou logo ao primeiro romance, mas que decidiu abandonar a literatura em prol de um desígnio para ela mais alto e urgente: ter um filho. Quando Danilo, o namorado, se recusa a ser pai nos próximos tempos, ela deixa-o e parte para a Feira do Livro de Buenos Aires, com a ideia de ficar na cidade por uns tempos, conhecer um argentino anónimo e voltar grávida a São Paulo.
As coisas não serão assim tão simples, claro. O argentino anónimo com quem se envolve é um admirador doentio do seu livro, ele próprio autor de um só romance e membro da tal confraria de literatos portenhos de segunda linha, composta por gente bizarra que leva a literatura «a sério demais» e pretende seguir o caminho de Jupiter Irrisari – um escritor guatemalteco que certo dia «parou de escrever histórias e passou a vivê-las». Assumir o destino das personagens que cada um criou, transformando-se gradualmente nelas, é o objectivo do grupo.
Este jogo perigoso e fértil em ricochetes, para o qual a brasileira é convocada mesmo sem querer, ocupa parte substancial do romance. Galera, porém, não se perde no exercício já muito batido das contaminações mútuas entre ficção e realidade. O foco de Cordilheira está sempre em Anita, no seu estranhamento, na sua deriva existencial e nesse projecto de uma gravidez que talvez seja ectópica, porque inviável e literalmente fora do sítio (Buenos Aires em vez de São Paulo), ou talvez seja apenas utópica, manifestação de um desejo sem lugar que o materialize.
Nascido em 1979, Daniel Galera confirma neste livro poderoso, muitíssimo bem escrito e tecnicamente irrepreensível, o seu lugar de destaque entre os ficcionistas brasileiros mais jovens.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges