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Cinco poemas de Eduardo Pitta

A tua ausência
a encher-se de dunas.

Aquele bater de vidraças
na orla da praia.

O silêncio a insistir
a recusar-se ao rumor.

E a vida a fluir,
lá fora.

***

Duramente aprendemos.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.

***

Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.

Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.

Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.

A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.

Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.

***

A noite toda a selva
dissolvendo-se em sândalo
e esquecimento.

Casas, degraus a prumo, águas
despedaçadas. Equilíbrio precário
num fio de luz.

Sob uma lâmina de mica
um veneno espera por nós
em Trieste.

***

Toda a noite a luz multiplicou
o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

[Desobediência – Poemas Escolhidos, Dom Quixote, 2011]

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (3)

Eduardo Pitta

Eduardo Pitta:

«Não propriamente férias, porque um escritor nunca está em férias, mas este Verão tem sido mais calmo que os últimos meses, período em que se acumularam mil compromissos, entre eles a edição das obras completas de António Botto (os dois primeiros volumes tinham que chegar às livrarias até ao fim da Primavera), e a adaptação, para crianças, de um clássico do Eça, O Crime do Padre Amaro, que vai ser posto à venda, juntamente com o Sol, no próximo sábado, dia 23.
Agora, o tempo mais solto permite voltar ao Shakespeare de Harold Bloom, o tipo de obra que não se lê de enfiada.

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O título diz tudo: afinal, A Invenção do Humano é de nós todos que fala.

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Outro em que se pode pegar ao sabor dos humores é Foucault. Dits et écrits (um compacto dos textos que o autor publicou entre 1954 e 1975) permite essa leitura desordenada.

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Com mais disciplina, porque esteve parado quase um ano, desde que o trouxe de Roma, L’eroe negato, de Francesco Gnerre, sobre o tema sempre esquivo da homossexualidade, neste caso reportada à literatura italiana de Novecentos.

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Outro que cabe no laissez-faire é Octavio Paz. Delta de Cinco Brazos lê-se com agrado, mas não explica a vela que o mexicano tem acesa em Meca desde o primeiro verso.

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Por último mas não em último, a fabulosa P. D. James, de novo às voltas com o inspector-poeta Adam Dalgliesh. Crimes e Desejos era dos poucos em que ainda não tinha metido o dente.»

‘Para além da Mágoa’

Eduardo Pitta, ele próprio um escritor com fortes marcas da experiência colonial na sua obra, descreve em tom pessoalíssimo o que se passou no colóquio que decorreu hoje na Casa Fernando Pessoa.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges