Do sítio das palavras

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Tudo são histórias de amor
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-989-671-198-6
Ano de publicação: 2014

No novo livro de contos de Dulce Maria Cardoso – Tudo são histórias de amor: título enganoso e de uma ironia amarga, como o leitor rapidamente perceberá – os textos são quase sempre construídos a partir de um núcleo central ocupado por uma imagem muito poderosa, cuja carga dramática, ou poética (ou ambas), se expande depois ao resto da prosa, contaminando-a; isto é, iluminando-a. Pode ser a aparição de uma beleza angélica num «além-mundo azul», a ilha do primeiro conto, com a população de faroleiros e suas famílias a devorarem a cesta de cerejas trazida pela forasteira («O sumo vermelho escorria-lhes pelos queixos e pelas mãos»), prenúncio de uma carnalidade que destruirá a inocência do narrador, inclinando-o de vez para o exercício do mal. Pode ser um cão habituado a roubar nacos de carne ao talhante e que um dia aparece em casa com a perna de um bebé, uma «perna rechonchuda que terminava num pé gordo com cinco dedos perfeitos». Pode ser uma mosca a debater-se dentro de um copo com resto de vinho rosé, durante uma tépida disputa conjugal.
Duas destas imagens fortes são protagonizadas por automóveis. Em Os anjos por dentro, a história de tensões familiares contidas, na sequência de um piquenique junto ao rio, desemboca numa situação fantástica quando o narrador, acompanhado pelo irmão e pela mãe, avança por um atalho, a subir, e depara com um Opel Kapitan em sentido contrário, «animado por vontade própria», sem ninguém ao volante, pronto a esmagá-los. De repente, o carro parou, «simplesmente», impossivelmente, «como se se tivesse esquecido de como as coisas são». Esta espécie de milagre torna-se um tabu («Nunca falámos sobre o que aconteceu naquele dia ao voltarmos do rio»), mas a sua força reverbera e dá sentido à «violência do amor» que pressentimos, subterrânea, por baixo do que é dito. «Talvez não tenha acontecido tudo exactamente como contei», admite ainda assim o narrador.
E alguma vez contamos as coisas exactamente como aconteceram? Veja-se a narrativa inspirada no célebre caso do desaparecimento de Joana, a menina algarvia de oito anos cuja mãe foi condenada por homicídio. Há elementos que nos aproximam do hediondo crime (alguns factos, a brutalidade dos interrogatórios policiais, a confissão, os impulsos da justiça popular), mas Dulce Maria Cardoso logo introduz uma dimensão quase onírica que anula qualquer tentação realista, justamente através da imagem de um automóvel, um Volkswagen carocha amarelo, brinquedo preferido da menina. Esta, antes de desaparecer sem deixar rasto, escondera-o debaixo de terra como se fosse «uma boa semente», da qual virá a nascer, no arrepiante final do conto, um «carocha amarelo verdadeiro». Em Não esquecerás, o ponto de partida é outra história real: a do acidente de Entre-os-Rios, quando um dos pilares da Ponte Hintze Ribeiro ruiu, arrastando dezenas de pessoas para as águas do Douro. «Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada», diz-se logo de início, e assim somos levados debaixo de chuva até ao autocarro que parou ali adiante, resgatando quem procura escapar da intempérie. Lá dentro, alegres por terem visto as amendoeiras em flor, estão as futuras vítimas. Pessoas normais, gestos normais, vidas normais. A tragédia está aqui, nesta normalidade ameaçada, a poucos minutos de mergulhar no abismo da morte. Transformados em personagens sem nome, os passageiros são como que redimidos do destino que a negligência do Estado lhes teceu. E aqueles cabelos de rapariga, «suspensos no ar quando a cabeça se volta», pairarão assim para sempre na memória do leitor que, como a história, não chega a atravessar a ponte.
Num texto autobiográfico, em que conta como «matou» uma parte de si mesma para poder ser ficcionista, Dulce Maria Cardoso afirma: «Escrever é espreitar outras vidas. É contar mentiras e acreditar que isso é bom.» Neste livro, as vidas espreitadas estão muitas vezes sujeitas ao império da maldade, própria ou alheia, essa «planta carnuda» que lança «ramos vigorosos para todo o lado». Num dos contos mais negros, Humal, um ser monstruoso só comove os aldeões com a beleza do seu canto quando é sujeito a torturas físicas: «Para que as criaturas fornecessem o bem de que eram capazes era preciso infligir-lhes sofrimento. Mas isso sempre foi um trabalho simples: há sofrimento em abundância neste mundo de Deus e consegui-lo é das coisas mais fáceis.» São vários os contos do livro (por exemplo, Este azul que nos cerca ou Iguais) em que esta brutalidade visceral se manifesta. Entregues ao «martírio de pensar» e incapazes de «domar o tempo», as personagens são como pequenos animais indefesos, à mercê tanto da «solidão do que envelhece» como da «impiedade do que é novo». Acima deles, a autora monta as armadilhas e observa com rigor clínico. Quanto à escrita, exemplar, é sempre feita a partir do «local do crime». Isto é, «do sítio das palavras».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Dulce, condecorada

Dulce Maria Cardoso vai ser Cavaleira da Ordem das Artes e Letras, em França.

Literatura ‘retornada’ na Bertrand do Chiado


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O pretexto para a conversa de Anabela Mota Ribeiro com Dulce Maria Cardoso e Isabela Figueiredo são dois livros excelentes: Caderno de Memórias Coloniais (Angelus Novus, 2009) e O Retorno (Tinta da China, 2011). A sessão é só de hoje a uma semana, mas anotai já nas agendas.

Balada dos desterrados

O Retorno
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-671-098-9
Ano de publicação: 2011

Até agora, quase 40 anos após o processo da descolonização, ainda não aparecera um grande romance português capaz de contar, como merece ser contada (isto é, sem enviesamentos ideológicos ou saudosismos serôdios), a história do difícil regresso de meio milhão de pessoas à metrópole, nos tempos mais conturbados da década de 70. O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), é esse romance.
A autora não defende nem condena os «desterrados», antes ilumina o que acontece a uma família em dois momentos muito concretos: aquele em que já se perdeu tudo (saída de Angola) e aquele em que ainda não se tem nada (os primeiros meses de impasse, num hotel do Estoril, à espera de refazer a vida). O que se passou antes e depois é como se não existisse, está fora de campo. Dulce Maria Cardoso evita explicar o passado ou antever o futuro das suas personagens. O que lhe interessa é apenas aquele estranho purgatório em que caíram, o limbo entre existências diametralmente opostas.
Para reforçar este efeito de transitoriedade, quem conta a história é o mais novo da família, um adolescente que se encontra, também ele, entre dois mundos: a infância e a vida adulta. Com uma voz narrativa ainda à procura do tom certo, fugidia e por vezes caótica («não consigo mandar naquilo em que penso»), Rui absorve um turbilhão de acontecimentos, mas mostra-se muitas vezes incapaz de lidar com tanta realidade. Ele já tem barba (embora não justifique ida ao barbeiro), já fuma às escondidas, já aprendeu a guiar, já experimentou o sexo com raparigas negras, mas falta-lhe estofo emocional. Quando o pai é preso à sua frente, confundido com um branco assassino, desmaia – e nunca se perdoará por essa cobardia. A experiência na metrópole acaba por ser também a crónica do seu crescimento, da sua autonomia, embora ele nunca abandone uma certa candura que dá consistência e verosimilhança ao relato.
O primeiro capítulo é exemplar na forma como materializa a perda total de quem se vê obrigado a fugir de uma terra que considerava sua. A mãe de Rui, psicologicamente instável, cercada de demónios íntimos que os comprimidos não conseguem afastar, prepara as poucas malas para o voo da noite, enquanto o pai, frustrado por não se ter rendido às evidências em devido tempo, vai arrancando com uma faca as dálias bordadas na toalha do almoço. Ele quer queimar tudo, a casa e os camiões que explora, para que os «pretos» não se fiquem a rir. E há um silêncio que paira sobre todas as coisas (a guerra, a doença da mãe, a consciência de que «Angola acabou»), o silêncio que Rui encontra nos quintais vazios das redondezas, com «pneus quietos nas árvores como se fossem olhos parados no ar a fazerem-nos perguntas».
A chegada à metrópole, «acanhada e suja», de ruas estreitas «onde parece que nem cabemos», representa um choque: «era como se estivéssemos a entrar no mapa que estava pendurado na sala de aula». Com quartos a abarrotar de gente – restos humanos do «império cansado, (…) derrotado e humilhado», sempre a evocar idílios coloniais e a maldizer os políticos «traidores» –, a atmosfera do hotel torna-se irrespirável. A espera «faz com que os dias pareçam emperrados uns nos outros» e dificulta a integração na sociedade, na escola, no quotidiano de um país a meio de um processo revolucionário.
Há muitas coisas que Rui ignora. Sobre a passagem do pai pela prisão, sobre os demónios da mãe, sobre o amor. Na véspera do tão aguardado reinício, porém, os seus horizontes abrem-se como a paisagem que avista do terraço do hotel. E Dulce Maria Cardoso fecha o romance como o começou: demonstrando uma precisão narrativa e uma clareza de estilo absolutamente admiráveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Já li e recomendo

O Retorno, livro que marca a transferência de Dulce Maria Cardoso da ASA para a Tinta da China. Um excelente romance sobre o regresso de uma família à «metrópole» em 1975, deixando para trás uma Angola quase independente e as sombras do fim do império. Nas livrarias a 7 de Outubro.

A máquina da tragédia

O Chão dos Pardais
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: ASA
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-989-23-0654-4
Ano de publicação: 2009

No princípio há uma mulher gasta, vazia, a quem «nunca acontece nada», mas que se esmera para encontrar o presente perfeito para a festa do sexagésimo aniversário do marido. Ela, Alice, aprendeu com Afonso, logo no primeiro encontro, a «arte do silêncio» que lhes garantiu 35 anos de casamento inabalável, uma harmonia feita de tédio e resignação. A ele, porém, acontecem-lhe coisas. Poderoso executivo, habitado pelo pânico de envelhecer (esfalfa-se no ginásio até ao limite), dorme com raparigas muito mais novas em hóteis de cinco estrelas, no estrangeiro. Há depois os filhos: Manuel, cirurgião plástico em risco de ser condenado por negligência, envolvendo-se emocionalmente com uma mulher que só conhece das salas de chat; e Clara, tradutora frustrada, fantasiando uma paixão erótica por Elisaveta, empregada doméstica da mãe, uma resistente que fugiu à fome e ao frio de Viltz – imaginária cidade de Leste, perdida na neve e na miséria.
As personagens centrais, e as outras que gravitam em torno destas, revelam uma previsibilidade próxima do estereótipo. E isto acontece porque Dulce Maria Cardoso, mais do que pelos dramas e contingências existenciais de cada uma delas, interessa-se pelo quadro geral, pelas interacções num campo de forças em que o amor e o ódio se anulam. O seu microcosmos é observado de longe, de fora (como a festa em que o nó narrativo se ata), porque apenas à distância pode a autora entrever, na máxima amplitude, o cenário e a configuração das ignomínias («todos cometemos actos torpes») a que se entregam as suas criaturas e dos falhanços, individuais ou colectivos, que os atingem. Falhanços que a «máquina da tragédia», posta em andamento pela mais básica das emoções (o ciúme), vem iluminar em toda a sua crueza numa cena antológica.
De certo modo, este é um livro sobre a desistência. Sobre quem desiste de matar e quem desiste de viver. Sobre a impossibilidade de conhecer o que há de verdadeiro numa existência biografável (porque o ser humano é radicalmente opaco) e sobre a dificuldade dos corpos lidarem uns com os outros. Desacertos que este belo romance fixa com melancolia e exactidão: «O ódio precisa de ser alimentado e o silêncio é uma maneira bastante eficaz de o fazer. Caso enfraqueça, o ódio transforma-se numa mágoa que contrai um bocadinho o estômago ou amarga um bocadinho a boca. Nada mais. Ao contrário do ódio, a mágoa é muito desinteressante. Há tanto para dizer sobre as mágoas como há a dizer sobre os sapatos que apertam demasiado. Nem uns nem outros matam e nem uns nem outros dão vontade de matar.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 86 da revista Ler]

Dulce Maria Cardoso vence Prémio da União Europeia para a Literatura (Portugal)

O prémio, lançado este ano, distingue «um jovem talento de cada um dos países participantes» (em 2009, foram 12: Áustria, Croácia, França, Hungria, Irlanda, Itália, Lituânia, Noruega, Polónia, Portugal, Eslováquia, Suécia). Dulce Maria Cardoso foi escolhida pelo romance Os Meus Sentimentos (ASA) e receberá cinco mil euros numa cerimónia oficial em Bruxelas, a 28 de Setembro. Do júri português fizeram parte Fernando Guedes (presidente), Henrique Mota, José Manuel Mendes, Margarida Dias Pinheiro e Maria Carlos Loureiro.
Mais informações aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges