Geração 0 (de zero, niente, neribi)

O escritor Douglas Coupland gosta muito de dar palpites sobre o zeitgeist, essa bela palavra alemã que devíamos utilizar pelo menos uma vez por ano. Já o fez antes e voltará a fazê-lo sempre que mudarmos de década, altura igualmente propícia, diga-se, para o uso da tal palavra alemã tão catita. Vai daí, por estarmos no redondo 2010, o autor de Geração X decidiu escrever um artigo intitulado A radical pessimist’s guide to the next 10 years. Se quiserem ficar deprimidos logo pela manhã, o texto não deixará de vos dar um empurrãozinho. Eis algumas das ideias fortes de Coupland para a próxima década:

– «As coisas vão piorar ainda mais»
– «A classe média acabou e não voltará»
– «Comam salada enquanto podem»
– «Garantam que haverá sempre alguém para vos mudar a fralda»
– «A noção do tempo vai continuar a encolher. Os anos parecerão horas»
– «Sentiremos mais saudades dos anos 90 do que alguma vez supusemos»
– «O mundo será governado por pessoas estúpidas, apenas substituídas por pessoas ainda mais estúpidas»
– «A nossa vida de sonho ficará cada vez mais parecida com o Google Street View»
– «Teremos de aceitar o facto óbvio de que a culpa de tudo isto foi nossa»

E agora, para desanuviar, falemos do Orçamento de Estado português para 2011. Não é assim tão mau, pois não?

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A 4 de Janeiro de 1991, nos tempos áureos de O Independente, Miguel Esteves Cardoso assinou uma daquelas crónicas que só ele tinha coragem, lata, génio, discernimento ou falta de vergonha na cara para fazer. O texto intitulava-se 1991. Calendário da Depressão (lembro-me bem dos pormenores porque a vi recentemente emoldurada numa casa particular) e começava assim: «um de janeiro. depois, dois de janeiro. depois, três de janeiro. depois, quatro de janeiro. depois, cinco de janeiro. depois, seis de janeiro. depois, sete de janeiro.»; etc. Um etc. que ia até ao final de Dezembro: «depois, vinte e oito de dezembro. depois, vinte e nove de dezembro. depois, trinta de dezembro. depois, trinta e um de dezembro.» Lembrei-me dessa crónica ao folhear, ontem à tarde, o último romance de Douglas Coupland editado em Portugal: jPod (Teorema), uma «versão de Inforscravos para a geração Google», escrita de forma a replicar as experiências de leitura na Web 2.0. Imperam por isso as brincadeiras gráficas: listas para todos os gostos, caracteres chineses ampliados, variações sobre a linguagem das mensagens de spam, etc. Às tantas, a meio da história, passada numa empresa de videojogos, alguém se lembra de enviar aos colegas os cem mil primeiros dígitos do número pi: 3,141592653589793238462643383279502884197169, etc. Um etc. que se estende por mais de 20 páginas, logo seguido por outra série de algarismos, desta vez gerados aleatoriamente, que ocupam outras 21 páginas.
Enfim, tudo isto pode parecer gratuito ou uma mera provocação pós-moderna, mas prefiro os desaforos do MEC e de Coupland às páginas cheias de trabalhosa e trabalhada palha com que muitos esforçados cronistas e romancistas nos contemplam.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges