IC-19

Há muitas coisas no mundo que não compreendo. Mas o que me atormenta mesmo, palavra de honra, é não entender por que carga de água existem engarrafamentos. É um mistério inexplicável, um enigma. As filas de automóveis formam-se, crescem, esticam-se por quilómetros e quilómetros, mas quando uma pessoa chega ao sítio onde era suposto haver um estrangulamento, um desastre, qualquer coisa de grave, verifica com espanto que não há nada de anormal e que o trânsito até flui com facilidade.
Confesso que este fenómeno não só me deixa perplexo como profundamente irritado. Já que um homem esperou não sei quanto tempo fechado num carro, com os nervos em franja e a paciência a ferver, ao menos que fosse por uma razão forte, um acidente com vários automóveis amachucados, com pessoas feridas na berma e muitas ambulâncias e bombeiros e macas, uma coisa em grande, digna de ser mostrada no telejornal das oito. Mas quase nunca há razão forte nenhuma. Na melhor das hipóteses, estão dois homens de gravata a discutir por causa de um farolim partido. Ou então é uma senhora que deixou o carro ir abaixo e não consegue pô-lo a funcionar por causa dos nervos e das buzinadelas. São sempre coisas destas, coisas menores. Nunca nada que justifique tantas horas com o pé na embraiagem, tantas horas num pára-arranca que nos mói o juízo.
No outro dia, lá no emprego, o Antunes tentou explicar-me o mistério. O Antunes é um tipo assim para o esquisito. Tem perto de dois metros de altura, quase outro tanto de lado e raramente toma banho. Há quem lhe chame o urso, mais pelo cheiro do que pela envergadura. Além disso, é gago, passa a vida nos corredores a meter conversa e tem a mania de que é muito inteligente. A meio da manhã, quando saí para beber café, estava ele a falar com o Fernandes sobre o El Niño e a dinâmica imprevisível dos furacões. Quando voltei, a vítima era a Micaela, encostada à parede a ouvir histórias sobre um tal Mandelbrot, matemático ou coisa parecida, um tipo de certeza ainda mais esquisito do que o Antunes. Ele a dar-lhe com o Mandelbrot e a Micaela, coitada, a perguntar: «Mandelquê?» «Man-Man-Mandelbrot», exclamou o Antunes. Com a minha aproximação, a Micaela pôs-se a milhas, enquanto o urso me pregava uma violenta palmada nas costas e dizia «nem de pro-pro-propósito». Era mesmo comigo que queria falar, garantiu-me, porque já descobrira a solução para a minha dúvida existencial. Referia-se, é claro, à história dos engarrafamentos, que eu mencionara uns dias antes, nem sei bem porquê. Segundo ele, o tal Mandelbrot tinha a ver com uma coisa chamada fractais e com uma outra coisa chamada teoria do caos. «Num sistema, pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar grandes alterações nas condições finais», disse o Antunes, orgulhoso da sua sabedoria. E eu a esbugalhar os olhos, a dizer «troca lá isso por miúdos». E ele a especificar que «basta um carro abrandar o ritmo, uma coisa de nada, para que esse abrandamento se propague e amplie na sucessão de carros que vêm atrás, provocando um abrandamento generalizado que vai ao ponto de criar uma paragem do fluxo automóvel; ou seja, o engarrafamento».
O Antunes é um sabichão mas não me consola. Porque a verdade é que estou parado no IC-19, com milhares de automóveis à minha frente e meia-hora para chegar ao emprego. Saber se a culpa foi de um acidente ou de um abrandamento generalizado é igual ao litro. O que interessa são os factos e os factos dizem-me que estou preso dentro do meu próprio carro, com o motor em ponto morto e a pequena árvore desodorizante a baloiçar, a baloiçar, a baloiçar, pendurada no espelho retrovisor. Estou preso eu e estão presos milhares de outros como eu, que também picam o ponto às nove, que também ganham uma miséria, que também vivem em apartamentos no Cacém e em Queluz, apartamentos T1 com manchas de humidade nas paredes e vista para outros prédios, outros como eu que também pegam no carro todos os dias a pensar «isto não é vida», outros como eu que também desconheciam a origem misteriosa dos engarrafamentos e talvez ainda desconheçam, porque apesar de tudo gajos como o Antunes contam-se pelos dedos.
Olho para o relógio digital do meu Opel Corsa e percebo que vou chegar atrasado, mais uma vez. O relógio pisca 08:40, 08:40, 08:40, como antes o despertador piscou 07:30, 07:30, 07:30. É uma violência, acordar com o som estridente do buzzer e aqueles algarismos vermelhos a dizerem-me que não posso fechar outra vez os olhos, que tenho de saltar da cama, atravessar a cozinha descalço, acender o esquentador, enfrentar um rosto em ruínas no espelho da casa de banho, espalhar o creme da barba, fazer um slalom gigante com a lâmina de barbear, ter cuidado para não deixar pêlos no lavatório (caso contrário a Irene aproveitará logo para vir com os seus remoques), entrar para o duche rápido, sair do duche, vestir roupa lavada, acordar a Irene, engolir à pressa um prato de corn flakes, pentear o cabelo com um nadinha de gel, ajeitar o nó da gravata no espelho do hall de entrada, descer no elevador com a vizinha do sexto direito que trabalha num escritório das Amoreiras, beber um café na pastelaria da esquina e chegar ao carro convicto de que hoje vai ser diferente, de que hoje não haverá trânsito nenhum, embora saiba que no IC-19 já está a ser montado o inferno do costume.
O inferno, sim senhor, o inferno. Sem labaredas e sem demónios, mas inferno. Aliás, o castigo que nos reserva o outro mundo, a nós pecadores, deve ser isto: um engarrafamento infinito, eterno. O relógio agora pisca 08:50, 08:50, 08:50 e ainda estamos a uns quilómetros de Lisboa. O inferno, sim senhor. E por falar nisso espreito os outros condenados, os meus companheiros de infortúnio. No automóvel em frente, um homem de meia-idade, careca, estendeu o jornal desportivo sobre o volante e lê as últimas sobre o seu clube. No carro ao lado, um casal de trombas. Estiveram de certeza a discutir quem teve mais culpa no atraso, agora estão calados, ele a sintonizar o rádio e a esfregar os olhos, ela a fazer crochet, talvez uma camisolinha para o neto que há-de nascer daqui a uns meses. Atrás de mim, um yuppie de óculos espelhados a gritar, furioso, para um telemóvel.
Passam dez minutos. Na fila ao lado, o casal de trombas avança. O carro que vem logo atrás apita. É o Antunes. Apita, gesticula, baixa o vidro. Eu também baixo o vidro e olho para o relógio: 09:04, 09:04, 09:05. Ele grita: «Nunca mais lá chega-ga-gamos». Pois não, digo eu. «É uma cha-cha-chatice», torna ele. Pois é, respondo. E lá vamos nós, lado a lado, sorrindo um para o outro de vez em quando, encolhendo os ombros e abanando a cabeça, resignados aos abrandamentos generalizados que nos paralisam a vida, enquanto o tal Mandelbrot deve estar neste momento a fazer contas num quadro de ardósia, algures num instituto que fica, aposto, a cinco minutos a pé de sua casa.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, 2008]

‘Efeito Borboleta’ no Brasil

O meu livro Efeito Borboleta e outras histórias vai ser publicado no Brasil, em Julho, pela editora ARdoTEmpo, do escritor e artista plástico Alfredo Aquino, gaúcho de Porto Alegre (Rio Grande do Sul).
Em primeiríssima mão, revelo-vos a capa, fotografada por Mário Castello:

efeitoborboleta_Brasil

Divulgação científica

Num post muito divertido, o livreiro Jaime Bulhosa diz ter encontrado, «numa livraria de renome», o meu livro Efeito Borboleta e outras histórias na secção de divulgação científica. Para ser sincero, este é um erro que me honra, sobretudo na qualidade de licenciado em Biologia que nunca chegou a fazer nada na área em que se formou. Mas imagino a perplexidade de quem levasse, ao engano, um suposto tratado sobre sistemas complexos e teoria do caos. Aposto que as minhas micronarrativas provocariam, num eventual comprador desprevenido, uma macrodecepção.

Sábado à tarde

’38 miniaturas’ em árabe (2)

A tradução para árabe da secção final de micronarrativas do livro Efeito Borboleta e outras histórias, publicada no suplemento literário do jornal marroquino Almonataf pelo prof. Saïd Benabdelouahed, chegou-me esta semana pelo correio.

’38 miniaturas’ em árabe

As 38 miniaturas que fecham o livro Efeito Borboleta e outras histórias foram hoje publicadas no suplemento literário de um jornal marroquino (o Almonataf, de Rabat). A tradução para a língua árabe foi feita por Saïd Benabdelouahed, professor de Língua e Literatura Hispânicas na Faculdade de Letras da Universidade Hassan II Ain Chok (Casablanca), que tem publicado na imprensa do seu país traduções de poemas e contos de Sophia de Mello Breyner Andresen e Miguel Torga.
Como é evidente, agradeço ao professor Benabdelouahed esta inesperada divulgação das minhas micronarrativas.

Bibliotecário de Babel na Antena 2

Esta tarde, a partir das 16h00, vai para o ar na Antena 2 (frequência 94.4, em Lisboa) uma entrevista que dei ao Luís Caetano, inserida no programa A Força das Coisas. Além de livros em geral, e do Efeito Borboleta… em particular, a conversa aborda o primeiro ano de actividade deste blogue e a importância da blogosfera na divulgação crítica do que se vai publicando em Portugal.
Logo a abrir, o Luís pediu-me para ler uma das histórias mais curtas do meu livro. Esta:

PARAÍSO PERDIDO

Após vários meses de triagem (os candidatos foram mais de 20.000), a produção de Paraíso Perdido escolheu por fim os dois únicos participantes – um homem (A) e uma mulher (E) – do mais aguardado programa televisivo dos últimos anos. Transportados de helicóptero, com uma venda nos olhos, A e E foram deixados numa floresta virgem, algures no interior de uma ilha do Pacífico, exactamente como vieram ao mundo: nus, frágeis e desprotegidos. Um número não especificado de câmaras e microfones, montados nos sítios mais improváveis (raízes, lianas, quedas de água, formigueiros), captam, 24 horas por dia, o mínimo gesto ou sussurro do agora célebre par. A saga começou há uma semana mas as audiências têm sido decepcionantes. A e E quase não falam e pouca gente acredita que o amor possa nascer assim, de geração espontânea, no meio da selva. Ontem, os responsáveis pelo programa tomaram a medida que se impunha. Numa conferência de imprensa, anunciaram que a serpente (uma píton com sete metros de comprimento) já está a caminho.

Foi assim

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Uma mesa, dois livros, três microfones, quatro pessoas: Marcelo Teixeira (Oficina do Livro), Ana Sá Lopes, eu, Pedro Mexia.

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No fim, com proverbial lentidão e caligrafia de escola primária, assinei 23 livros em 35 minutos. A anos-luz, portanto, de Salman “Pepe Rápido” Rushdie.

Foi bonita a festa, pá (2)

O auditório encheu-se de rostos esperados e outros inesperados (mais bloggers do que no primeiro lançamento, amigos que não via há muitos anos e até uma antiga colega do curso de Biologia que me envergonhou: “não sabes a que espécie pertence a borboleta da capa? tsss, tsss, tsss, olha que é das mais vulgares”). Antes disso, já o lepidóptero batera asas por todo o lado, do estômago da Ana Sá Lopes (que se confessou aterrorizada por ter de falar em público, mas depois se saiu muito bem numa exposição breve e, também ela, sem “tralha”) ao vestido verde da minha filha, guardado há várias semanas para a ocasião. Depois de “ouvir os senhores” atentamente (“e sem fazer barulho, pai!”), a Alice confessou-me ter gostado de tudo, mas em particular das “tuas histórias” na voz do Pedro Mexia, que além das coisas todas que faz (crítica literária, poesia, blogue, cinemateca) pode agora candidatar-se ao emergente mercado da leitura para audiolivros.
No fim da sessão, as borboletas da capa voltaram para o escaparate normal, provocando no caminho sabe-se lá que maravilhas e desastres no outro lado do mundo.

Segundo round

Logo à tarde, pelas 18h30, acontecerá na Fnac do Chiado, em Lisboa, a segunda apresentação do livro Efeito Borboleta e outras histórias, feita pela jornalista Ana Sá Lopes. A leitura de textos estará a cargo de Pedro Mexia.

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Apareçam.

Prova Oral

Logo à tarde, a partir das 19h00, respondo na Antena 3 às perguntas do Fernando Alvim e da Cátia Simão. A ver se não chumbo.

Efeito Borboleta (o conto), translated

Uma das surpresas que tínhamos previsto para o encontro na Livraria Pó dos Livros, entre mim e o Bruce Holland Rogers, era a leitura mútua de histórias. Eu leria um conto do seu livro Pequenos Mistérios (inclinava-me para este, mas O Rei Duende talvez impressionasse mais a assistência), enquanto o Bruce dar-me-ia a honra de dizer em voz alta o primeiro texto do livro Efeito Borboleta, traduzido à velocidade da luz (e com diálogos em tempo real via GTalk) pelo Luís Rodrigues.
À laia de magro consolo, aqui deixo essa versão em inglês:

The Butterfly Effect
José Mário Silva

The man stands in front of the mirror. It’s September outside, and the wind carries leaves, detritus and dust away with it, the wind shakes the branches of trees, pushes black clouds threatening rain, the wind sweeps everything away outside, and the man watches his face closely, as if he had never seen those three horizontal creases on his forehead, the mole by his lower lip, the pale gray bags under his eyes or the wisp of white hair that overhangs his temple.
The man is very still. He looks in the mirror and thinks of all he has to do that afternoon. Mow the lawn, move the firewood into the cellar, prune the rosebushes, pen a few letters, play chess with the Colonel, translate a few lines from Horace, take a sip of warm rum, listen to some of Froberger’s pieces for harpsichord, read Baudelaire aloud to an assembly of cats, fasten the attic windows against the wind.
The man imagines himself carrying out these tasks. Each movement of the afternoon, individualized. Pushing the lawnmower, flexing his knees and bending down to pick up the wood, squeezing his right hand around the pruning shears. He mentally performs every one of these actions as if he were able to isolate them from his own body.
The man does not move. He thinks back on the article he read half an hour ago. Downstairs, while sitting in his armchair, with a cat on his lap and a cup of tea in his hand. Appearing in a science magazine, the article outlines a theory which — broadly — states the following: minute variations in the initial condition of a system may produce greater variations in its outcome. The author gives this phenomenon a name, the butterfly effect, and provides a suggestive image: a butterfly flapping its wings somewhere in the Amazon Rainforest may cause a tornado over in Texas. This idea upsets him. Worse yet, this idea brings about a kind of paralysis in him.
The man is puzzled. He considers many possible applications of the butterfly effect. A Romanian police officer kicks down a door in Bucharest and causes an earthquake in Greenland; a woman kisses her lover and hastens her husband’s heart attack; palms struck by a ruler in a Cairo school cause heavy rain to fall in Auckland; one of his cats kills a fly and a plane crashes in Patagonia.
The man is in agony. In his mind, reality takes on the form of an immense web where everything is connected, where everything depends on everything else. He is the center of this web. And invisible strings will not allow him to move.
The man gives up. He is still because he is afraid any sudden move will wreck a ship. He is afraid every cut rose will raze a city. Standing motionless in front of the mirror, he will hardly breathe now, convinced that his moving body will eventually destroy the world.

Uma pena

Regresso a casa, abro o GMail e deparo logo com a má notícia: por motivos de força maior, o escritor Bruce Holland Rogers teve que cancelar a sua vinda a Portugal. Logo agora que eu me preparava para defender a honra dos lepidópteros face à biologicamente comprovada superioridade dos passariformes:

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Espero que o encontro de quarta-feira não tenha sido cancelado de vez mas apenas, como diria o Rogers, postponed.

Segunda oportunidade

No próximo dia 24, quinta-feira, pelas 18h30, na FNAC do Chiado, acontecerá outra apresentação pública do livro Efeito Borboleta e outras histórias. Desta vez, Ana Sá Lopes falará sobre a obra e Pedro Mexia lerá alguns dos contos.

Foi bonita a festa, pá

Sala cheia, um texto lido pelo António Mega Ferreira que me deixou sem palavras, algumas histórias primorosamente interpretadas (interpretadas é o termo) pelo Tiago Rodrigues, muitos amigos, galinhas a cacarejar nas traseiras da Casa Fernando Pessoa, a mão direita habituando-se à azáfama dos autógrafos, um calor desmedido a entrar pelas janelas abertas (ainda assim menor do que o calor de dentro, a que se costuma acrescentar o adjectivo humano).
Eu, que esperava muito, não esperava tanto.
Obrigado.

Apareçam

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É às 18h30, na Casa Fernando Pessoa. Além de António Mega Ferreira, confirma-se a presença de um convidado de última hora: o meu amigo Tiago Rodrigues (actor e encenador), que lerá alguns dos contos.

Não sei qual dos dois escreve este post

O jornalista cultural José Mário Silva influenciou o autor José Mário Silva, isto é, escreveu alguma frase a pensar que iria agradar à crítica?
Não. É verdade que os dois habitam o mesmo corpo, mas mal se conhecem. E ainda bem, porque o primeiro seria naturalmente implacável com o segundo. Aliás, o segundo só escreve quando o primeiro está a olhar para outro lado.

[Pergunta e resposta retiradas da entrevista que dei ontem aos Blogtailors]

Passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2) – uma antologia

De João Sousa André:

«Uma prostituta checa tem pela primeira vez na vida um orgasmo no seu quarto na rua Zengrova, em Brno, o qual causa a erupção de um vulcão no campo de coca de um narco-traficante colombiano de Medellín.»

«No dia 28 de Junho de 1914, um domingo, o condutor do automóvel onde seguia o príncipe Francisco Fernando notou que se tinha enganado no caminho para o hospital de Sarajevo. Ao recuar para corrigir o erro, passou em frente do café Moritz Schiller, de onde saía Gavrilo Princip com uma sanduíche na mão. Esta marcha-atrás levou a que, quase 31 anos mais tarde, a 30 de Abril de 1945, uma segunda-feira, Mikhail Petrovich Minin entrasse no Reichstag, em Berlim, para erguer a bandeira soviética.»

De Jorge Vaz Nande:

«MOSCARDOS
Um padre desliga a box da TV Cabo, detonando uma bomba num jogo de futebol.
Mãe, toca o orvalho no quintal só mais uma manhã, faz desaparecer o cocó de cão das ruas da minha cidade.
Eu aprendo a dizer “name-dropping” e, ups, duzentos operários fabris no desemprego!
O músico diz “não foi para isto que se fez o 25 de Abril” – o cocó de cão reaparece.

ABELHAS
Se Santana abre uma torneira, Durão derrama uma lágrima.
Eu toco uma campainha em Portugal e assim mato Kim Jong-il.
Tony Hoagland pensa em Frank O’Hara, escreve, de uma assentada, três poemas, e o mundo ganha uma hora de sono.
Uma baleia engole um pescador indonésio 33 minutos depois de um primo distante (do homem, não da baleia) se imolar pelo fogo numa aldeia palestiniana.

MOSCAS
A actriz olhou só mais uma vez para a Broadway, mas não deixou de haver tempestade no falso deserto de sal dos Andes.
Um homem chamado Joseph Grand decidiu imitar o seu homónimo do livro de Camus e pensa na frase que reescreverá no resto da vida porque, num cinema abandonado de Bombaim, um rapaz e uma rapariga beijam-se e choram ao mesmo tempo.
O padre liga novamente a box da Tv Cabo, impedindo que algo de interessante aconteça até 2011.
Em 2011, o mundo acaba, mas outro na fila logo lhe toma a vez.»

De Marta Barreto:

«Uma árvore é arrancada na floresta da Amazónia e uma criança morre de asma em Xangai; ninguém chega a tempo de evitar que o leite transborde de um fervedor em Mafra e na Nova Zelândia milhares de vacas tentam o suicídio colectivo; enquanto na Rússia se treina o lançamento do dardo, nos Pirinéus pequenas avalanches vão-se sucedendo; um beijo é roubado no Equador e um menino de 2,200kg nasce em Jacarta.»

De Gaspar Matos:

«Augusta atira um livro à água e na Ásia um duende vê mais um Western; o recibo de vencimento espreitou do envelope, e uma ucraniana riu-se na Ajuda; o tsunami no Índico lavou o Grupo Coral da Brandoa; ela fechou o frigorífico mas não evitou a constipação dos galegos de Ourense; esse columbófilo chorou, e todos os coelhos de Stanford perderam o pêlo; eles beberam Frangelico, e um abade mesquinho faleceu em Trento; o vento recuou em Marrazes, e um pedopsiquiatra cortou um salpicão em fatias transparentes.»

De O Salgador da Pátria:

«Enquanto o Papa Bento XVI redige uma encíclica em Roma, dentro dos seus sapatos Prada, morrem milhares de crianças de fome em todo o mundo.
José Sócrates, primeiro-ministro português, puxou de um cigarro num avião enquanto sobrevoava o Atlântico e encheu os jornais portugueses de fumo no dia seguinte.
Os Irlandeses votaram “não” num referendo e provocaram um terramoto em Bruxelas e Estrasburgo.
A Mars Phoenix mostrou gelo no planeta Marte e milhares de pessoas continuam a ir à missa, à mesquita e à sinagoga no planeta Terra.»

Resultados do passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2)

Fechadas as inscrições (às zero horas desta quarta-feira) e lidos os trabalhos concorrentes, o júri do BdB (composto por me, myself and I) decidiu premiar os seguintes leitores:

  • João Sousa André
  • Jorge Vaz Nande
  • Marta Barreto
  • Gaspar Matos
  • O Salgador da Pátria

Cada um deles ganhará um exemplar de Efeito Borboleta e outras histórias, oferecido pela Oficina do Livro.

Agradecimento

Por isto. E por isto. E por isto.

Passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2)

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Para ilustrar um dos conceitos centrais da teoria do Caos, segundo o qual “ínfimas diferenças nas condições iniciais de um dado sistema não linear podem provocar grandes diferenças nas condições finais”, o matemático e meteorologista Edward Lorenz deu a uma conferência, proferida em 1972 na American Association for the Advancement of Science, um título que se tornou lendário: Predictability: Does the Flap of a Butterfly’s Wings in Brazil Set Off a Tornado in Texas? Esta sugestão de que o bater das asas de uma borboleta num canto do mundo pode provocar catástrofes naturais nos seus antípodas, através de um intrincado novelo de causas e consequências, instalou-se solidamente no imaginário colectivo, transformando-se num dos mais persistentes lugares-comuns científicos.
No primeiro conto do livro, há um homem que conjectura possíveis aplicações deste “Efeito Borboleta”:

Um polícia romeno dá um pontapé numa porta em Bucareste e causa um sismo na Gronelândia; uma mulher beija o amante e acelera o ataque cardíaco do marido; reguadas numa escola primária do Cairo originam bátegas em Auckland; um dos seus gatos mata uma mosca e cai um avião na Patagónia.

O desafio que hoje se lança aos leitores deste blogue é o seguinte: propor outros exemplos de Efeito Borboleta, obedecendo ao esquema da citação acima. Ou seja, quatro orações em que “X faz qualquer coisa que provoca uma reacção Y em Z”.
Estas frases podem ser lineares, barrocas, irónicas, poéticas, o que quiserem. Os autores dos cinco melhores trabalhos que chegarem aos endereços de e-mail deste blogue até terça-feira, dia 24, às 24h00, receberão pelo correio um exemplar da obra, oferecido pela Oficina do Livro.

Resultados do passatempo ‘Efeito Borboleta’

Em poucas horas, ficou tudo resolvido. Da dezena e meia de respostas que chegaram à caixa de correio electrónico do BdB, dez acertaram na mouche. A resposta certa ao desafio lançado aqui era: “O ensaio Nova refutação do tempo, incluído no livro Outras Inquirições” (houve quem fizesse questão de enviar os títulos em castelhano).

Os cinco leitores mais rápidos, e por isso premiados, foram:

  • Bruno dos Reis (Aveiro)
  • Leonel Vicente (Lisboa)
  • Joaquim Duarte (Vila Boa, Barcelos)
  • Santiago Lupino (Leiria)
  • João Ferrão (Lisboa)

Aos que tentaram e não conseguiram, uma mensagem: não desanimem. Amanhã será lançado aqui outro passatempo, com mais cinco exemplares para oferecer. 

Passatempo ‘Efeito Borboleta’

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Com o apoio da Oficina do Livro, o Bibliotecário de Babel lança hoje um passatempo: os cinco primeiros leitores que responderem correctamente a uma pergunta relativa ao conto Parábola, publicado no post anterior, ganham um exemplar do livro Efeito Borboleta e outras histórias.
Eis a pergunta:

Jorge Luis Borges analisa a história em que Chuang-Tzu sonha com a borboleta num ensaio publicado em 1952. Qual o título do ensaio e do livro em que esse ensaio foi incluído?

As respostas devem ser enviadas para um dos dois endereços electrónicos deste blogue, indicados na coluna da esquerda (Correio). Aos vencedores, será posteriormente solicitada uma morada postal para envio dos livros.

Parábola

Toda a gente conhece a história de Chuang-Tzu.
Um dia, o mestre taoísta sonhou que era uma borboleta e, ao despertar, já não sabia se era um homem que sonhava ser uma borboleta ou uma borboleta que sonhava ser homem.
A história, porém, não termina aqui, onde toda a gente julga que ela acaba. Chuang-Tzu (ou terá sido a borboleta?) foi apanhado mais tarde na rede literária de Jorge Luis Borges e a borboleta (ou terá sido Chuang-Tzu?) foi apanhada na rede literal de Vladimir Nabokov.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, nas livrarias a partir de 23 de Junho]

A capa

Em primeiríssima mão, ei-la:

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Belvedere

Falam sobre o Príncipe, junto à balaustrada. Ao longe as colinas, o céu de um azul-ferrete, aves em fuga para o sul, o sopro do vento nas searas.

– Dizei-me da sua coragem.
– Um dia, em plena batalha, avistou um pequeno gamo que estacara, paralisado pelo medo, a meio da planície onde estava alinhada, com as suas vestes garridas e o brilho das espadas, a infantaria inimiga. Os soldados, cegos pela raiva e pelos gritos dos comandantes, passavam pelo animal como se ele fosse invisível. E o nosso Príncipe, à distância, apercebeu-se de como tremia o pobre bicho, rodeado de fúria humana e metal. Foi então que esporeou o cavalo sem que ninguém o pudesse deter e, chegando num ápice ali onde estavam os infiéis, abriu caminho à espadeirada, chegou junto do gamo, apanhou-o sem desmontar e voltou triunfante para o lugar onde os nossos preparavam a refrega definitiva, não sem antes ser atingido por uma flecha no ombro. Entusiasmados com o heroísmo do Príncipe, vencemos a batalha e, mais tarde, a guerra. Eu próprio guardo várias cicatrizes no corpo, mas nenhuma tão formosa como a dele. Compreendes agora porque desenhamos tantos gamos nos brasões?
– Compreendo. E a sua sabedoria? Até onde chega?
– Dizer que chega ao infinito pode parecer um exagero, mas não é. O nosso Príncipe, desde muito novo, demonstrou grande inclinação para a matemática e para todas as ciências que envolvem cálculos. Ainda petiz, com não mais de nove anos, já passava noites ao relento, óculo apontado aos astros, tentando estimar distâncias angulares, rotas de cometas, translações. Quando chegou à adolescência, os mestres já nada tinham para lhe ensinar. Foi nessa altura que se fechou num mosteiro, a pão e água, pensando num sistema do mundo. Quem leu o seu Cosmos, um exemplar único que está guardado na Biblioteca Real, diz que explica o universo todo, da formiga à estrela, demonstrando com lógica inatacável que se trata de uma realidade sem limites. Só de imaginar tal prodígio, consta, os leigos como nós sentem vertigens. Nunca se viu nesta Terra, afirmam os mais distintos sábios europeus, inteligência tão profunda, tão sólida, tão abrangente.
– E é generoso, este vosso Príncipe perfeito?
– A palavra bondade foi criada para o descrever. Onde havia pobreza e caos, impôs a ordem e a prosperidade. Onde havia crime e perfídia, fez cair a lâmina da justiça.
– Quereis dizer que não há nele a mínima sombra?
– Já vês que não. É corajoso, é sábio, é bom.
– Posso deduzir que os relatos de assassínios e outras ignomínias que lhe atribuem são mentiras sem qualquer fundamento?
– Eis uma pergunta que nem merece resposta, estrangeiro.

Retiram-se os fidalgos do belvedere, à medida que cai a noite. A lua, muito redonda, levanta-se no horizonte. O anfitrião deixa o convidado junto à lareira, falando com o compositor da corte. Desce então às caves para indicar aos criados qual das pipas do seu melhor vinho é que devem abrir.
Ao voltar para cima, ouve acordes no cravo, gargalhadas. Faz um pequeno desvio até aos seus aposentos. Na penumbra, procura o frasquinho de veneno e esconde-o na pequena bolsa que traz sempre ao peito, por baixo da capa.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, com chegada às livrarias prevista para a última semana deste mês]

Pré-pré-publicação

KRIPP

«Um dia, há muito tempo, quando ainda havia pinheiros, quer dizer, quando ainda havia árvores, o meu pai levou-me para o meio de um bosque. Um bosque era um sítio cheio de árvores, quando ainda havia árvores. Apontando a vegetação à nossa volta, o meu pai disse-me: escolhe um pinheiro. Eu era muito pequeno, não mais do que cinco ou seis anos, mal tinha força para pegar num machado, mas olhei o meu pai recortado contra o céu e compreendi que não tinha alternativa. Era preciso escolher uma árvore e eu escolhi-a. Um pinheiro pequeno, meio escondido atrás de uma rocha, um pinheirinho com ramos raquíticos. Está bem, disse o meu pai. Agora vais ter que abatê-lo, deitá-lo abaixo com a energia dos teus braços, com o suor do teu rosto, com a tua persistência. A voz do meu pai era um trovão negro ribombando até aos confins do bosque. Eu nunca fizera sequer as maldades típicas dos miúdos: queimar as asas dos gafanhotos, estropiar moscas, atirar pedras aos cães (quando ainda havia gafanhotos, moscas, cães). Eu era uma criança assustada que vivia debaixo da sombra protectora da mãe e o meu pai queria acabar com isso. O meu pai queria que eu crescesse de repente, que me tornasse um homem à força. E, para isso, tinha que mostrar a minha vontade; ou melhor, a minha fúria. Era preciso derrubar uma árvore, custasse o que custasse. Então, no meio do bosque, só com o meu pai, ergui o machado. Ele explicara-me os gestos necessários, golpeando o lenho de uma árvore enorme, para eu ouvir o som cavo do metal, para eu ver as fendas abertas na madeira e as gotas de seiva como sangue a sair de uma ferida. Eu ergui o machado, o peso da lâmina a subir no extremo dos meus braços, a lâmina mais forte do que eu e depois um grito, o meu pai a cair como um pinheiro sem raízes, eu ali perdido no meio do bosque, as mãos vermelhas e o meu pai de olhos abertos, a olhar para mim do lado de lá da morte.»
Sempre que as coisas nos corriam mal, Kripp contava esta história. Ultimamente, as coisas corriam-nos mal muitas vezes. Na camarata, às escuras, enquanto os outros dormiam, vencidos pelo cansaço, Kripp descia do beliche e contava-me a história de como matara o seu pai, há muito tempo. Eu ouvia sempre até ao fim, sem dizer nada, mas uma noite fartei-me. Quando ele começou a entoar a ladainha, pedi-lhe que saíssemos dali, para não incomodar os companheiros. Do alto da torre 726, podíamos ver o sector 57 com uma nitidez incrível, sob a lua baixa. Dentro da paliçada, alinhadíssimos, os nossos veículos. Gruas em repouso, como braços flácidos. Lá fora, a desordem que nos esperava na manhã seguinte; outra colheita de cadáveres, ordenada pelas cúpulas. Na base da torre, um fosso. Kripp chorava ao falar do pinheiro pequeno que o pai queria que ele derrubasse. Kripp parecia-me ainda mais patético, debaixo do luar mortiço. Quando a lâmina se ergueu na sua história, empurrei-o. Depois, vi-o cair no fosso. Ouvi o estertor. E regressei à camarata. Acho que ninguém chegou a dar pela sua falta.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, Junho de 2008]

Novidade

Durante a primeira quinzena do próximo mês, vou publicar, na Oficina do Livro, o meu primeiro livro de ficção: 49 contos curtos e 38 miniaturas (contos ainda mais curtos do que os contos curtos). Título: Efeito Borboleta e outras histórias.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges