Porque temos de ler DeLillo?

A Inês Fonseca Santos fez-me a pergunta há umas semanas, ao preparar um artigo para a revista Elle de Abril (pretexto: a edição de Ponto Ómega, pela Sextante), tal como fez a Eduardo Pitta e Pedro Mexia. Dei-lhe a seguinte resposta:

Temos de ler Don DeLillo em primeiro lugar porque é um grande, um enorme escritor, um narrador exímio que tanto domina as grandes massas orquestrais (veja-se o monumental Submundo) como a música de câmara (caso do novo Ponto Ómega). Ele é um mestre do diálogo e da carpintaria narrativa, capaz de se demorar páginas e páginas no relato de uma jogada de basebol ou na descrição de um sapato, mas também capaz de tocar no âmago mais doloroso das suas personagens.
É também imperioso ler DeLillo por causa do retrato panorâmico que nos oferece da América. Uma América sempre sob ameaça (as bombas soviéticas, os desastres industriais, o terrorismo) e devorada pela sua própria paranóia. Uma América que surge em estado bruto, gigantesca e paradoxal, em livros que umas vezes parecem espelhos imensos (talvez à escala 1:1) e outras vezes abismos de onde ninguém sai ileso, muito menos o leitor.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges