As plantas de Emily Dickinson

Folhas, flores secas, etiquetas minuciosamente manuscritas: eis o herbário de Emily Dickinson, feito pela maior poeta americana aos 14 anos, quando frequentava a Amherst Academy.

Efeméride

Ontem, passaram 180 anos sobre o nascimento de Emily Dickinson, a extraordinária poeta que abalou os alicerces da literatura norte-americana, fechada num quarto em Amherst. A quase totalidade dos seus poemas pode ser lida aqui e os «arquivos electrónicos» estão abertos para consulta aqui.

Emily

Dois lírios

Thomas Higginson escreve à sua mulher sobre a visita que fez a Emily Dickinson, em Amherst, a 16 de Agosto de 1870:

«Passos como se fossem de criança e eis que veio deslizando uma mulher pequena com dois bandós de cabelo avermelhado, (…) num vestido de piquê estranhamente branco. Chegou-me com dois lírios que me pôs na mão de uma forma infantil, dizendo “São a minha apresentação”, numa voz suave, assustada e ofegante – e acrescentou “Perdoai-me se estou assustada; nunca vejo estranhos e mal sei o que dizer”».

[in tábua cronológica do livro Cem Poemas, de Emily Dickinson, organizado e traduzido por Ana Luísa Amaral, Relógio d’Água, 2010]

Quatro poemas de Emily Dickinson

Fame is a bee.
It has a song —
It has a sting —
Ah, too, it has a wing.

____

A fama é uma abelha.
Tem uma canção —
Tem um ferrão —
Ah, tem asa, também.

***

I dwell in Possibility —
A fairer House than Prose —
More numerous of Windows —
Superior — for Doors —

Of Chambers as the Cedars —
Impregnable of Eye —
And for an Everlasting Roof
The Gambrels of the Sky —

Of Visitors — the fairest —
For Occupation — This —
The spreading wide my narrow Hands
To gather Paradise —

____

Habito na Possibilidade —
Uma Casa mais bela do que a Prosa —
Em Janelas mais numerosa —
Em Portas — superior —

De Quartos como Cedros —
Impregnáveis ao Olhar —
E por Telhado Duradouro
Os Telhados do Céu —

De Visitantes — a mais bela —
Isto — para a Ocupar —
O abrir largo as minhas Mãos estreitas
Para colher o Paraíso —

***

Tell all the Truth but tell it slant —
Success in Circuit lies
Too bright for our infirm Delight
The Truth’s superb surprise
As Lightning to the Children eased
With explanation kind
The Truth must dazzle gradually
Or every man be blind —

____

Diz toda a Verdade mas di-la oblíqua —
O Êxito reside no Circuito
Brilhante por demais para nosso enfermo Deleite
A suprema surpresa da Verdade
Como Relâmpago às Crianças oferecido
Num brando explicar
Deve a Verdade aos poucos deslumbrar
Ou cego qualquer um —

***

Morning is due to all —
To some — the Night —
To an imperial few —
The Auroral light.

____

A Manhã é de todos —
A Noite — a alguns dada —
Para os poucos do império —
A luz da Madrugada.

[in Cem Poemas, de Emily Dickinson, tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio d’Água, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges