Primeiros parágrafos

«Natanael teria preferido que não amanhecesse, mas já o açoitava o sol que irrompia pelos buracos da tenda. Na cabeça ainda ressoavam as gargalhadas dos seus companheiros, sobretudo as de Hércules, e interrogou-se se a manhã seria um prolongamento da noite. Deu duas voltas no catre antes de se pôr de pé. Ficou contente quando reparou que estava sozinho. Depois do que se passara na noite anterior não sentia vontade nenhuma de se encontrar com quem quer que fosse. Pela primeira vez tinha-se sentido suficientemente à vontade com o grupo para lhes confiar um pouco da sua vida, algo pessoal. Contou-lhes que um dos seus antepassados tinha sido presidente da República e explicou-lhes como perdeu a vista do olho esquerdo. “O meu pai chateou-se comigo e pegou na concha dos feijões para me dar um enxerto e eu, armado em imbecil e querendo ver como me arreava, deixei-me ficar com os olhos bem abertos e a concha acertou-me no esquerdo. Cortou-mo como se fosse um ovo cozido. Procurámos em todo o lado o bocado do meu olho, e só nos demos por vencidos quando ao jantar o meu pai perguntou se os feijões tinham toucinho. Como a minha mãe lhe respondeu que não, ele foi cuspir no lava-louça.” E, embora ninguém tivesse acreditado em semelhante história, riram-se todos e Natanael não ficou incomodado por pensar que se estavam a rir de si, porque ele próprio se tinha rido dessa experiência quando a viu a milhas, e a procura do pedaço de olho se transformou num mero acto de apanhar o lixo porque em momento algum lhes passou pela cabeça voltar a pô-lo no lugar e faça-se luz e o olho como novo. Também teve vontade de lhes contar daquela vez em que um seu outro antepassado fez explodir várias cargas na galeria de uma mina sepultando cento e vinte e três mineiros. “Uma mina que podia muito bem ser aquela”, disse, e apontou uma fenda no cerro atrás das suas costas. Nessa altura os seus companheiros interesseram-se e perguntaram-lhe como se chamava esse homem, e ele fingiu sentir-se incomodado e censurou-os por ninguém ter perguntado o nome do presidente e só quererem ficar a saber o do assassino. Os seus companheiros insistiam, conta-nos mais, diz-nos como é que se chamava, como é que morreram os mineiros, se o teu parente morreu com eles ou fugiu, se o meteram na prisão ou enforcaram ou fuzilaram, e Natanael sentiu uma felicidade enorme por se julgar o centro do mundo. O problema surgiu mais tarde quando, desejoso de partilhar algo íntimo, Natanael disse aos seus companheiros: «Se não fosse a minha estatura, ninguém diria que sou anão.” A partir de então foi só risadas e troça, e Hércules não se calava: “Se não te faltasse um olho, ninguém diria que és zarolho.” Vê-se mesmo que não percebem nada, pensou Natanael, se também fossem anões compreenderiam que a minha condição não se limita a não chegar ao armário das cebolas ou a passar por entre as patas de um cavalo sem me agachar. Até parece que estão aqui por serem normaizinhos.»

[in Santa Maria do Circo, de David Toscana, Oficina do Livro, 2010]

O que aí vem (Oficina do Livro)

toscana

Santa Maria do Circo, romance do escritor mexicano David Toscana, autor de O Último Leitor. Na colecção Ovelha Negra.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges