Ratos e homens

Batalha
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
N.º de páginas: 200
ISBN: 978-989-637-318-4
Ano de publicação: 2011

Escritor prolífico, David Soares afirmou-se no género fantástico mas tem vindo a cruzar essa matriz ficcional com o romance histórico, nomeadamente em A Conspiração dos Antepassados (2007), Lisboa Triunfante (2008) e O Evangelho do Enforcado (2010). No seu quarto romance, Batalha, evoca-se a figura do mestre Afonso Domingues, o arquitecto que acompanhou a edificação do Mosteiro de Santa Maria da Vitória no final do século XIV e ficou, segundo a lenda, três dias em jejum sob a abóbada da Casa do Capítulo, para garantir que seria o primeiro a morrer caso ela caísse – como caíra pouco antes a abóbada construída pelo flamengo David Huguet.
A esta história de fé na obra própria, por parte de um arquitecto já cego e moribundo, havemos de chegar, mas só no fim do livro. É este o aspecto mais original de Batalha. Em vez de acompanhar o processo de construção do mosteiro, Soares prefere contar-nos uma fábula das antigas, com animais a personificarem qualidades e defeitos humanos. Protagonista: uma ratazana que descobre sucessivamente o amor e o abandono (no seio de uma família de ratos do campo), o cinismo dos corvos, a bondade absoluta (porca Fraca-Chicha) e o instinto predador de gatos cruéis. A ratazana acaba entre humanos, procurando uma grandeza espiritual a que a maior parte dos homens nem sequer aspira.
Talvez por fidelidade à época em que a história decorre, a prosa é barroca. Compreende-se que David Soares recupere palavras raras, vocabulário perdido nos dicionários. Nada contra. Acontece que exagera: só numa página, tropeçamos em «abacinava», «fulverino», «noncupativo», «luarejar», «rorífluas», «tristimania», «ossívoro». O estilo torna-se pesado, quando não opaco. Mesmo sem comprometer as qualidades narrativas do autor, há ali um lastro claramente desnecessário.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

‘O Evangelho do Enforcado’

O novo livro de David Soares, O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência), só vai para as livrarias a 12 de Fevereiro, mas o autor, bastante activo na internet, já o está a promover em força no Facebook.
Eis a sinopse da obra:

«Lisboa, século XV: Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos melhores ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck, à medida que perigosas obsessões vão tomando conta dele. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade africana de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem intenções negras, que nada têm a ver com os bons desejos do regente, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá, sem sombra de dúvida, mudar o Reino.
Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis ditos de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida de todos os dias na capital portuguesa do período final da Idade Média. Pleno de descrições tão vívidas quanto pinturas, é uma viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens.
Entre num mundo misterioso de arte, loucura e crime.»

Cadernos de Daath

O novo blogue do escritor David Soares é este.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges