Anatomia do exílio

O Museu da Rendição Incondicional
Autora: Dubravka Ugrešić
Título original: Musej Bezuvjetne Predaje
Tradução: Sofia Castro Rodrigues
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-623-152-1
Ano de publicação: 2011

No início da década de 90, quando a Croácia declarou a independência (precipitando o fim da Jugoslávia), Dubravka Ugrešić ensinava literatura russa na Universidade de Zagreb e era já uma escritora reconhecida. O seu estatuto, porém, de nada lhe valeu quando se opôs de forma clara ao nacionalismo fanático do novo presidente Tudjman, que levou à expulsão das minorias sérvias e à guerra na Bósnia. De um momento para o outro, caiu em desgraça. A imprensa lançava ataques impiedosos, acusando-a de ser «traidora», «bruxa» e coisas piores. «Em apenas um ano, perdera a minha casa, os meus amigos, o meu emprego.» Sem possibilidade, mas também sem desejo, de «regressar em breve», muda-se para Berlim em 1993. «Aos quarenta e cinco anos, dei por mim no mundo com um saco que continha os artigos de primeira necessidade, como se o mundo fosse um abrigo anti-aéreo». Mais tarde Ugrešić viveria nos EUA e na Holanda, mas O Museu da Rendição Incondicional (publicado originalmente em 1998) reflecte a experiência dos primeiros anos berlinenses, logo a seguir à queda do Muro, quando ainda se fazia ouvir, pelas ruas, «o doloroso ruído de uma era desaparecida».
O tema central do livro é o exílio, esse território mental onde deambula quem foi arrancado à «pátria perdida» e se vê condenado a procurar «alguma coisa» que não sabe exactamente o que seja: «(…) os carimbos no nosso passaporte acumulam-se e a certa altura transformam-se em linhas ilegíveis. Depois, começam subitamente a traçar um mapa interior, o mapa do irreal, do imaginário. E é apenas nesse momento que elas exprimem com exactidão a incomensurável experiência do exílio.» Para Ugrešić, esta experiência teve qualquer coisa de «pesadelo», mas também de «neurose». Há nela, implícita, uma «arte da paranóia». De repente, «aparecem rostos que havíamos esquecido, que provavelmente nunca conhecemos, mas parece-nos que os conhecemos desde sempre, lugares que estamos certamente a ver pela primeira vez, mas parece-nos que sempre lá estivemos…»
A cabeça da narradora funciona como uma vertiginosa «mesa de edição», cruzando as suas próprias histórias e vivências quotidianas com as de outros exilados: amigos, artistas, desconhecidos (de quem traça biografias «fortuitas») ou escritores – Joseph Brodsky, Vladimir Nabokov, Viktor Shklovsky, Miroslav Krleza – cujas citações vão surgindo amiúde, numa espécie de diálogo com a tradição literária. Ugrešić aborda o exílio a partir de dentro, mostra-nos as suas arestas e zonas de sombra, mas nunca pretende explicar nada, antes testemunha o desencanto e o cansaço de quem ficou à mercê do turbilhão da História: «Não compreendo o significado de tudo isto, sinto-me deslocada, sou um espécime humano exausto, um seixo, fui atirada pelo acaso para uma costa diferente».
Logo no início do livro, deparamos com a enumeração do conteúdo estomacal de uma morsa do jardim zoológico de Berlim, exposto num mostruário de vidro quando o animal morreu, em Agosto de 1961. Das entranhas do bicho foram retirados paus de gelado, correntes de aço, uma caixa de fósforos, um saquinho de plástico com agulhas e linha, uma lata de cerveja, um isqueiro, etc. (a enumeração é longa). Como sugere a autora, dificilmente se resiste ao «pensamento poético» de que com o tempo aqueles objectos acabariam por revelar algumas ligações «mais subtis» entre si, tal como «o exilado começa a decifrar sinais, cruzes e nós» em tudo, intuindo «uma secreta harmonia, uma lógica redonda de símbolos». Esta lógica, explica Ugrešić, é a mesma que atravessa o seu livro, também ele composto por materiais heteróclitos que vão ganhando nexos insuspeitos, à medida que avançamos na leitura.
Certamente não por acaso, evoca-se Rilke, segundo o qual «a história de uma vida estilhaçada só podia ser contada em pequenos fragmentos». Nas sete partes em que dividiu a complexa estrutura do romance, Ugrešić pulveriza a narrativa, intercalando memórias pessoais com breves ensaios, cartas e diários com ficções autónomas, tudo sabiamente interligado com a determinação daquela amiga que gostava de «passar fios entre as coisas». Outro amigo, artista plástico, «exprime amor entre materiais incompatíveis, casa coisas inconectáveis, (…) desenha um emaranhado de metal duro sob um tapete persa macio». Sem esconder uma pontinha de inveja, a autora diz-lhe: «Gostava de ser capaz de fazer isso.» Um exemplo de falsa modéstia, porque «isso» é precisamente o que ela faz com palavras e ideias.
Se quisermos uma imagem que sirva de chave para O Museu da Rendição Incondicional, o estômago caótico de Roland, a morsa, será a mais óbvia. Mas há outras. Berlim, por exemplo. A «cidade-mutante» em que vários tempos se sobrepõem, com as suas feiras da ladra onde «uniformes sobreviventes, de donos há muito mortos, com insígnias diversas, (…) roçam uns nos outros e o seus únicos inimigos são as traças». Ou o álbum de fotografias, conceito amplamente teorizado por Ugrešić, para quem as fotografias representam «a nossa medida do mundo». Porque elas organizam e fixam a memória individual e colectiva, são o elo que nos prende a um passado sempre em risco de se perder na pura aniquilação do esquecimento. «A vida não passa de um álbum de fotografias. Só o que está no álbum existe. O que não está no álbum, nunca aconteceu.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«No jardim zoológico de Berlim, ao lado da piscina que contém a morsa viva, há uma exposição invulgar. Num mostruário de vidro estão todas as coisas encontradas no estômago de Roland, a Morsa, que morreu a 21 de Agosto de 1961. Ou, mais precisamente:

um isqueiro cor-de-rosa, quatro paus de gelados (de madeira), um broche de metal em forma de poodle, um abre-garrafas, uma pulseira de senhora (de prata, provavelmente), um gancho de cabelo, um lápis de madeira, uma pistola de água de plástico de criança, uma faca de plástico, óculos de sol, uma pequena corrente, uma mola (pequena), um anel de borracha, um pára-quedas (brinquedo infantil), uma corrente de aço com cerca de 46 cm de comprimento, quatro pregos (grandes), um carro de plástico verde, um pente de metal, um distintivo de plástico, uma bonequinha, uma lata de cerveja (Pilsener, 2,84 decilitros), uma caixa de fósforos, um sapato de bebé, uma bússola, uma pequena chave de carro, quatro moedas, uma faca com cabo de madeira, uma chucha, um molho de chaves (5), um cadeado, um saquinho de plástico com agulhas e linha.

O visitante fica de pé, diante da exposição invulgar, mais encantado do que horrorizado, como se estivesse perante achados arqueológicos. O visitante sabe que a sua sorte como exposição-de-museu foi determinada pelo acaso (o caprichoso apetite de Roland) mas ainda assim não consegue resistir ao pensamento poético de que com o tempo os objectos adquiriram algumas ligações secretas, mais subtis. Arrebatado por este pensamento, o visitante tenta então estabelecer coordenadas semânticas, reconstruir o contexto histórico (ocorre-lhe, por exemplo, que Roland morreu uma semana após a construção do Muro de Berlim), e por aí adiante.
Os capítulos e fragmentos que se seguem devem ser lidos de forma semelhante. Se o leitor sentir que não existem ligações significativas ou firmes entre eles, seja paciente: as ligações estabelecer-se-ão por si próprias de acordo com a sua vontade. E mais uma coisa: a questão de saber se este romance é autobiográfico poderia, a certa altura hipotética, dizer respeito à polícia, mas não ao leitor.»

[in O Museu da Rendição Incondicional, de Dubravka Ugrešić, tradução de Sofia Castro Rodrigues, Cavalo de Ferro, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges