Trilogia maynardiana

Os três romances policiais escritos por Dinis Machado, aliás Dennis McShade, são apresentados esta tarde (18h30), na FNAC do Chiado, com a participação de José Xavier Ezequiel e Teresa Sá Couto.

Uma Beretta com silenciador

Mão Direita do Diabo
Autor: Dennis McShade
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-972-37-1283-4
Ano de publicação: 2008

A história é conhecida. Em 1966, à míngua de dinheiro para sustentar a família, Dinis Machado aceita escrever três romances policiais de empreitada para a editora Ibis, de Roussado Pinto. A «seis contos cada», despacha-os em menos de um ano, escondido atrás de um pseudónimo anglo-saxónico, como era da praxe. Ao republicá-los, a Assírio & Alvim começou logicamente pelo primeiro de todos, este Mão Direita do Diabo. Seguir-se-ão Requiem para D. Quixote, em Novembro; Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, na próxima Primavera; e Blackpot, um inédito, no final de 2009.
Bom conhecedor das artimanhas narrativas de Dashiel Hammett, Mickey Spillane e outros que tais, Dennis McShade imagina um enredo à prova de bala. No início, há um velho magnata que encomenda ao narrador quatro homicídios bem pagos, vingança para um crime com oito anos: o estupro da filha, tragédia que acabou por conduzi-la ao suicídio. Sem olhar para trás, Maynard executa a missão com o pundonor de um cavaleiro andante. Mais do que a promessa de oitenta mil dólares, o que o move é um inoxidável sentido de justiça. E os abusadores lá vão caindo, sob o chumbo da sua Beretta («delicada como um maître d’hotel e leve como uma pluma de arara»), pistola a que tem sempre a prudência de acoplar um silenciador.
Peter Maynard, já se percebeu, é um assassino profissional. Um duro, daqueles que nunca vergam, mas também um homem capaz de pensar mais com o cérebro do que com os punhos. Quando não está a interrogar patifes e prostitutas (com nomes patuscos: Max Bolero; Lilly Lilliput), vai ao teatro, ouve música erudita e recita poemas de Walt Whitman. Vagamente misógino, sempre a dizer «Pois» por tudo e por nada, é um melancólico que vai «arranhando» a solidão «até ela sangrar», vítima das insónias e de uma úlcera no estômago que o obriga a beber mais leite do que whisky. Os seus «monólogos maynardianos» (em itálico) dão-lhe a espessura psicológica que as outras personagens não têm.
O resto é carpintaria. Muitos diálogos e violência, muita pólvora e testosterona. A acção vai de Nova Iorque a San Francisco e de Chicago a Tijuana (México), mas as cidades são apenas um fundo, uma paisagem difusa, luzes e sombras de filme noir. Os códigos do género são todos cumpridos à risca, mas a cópia perfeita esconde um ardil. Tal como Dennis McShade americaniza Dinis Machado, Peter Maynard é um arremedo de Pierre Menard, aquela personagem de Borges que reinventa o Quixote ao repeti-lo palavra por palavra, porque se o seu texto é igualzinho ao de Cervantes – com Alonso Quijano, Sancho Pança e o resto – não o é o mundo em que foi escrito.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no número 73 da revista Ler]

Dinis Machado por Anabela Mota Ribeiro

«Dinis Machado foi feliz? Fala o próprio, pelo próprio, e não através de Molero: “Integrei na minha vida o absurdo que a vida a certa altura me pareceu que era. Pensei, quando estiver a envelhecer, tiver doenças, quando a vida se tornar insuportável, quando me chatearem muito, antecipo-me ao meu inimigo. Implica, de facto, uma hipótese de suicídio, nunca a recusei. Mas entretanto criei umas amarras, criei amarras de afecto muito fortes, (para mim são mais importantes as pessoas que amo que eu próprio), e encontro um certo sentido da vida.”
Molero procurava a sua “inocência perdida”, estava mesmo disposto a “dar um ano de ordenado por um momento da sua inocência”, inventa em epígrafe. E Dinis Machado tamborila os dedos na madeira, puxa uma fumaça, confunde-se com os seus personagens, regressa com eles a um lugar onde foi feliz.
(…) O que diz Dinis: “Quando fiz o Molero, a Marília [sua primeira mulher, entretanto falecida] foi a primeira que ouviu. Depois chamei os meus amigos lá a casa, os sete, e fiz a leitura do Molero. Ó pá, esses somos nós, mas como é que tu conseguiste fazer uma coisa tão nossa? Identificaram-se completamente.” Molero c’est moi, “tudo o que criamos é apenas o que somos”, escreve a páginas 20.
Era uma geração de quem, retrospectivamente, se pode dizer que viveu uma felicidade dourada. Inventava a alegria, a comicidade, como fuga e arma essencial para as situações trágicas que a vida nos traz. Uma malta que alugava livros na Barateira, como hoje se alugam dvd’s nos clubes de bairro. Que recitavam poemas uns aos outros no café. Gente de um tempo que deixou de existir. O livro é o testemunho, angustiado-existencialista, dessa geografia e de certa arquitectura que deixou de se praticar.
(…) Dinis Machado nasceu e viveu a vida toda em Lisboa. Nunca foi à América, mesmo que trate Raymond Chandler por tu, e ame Rita Hayworth, tão bela e tão perversa. Foi jornalista desportivo, dirigiu uma revista chamada Tintim que fez de meninos de uma geração amantes de banda desenhada. Na escola, gostava de Português.
(…) “Ainda preservo alguma inocência organizada através do intelecto. Uma inocência que já perdi e que quero recuperar, não sei como. Recuperando a pouco e pouco, nestas tentativas de ser sincero, de ser outra vez o melhor que fui. Um florescimento permanente, uma primavera que foge todos os dias. É estranho como envelhecendo, perdemos tudo.”»

[Excertos de um texto publicado por Anabela Mota Ribeiro no Jornal de Negócios, em Março de 2007]

Dinis Machado (1930-2008)

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O autor de O Que Diz Molero foi-se embora hoje, discreto, de mansinho, tão ao seu jeito. Havia nele um sentido lúdico e uma desfaçatez irónica que serviam apenas para disfarçar, quando disfarçavam, o poço de melancolia que havia lá por trás. Mesmo nos seus romances policiais escritos à pressa e à americana (com pseudónimo camone e tudo), livros alimentares mas nem por isso menos dignos, mesmo nesses sucedâneos de Dashiell Hammett, inventados por um jornalista faz-tudo que papou muitos films noirs nas matinés do Bairro Alto, havia essa espécie de sombra inclinada e abrupta. Podem encontrar um exemplo neste excerto de «monólogo maynardiano» (conversa do assassino profissional Peter Maynard consigo mesmo), quase no fim do reeditado Mão Direita do Diabo (Assírio & Alvim), que li há poucas semanas e sobre o qual escrevi para o número da revista Ler que deve estar quase a chegar às bancas:

«Não estás quieto, Maynard, tens um bichinho dentro de ti, ou então é a febre, a que tens no corpo, e todas as outras febres, as de descobrires coisas que não devias descobrir porque te fazem mal, porque afinal tu és pura e simplesmente o tal rapazinho que nunca deixaste de ser, trémulo perante as coisas, eternamente desabituado de olhar a verdade de frente, e agora já velho, de cidade para cidade, olhando as paisagens que encontras quando te voltas para dentro, os lugares mais desabitados do mundo atrás dos teus olhos fechados. Merda para isto, a febre há-de passar, e então tudo será mais simples, isso de te sentires desgraçado é muito menos profundo do que parece, de resto até acho que resolvo o assunto numa penada e nunca mais penso nisso. Que esperas tu das pessoas, Maynard? Olha para ti próprio e vê lá o que vês. Não olhes, rapaz, não penses nisso, assobia, olha para as pernas das garotas, limpa a arma e segue em frente.»

O velório de Dinis Machado está a decorrer esta noite, na Igreja da Encarnação (Chiado). O funeral sai amanhã à tarde para o cemitério do Alto de S. João, onde o corpo será cremado, pelas 19h00.

Fotografia: Augusto Cabrita

Bradbury versus Rilke

«Lavei os dentes e voltei para a cama. Li algumas páginas de Bradbury sobre marcianos. Meu bom Bradbury, companheiro das estrelas, filho de Deus esquecido na Terra, a que bolsos sem fundo vais buscar os teus tostões de poesia? Peguei a seguir num livro de poesias de Rilke, mas comecei a sentir as pálpebras pesadas. Não me iludi. Para mim, sentir as pálpebras pesadas não é a certeza de dormir. Muitas vezes, fico de olhos fechados, esperando que o sono venha, muito quieto, para que o sono me surpreenda. Continuei a ler Rilke como quem lê fórmulas de medicamentos ou um jornal às avessas. A certa altura, pressenti que o sono chegava. Lá vem ele, o velho e renitente amigo, o estupor.»

[in Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade, Assírio & Alvim, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges