O jardim suspenso de Leninegrado

Fome

Fome
Autora: Elise Blackwell
Tradução: Safaa Dib
Editora: Livros de Areia
N.º de páginas: 101
ISBN: 978-989-8118-10-3
Ano de publicação: 2010

Filha de botânicos, a escritora norte-americana Elise Blackwell (n. 1964) recupera neste seu primeiro livro — uma belíssima novela, de construção narrativa quase perfeita — um episódio real de heroísmo científico durante o cerco nazi a Leninegrado (Setembro de 1941/Janeiro de 1944), asfixia militar que vitimou mais de um milhão de pessoas. Apesar das condições extremas vividas no «inverno da fome» (1942), os funcionários do Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas decidiram proteger, da desesperada voracidade alheia, as colecções com milhares de sementes recolhidas em todo o mundo, ainda no tempo do director Nikolai Vavilov — entretanto afastado por uma campanha infame movida por Trofim Lysenko, o célebre biólogo anti-mendeliano que convenceu Estaline a reformar (e quase destruir) a agricultura soviética.
A narrativa de Blackwell centra-se no núcleo de botânicos que colocaram os seus princípios à frente do instinto de sobrevivência, vigiando-se uns aos outros para cumprir a promessa de salvar as sementes, além de se empenharem na defesa da cidade e na tentativa de expandir «a própria noção daquilo que era comestível». Contudo, o narrador deste relato de coragem e «martírio» é precisamente o elo mais fraco da cadeia, o cobarde que não esteve à altura das circunstâncias, o traidor que abdicou do compromisso colectivo, o canalha que se justificará mais tarde com a ideia de que «a privação rebaixa mais frequentemente do que enobrece». No outro extremo de uma escala da dignidade, os idealistas morrem mesmo, só pele e osso. Eram melhores mas acabam debaixo da terra gelada, a honra como mortalha. Enquanto ele, o fraco, o pragmático, o cínico, fica para contar a história.
Um dia, antes da guerra, este narrador de que nunca saberemos o nome ouviu um poema com qualquer coisa de profético: «Aqueles que se afogam nunca mudam os factos, mas aqueles que sobrevivem ao mar nos pulmões devem enviar as suas histórias em palavras, palavras como pequenos barcos de casco furado (…)». É o que ele faz, enviar palavras falíveis «através dos espaços povoados de tempo, geografia e linguagem», a partir do confortável apartamento nova-iorquino onde envelhece, rodeado de víveres não perecíveis, alguns remorsos, uma ilusória hipótese de redenção — foi por ter sobrevivido que mais tarde descobriu um fungo rico em proteínas, capaz de evitar futuras fomes — e muitas memórias soltas.
A mestria de Blackwell reside na forma como estas memórias se organizam numa sequência eficaz de capítulos curtos (em prosa despojada, cirúrgica, intensa, lírica, límpida, lapidar), funcionando essencialmente como recapitulação — o narrador lembra «todas as coisas de que tenho que me envergonhar» — mas não só. A justaposição de episódios muito breves permite ainda efeitos de contraste e paralelismos históricos interessantes. Contraste, por exemplo, entre o relato da fome mais extrema (com os habitantes de Leninegrado a comerem o inimaginável: ratazanas, casca de árvore cozida, urtigas, vaselina, cola, carne humana) e a evocação das campanhas de recolha de espécimes por todo o mundo (um melão «divinal» devorado no lago Nicarágua; o «perfeito sabor doce» de uma manga comprada em Colima, no México). E paralelismos entre Leninegrado, com o «maravilhoso potencial» do Instituto à mercê dos nazis, e a Babilónia dos jardins suspensos, império onde a cevada valia mais do que a prata, mas que foi destruído às mãos de hititas, assírios e persas. No fundo, um testemunho da recorrente tragédia das civilizações, que acabam todas devoradas pelo «abismo da História», como sugere a epígrafe de Paul Valéry.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Verão de 1943

«Durante o Verão de 1943, gatinhos eram comprados e vendidos através do painel perto do meu apartamento por uma quantia que chegava aos dois mil rublos. Já não eram comidos, mas eram procurados para caçar ratazanas, as mesmas que tinha servido outrora de fonte escassa de proteína, e eram agora um incómodo. Ninguém em Leninegrado agora comia ratazanas ou admitia que alguma vez as tivesse comido.
As famosas palmeiras dos Jardins Botânicos estavam mortas, mas as tílias floresceram em Junho. Finalmente devolvi os cactos que a minha Alena tinha salvo com a própria saliva e tacto, e que tinham, de alguma forma, sobrevivido primeiro à minha falta de atenção e depois à minha atenção. Fui profusamente saudado pelos seus amigos de lá. Uma mulher corajosa, uma cientista notável, uma mente pura. Sim, anuí, era tudo isso.
Em Julho, tínhamos morangos, groselheiras vermelhas, framboesas, vitela, funcho, nabos, abóbora-menina. Mussolini demitiu-se, e a Itália capitulou. Rosas podiam ser compradas.
Agosto trouxe lilases tardios e chuvas finas como cabelo. Mas os bombardeamentos tornaram-se mais letais à medida que os alemães, sentindo uma reviravolta e sabendo que o primeiro bombardeamento é sempre o mais perigoso, tentaram matar um maior número de nós, trocando bombardeamentos longos, quase aborrecidos, por um grande número deles mais curtos. Eu ouvia o assobio, depois a explosão, depois perscrutava o céu branco pela coluna de fumo, colorida pelo que quer que tivesse sido atingido. Às vezes o fumo era da cor do cinzento da pedra, do vermelho do tijolo. Às vezes era da tonalidade precisa e improvável da carne humana.
No meu caminho para o instituto, após uma série de bombardeamentos ocorrerem não muito longe do nosso apartamento, vi um braço, separado de uma mulher não visível, a segurar um cigarro ainda aceso. A disponibilidade do tabaco era um sinal de melhores tempos que viriam, pensei, e depois castiguei a minha mente pelo rumo que tinha tomado.
Um quarteirão mais à frente, vi um homem numa maca, com a metade esquerda da cabeça desaparecida e recheada com tecido de algodão, como se o tecido pudesse resolver números, mover-lhe os membros, sentir dor, lembrar uma pessoa amada.»

[in Fome, de Elise Blackwell, tradução de Safaa Dib, Livros de Areia, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges