Enclaves de desespero

A Ilha de Caribou
Autor: David Vann
Título original: Caribou Island
Tradução: José Lima
Editora: Ahab
N.º de páginas: 305
ISBN: 978-989-97228-5-9
Ano de publicação: 2012

Em A Ilha de Sukkwan, David Vann narrou uma daquelas histórias que perduram muito tempo na memória de quem as lê. Num canto isolado do Alasca, onde só se chega de hidrovião, pai e filho fazem um pacto de sobrevivência, fechados numa cabana, preparando-se para o Inverno, até que a tragédia empurra um deles para o suicídio e o outro para o abismo da dor, culminando na dissipação física e mental. A essa novela intensa, de escrita poderosa, retirada do primeiro livro de ficção do escritor norte-americano, Legend of a Suicide, segue-se agora o primeiro romance – A Ilha de Caribou – igualmente editado pela Ahab. São muitos os pontos de contacto entre os dois textos, nomeadamente o tom da prosa e a forma como Vann recorre a extraordinárias descrições da paisagem ou da fúria dos elementos para sugerir o estado emocional das personagens.
A narrativa volta a centrar-se num par, desta vez um casal que em vez de ocupar uma cabana a precisar de obras (como o pai/filho de Sukkwan) decide construir uma nova, de raiz. E é nesse momento que começam os problemas. Face à obstinação de Gary, decidido a mudar-se a todo o custo para o meio do nada, Irene questiona um casamento com mais de três décadas, suspeitando que o projecto insensato do marido há-de ser o primeiro passo para a deixar. Logo na viagem de barco inicial, sob uma tempestade bíblica, ela percebe que os troncos «nunca hão de encaixar uns nos outros», como compreenderá, mais tarde, que a casa em construção é uma «espécie de metáfora» da vida em comum: «se eles pudessem pegar em todas as suas existências anteriores e pregá-las umas às outras, juntar aquilo que eram há cinco anos àquilo que tinham sido há vinte e cinco, talvez conseguissem ter a sensação de alguma coisa de sólido». Ora solidez é tudo o que falta à cabana e ao próprio Gary, incapaz de planear as coisas, mau construtor, um «campeão do arrependimento» que não se perdoa ter abandonado uma tese de doutoramento em estudos medievais, na universidade de Berkeley, para se enfiar ainda novo no Alasca, esse «lugar de exílio», destino dos que «não se sentiam bem noutro sítio», território hostil com cidades pequenas e provincianas, «enclaves de desespero» onde as pessoas se deixam encurralar na sua própria mediocridade.
Enquanto o casal se entrega a uma lenta auto-destruição (só acelerada pelo colapso nervoso de Irene, incapaz de dormir devido a umas misteriosas enxaquecas sem aparentes causas médicas), vão surgindo histórias paralelas: a de Rhoda, filha mais velha e mais próxima, assistente veterinária que sonha casar com Jim, o namorado dentista; a de Jim e a sua traição a Rhoda, prenúncio de infidelidades futuras; a de Mark, o filho mais novo, um caso perdido; a dos amigos de Mark; etc. Tudo personagens falhadas ou em vias de falhar. Protagonistas de misérias banais e quotidianas, retratadas por David Vann com a mesma minúcia descritiva que aplica a uma faina de pesca ou ao processamento de salmões numa fábrica de conservas.
À medida que o Outono avança, trazendo o frio, a neve e o gelo, cresce a tensão entre Gary e Irene, torna-se mais nítida a impossibilidade do sonho dele, mais profundo o esgotamento dela, mais concreta a aproximação ao lado negro da experiência humana. O leitor que se prepare para um sobressalto, um soco no estômago, não a meio da narrativa (como sucedia em A Ilha de Sukkwan), mas no assombroso desenlace, essas páginas finais de uma beleza absolutamente terrível e sem esperança, que nos atordoam e nos perseguem.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«A minha mãe não era real. Era um sonho antigo, uma esperança. Era um lugar. Nevado, como este, e frio. Uma casa de madeira numa colina, com um rio mais abaixo. Um dia enevoado, a pintura branca gasta das casas que a luz aprisionada tornava inesperadamente mais brilhante, e eu voltava da escola. Tinha dez anos, vinha sozinha, seguia pelo meio da neve suja amontoada no pátio, em direção ao alpendre estreito de nossa casa. Não me lembro do que me ia no pensamento nesse momento, não me lembro de quem eu era nem de como me sentia. Tudo isso se apagou, desapareceu. Abri a porta da frente e deparei com a minha mãe pendurada de uma das traves do telhado. Desculpa, disse eu, e recuei e fechei a porta. Estava de novo lá fora, no alpendre.
Disseste isso?, perguntou Rhoda. Disseste desculpa?
Sim.
Oh, mamã.
Foi há muito tempo, disse Irene. E foi uma coisa que eu nem sequer naquela altura consegui ver, e por isso agora também não consigo. Não sei que aspeto tinha ela, ali pendurada. Não me lembro dos pormenores, apenas que aconteceu.»

[in A Ilha de Caribou, de David Vann, trad. de José Lima, Ahab, 2012]

David Vann: “O que é interessante na ficção é o modo como distorcemos a realidade objectiva”

Em 2008, David Vann (n. 1966) parecia condenado a ser mais um dos muitos escritores que ficam pelo caminho. O primeiro livro de ficção, Legend of a Suicide (mosaico narrativo composto por uma novela e cinco contos interligados), estava há uma dúzia de anos nas mãos de agentes que nada faziam, por acharem que o tema tabu, anunciado no título, afugentaria os leitores. Deu-se então uma espécie de milagre. Uma crítica positiva no The New York Times abriu portas, começaram a chover prémios e elogios, traduções e reconhecimento global. Em França, ganhou em 2010 o Prémio Médicis para melhor livro estrangeiro (entre os finalistas contavam-se Thomas Pynchon, Per Petterson e Gonçalo M. Tavares).
A pressão do sucesso não o incomoda, porque nunca deixou de escrever. No outono sairá o seu quarto livro, uma investigação sobre um tiroteio numa escola, mas já está a trabalhar no oitavo. «Como fui ignorado durante muito tempo, deixei de me preocupar com o que as pessoas pensam de mim ou da minha escrita. Tenho consciência de que uma carreira literária está sempre em risco. Por isso, vou gozando enquanto posso.»

No centro do seu primeiro livro de ficção, Legend of a Suicide, de onde foi retirada a novela A Ilha de Sukkwan (editada em Portugal pela Ahab), está um facto violentíssimo: o suicídio do seu pai, com uma bala na cabeça. De que forma é que a literatura o ajudou lidar com o trauma?
Eu comecei a escrever esse livro quando tinha 19 anos e só o acabei aos 29. Era uma história inevitável. Mais tarde ou mais cedo, teria de a contar. O meu pai matou-se quando eu tinha 13 anos. Durante muito tempo, fui incapaz de lidar com a tragédia. Dizia às pessoas que ele morrera de cancro.

Estava em negação.
Negação total. Recusava-me a acreditar naquela morte. Cheguei a alimentar fantasias de que ele ainda estava vivo. Tinha vergonha do suicídio do meu pai. Aquilo transmitia-se de alguma maneira para mim. Fazia com que me sentisse sujo.

Sujo?
Sim. Era uma coisa física. Uma mistura de vergonha, culpa e raiva. Deixei de conseguir dormir — insónias terríveis que duraram quase 15 anos. Afastei-me dos amigos. Mantinha uma vida dupla. Durante o dia era aluno exemplar. Toda a gente pensava que eu estava a lidar bem com o problema. Mas à noite escapava de casa às escondidas, levava a espingarda com que o meu pai ia caçar ursos e punha-me aos tiros às lâmpadas dos postes de iluminação. Atravessei tempos muito negros. O que demorou mais a desaparecer foi a raiva contra o meu pai. Uns 25 anos. Fiquei muito zangado ao constatar que o meu amor todo não fora suficiente. O meu amor devia ter sido suficiente. Devia ter sido uma razão para ele ficar.

Sentiu-se traído?
Senti-me traído. Quanto à culpa, todas as pessoas na minha família a sentiram. Mas era uma culpa diferente para cada um. A minha culpa prendia-se com o pedido que o meu pai me fez para que passasse um ano com ele no Alasca. Eu nasci e cresci lá, mas depois os meus pais divorciaram-se e mudei-me para a Califórnia com a minha mãe. Então, ele pediu-me para voltar. Adolescente, não me imaginava longe de tudo durante tanto tempo. E disse que não. Duas semanas depois, ele matou-se. Pensei muitas vezes que se tivesse dito que sim o meu pai talvez ainda estivesse vivo. A Ilha de Sukkwan é justamente isso: o rapaz a dizer que sim ao pedido do pai, a passar um ano com ele em total isolamento. É uma espécie de segunda oportunidade, uma forma de me redimir daquela recusa. Mas não me apercebi disto durante o processo de escrita. Foi algo que surgiu de forma inconsciente.

Serviu de catarse?
Não. Essa veio por outra via. Entre os 13 e os 35 anos, acreditei que o suicídio estava à minha espera. Imaginava-me a repetir a vida do meu pai: casamento, filhos, infidelidade, divórcio, depressão e o resto. Foi preciso chegar a um ponto baixo na minha vida, aos 35 anos, para perceber que o meu rumo não seria aquele. Ali estava eu, depois de perder tudo, sem sequer dez dólares no bolso, sem perspectivas, a vida descarrilada, e nem por um momento pensei em matar-me. Compreendi então que não estava condenado, que aquele impulso autodestrutivo não era hereditário. Foi maravilhoso. Um dos piores momentos da minha vida tornou-se um dos melhores momentos da minha vida.

Quando é que sentiu o impulso para ser escritor?
Acho que esse impulso existiu sempre. Ainda antes de saber escrever, já inventava histórias sobre esquilos que a minha mãe punha por escrito. Depois, passei a narrar todos os anos as histórias familiares sobre caça e pesca. A minha aspiração era ser escritor de aventuras.

Como foi a sua aprendizagem literária?
Ao princípio, quando comecei mais a sério, por volta dos 19 anos, não sabia lá muito bem o que era isso de escrever um conto. Escapavam-me as subtilezas do subtexto. Fazia tudo de forma demasiado direta, com gente a chorar e sangue logo na primeira página. Eram coisas impossíveis de ler. Deitei quase tudo para o lixo. A Ilha de Sukkwan surgiu ao fim de muitos anos deste trabalho de escrever e deitar fora. Foi durante uma viagem entre a Califórnia e o Havai, num barco à vela, 17 dias no mar alto, a matraquear um portátil preso com velcro aos meus joelhos. O texto saiu quase de um fôlego e muito próximo da versão final. Costuma dizer-se que a escrita é sobretudo revisão, mas eu discordo.

Porquê?
O excesso de revisão cria monstros dignos de Frankenstein, com as cicatrizes todas à mostra. Vê-se logo como é que as peças foram montadas. Na minha concepção de literatura, as várias partes devem encaixar-se como num sonho. O texto deve transmitir a sensação de que o escritor se sentou e escreveu tudo de uma só vez.

Após dez anos a escrever Legend of a Suicide, esperou mais 12 para vê-lo impresso. O que aconteceu?
O que aconteceu foi que durante esse tempo o livro nunca chegou aos editores. Os agentes, mesmo os que acreditavam em mim e no valor da obra, achavam que não teria hipóteses nenhumas por causa do tema tabu. O suicídio não vende. E por isso nem sequer enviavam o manuscrito.

Chegou a pensar que o seu futuro como escritor estava comprometido?
Não apenas o meu futuro como escritor, também a minha atividade docente. Sem livros publicados, não podia continuar a dar aulas. A minha carreira ficou num beco sem saída. Nunca liguei muito ao dinheiro, mas nessa altura comecei a ligar, até porque corria o risco de passar o resto da vida abaixo do limiar da pobreza.

Como é que saiu do impasse?
Tornei-me capitão e montei um negócio. Dava aulas de escrita criativa a bordo de veleiros. O problema é que deixei de ter tempo para a escrita. Durante cinco anos e meio, não escrevi quase nada. E arrependi-me. Decidi então publicar um livro de não-ficção, sobre como eu e a minha mulher construímos um barco e depois o perdemos numa tempestade nas Caraíbas, durante a nossa lua-de-mel. Perdemos o barco e com ele as alianças, os presentes de casamento, os passaportes, tudo o que tínhamos. Houve ainda problemas com a seguradora. Fui operado a um joelho. Enfim, tempos muito difíceis. Quando esse livro de não-ficção viu a luz do dia, em 2005, eu já tinha 38 anos.

Mas ainda não foi dessa vez que desencalhou o livro que verdadeiramente queria publicar.
Não. Esperei mais quatro anos. E então tive um golpe de sorte. Quando percebi que ninguém estava disposto a lutar pelo livro, enviei-o para um concurso literário. Se os elementos do júri não tivessem gostado, o livro morria de vez. Mas gostaram. E eu ganhei o prémio (Grace Paley Prize), o que me abriu as portas de uma pequena editora universitária. A tiragem da primeira edição, em 2008, foi mínima: 800 exemplares. Podia, mais uma vez, passar completamente despercebido. Só que de repente apareceu uma recensão de página inteira, muito positiva, no The New York Times. Foi outra vez sorte. Se o livro tivesse ido parar às mãos de um crítico menos generoso, talvez não acontecesse nada do que se seguiu. E o que se seguiu foi uma bola de neve. Uma editora maior interessou-se (a Harper), começaram a surgir traduções, prémios, escolhas para as listas dos melhores do ano, etc. Neste momento estou publicado em 16 línguas, por 22 editoras diferentes. É incrível. E pensar que houve um momento em que julguei que nunca iria ser publicado.

Há quem o compare a Cormac McCarthy.
E eu fico muito feliz com a comparação, porque adoro o Cormac McCarthy. É o meu escritor preferido. Mas também sei que não sou o Cormac McCarthy e que nunca conseguirei escrever um livro tão bom como Meridiano de Sangue (edição portuguesa da Relógio d’Água). Está muito para lá do meu alcance.

A paisagem hostil do Alasca é um dos elementos mais importantes da sua narrativa.
Sem dúvida. É uma paisagem literal que se expande até se tornar figurativa. A floresta, enquanto o pai a atravessa, consumido pela culpa, é uma espécie de página em branco que o inconsciente depois preenche. Acabo por descrever a vida interior das personagens de forma indireta, através das paisagens em que elas deambulam. E aquele Alasca que dou a ver é o da minha infância, corresponde às minhas memórias mais antigas.

Mas curiosamente escreveu o livro muito longe dali, no meio do oceano Pacífico.
Exacto. Se estivesse no Alasca, a olhar para a floresta, teria sido impossível. Não devemos escrever com o objecto da escrita em frente dos olhos. Eu dependo da falibilidade da memória. É importante que ela não seja precisa, que ela altere as coisas. O que é interessante na ficção é o modo como distorcemos a realidade objectiva. É quando nos afastamos dessa realidade objectiva que conseguimos chegar à verdade. E esse é um poder espantoso. Tenho a certeza de que a interação entre o rapaz e o pai em A Ilha de Sukkwan está mais próxima da relação que eu tinha com o meu pai do que quaisquer momentos que efectivamente vivemos.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Meridiano de culpa

A Ilha de Sukkwan
Autor: David Vann
Título original: Sukkwan Island
Tradução: José Lima
Editora: Ahab
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-97228-2-8
Ano de publicação: 2011

Jim, um dentista de Fairbanks, decide largar tudo para viver na natureza, longe dos «excessos da humanidade». Numa ilha remota do Alasca, a que só se chega de barco ou hidrovião, compra um terreno e respectiva cabana (a precisar de obras) e convida o filho para um ano inteiro de isolamento e reconciliação. Roy tem 13 anos. Está habituado ao sol e aos confortos da Califórnia, para onde se mudou em criança com a mãe e a irmã. A perspectiva de ficar com o pai numa ilha inóspita, meses a fio, não o entusiasma mas também não o angustia. Só que Jim começa, aos poucos, a dar mostras de perturbação. Em vez de se descontrair e trabalhar o relacionamento com Roy, vai-se fechando cada vez mais numa «carapaça» de desespero sem fissuras. Ele queria ser «um novo homem surgido das cinzas» (as cinzas dos dois casamentos que arruinou, dos falhanços profissionais, das dívidas ao fisco) mas não consegue. Por isso, chora à noite. E deixa o filho preocupado com a sua fraqueza psicológica, a falta de jeito para as questões práticas da sobrevivência, a obsessiva acumulação de mantimentos para o inverno.
Entre os dois há uma corda emocional, esticada até ao limite. Quando esta rebenta, é para o lado que menos se esperaria e o livro mergulha a pique num território de trevas (como num pesadelo). Quem sobrevive, não sobrevive: afunda-se na culpa, na dor, numa solidão irredimível. David Vann, ao acompanhar em apneia a trajectória dessa «queda», revela a têmpera dos grandes escritores.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges