Primeiros parágrafos

«Estou sentado numa sala, rodeado de cabeças e de corpos. A minha postura é conscientemente congruente com a forma da minha dura cadeira. É uma sala fria do edifício da Administração da Universidade, com paredes apaineladas em que havia quadros à maneira de Remington e janelas duplas que a defendiam do calor de novembro, protegida de sons administrativos pela zona de receção na qual o tio Charles, o senhor DeLint e eu tínhamos sido recebidos.
Eu estou aqui.
Três caras ocuparam lugar em cima de casacos desportivos de verão e largas gravatas de seda do outro lado de uma mesa de conferências de pinho polido que brilha com a luz – que parece uma teia de aranha – do meio-dia do Arizona. São os três deões: o das Admissões, o dos Assuntos Académicos e o dos Assuntos Desportivos. Não sei a qual corresponde cada cara.»

[in A Piada Infinita, de David Foster Wallace, trad. de Salvato Telles de Menezes e Vasco Teles de Menezes, Quetzal, 2012]

DFW pelo seu biógrafo

Durante esta semana, D. T. Max, jornalista que acaba de lançar uma biografia de David Foster Wallace (Every Love Story is a Ghost Story), escreverá uma série de posts sobre os «documentos e artefactos» com que se foi deparando ao investigar a vida do autor de Infinite Jest (A Piada Infinita, a publicar pela Quetzal em Novembro).

Quando Bret Easton Ellis ataca David Foster Wallace

Aconteceu no Twitter. Ao ler a biografia de David Foster Wallace, de D. T. Max, o autor de Menos que Zero decidiu descarregar a sua fúria sobre o autor de Infinite Jest. Além de ver em DFW o escritor mais entediante, sobreavaliado e pretensioso da sua geração, Easton Ellis chega ao ponto de o considerar uma «fraude». A bílis recai também sobre os admiradores de DFW. Pela minha parte, os seis tweets resumem-se em três palavras: dor de cotovelo.

Um discurso memorável de David Foster Wallace, revisited

Antigos alunos do Kenyon College, que escutaram em primeira mão o agora mítico discurso This is Water, proferido por David Foster Wallace a 21 de Maio de 2005, relembram o modo como o texto foi recebido pelos seus primeiros ouvintes.

The horizon trembling, shapeless

«Past the flannel plains and blacktop graphs and skylines of canted rust, and past the tobacco-brown river overhung with weeping trees and coins of sunlight through them on the water downriver, to the place beyond the windbreak, where untilled fields simmer shrilly in the A.M. heat: shattercane, lamb’s-quarter, cutgrass, sawbrier, nut-grass, jimsonweed, wild mint, dandelion, foxtail, muscadine, spine-cabbage, goldenrod, creeping charlie, butter-print, nightshade, ragweed, wild oat, vetch, butcher grass, invaginate volunteer beans, all heads gently nodding in a morning breeze like a mother’s soft hand on your cheek. An arrow of starlings fired from the windbreak’s thatch. The glitter of dew that stays where it is and steams all day. A sunflower, four more, one bowed, and horses in the distance standing rigid and still as toys. All nodding. Electric sounds of insects at their business. Ale-colored sunshine and pale sky and whorls of cirrus so high they cast no shadow. Insects all business all the time. Quartz and chert and schist and chondrite iron scabs in granite. Very old land. Look around you. The horizon trembling, shapeless. We are all of us brothers.
Some crows come overhead then, three or four, not a murder, on the wing, silent with intent, corn-bound for the pasture’s wire beyond which one horse smells at the other’s behind, the lead horse’s tail obligingly lifted. Your shoes’ brand incised in the dew. An alfalfa breeze. Socks’ burrs. Dry scratching inside a culvert. Rusted wire and tilted posts more a symbol of restraint than a fence per se. NO HUNTING. The shush of the interstate off past the windbreak. The pasture’s crows standing at angles, turning up patties to get at the worms underneath, the shapes of the worms incised in the overturned dung and baked by the sun all day until hardened, there to stay, tiny vacant lines in rows and inset curls that do not close because head never quite touches tail. Read these.

[Primeiro capítulo do romance The Pale King, de David Foster Wallace, Little, Brown and Company, 2011]

Abram alas para o rei pálido

Finalmente, um dos livros mais esperados de 2011, pelo menos no mundo anglo-saxónico, chega hoje às livrarias norte-americanas. Refiro-me a The Pale King, o romance incompleto e póstumo de David Foster Wallace, uma espécie de hino ao tédio contemporâneo, com a mais burocrática e aborrecida repartição de finanças que se possa imaginar como centro da narrativa.
Vantagens da tecnologia: poucos minutos depois da meia-noite, fiz download do romance para o Kindle e li o capítulo 1 antes de adormecer.

Primeiros parágrafos

«Every whole person has ambitions, objectives, initiatives, goals. This one particular boy’s goal was to be able to press his lips to every square inch of his own body.»

[Início do conto Backbone, de David Foster Wallace, publicado num número recente da The New Yorker]

Os arquivos de David Foster Wallace

«The archives of American writer David Foster Wallace are set to be available for viewing at the University of Texas at Austin beginning September 14, announced the University’s Harry Ransom Center on September 6. Highlights of the collection include handwritten notes and drafts, research, and teaching materials owned by the Infinite Jest author, who died in 2008.
The David Foster Wallace archive includes handwritten notes and drafts of Infinite Jest, college and graduate school essays, and Wallace’s heavily annotated books by Don DeLillo, Cormac McCarthy, John Updike, and more than 40 other authors. Publisher Little, Brown and Company is expected to contribute its editorial files, including materials for Wallace’s posthumous novel The Pale King, following that book’s publication in April 2011.»

Mais informações sobre o espólio de Wallace podem ser encontradas aqui.

Infinite Summer

De 21 de Junho a 22 de Setembro, um grupo de «endurance bibliophiles» do mundo inteiro vai ler, de fio a pavio (sem esquecer uma única das suas numerosas notas de rodapé), o gigantesco e genial romance Infinite Jest, de David Foster Wallace. A experiência será relatada no blogue Infinite Summer, criado por Matthew Baldwin (not one of the Baldwin brothers, I suppose), que falou sobre este «projecto de leitura» («reading project») aqui e aqui.

O melhor post do mês (e talvez do ano)

Rogério Casanova sobre David Foster Wallace e os vários tipos de inteligência (A, B1, B2, C e D).

Aumentar frases com David Foster Wallace

Requer arte, engenho, paciência e algum fulgor verbal, mas no fim, com sorte, pode ser que se consiga transformar «ten boring words into a hundred good ones». Está tudo explicadinho aqui.

Rogério Casanova sobre David Foster Wallace

«É um fenómeno sazonal americano: aproximadamente de 10 em 10 anos, um tijolo enciclopédico é depositado no zeitgeist, elevando a fasquia literária para os contemporâneos mais ambiciosos. Foi assim com The Recognitions, Giles Goat-Boy e Gravity’s Rainbow. Depois de um hiato minimalista, e numa altura em que a elefantite pós-moderna parecia condenada a ser uma nota de rodapé, David Foster Wallace decidiu adicionar-lhe mais quatro centenas de (precisamente) notas de rodapé, precedidas por novecentas exuberantes páginas de génio. Infinite Jest não foi apenas o livro dos anos 90 – foi o livro de uma geração. Avaliá-lo apenas como a derradeira manifestação de um gigantismo moribundo, contudo, seria cometer a pior espécie de injustiça elegíaca.
(…) DFW acreditava que a mediação de uma consciência é a característica central da ficção literária (…). O realismo nunca o inquietou; apenas a anestesia induzida pelas suas manifestações mais sacramentais. A sua grande contribuição foi o apontar de uma terceira via: um meio-caminho entre os excessos da meta-ficção e os defeitos do minimalismo; entre a elevação da consciência narrativa a protagonista do texto (processo cujo corolário é uma ironia mórbida e um exibicionismo vazio) – e a auto-imolação dessa consciência narrativa, em que o texto é cinzelado até uma impessoalidade árida e falsificada. DFW acreditava que era possível restaurar a função ética da literatura sem abandonar a ousadia formal e a puerilidade rebelde.
Infinite Jest foi a concretização desse programa teórico. Uma exploração magistral da afinidade metafísica entre arte, entretenimento e vício; e o retrato escrupuloso de uma cultura tecnofílica em crise, onde qualquer elo pessoal é soterrado por avalanches de informação. O romance formalmente mais ambicioso da década de 90 era animado por uma compaixão genuína, e exaltava sem pruridos as recompensas da empatia. Don Gately, o seu núcleo emocional, é uma das mais comoventes personagens da literatura americana.
O legado impossível de DFW é a sua voz: omnívora, generosa e quase sempre hilariante, transmitida num registo coloquial, mas com um vocabulário infinito. A espaços, assemelha-se a uma redução ao absurdo da auto-reflexividade, mas os seus excessos são o veículo perfeito não apenas de um intelecto colossal, mas de um inimpugnável sentido ético. DFW era assombrado por um constante pânico moral: estava ciente da propensão das palavras para falsificarem os mais genuínos conteúdos emocionais, e da tremenda facilidade em forjar uma autenticidade instantânea através de acrobacias estilísticas. Os seus melhores parágrafos – e a sua incapacidade para a compressão – são um resultado directo dessa angústia e desse combate. DFW triunfou quase sempre, mas não é claro que o tenha percebido.
Como todos os génios, ocupou terreno virgem e destruiu a ponte. Deixa uma mão-cheia de obras-primas e dezenas de promessas por cumprir. Deixa órfãos e imitadores; mas não deixa sucessores.»

[Excerto de um texto de Rogério Casanova, publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

O luto da NASCAR

Por sugestão de Rogério Casanova, cheguei a este texto brilhante, sem ser mórbido, sobre o impacto da morte de David Foster Wallace. Segundo o The Onion (que está para o Inimigo Público como a The New York Review of Books está para o Jornal de Letras), «shock, grief, and the overwhelming sense of loss that has swept the stock car racing community following the death by apparent suicide of writer David Foster Wallace has moved NASCAR to cancel the remainder of its 2008 season in respect for the acclaimed but troubled author of Infinite Jest, A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again, and Brief Interviews With Hideous Men». A minha passagem preferida é esta:

«”All race long on Sunday, I was dealing with the unreality presented me by his absence,” said #16 3M Ford Fusion driver Greg Biffle, who won Sunday’s Sylvania 300 at New Hampshire Motor Speedway, the first race in the Chase For The Cup, and would therefore have had the lead in the championship. “I first read Infinite Jest in 1998 when my gas-can man gave me a copy when I was a rookie in the Craftsman Truck Series, and I was immediately struck dumb by the combination of effortlessness and earnestness of his prose. Here was a writer who loved great, sprawling, brilliantly punctuated sentences that spread in a kind of textual kudzu across the page, yet in every phrase you got a sense of his yearning to relate and convey the importance of every least little thing. It’s no exaggeration to say that when I won Rookie of the Year that season it was David Foster Wallace who helped me keep that achievement, and therefore my life, in perspective.”»

Humor negro, muito negro, nigérrimo

Fazer piadas sobre uma pessoa que se suicidou há poucos dias é um exercício a meio caminho entre o desassombro e a crueldade. Mesmo quando o autor é Vítor Elias, o mais desabrido e genial dos humoristas portugueses (se não contarmos com Ricardo Araújo Pereira), fica-nos um travo amargo na boca. O prolífico repórter do Inimigo Público publicou hoje a seguinte notícia:

«O conhecido escritor norte-americano David Foster Wallace, famoso desde que publicou, em 1996, o romance Infinite Jest, de quase mil páginas, enforcou-se esta semana na sua casa da Califórnia. “Cheguei a casa, vi o David pendurado do tecto e notei logo um monte enorme de folhas em cima da secretária. Na primeira página estava escrito ‘Minha querida, nasci em Ithaca, NY. A primeira impressão que tive na vida foi antes de nascer, mergulhado na placenta da minha mãe, etc’ e não consegui continuar a ler, porque percebi que a carta tinha para lá de 300 páginas”, explicou ao IP a mulher de David Foster Wallace. “Saltei logo para o final da carta, onde ele explica que se suicidou porque estava com um bloqueio e não conseguia suportar o pânico de olhar para duas resmas de 500 páginas cada em branco”, concluiu. De referir que David Foster Wallace suicidou-se atando uma corda ao tecto da sua casa, subindo para cima de um exemplar do seu livro Infinite Jest e saltando.»

O que dirá disto o Rogério?

Roger Federer (e a noção de Federer Moment) por David Foster Wallace

federer.jpg

Para o maradona:

«Almost anyone who loves tennis and follows the men’s tour on television has, over the last few years, had what might be termed Federer Moments. These are times, as you watch the young Swiss play, when the jaw drops and eyes protrude and sounds are made that bring spouses in from other rooms to see if you’re O.K.
The Moments are more intense if you’ve played enough tennis to understand the impossibility of what you just saw him do. We’ve all got our examples. Here is one. It’s the finals of the 2005 U.S. Open, Federer serving to Andre Agassi early in the fourth set. There’s a medium-long exchange of groundstrokes, one with the distinctive butterfly shape of today’s power-baseline game, Federer and Agassi yanking each other from side to side, each trying to set up the baseline winner…until suddenly Agassi hits a hard heavy cross-court backhand that pulls Federer way out wide to his ad (=left) side, and Federer gets to it but slices the stretch backhand short, a couple feet past the service line, which of course is the sort of thing Agassi dines out on, and as Federer’s scrambling to reverse and get back to center, Agassi’s moving in to take the short ball on the rise, and he smacks it hard right back into the same ad corner, trying to wrong-foot Federer, which in fact he does — Federer’s still near the corner but running toward the centerline, and the ball’s heading to a point behind him now, where he just was, and there’s no time to turn his body around, and Agassi’s following the shot in to the net at an angle from the backhand side…and what Federer now does is somehow instantly reverse thrust and sort of skip backward three or four steps, impossibly fast, to hit a forehand out of his backhand corner, all his weight moving backward, and the forehand is a topspin screamer down the line past Agassi at net, who lunges for it but the ball’s past him, and it flies straight down the sideline and lands exactly in the deuce corner of Agassi’s side, a winner — Federer’s still dancing backward as it lands. And there’s that familiar little second of shocked silence from the New York crowd before it erupts, and John McEnroe with his color man’s headset on TV says (mostly to himself, it sounds like), “How do you hit a winner from that position?” And he’s right: given Agassi’s position and world-class quickness, Federer had to send that ball down a two-inch pipe of space in order to pass him, which he did, moving backwards, with no setup time and none of his weight behind the shot. It was impossible. It was like something out of “The Matrix.” I don’t know what-all sounds were involved, but my spouse says she hurried in and there was popcorn all over the couch and I was down on one knee and my eyeballs looked like novelty-shop eyeballs.
Anyway, that’s one example of a Federer Moment, and that was merely on TV — and the truth is that TV tennis is to live tennis pretty much as video porn is to the felt reality of human love.»

[Início de um épico artigo intitulado Roger Federer as Religious Experience, publicado na revista Play do jornal The New York Times a 20 de Agosto de 2006, texto que se estende por 38.407 caracteres; aliás, 50.890 se lhe acrescentarmos as 17 notas de rodapé, onde abundam frases como esta: «The thing with Federer is that he’s Mozart and Metallica at the same time, and the harmony’s somehow exquisite.»]

D. F. W.

O site The Morning News presta tributo a David Foster Wallace com uma notável escolha de links: obituários e reacções de outros escritores; um célebre discurso de Wallace no Kenyon College; um texto sobre John McCain, publicado na Rolling Stone em 2000; vídeos; participações em programas de rádio; depoimentos de amigos; um “thread of memories” in progress no site da revista McSweeney’s; entre muitas outras abordagens a quem era, como o próprio Wallace disse de uma das suas personagens (num conto publicado pela The New Yorker), «just broken and split off like all men».

David Foster Wallace (1962-2008)

O The New York Times deu hoje a notícia, sob o título “Postmodern Writer Is Found Dead at Home”. Alguns excertos do obituário:

«Mr. Wallace burst onto the literary scene in the 1990s with a style variously described as “pyrotechnic” and incomprehensible, and it was compared to those of writers including Jorge Luis Borges, Thomas Pynchon and Don DeLillo.
In a New York Times review [de Infinite Jest, o seu magnum opus, com mais de mil páginas], Jay McInerney wrote that the novel’s “skeleton of satire is fleshed out with several domestically scaled narratives and masses of hyperrealistic quotidian detail.”
“The overall effect”, Mr. McInerney continued, “is something like a sleek Vonnegut chassis wrapped in layers of post-millennial Zola.” The novel was filled with references to high and low culture alike, and at the end had more than 100 pages of footnotes, which were trademarks of Mr. Wallace’s work.
Michael Pietsch, who edited Infinite Jest, said Saturday night that the literary world had lost one of its great talents.
“He had a mind that was constantly working on more cylinders than most people, but he was amazingly gentle and kind”, Mr. Pietsch said. “He was a writer who other writers looked to with awe.”»

David Foster Wallace suicidou-se

O escritor de culto David Foster Wallace, conhecido sobretudo pelo livro Infinite Jest, foi encontrado morto por enforcamento, em sua casa. Tinha 46 anos.
A notícia chegou-me há cerca de uma hora, através do Twitter de José Afonso Furtado. Contudo, como a fonte não me inspirava total confiança, e temendo a repetição de episódios desagradáveis, esperei pela confirmação oficial. E ela chegou há pouco.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges