Emma Donoghue: “Este romance é como uma criança que se recusa a crescer”

Irlandesa de nascimento, Emma Donoghue (1961) vive no Canadá desde 1998. O seu sétimo romance, Room (publicado pela Porto Editora com o título O Quarto de Jack), chegou em 2010 à shortlist do Man Booker Prize e foi finalista do Orange Prize. É um livro intenso, emocionalmente poderoso e estilisticamente original, que narra uma história de sequestro (semelhante à dos mediáticos casos de Elizabeth Fritzl e Natascha Kampusch) pela voz do filho da vítima. A escritora respondeu às perguntas enviadas por e-mail a partir de «vários aeroportos».

Este romance é narrado por um rapazinho de cinco anos. Foi difícil encontrar o tom certo, a voz ideal para o Jack?
Para ser sincera, não foi nada difícil. O meu filho tinha cinco anos na altura em que escrevi o livro e pedi-lhe emprestada muita coisa. O grande desafio técnico deste livro era tornar a Mãe do rapaz uma verdadeira personagem, até porque tudo o que sabemos dela é através dele.

A sensação com que se fica, ao longo do livro, é que o texto não foi escrito por um adulto que finge ser uma criança, mas por uma criança capaz de contar uma história terrível de isolamento e medo, de amor e redenção. O que é que sacrificou para chegar a esta nova linguagem? Teve de abdicar do seu estilo?
Felizmente, eu não tenho um estilo de escrita. Há muitos leitores que nem se apercebem que já leram vários livros meus porque eu adapto o meu estilo a cada história.

Investigou questões relacionadas com a psicologia infantil em situações-limite?
Sim, claro. Li muito sobre a forma como as crianças se desenvolvem, quer em contextos normais, quer em circunstâncias bizarras.

Nos últimos anos, tornaram-se públicas, e com enorme exposição mediática, várias histórias reais de raparigas sequestradas e abusadas, que tiveram filhos durante longos cativeiros. Porque escolheu um tema tão sombrio para o seu livro?
Não foi porque seja algo que aconteça muito. Não acontece. Mas estes são casos particularmente interessantes para testar a oposição entre a parentalidade e a importância do mundo social. É um tema com aspectos horríveis, mas não sombrio.

O quarto em que Jack viveu toda a sua curta vida com a mãe é uma prisão, mas também um abrigo. Para a criança, representa o universo inteiro. É por isso que ele nomeia os objetos com letras maiúsculas (Cama, Guarda-Fatos, Candeeiro)? Chega a parecer que estamos a lidar com arquétipos platónicos.
Desde o início do planeamento do livro que tive consciência desses elementos arquetípicos e das implicações filosóficas… Por isso, fiz questão de enraizar tudo num enquadramento absolutamente realista. Tirei notas sobre as dimensões de cada peça de mobiliário e passei dias a investigar, por exemplo, os tipos de vidro de alta segurança, à prova de choque, para a claraboia. Queria que a minha narrativa fosse suficientemente naturalista para ganhar a confiança dos leitores que estão prestes a deixar-me puxar os fios dos seus corações.

Há qualquer coisa de útero naquele quarto, não há? E isso talvez explique o facto de ser tão difícil, para o Jack, sair dali para fora e enfrentar o mundo real.
Sem dúvida. Na língua inglesa, a palavra ‘quarto’ rima com ‘útero’ (room/womb). Eu vejo este romance como a história de um parto, uma meditação sobre a necessidade de termos um progenitor que nos ame — mas também de sermos capazes de crescer para além dele.

Depois de meses imersa na linguagem cândida e pura de Jack, foi complicado voltar a escrever de outra maneira?
Como já disse, eu não tenho um estilo pessoal. Apenas um conjunto de preocupações características, creio. A voz do Jack foi menos estranha do que outras adoptadas por mim anteriormente, como as dos diálogos entre aristocratas ingleses do século XVIII no romance Life Mask.

Presumo que as personagens mais fortes sejam difíceis de abandonar. Como é que conseguiu libertar-se de Jack?
As personagens fortes são muito difíceis de abandonar, sobretudo quando recebo vários e-mails por dia de pessoas que acabaram de ler O Quarto de Jack ou estão a meio do livro! De certo modo, este romance é como uma criança que se recusa a crescer. E estou impaciente para passar a outra coisa. Mas, ao mesmo tempo, estou muito grata por ter sido capaz de escrever algo que provoca um efeito duradouro no mundo.

O livro termina com uma comovente cena em que Jack se despede do lugar que foi o paraíso para ele e um inferno para a mãe. É um momento libertador, mas melancólico. Intuímos que a verdadeira vida de Jack começa naquele momento. Só que não ficamos a saber nada do que aconteceu depois.
Pois não. Porque na verdade eu espero que lhes seja permitido, à mãe e ao filho, mergulharem na absoluta normalidade. Ou seja, que vivam todas as experiências banais. Experiências preciosas em si mesmas, mas que não precisam de comentário.

Vários críticos referiram-se a este romance como algo diferente de tudo o que haviam lido antes. Apercebeu-se, enquanto escrevia, desta tão elogiada originalidade?
Não posso negar que tinha grandes ambições para este livro, sim. Nunca me senti tão segura desde a primeira hora em relação a uma ideia como neste caso. E também nunca hesitei nas minhas decisões (como tornar Jack o narrador; ou colocar a fuga a meio da narrativa, em vez de no fim). Mas claro que fiquei surpreendida por tantas pessoas terem gostado do livro!

Além do reconhecimento da crítica e do público, O Quarto de Jack obteve vários prémios. Contudo, falhou os dois principais, Man Booker e Orange, apesar de ter estado na shortlist de ambos. Ficou desiludida? Que importância têm os prémios literários para si?
Qualquer escritor desejaria ter tudo: excelentes recensões, o aplauso do público e os grandes prémios! Mas devo dizer que O Quarto de Jack chegou a tantas pessoas do mundo inteiro, tocando-as, que sinceramente não necessito de mais nada.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Onze metros quadrados

O Quarto de Jack
Autora: Emma Donoghue
Título original: Room
Tradução: Cristina Correia
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 333
ISBN: 978-972-0-04343-6
Ano de publicação: 2011

A escritora irlandesa Emma Donoghue inspirou-se em várias histórias de sequestro prolongado – Elizabeth Fritzl, Natascha Kampusch, entre outras – para construir um romance intenso sobre o mal absoluto e a resiliência humana, sobre os abismos do trauma psicológico e o poder do amor. Mesmo sem ter vencido nenhum dos grandes prémios literários para que foi nomeado (chegou à shortlist do Man Booker e do Orange Prize), o livro fez parte das listas dos melhores de 2010 na imprensa internacional. E com toda a justiça.
Aos cinco anos, a única realidade que Jack conhece é a do quarto minúsculo (11 metros quadrados) onde nasceu e de onde nunca saiu. Quando foi raptada, sete anos antes, a mãe ainda adolescente sujeitou-se a todo o tipo de abusos por parte de Nick, o homem que a escondeu num barracão ao canto do jardim das traseiras de sua casa. Para Jack, o universo acaba nas paredes do quarto. O Lá Fora, que vai entrevendo nos programas de televisão, tem qualquer coisa de fantasmagórico, como se não fosse verdadeiro. A única realidade real é a que pode tocar e sentir, a realidade dos objectos que são nomeados com maiúscula: a Cama, o Candeeiro, a Banheira, a Clarabóia, o Tapete.
Jack não se sente preso porque nunca saiu daquele espaço fechado, ao mesmo tempo útero e caverna de Platão. Sabe que Nick existe porque o ouve à noite, fazendo ranger a cama da mãe, enquanto ele se esconde no Guarda-Fatos. A mãe, não. A Mamã. Entre tantos arquétipos, ela é o arquétipo absoluto, o alfa e omega. A relação entre mãe e filho – quase fusional (Jack ainda mama) – ocupa todo o espaço afectivo e físico das respectivas vidas, coagula o próprio tempo. Mas o idílio simulado, feito de rotinas e rituais que reforçam uma cosmogonia a dois, torna-se insustentável. A mãe acaba por não conseguir esconder a dor, a angústia e a necessidade da fuga.
Donoghue foi muito inteligente na escolha do narrador. Tudo o que acontece, tanto na claustrofóbica primeira metade do livro (sobre a clausura no Quarto) como depois da libertação, surge na primeira pessoa, contado por Jack. E o que temos é uma voz que nos fascina e perturba, uma voz que normaliza o horror do cativeiro com uma desarmante lógica infantil. São essa voz e essa lógica, captados de forma muito subtil por Donoghue, que fazem deste romance um notável exercício de linguagem (inventivo sem deixar de ser verosímil) e uma investigação lúcida sobre a forma como uma criança se pode desenvolver no isolamento total, sem interacções sociais e dependente do amor materno.
Quando Jack encontra por fim o grande mundo, o leque de personagens amplia-se, a tragédia ganha outros contornos (com o colapso da mãe) e a narrativa perde algum foco, sobretudo quando deriva para uma crítica da previsível vampirização da história por parte dos media. O choque com a realidade é tremendo e Jack acaba por oferecer uma compreensível resistência à mudança. Ao integrar-se na sociedade, ao autonomizar-se da mãe, a criança sofre de uma só vez todas as dores de um crescimento adiado. Donoghue revela-nos com delicadeza os cambiantes deste embate e fecha o livro com uma espantosa cena de despedida, em que Jack, de regresso ao Quarto, diz adeus àquele espaço que agora parece mais pequeno («Encolheu?»), um inferno que para ele foi o jardim do Éden. «Olho para trás mais uma vez. É como uma cratera, um buraco onde algo aconteceu. Depois, saímos pela porta.» E é como se finalmente, cortado o cordão umbilical, pudesse verdadeiramente nascer.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges