O intervalo preciso

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Passageiro frequente
Autor: Daniel Jonas
Editora: Língua Morta
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8638-09-0
Ano de publicação: 2013

Há na poesia de Daniel Jonas uma resistência explícita a qualquer discurso que a pretenda enclausurar num determinado tempo, ou em quaisquer linhagens literárias. É como se o poeta quisesse deliberadamente trocar as voltas ao leitor, confundi-lo, empurrá-lo para um estado de perplexidade, em que o desenho inscrito pelos poemas no pensamento está sempre a transformar-se noutra coisa. Este efeito de desorientação nasce do facto de ser muito vasta a gama de registos poéticos em que se declina a sua escrita. Tão depressa se aproxima da volúpia barroca (com rimas, sintaxe antiga, vocabulário raro) como se entrega a exasperações românticas sobre o lugar do sujeito no mundo, ou então a súbitas sínteses de poucos versos, de um minimalismo próximo da perfeição dos haikus. Num instante passamos das referências bíblicas e das citações literárias cifradas para a mais prosaica realidade quotidiana.
No poema que dá título ao livro, surge a figura do «passageiro frequente dos faux-pas», alguém que está «muito a tempo de alguma coisa» que não se sabe bem o que é: «Ei-lo: tardiamente chegado dos subúrbios / ao coração de tudo, ao centro das coisas». Sublinhe-se a pertinência do advérbio, porque o «tardiamente» sinaliza um atraso, um desajuste, uma descontinuidade com a época em que se vive e com o real que as palavras tentam em vão fixar, que é a própria matéria desta poesia. Consciente do desfasamento, o sujeito poético transporta as suas percepções para uma espécie de paisagem mental (veja-se o poema Praia pensada), em que muitas vezes encena o espectáculo da sua auto-reflexividade: «Sou jusante, escusado de mim, / o pior de dois mundos, / o intervalo preciso entre / nada // e coisa nenhuma». Neste caso, o sentido de «preciso» tanto pode ser o da exactidão como o da necessidade. Essencial é a ideia de intervalo, de algo que se interrompe e retoma (não será por acaso que surge tantas vezes, mais metafórica ou mais literal, a imagem de uma ponte).
Dos muitos recursos retóricos que Daniel Jonas exibe, há um particularmente poderoso, que consiste no cruzamento ou sobreposição de planos sensoriais distintos («Meu deus, o que faríamos sem a sinestesia», admite algures). Aves negras sobre a neve serão sombras, «corvos corvos» ou «píxeis fundidos, / o anátema da inexistência»? Há fotografias que se ouvem, sons que se vêem, objectos conscientes da sua condição de símbolos. As maiores alturas estéticas, porém, atingem-se através da mais pura contemplação. Como no poema Velho Mestre: «O silêncio / de um fruto sobre a mesa, / apenas ferido / por um gume de luz / no meridiano. // Mas nenhuma ameaça, / nem o arnês de dedos / formando-se no horizonte, / apenas o golpe do sol / afiado na vidraça. // Um fruto / é um velho mestre / esperando na luz / as trevas / do amadurecimento.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Quatro poemas de Daniel Jonas

NOSTALGIA

Perder uma fotografia
é perder
um momento
duas vezes.

***

beslan

OSSÉTIA

Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.

Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.

De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.

O inconsolável.

O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.

***

SPLEEN

Cemitério de todos os sóis
o mar, cinza
onde habita o beemote do tempo,
a grande baleia do oblívio
sob socalcos de aço,
na chapa recurva,
sucata de toda a metáfora.

Porquê dizê-lo?
Cansaço de o dizer…

O mar é uma maçada.

***

CANTONEIROS

A pura simetria dos cantoneiros
concordes na sintonia clássica
da sua dança, no modo como desmantelam
a embriaguez, induzem o vómito a caixotes
ou dispõem de bolas de plástico
e as lançam para a baliza ruminativa
sem tempo para comemorarem os golos.

Pulgas da quietude,
industriosos entre o mar de detritos,
fosforescentes noctilucos,
espectros a céu aberto,
ídolos de montureiros,
aclarando das margens as nuvens rentes
sob aguaceiros desabridos.

Acrobatas da morosidade
fúnebre do seu curso,
a cidade ignora-os
ou execra aquele féretro deletério
se apanhada no cortejo de ocasião.

[in Passageiro frequente, Língua Morta, 2013]

Nulle Part

Ne cueille pas les fruits tardifs ou les semailles abandonnées ni ne récolte des épines ce qui fut jeté aux épines : tu serais sot. Pourquoi approuver ce que les autres méprisèrent ? Si tu cherches la sagesse et l’instruction ne campe pas dans le collège des prévaricateurs, même s’ils te promirent du vin et de la manne ; leur vin fut craché para eux et la manne te fut offerte après une dégustation insipide. Il est préférable que tu ne les connaisses point. Réserve toute inclination matinale pour la réflexion vespérale. Elle t’aidera à franchir la première comme de l’or expérimenté et d’accord avec les lois. Tu épargneras ainsi beaucoup de jours à ta souffrance. Sois attentif à tout ce que tu rejetas et médite. Il est possible que tu oublies le visage dont tu te dévias ; ou qu’en te déviant une fois tu puisses maintenant mieux savoir le motif et ainsi ne pas te dévier, comme souvent dit le sage. Le temps est le plus féroce de tes ennemis. Conduis ta charrue sur du gravier qui te connaît. Et ne te promènes point par des chemins connus des autres. Car de la même façon que ces chemins les connaissent et les ramènent chez eux, ton chemin te ramènera et te reconnaîtra davantage. Tu ne voudrais pas que ton propre chemin se prostitue et qu’il ramène d’autres chez toi. Ce serait inopportun. Ne foule pas le chemin qui est des autres. Te méconnaissant, il te conduirais aussitôt à leur demeure et à leur demeure tu y serais conduit et perdues seront toutes tes épiceries. Ne souffre pas en excès la douleur des autres. Car comment pourrais tu ressentir ta propre douleur une fois épuisée celle des autres ? Songe bien à mes leçons pour qu’elles soient comme une parure dans d’éternelles fiançailles. Aux prévenus appartient la consolation et aux connaisseurs la joie. Il n’y a pas de raison pour militer dans une guerre qui n’est pas la tienne et donner ta chair comme rançon aux tyrans. Les jours te seront légers si tu suis mes conseils. A quoi de bon la précaution si elle n’est pas durable ? Tu ravageras tout ton arsenal dans le plus bref de tes sommeils. Même la plus lourde des nuits se réveille avec la plus silencieuse des étincelles. N’offre pas tes lèvres aux joies précoces ni ta langue aux célébrations éphémères, car nombrables furent ceux qui se réjouirent dans les fêtes étrangères. Quand tu écouteras le cliquetis des cadeaux et le vacarme chez ton voisin, ne soit pas sot d’y courir. En arrivant précipitamment, il est bien possible que tu découvres que c’est toi le motif de la fête et de la raillerie et qu’ils se moquent encore plus de toi. Ton voisin est tant ton voisin comme tu es le sien, et il pourra un jour rire de toi comme toi de lui, car les demeures sont voisines. N’apaise pas tes études et considère sagement mes leçons. Quand tu seras vieux, les années te seront légères et bienfaisantes comme un huile et elles plaqueront tes souffrances. L’imprévoyant dit J’y vais, le sage Vas-y. Quand quelqu’un tombera devant toi, soit attentif aux raisons de sa chute et ne te précipite pas à le soulager comme un sot. Ne dis pas Demain il est possible que ce soit moi, quand tu l’as déjà été hier. Échoués seront tes desseins si tu ne reconnaît pas en toi la férule et l’ardoise. Munis-toi des choses qu’il convient à un élève et n’ose jamais l’enseignement : à quoi de bon enseigner ce que tu connais déjà ? Ce que tu connais est du lait caillé et de la matière morte : suis plutôt de nouveaux chemins.

[Excerto do sermão da personagem «o Sábio», retirado da peça teatral Nenhures (Cotovia), de Daniel Jonas, traduzido para francês por João Pedro da Costa]

Encontro com Poetas do Porto, no Porto

O segundo ciclo de “Encontros com Poetas do Porto” prossegue, no próximo sábado, dia 19, com Daniel Jonas, apresentado por Marta Afonso. Haverá leitura de poemas e diálogo com o público. Lugar: a Fundação Eugénio de Andrade (a partir das 18h30). A entrada é livre.
Para abrir o apetite, publica-se já de seguida mais uma tradução para francês de um texto do Daniel Jonas, feita pelo JPC.

Um poema de Daniel Jonas, traduzido por João Pedro da Costa

LES CANARDS

Les canards qui voguaient au fil
des poèmes de Mandelstam,
encore une fois : les canards qui patinaient
les poèmes de Mandelstam
m’ont rendu visite comme si
un soleil et un lac limpide
m’appartenaient.

Et moi, si indigne de recevoir de
créatures si pures, si blanches,
j’ai essayé de dissuader ces
créatures si pures, si blanches,
de vouloir ainsi apparaître
dans cet atoll
dans ce brai.

[O poema original foi publicado no livro Os Fantasmas Inquilinos, Cotovia, 2005]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges