Estados de suspensão

O anjo Esmeralda – Nove histórias
Autor: Don DeLillo
Título original: The Angel Esmeralda – Nine Stories
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-0-07172-9
Ano de publicação: 2012

Não deixa de ser sintomático que Don DeLillo só tenha publicado em 2011 a sua primeira recolha de contos, rigorosamente quatro décadas depois do seu primeiro romance (Americana, de 1971). Embora tenha escrito ao longo dos anos cerca de uma vintena de short stories (em revistas como a New Yorker, Granta ou Esquire), DeLillo não consegue despir o fato de romancista. Mesmo quando parte de observações microscópicas da realidade quotidiana, ou dos dilemas existenciais das personagens, a sua escrita tende para uma abrangência e desmesura que dificilmente encaixam nos limites da narrativa curta.
Um bom exemplo é o conto que dá título a este volume, no qual acompanhamos duas freiras que lidam diariamente com as misérias e despojos humanos de uma das zonas mais degradadas do Bronx, onde bandos de marginais pintam anjos nas paredes, simbolizando as crianças que morrem no bairro. Quando Esmeralda, uma rapariguinha arredia e quase selvagem, é violada e atirada de um telhado, não só surge o respectivo graffiti no sórdido mural como se inicia um culto espontâneo, e pagão, de pessoas que julgam ver o rosto da menina num painel publicitário, quando nele incidem as luzes dos comboios que passam. É uma história brutal, em que DeLillo não julga ninguém nem moraliza, antes mostra um cenário urbano apocalíptico, o lado negro da grandeza americana. Mas não poderia este fragmento fazer parte de um panorama maior? Claro que sim. Aliás, faz mesmo. Publicado inicialmente em 1994, O anjo Esmeralda veio a ser incorporado em Submundo (1997), romance gigantesco em que o tal panorama nos surge em todo o seu esplendor.
À excepção de Meia-noite em Dostoievski, um conto perfeito que só podia ser conto (é espantosa a sua acuidade descritiva, o modo como articula os vários ritmos da narração, a mestria dos diálogos e a força do desenlace), estas histórias aspiram a ser capítulos de histórias maiores. Uma constatação que em nada as diminui ou enfraquece, mas deixa no leitor a suspeita de que haveria talvez um antes e um depois, uma qualquer continuação necessária que o autor, por preguiça ou bravata, nos sonegou. Ao contrário de Tchekov ou Alice Munro, DeLillo não é um contista por natureza. A forma do conto fica-lhe como que apertada, há nos materiais que trabalha um desejo de expansão que acaba quase sempre por ser reprimido. O resultado é paradoxal: chegamos ao fim simultaneamente saciados e com fome para mais.
No primeiro conto, Criação, um casal tem dificuldade em abandonar uma ilha das Caraíbas. O caos no aeroporto leva a um kafkiano esquema de listas de espera e desmarcações sucessivas. Quando a mulher consegue finalmente embarcar, o marido fica para trás e aproveita os atrasos para se envolver com outra passageira, também em trânsito. O que os une é um estado de suspensão, uma bolha de incerteza no curso normal do tempo, ao qual se abandonam com mais desespero e melancolia do que exaltação amorosa. Esse estado de suspensão, sempre à beira de uma epifania que se escapa por entre os dedos, é comum a personagens de outros contos. Em Momentos calorosos na Terceira Guerra Mundial, dois soldados em órbita deixam-se comover pela beleza do planeta Terra, enquanto afinam as armas laser que podem destruir milhares de vidas num segundo. Em dois dos contos (Baader-Meinhof e A Faminta), a relação entre homem e mulher parte da experiência estética (observação de quadros numa galeria de arte e cinefilia compulsiva, respectivamente) para desaguar num frustrante e frustrado crescendo de tensão erótica.
Ainda outro tipo de suspensão é a que se vive num estabelecimento prisional para criminosos de colarinho branco (Foice e Martelo, publicado em 2010). Ali se juntam os autores morais da tragédia financeira e económica em curso. Um espectáculo a que os responsáveis assistem pela TV, como se estivessem fora da História. Que a verdade seja dita no ecrã por crianças, anunciando alegremente o colapso das ilusões capitalistas, é DeLillo puro. Ficamos à espera do romance em que esta história, mais tarde ou mais cedo, se haverá de incorporar.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Era uma hora de carro, a maior parte do trajeto a subir através de uma chuva impregnada de fumo. Eu mantive uma fresta da minha janela aberta, esperando sentir uma qualquer fragrância, um travo de arbustos aromáticos. O nosso motorista abrandava nos troços em que a estrada era pior e nas curvas mais apertadas e quando surgiam carros lançados ao nosso encontro através da bruma. A espaços, a vegetação da berma tornava-se menos densa, e avistávamos então extensões de selva pura, vales inteiros a derramar-se entre os montes.
Jill ia lendo o seu livro acerca dos Rockefellers. Assim que se embrenhava numa tarefa, tornava-se inacessível, dir-se-ia atordoada por uma poderosa descarga elétrica, e, ao longo de todo o percurso, vi-a erguer os olhos da página somente uma vez, para lançar uma olhadela fugaz a uns garotos a brincar num campo.»

[in O Anjo Esmeralda, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Sextante, 2012]

Primeiros parágrafos

«As insónias assaltavam-no agora com mais frequência, não uma ou duas vezes por semana, mas quatro, cinco vezes. Que é que ele fazia nessas ocasiões? Não dava longos passeios à luz da alvorada, que subia no céu como um texto num ecrã de computador. Não tinha nenhum amigo de quem gostasse o suficiente para incomodar com um telefonema. Que é que havia para dizer? Era uma questão de silêncio, não de palavras.
Tentou ler até lhe vir o sono, mas a leitura deixava-o ainda mais desperto. Lia livros de ciência e poesia. Gostava de poemas concisos dispostos minuciosamente no espaço branco, fiadas de marcas alfabéticas gravadas a ferro em brasa no papel. Os poemas tornavam-no consciente da sua própria respiração. Um poema desvendava a cada momento coisas em que, normalmente, não estava preparado para reparar. Eis o subtil cambiante de cada poema, pelo menos para ele, de noite, durante aquelas longas semanas, um fôlego atrás do outro, no quarto rotativo no alto do triplex.
Uma noite tentou dormir de pé na sua cela de meditação, mas não era versado que chegue, monge que chegue para consegui-lo, longe disso. Contornou o sono e fechou o círculo, alcançando o equilíbrio, uma calma sem luar em que cada força é contrabalançada por outra. Isto proporcionava-lhe o mais fugaz dos alívios, uma breve pausa no tropel das identidades irrequietas.
Não havia resposta à pergunta. Experimentou sedativos e hipnóticos mas criavam-lhe dependência, fazendo-o mergulhar dentro de si mesmo em espirais apertadas. Todos os actos por ele executados eram sintéticos e tinham a persegui-los o próprio reflexo. O pensamento mais apagado trazia consigo uma sombra ansiosa. Que fez ele? Não consultou um psicanalista sentado num cadeirão de couro. Freud já deu o que tinha a dar, Einstein quase. Naquela noite estava a ler a Teoria da Relatividade Restrita em inglês e alemão, mas por fim pousou o livro e ficou deitado, completamente imóvel, tentando mobilizar a energia suficiente para proferir a única palavra que desligaria as luzes. Nada existia à sua volta. Havia apenas o ruído dentro da sua cabeça, a mente no tempo.
Quando morresse, não acabaria. O mundo é que acabaria.»

[in Cosmópolis, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Relógio d’Água, 2012]

‘Cosmopolis’ com novo site oficial

Para saber tudo sobre o filme de David Cronenberg que adapta o romance Cosmopolis, de Don DeLillo, com estreia marcada para 31 de Maio, a página a seguir é esta.

Boa nova

Em Novembro, Don DeLillo vai lançar o seu primeiro livro de contos, The Angel Esmeralda, que reúne histórias publicadas entre 1979 e 2011.

Balada da Guerra Fria

submundo

Submundo
Autor: Don DeLillo
Título Original: Underworld
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 840
ISBN: 978-989-676-014-4
Ano de publicação: 2010

Na página 680 de Submundo, Albert Bronzini, uma das dezenas de personagens secundárias do assombroso romance de Don DeLillo, senta-se numa pastelaria a fazer tempo para um encontro. Enquanto espera, desdobra o jornal: «A primeira página deixou-o estupefacto, dominada por um par de manchetes a três colunas. À sua esquerda, os Giants conquistam a liga, vencendo os Dodgers graças a um home run dramático na nona entrada. E à direita, num emparelhamento simétrico, com o mesmo tipo de letra, caracteres do mesmo corpo, o mesmo número de linhas, a URSS faz explodir uma bomba atómica – cabuum – mas os pormenores permanecem em segredo.»

nyt_1951

Assim que DeLillo viu pela primeira vez esta capa do New York Times de 4 de Outubro de 1951, descoberta ao pesquisar microfilmes de edições antigas do jornal, soube o que tinha a fazer. A pontual alegria desportiva e a ameaça nuclear colocadas lado a lado, como gémeos siameses, como se fossem acontecimentos de igual magnitude e importância, deram-lhe um vislumbre labiríntico do «poder da História», essa energia do zeitgeist que se esconde às vezes nas mais inesperadas conexões, neste caso «uma simetria que parecia ter estado à espera de alguém que a descobrisse» (como o escritor sugeriu num texto publicado na revista de domingo do NYT, por alturas do lançamento de Underworld, em Setembro de 1997).
São estes os dois principais eixos narrativos que sustentam a complexa estrutura do romance. De um lado, a história da «tacada ouvida em todo o mundo», o improvável home run de Bobby Thomson que deu aos Giants uma vitória mítica. E do outro a Guerra Fria, essas décadas de incerteza e medo atávico que se inauguraram com o acesso dos soviéticos às armas nucleares. Há a trajectória da bola Spalding que se perdeu numa das bancadas do estádio, prosseguindo depois o seu caminho de mão em mão, entre coleccionadores, já transformada em emblema de uma inocência perdida. E há a imagem do clarão atómico numa estepe russa, seguida da nuvem em forma de cogumelo, ícone da aniquilação total a pairar sobre a espécie humana. Entre uma e outra, explorando a infinita flexibilidade do género romanesco, detendo-se tanto nas grandes escalas narrativas como nas minúcias do quotidiano, DeLillo empreendeu a síntese fulgurante do que foi a vida nos EUA na segunda metade do século XX.
Comecemos pelo basebol. O prólogo do livro é um morceau de bravoure com mais de cinquenta páginas que vale por si mesmo enquanto obra literária (foi de resto originalmente publicado como conto na Harper’s Magazine, em 1992, com o título Pafko at the Wall). O jogo entre os Giants e os Dodgers é narrado como se de uma epopeia se tratasse. Temos o ponto de vista de um rapazinho negro, Cotter Martin, que entra sem pagar bilhete e no fim se apropria da bola do home run, iniciando uma longa «sequência de proprietários» deste artefacto de memorabilia (figuras que iremos conhecendo ao longo do romance); ouvimos a um metro de distância o célebre relato radiofónico de Russ Hodges, que levou a euforia vivida no estádio Polo Grounds aos quatro cantos do mundo; e entramos no camarote partilhado por Frank Sinatra e J. Edgar Hoover, director do FBI. A dado momento, alguém lhe murmura a notícia de que a União Soviética acaba de fazer um ensaio nuclear em local secreto, mas Hoover continua a ver o jogo, pressentindo desde logo que aqueles milhares de rostos à sua volta, «cheios de franqueza e de esperança», estão na realidade já parados «no sulco da destruição».
Quando chega o momento da tacada decisiva de Thomson, DeLillo faz também, à sua maneira, um home run, ao descrever a chuva de papel que os adeptos lançam das bancadas superiores. Entre outras coisas, caem folhas de um exemplar da revista Life, quase todas páginas de publicidade que exaltam os reluzentes produtos da sociedade de consumo, café instantâneo, carros, ferros para fazer waffles, champôs, «símbolos venerados da economia pujante, mais fáceis de identificar do que os nomes das batalhas ou dos presidentes mortos». Uma das folhas fica presa no ombro de Hoover. Em vez de um anúncio, porém, o que o homem forte do FBI vê é uma reprodução do quadro O Triunfo da Morte, de Bruegel, com o seu desfile de aberrações e mortos sanguinários, esqueletos que regressam «para arrebatar os vivos». No meio da multidão em festa, Hoover antevê o espectro do terror futuro, um estado de ameaça permanente que, no seu caso, alimentará uma paranóia então ainda em estado embrionário, mas que depressa se tornará a grande religião americana: «Ele sabe apenas uma coisa, é que o génio da bomba reside não somente na sua física de partículas e raios, mas também no facto de gerar uma ocasião para novos segredos. Por cada explosão nuclear atmosférica, (…) ele calcula que uma centena de conluios comecem a desenvolver-se na sombra.» Alguns desses conluios são o combustível da máquina ficcional de Submundo, pelo que não me parece exagerado considerar que o prólogo funciona como metonímia do livro inteiro. De certa maneira, é dali que irradiam todos os fios narrativos e grandes temas que DeLillo depois explora em detalhe.
Quanto à história principal, vai sendo contada de trás para a frente. Começa em 1992, quando Nick Shay, o protagonista, trabalha para uma empresa de tratamento de resíduos, e depois vai avançando às arrecuas (passe o paradoxo), sempre mais para trás, década a década, até aos tempos da adolescência no Bronx e aos dois momentos determinantes que Nick vive aos 17 anos: ser amante fugaz de uma mulher casada e matar a tiro outro homem, em circunstâncias que permanecem misteriosas mesmo depois de reveladas. Mais para trás ainda fica o maior de todos os traumas: o desaparecimento do pai, Jimmy, corretor de apostas que um dia saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou. Nick acha que ele foi assassinado pela mafia. O irmão, Matt, um génio precoce no xadrez que se deixa vencer pelo conformismo, acha que ele simplesmente seguiu o seu caminho. Desde cedo, Nick e Matt olham para o mundo de forma muito diferente e essa diferença não se esbate com os anos, antes se acentua, à medida que o desencanto, o tédio e o alheamento vão tomando conta das suas vidas.
Nunca fugindo demasiado de Nick, um homem que chega à década de 90 psicologicamente à deriva e mortificado pela suspeita de que a mulher o engana com o melhor amigo, Submundo oferece-nos uma impressionante galeria de personagens secundárias memoráveis, entre as quais Klara Sax, que subiu a pulso no mundo da arte e pinta centenas de B-52 fora do activo, rodeados pelo deserto, como forma de assinalar o «fim de uma era», a da Guerra Fria, que era «grandeza, perigo, terror» mas «talvez mantivesse o mundo coeso»; uma freira que mergulha no mais fundo da miséria humana e se apega à hipótese de um milagre; o adepto nostálgico que instalou uma réplica do marcador gigante do Polo Grounds na sua cave; o Assassino das Estradas do Texas, com uma fixação por uma repórter da CNN; ou os colegas de trabalho de Matt, no local onde são concebidas as armas nucleares americanas, sob as colinas de gesso do deserto do Novo México, «ganzados gama» que «traziam consigo resquícios de uma incandescência dos anos sessenta, uma prontidão para se dedicarem compulsivamente a qualquer coisa».
Estas dezenas de personagens e respectivos sub-enredos intersectam-se sempre de forma subtil, como se houvesse uma trama que liga tudo a tudo. Exemplo: Nick acaba por adquirir a famosa bola (não para lembrar um feito glorioso mas para «comemorar o fracasso», já que era adepto dos Dodgers) e no fim do livro visita em trabalho o campo de testes nucleares, no Cazaquistão, onde deflagrou a bomba de 1951, fechando dessa forma, se assim se pode dizer, o círculo aberto pelas manchetes do New York Times lidas por Bronzini, professor de xadrez do seu irmão, Matt, e marido da referida amante de um só dia (Klara Sax, nem mais nem menos). Em pano de fundo, balizando as décadas, assistimos a momentos que fazem parte da memória colectiva norte-americana: o Sputnik brilhando nos céus como uma afronta, os hinos à abundância saídos das agências publicitárias de Madison Avenue (descritos numa sequência em que DeLillo parece fazer, dez anos avant la lettre, a sinopse de um episódio da série televisiva Mad Men), a crise dos mísseis em Cuba, a morte de Kennedy (via filme Zapruder), a guerra do Vietname, o grande apagão de 1965, o baile Preto e Branco organizado por Truman Capote no Hotel Plaza, etc.
Além de dominar a difícil arte do diálogo, DeLillo revela aqui todo o arsenal dos seus recursos de escritor, elevando a fasquia da qualidade literária até à estratosfera, tanto nas grandes cenas colectivas (veja-se o majestoso capítulo sobre a estreia de um filme perdido de Eisenstein no Radio City Music Hall) como na narração das pequenas tragédias domésticas. A natureza do trabalho com a linguagem, que recorre a um amplo espectro de registos (incluindo regionalismos e vários tipos de calão), torna ainda mais extraordinária a tradução de Paulo Faria, que para respeitar a escrita de DeLillo soube nalguns casos reinventá-la de modo a ser compreensível pelo leitor português (vale a pena cotejar, por exemplo, os monólogos de Lenny Bruce reinventados por Faria com os da edição original).

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]

Home run

«– Ora aí está uma tacada bem forte – diz Russ.
Há na sua voz um sobressalto, um acréscimo de esperança.
E diz:
– Vai ser agora.
Gera-se uma pausa à sua volta. Pafko corre pela faixa esquerda do campo, em direcção ao canto.
E Russ diz:
– Eu acredito.
Pafko está junto à parede. Depois ergue os olhos. As pessoas pensam onde estará a bola. O ínfimo compasso de espera, a paragem no tempo que dura um breve instante. E Cotter está de pé no sector 35, a ver a bola voar na sua direcção. Sente o próprio corpo a transformar-se em fumo. Perde a bola de vista quando esta sobe acima do rebordo do segundo anel, e parece-lhe que ela vai aterrar aí. Mas antes que possa sorrir ou gritar ou bater no braço do companheiro do lado. Antes que o momento o possa subjugar, a bola torna a
aparecer, com as costuras a rodopiar, bem visíveis, tal a proximidade a que se encontra, e faz ricochete com toda a força na esquina de um pilar – mãos a assomar por todo o lado.
Russ sente a multidão à sua volta, um frémito a percorrer as bancadas, e nesse momento dá por si a gritar para o microfone e há uma onda de cor e movimento, um estrondo que se projecta para o alto, em todo o estádio, mãos e rostos e camisas, faixas de homens ondulantes, e ele grita desalmadamente, sente na voz uma potência que julgava há muito perdida – é bem capaz de lhe fazer saltar o alto do crânio, qual foguete nos desenhos animados.
E diz:
– Os Giants vencem a liga.
Uma bola num arco baixo, cheia de efeito. Ele bateu o lançamento como se empunhasse um tomahawk e a bola saiu a rodopiar sobre si própria e foi cair no primeiro anel e lá está Pafko junto ao letreiro das 315 jardas, de olhos volvidos para o alto, com o braço direito apoiado na parede e uma torrente de papel a tombar.
E Russ diz:
– Os Giants vencem a liga.
Sim, a voz é excessiva, com uma vaga nota de histeria no registo mais agudo. Mas é principalmente blam e vuump. Vê Thomson a contornar a primeira base em saltos e cabriolas. O boné do adjunto da primeira base – este atirou o boné ao ar, direitinho ao céu. O lançamento vinha à altura do queixo e ele acertou-lhe em cheio. A bola saiu alta e depois mergulhou, falhou por pouco o parapeito do anel superior e foi cair no meio das cadeiras da parte de baixo – sugada, engolida –, e os jogadores dos Dodgers olham, estáticos, já desligados daquele acontecimento, a remirar fixamente as sombras entre as bancadas.
E Russ diz:
– Os Giants vencem a liga.
Os elementos da equipa de reportagem da rádio urram, ululam. Respondem aos que batem na cobertura, dando palmadas nas paredes e no tecto da cabina. Há gente a trepar para cima da cobertura dos bancos de suplentes e a multidão estremece, envolta no seu próprio ruído. Branca permanece no montículo, de cabeça baixa, ar atormentado. Lançou uma bola alta, veloz, em direcção ao corpo do batedor, uma bola que, em princípio, este nem tentaria devolver. Russ grita, libertando-se da garganta inflamada, libertando-se de todas as doenças e patologias e achaques e de todas as dores do crescimento e de todas as memórias angustiosas.
E diz:
– Os Giants vencem a liga.
Quatro vezes. Branca volta-se e pega no saco de resina e atira-o ao chão, depois dirige-se para os balneários, de ombros alinhados obliquamente – inicia a longa caminhada, penosa e inerte. Papéis a cair por todo o lado. Russ sabe que devia serenar e deixar que o microfone captasse o ruído do caos à sua volta. Mas não consegue parar de gritar, nada resta da sua pessoa para além dos gritos.
– Bobby Thomson bateu a bola para o primeiro anel das bancadas junto à faixa esquerda do campo – diz.
– Os Giants vencem a liga e estão completamente eufóricos – diz.
– Estão completamente eufóricos – diz.
E é então que lança um grito em estado puro, sem palavras, um urro dos tempos de outrora – é o zumbido das rabecas que irrompe, é música das montanhas numa rádio rural às cinco e meia da madrugada. O berro brota-lhe da garganta em tropel, uma manifestação de júbilo, talvez seja eiii-ooo ou então ena-pááá gritado às avessas, ou talvez seja outra coisa completamente diferente – é difícil perceber quando alguém não articula palavras. E os companheiros de equipa de Thomson reúnem-se na casa-mãe e Thomson percorre as bases num saltitar brincalhão, dando cabriolas como um veado – agora será para sempre Bobby, um rapazito eufórico que fugiu às garras do tempo, e sente a respiração tão ofegante que não sabe se vai conseguir suportar todo o ar que lhe jorra para dentro dos pulmões. Vê homens numa fileira desordenada que aguardam em volta da placa-mãe para o cobrir de palmadas e safanões – os seus companheiros de equipa, os tipos mais porreiros do mundo, e ostentam no rosto uma expressão bizarra, estão atordoados pela felicidade que lhes desabou sobre os ombros, de olhos cintilantes debaixo dos bonés.»

[in Submundo, de Don DeLillo, tradução de Paulo Faria, Sextante, 2010]

1951 World Series Giants Win Pennant

Lembremos o momento em que Bobby Thomson, batedor dos Giants, atingiu o cume da glória e se tornou uma lenda do basebol, ao conseguir uma tacada «ouvida em todo o mundo» (ponto de partida, décadas depois, para um gigantesco e admirável romance de Don DeLillo):

Basebol, lixo e bombas nucleares

Terminada a leitura de Submundo, confirmo a minha queda por romances de grande fôlego. E sim, depois do que se passou com o Bolaño, também me apetece chamar uns quantos nomes ao sr. DeLillo.

‘Cosmopolis’, de David Cronenberg, anunciado em Cannes

A revista Variety anunciou hoje, na edição diária que prepara durante o Festival de Cannes, a adaptação cinematográfica do romance Cosmopolis, de Don DeLillo, pelo realizador canadiano David Cronenberg. O filme, produzido por Paulo Branco, terá um orçamento global de 15 milhões de euros e será rodado a partir de Março de 2011, em Toronto e Nova Iorque. Para já, estão confirmados dois actores: Colin Farrell e Marion Cotillard. O restante elenco será conhecido em Outubro.
Antes de DeLillo, Cronenberg adaptou livros de outros escritores, como J. G. Ballard (Crash, 1996), William S. Burroughs (Naked Lunch, 1991), Patrick McGrath (Spider, 2002) ou Stephen King (The Dead Zone, 1983).

Em câmara muito lenta

Point Omega
Autor: Don DeLillo
Editora: Picador
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-0-330-51238-1
Ano de publicação: 2010

Enquanto lia este 16.º romance de Don DeLillo – com edição portuguesa prevista para o final de 2011 (na Sextante) – lembrei-me de Klara Sax, uma das muitas dezenas de personagens de Submundo. Quando a vemos pela primeira vez, a artista conceptual de 72 anos está a ser entrevistada, por uma equipa da televisão francesa, sobre um trabalho megalómano em curso: a pintura de 230 aviões B-52, uma esquadrilha desactivada que durante décadas transportou bombas nucleares, garantindo o equilíbrio de forças da Guerra Fria. Estamos em 1992 e Klara assinala, com tinta sobre metal, o «fim de uma era» de «assombro e temor».
Um ano mais velho, Richard Elster, o protagonista de Point Omega, fica do outro lado da barricada. Agora estamos em 2006 e ele passou o último biénio ao serviço da Administração Bush, conceptualizando o esforço militar no Iraque, para que os «metafísicos dos serviços secretos» e os «fantasistas do Pentágono» possam justificar o injustificável. Um dia, farto das realidades falsas inventadas nos gabinetes militares, retira-se para um deserto «a sul de nenhures». Ao contrário de Klara Sax, porém, ele não cria nada. Limita-se a pensar na «verdadeira vida» e a sentir a desaceleração do tempo, que ali se torna «cego» e «enorme», quase palpável. Ainda ao contrário de Klara Sax, ele não quer falar sobre as suas experiências; e por isso vai adiando a resposta ao pedido de Jim Finley, cineasta falhado que foi até àquele fim do mundo para o convencer a entrar num documentário em plano único, a preto-e-branco, só um rosto contra a parede lisa e uma voz a dizer o que mais ninguém diz: a «verdade» por detrás das mentiras da guerra.
Finley conta ficar dois ou três dias mas a estadia prolonga-se, o tempo para Elster tem agora uma «escala cósmica» que o inclina para reflecções sobre geologia e extinção, ou sobre o Ponto Ómega do filósofo jesuíta Teilhard de Chardin, esse estádio final da consciência humana depois do qual se atingiria um «paroxismo» ou uma «sublime transformação». Pelo meio, surge Jessie, filha de Richard, uma rapariga como que desfasada da realidade à sua volta. Quando ela desaparece, a história, até aí quase estática, precipita-se num arremedo de thriller que logo se desfaz, deixando apenas a sombra de uma culpa resignada. Se fosse só isto, Point Omega seria pouco – apesar da escrita, de uma exactidão e beleza arrebatadoras.
Felizmente, DeLillo dá-nos a chave para a leitura desta parábola austera, de uma secura quase beckettiana, no prólogo e epílogo da narrativa. Nestes dois segmentos, cronologicamente anteriores aos episódios no deserto, as três personagens principais (e uma quarta, anónima mas fundamental), visitam no MoMa uma videoinstalação de Douglas Gordon, que transforma Psycho, de Hitchcock, num filme de 24 horas. A hipnose provocada pelas imagens em câmara muito lenta, abstractas e desprovidas da sua lógica funcional, abre clareiras de sentido: «Quanto menos havia para ver, mais ele se esforçava para olhar, mais ele via.» É esse esforço de percepção que a prosa de DeLillo também exige aos seus leitores. E vale a pena: o que antes parecia obscuro e baço, de repente brilha.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O triunfo da morte

«Os mortos regressaram para arrebatar os vivos. Os mortos envoltos em lençóis brancos, os mortos arregimentados a cavalo, o esqueleto que toca sanfona.
Edgar [J. Hoover] está parado na coxia, a unir as duas páginas opostas da reprodução. Há pessoas a galgar cadeiras, a lançar gritos roucos na direcção do relvado. Ele permanece parado, com as duas páginas diante do rosto. Não se dera conta de que estava a ver somente metade do quadro até que a página esquerda desceu das alturas, a esvoaçar, e ele avistou de relance uma extensão castanha de terreno com tons de ferrugem e um par de figuras esqueléticas a puxar cordas de sinos. A página roçou no braço de uma mulher e, a rodopiar, veio colar-se ao peito devoto de Edgar.
Thomson está lá longe, no centro do campo, a esquivar-se aos adeptos que se acercam em corrida, aos saltos. Lançam-se em grandes saltos contra o seu corpo, querem atirá-lo ao chão, mostrar-lhe retratos das famílias.
Edgar lê a legenda na página que veio completar a tela. Trata-se de uma obra do século XVI, da autoria de um mestre flamengo, Pieter Bruegel, intitulada O triunfo da morte.
Um título audacioso, cá para mim. Mas ele sente-se intrigado, reconhece-o – a página da esquerda talvez seja ainda melhor do que a da direita.
Examina a carreta a abarrotar de caveiras. Ali parado na coxia, observa o homem nu perseguido por cães. Observa o cão famélico a mordiscar o bebé nos braços da morta. São podengos esguios, esqueléticos, famintos, são cães de guerra, cães infernais, cães do cemitério atormentados por ácaros parasitas, por tumores caninos e cancros caninos.
Edgar, o incrível Edgar, tão asséptico, o homem que instalou um sistema de filtragem de ar em sua casa para eliminar as partículas de pó – sente um fascínio por tecidos gangrenosos, por lesões e cadáveres apodrecidos,
desde que a sua relação com estes seja exclusivamente pictórica.
Descobre uma outra mulher morta, em segundo plano, montada por um esqueleto. A postura é sexual, indubitavelmente. Mas estará Edgar seguro de que se trata de uma mulher, ou poderá ser um homem? Continua parado na coxia, toda a gente à sua volta aplaude, e ele segura as páginas diante do rosto. Do quadro emana um sentimento de premência que o impressiona. Sim, os mortos lançam-se sobre os vivos. Mas começa a dar-se conta de que os vivos são pecadores. Os jogadores de cartas, os amantes que namoriscam, o rei com o seu manto de arminho e a fortuna entesourada dentro de barris. Os mortos vieram derramar as botijas de vinho, vieram servir um crânio numa bandeja aos fidalgos reunidos à refeição. Edgar vê gula, luxúria e avareza.
Adora aquela imagem. Edgar, Jedgar. Vá lá, confessa – adoras isto. Faz-lhe arrepios nos pêlos do corpo. Esqueletos com pilas fininhas. Os mortos a tocar timbales. O morto vestido de burel a cortar a garganta a um peregrino.
As cores sanguinolentas e os cadáveres apinhados, eis ali um catálogo das maneiras horrendas de morrer. Olha para o céu chamejante na funda lonjura, para além dos promontórios na página da esquerda – a Morte noutro lugar, o Fogo omnipresente, o Terror universal, os corvos, aves negras num planar silencioso, o corvo empoleirado na garupa da pileca branca, o mundo a preto e branco para sempre, e vem-lhe ao espírito uma torre solitária a erguer-se na Zona de Ensaios do Cazaquistão, a torre com a bomba montada no topo, e quase consegue ouvir o vento a soprar através das estepes da Ásia Central, lá longe, onde os inimigos vivem, agasalhados com longos casacões e gorros de pêlo, a falarem aquela sua língua vetusta e densa, litúrgica e solene. Que história secreta estarão eles a escrever? Há o segredo da bomba e há os segredos que a bomba inspira, coisas que nem mesmo o director do FBI consegue adivinhar – um homem cujo coração solitário alberga todos os segredos infectos do mundo ocidental –, pois estes conluios só agora se estão a desenvolver. Ele sabe apenas uma coisa, é que o génio da bomba reside não somente na sua física de partículas e raios, mas também no facto de gerar uma ocasião para novos segredos. Por cada explosão nuclear atmosférica, por cada lampejo que entrevemos da força da natureza posta a nu, aquele bizarro globo ocular esfolado a eclodir sobre o deserto – por cada um destes acontecimentos, ele calcula que uma centena de conluios comecem a desenvolver -se na sombra, gerando subconluios, tornando-se cada vez mais intrincados.
E qual é a ligação entre Nós e Eles, quantos elos emaranhados encontramos no labirinto neural? Não basta odiarmos o inimigo. Temos de perceber o modo como ele nos completa, e nós a ele, tão profundamente. Os velhos mortos a fornicar os novos. Os mortos a arrancar caixões das entranhas da terra. Os mortos na encosta a tocar os sinos decrépitos e toscos que dobram pelos pecados do mundo.
Ergue os olhos por breves momentos. Afasta as páginas do rosto – é um esforço hercúleo – e olha para as pessoas no relvado. Há gente feliz e aturdida. Há quem corra em volta das bases, berrando o resultado final. Há pessoas tão eufóricas que não vão pregar olho esta noite. Há os adeptos da equipa derrotada. Há os que provocam os derrotados. Há pais que se irão precipitar para casa, para contar aos filhos o que acabaram de ver. Há maridos que irão surpreender as mulheres com flores e bombons de ginja com cobertura de chocolate. Há os adeptos aglomerados na escada de acesso aos balneários, no extremo do estádio, a entoar cânticos com os nomes dos jogadores. Há adeptos que se envolvem em cenas de pugilato no metropolitano, ao regressar a suas casas. Há quem grite e há quem tenha perdido a tramontana. Há velhos amigos que se encontram por mero acaso junto à segunda base. Há todos os que irão incendiar a cidade com o seu júbilo.»

[in Submundo, de Don DeLillo, Sextante, 2010]

Um DeLillo peso-pluma

«The reviews of Don DeLillo’s last few novels put me in mind of the sports journalist who, after a certain Yankee game, wrote, “Babe Ruth was not able to make any home runs.” Critics of The Body Artist, Cosmopolis and especially Falling Man seem to want DeLillo to be the Babe Ruth of novelists, to keep writing Underworld and Libra, those long, magisterial books about big American events. Such people will probably not regard his new novel, Point Omega, which weighs in at not much more than 100 pages, as a literary home run.
Yet Point Omega is a splendid, fierce novel by a deep practitioner of the form. No nuclear explosions or life-changing home runs, as in Underworld, occur here; no assassinations of major political figures, as in Libra, are anatomized; no airborne toxic events, as in White Noise, fill the skies. Mostly there are just two people, and then a third, sitting and talking and drinking and thinking in a little house in the middle of a desert.»

Crítica ao novo romance de Don DeLillo (ler excerto aqui), por Matthew Sharpe, no Los Angeles Times.

This was desert

«The true life is not reducible to words spoken or written, not by anyone, ever. The true life takes place when we’re alone, thinking, feeling, lost in memory, dreamingly selfaware, the submicroscopic moments. He said this more than once, Elster did, in more than one way. His life happened, he said, when he sat staring at a blank wall, thinking about dinner.
An eight-hundred-page biography is nothing more than dead conjecture, he said.
I almost believed him when he said such things. He said we do this all the time, all of us, we become ourselves beneath the running thoughts and dim images, wondering idly when we’ll die. This is how we live and think whether we know it or not. These are the unsorted thoughts we have looking out the train window, small dull smears of meditative panic.
The sun was burning down. This is what he wanted, to feel the deep heat beating into his body, feel the body itself, reclaim the body from what he called the nausea of News and Traffic.
This was desert, out beyond cities and scattered towns. He was here to eat, sleep and sweat, here to do nothing, sit and think. There was the house and then nothing but distances, not vistas or sweeping sightlines but only distances. He was here, he said, to stop talking. There was no one to talk to but me. He did this sparingly at first and never at sunset. These were not glorious retirement sunsets of stocks and bonds. To Elster sunset was human invention, our perceptual arrangement of light and space into elements of wonder. We looked and wondered. There was a trembling in the air as the unnamed colors and landforms took on definition, a clarity of outline and extent. Maybe it was the age difference between us that made me think he felt something else at last light, a persistent disquiet, uninvented. This would explain the silence.»

[Início de Point Omega, de Don DeLillo, a lançar pela editora Scribner no próximo dia 2 de Fevereiro]

11 de Setembro de 2001

«Deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite. Ele caminhava para norte através do entulho e da lama e havia pessoas que o ultrapassavam a correr, com toalhas encostadas ao rosto ou casacos a cobrir a cabeça. Tapavam a boca com lenços de assoar. Traziam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão surgiu a correr e deixou-o para trás. Corriam e estatelavam-se, algumas, confusas e desajeitadas, com destroços a tombarem à sua volta, e havia pessoas a abrigarem-se debaixo dos automóveis.
O rugido permanecia no ar, o ronco distorcido da queda. Agora o mundo era assim. O fumo e a cinza rolavam pelas ruas fora e dobravam as esquinas, irrompiam brutalmente às esquinas, ondas sísmicas de fumo com folhas de papel timbrado a surgirem em lampejos, folhas de formato padronizado com bordos cortantes, a pairarem, arrastadas num sopro, coisas inimagináveis na cortina de fumo matinal.

Ele vestia fato e gravata e trazia uma pasta na mão. Tinha vidro no cabelo e no rosto, bolhas marmoreadas de sangue e luz. Deixou para trás um letreiro que dizia Menu Especial Pequeno-almoço e as pessoas passavam por ele a correr, polícias e seguranças a precipitarem-se pela rua fora, a apertarem o punho dos revólveres com a mão para manterem as armas encostadas ao corpo.
Era distante e silencioso, o interior das torres, onde ele deveria estar àquela hora. À sua volta é que tudo fervilhava, um carro meio sepultado nos destroços, de vidros estilhaçados e com ruídos a emergir, vozes radiofónicas a arranhar os escombros. Ele via pessoas a gotejar água enquanto corriam, roupas e corpos encharcados dos aspersores de combate a incêndios. Havia sapatos abandonados em plena rua, malas de senhora e computadores portáteis, um homem sentado na berma do passeio a tossir sangue. Copos de plástico saltitavam estranhamente de um lado para o outro.

O mundo era também isto, figuras humanas em janelas trezentos metros acima do chão, a lançarem-se no vazio, e o cheiro nauseabundo do combustível a arder, e o ar rasgado pelas sereias insistentes. O ruído estava em toda a parte para onde as pessoas corriam, o som estratificado a acumular-se em volta delas, e ele afastava-se e ao mesmo tempo mergulhava no seu seio.
De repente surgiu outra coisa, exterior a tudo aquilo, não pertencente àquela esfera, lá no alto. Viu-a descer. Uma camisa tombou da muralha altaneira de fumo, uma camisa que se elevou e pairou à luz escassa e depois tornou a cair, soçobrando em direcção ao rio.
As pessoas correram e depois estacaram, algumas, ali paradas, a vacilar, tentando recuperar o fôlego no ar ardente, com gritos entrecortados de incredulidade, pragas e urros perdidos, e os papéis que enchiam o ar, contratos, curricula vitae arrastados num instante fugaz, fragmentos intactos de transacções, céleres no vento.»

[in O Homem em Queda, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Sextante, 2007]

Todas as cinzas

O homem em queda
Autor: Don DeLillo
Título original: Falling Man
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 255
ISBN: 978-989-8093-39-4
Ano de publicação: 2007

Quando finalmente, mais de cinco anos após o embate dos aviões nas Torres Gémeas de Nova Iorque, Don DeLillo decidiu ficcionar a grande tragédia americana que inaugurou o século XXI, houve quem dissesse: “este era um livro inevitável”. Em alguns dos romances anteriores, DeLillo reflectira já sobre o alcance global do terrorismo e fizera alusões ao facto da gradiosidade do World Trade Center apelar à sua própria destruição. Daí ao adjectivo profético foi um passo, exagerado como todas as extrapolações, mas que tornou legítimo esperar-se dele o retrato definitivo do que aconteceu naquela terça-feira funesta.
Essa expectativa vai-se desfazendo à medida que avançamos na leitura de O homem em queda. E ainda bem. Embora enquadre o acontecimento na História com maiúscula, o autor de Underworld não pretende explicar o 11 de Setembro. O que lhe interessa é descrever a forma como aquele horror se infiltrou na vida das pessoas comuns, alterando radicalmente o sentido das suas existências. Se o romance abre e fecha à la DeLillo, com portentosas descrições sinfónicas do inferno nas torres, o resto é música de câmara. A narrativa avança através de uma acumulação de pequenas histórias, breves episódios que ajudam a situar as personagens no mapa nebuloso daqueles “dias do depois”, marcados por uma espécie de atordoamento colectivo.
No centro de tudo está um casal que tenta recomeçar literalmente das cinzas. Ao sair quase ileso da destruição, Keith bate à porta da ex-mulher, Lianne, coberto de caliça e vidros, trazendo apenas consigo a mala de outra sobrevivente, com quem virá a ter um caso que serve apenas para uma catarse mútua. O fulcro do romance é esta tentativa de reconstituição familiar, difícil porque Keith quer esquecer tudo (afundando-se no anonimato dos torneios de póquer) enquanto Lianne não quer esquecer nada (em parte devido ao pânico de contrair a doença de Alzheimer, que levou o pai ao suicídio).
À volta deles gravitam figuras que reflectem de outras maneiras a mesma luz. O filho, de binóculos apontados ao céu, à procura de mais aviões assassinos. Os idosos a quem Lianne ensina escrita criativa, reagindo à desgraça entre o fervor religioso e a abjuração de Deus. Ou o performer que salta preso a um arnês em sítios públicos, imitando a imagem de um homem que se lançou de cabeça para o abismo. Dispensável era a figura do terrorista, Hammad, membro da célula de Mohamed Atta, que surge no corpo do livro como um “estilhaço orgânico”, mas sem comprometer o ímpeto e a beleza triste deste magnífico romance.

falling man

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

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Frases interrompidas

Há quem goste dos diálogos de Don DeLillo e quem não goste (por serem “artificiais” ou porque as pessoas não falam assim). Eu gosto, justamente porque acho que as pessoas reais falam assim: com frases interrompidas, ideias que ficam a meio, solavancos, hesitações, linhas de raciocínio precárias e imperfeitas, sempre um pouco ao lado.

Estilhaços orgânicos

«Alguém lhe removeu do rosto os cacos de vidro. O homem falou sem parar durante toda a operação, usando um minúsculo instrumento a que chamou pinça de pontas triangulares para extrair os pequenos fragmentos de vidro que não tinham penetrado profundamente na pele. Disse que a maior parte dos casos mais graves estava em hospitais da baixa ou no hospital de campanha montado num cais. Disse que estavam a receber bem menos sobreviventes do que o esperado. Os médicos e os voluntários cruzavam os braços, sem nada para fazer, disse, porque grande parte das pessoas de quem eles estavam à espera tinham ficado lá longe, nas ruínas. Disse que ia usar uma pinça maior para os fragmentos mais profundos.
— Quando há atentados cometidos por bombistas suicidas. Se calhar o senhor não quer ouvir isto.
— Não sei.
— Nos lugares onde isso acontece, os sobreviventes, as pessoas ali próximas que ficam feridas, por vezes, passados meses, desenvolvem inchaços, à falta de um termo melhor, inchaços esses que são causados por pequenos fragmentos, pedacinhos minúsculos do corpo do bombista suicida. O bombista fica literalmente feito em pedaços, e fragmentos da carne e dos ossos são projectados em todas as direcções com tal força e velocidade que ficam encravados, presos no corpo de qualquer pessoa que se encontre no seu raio de alcance. Custa a crer, não acha? Uma estudante está sentada num café. Sobrevive ao ataque. Depois, meses mais tarde, os médicos encontram estes bagozinhos de carne, como se fosse chumbo fino, grãozinhos de carne humana que mergulharam na pele. Chama-se a isto estilhaços orgânicos.»

[in O homem em queda, de Don DeLillo, tradução de Paulo Faria, Sextante, 2007]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges