Quatro poemas de Eugénio de Andrade

OS FRUTOS

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.

***

METAMORFOSES DA CASA

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

***

CANTE JONDO

A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.

***

DESPEDIDA

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

[in Ostinato Rigore, Assírio & Alvim, 2013]

Melão no frigorífico

Num momento em que a Fundação Eugénio de Andrade corre o risco de ser extinta, o DN assinala o dia em que o poeta faria 87 anos com uma entrevista a Ana Maria Moura, «que o acompanhou nos últimos 30 anos». Entre outras coisas igualmente íntimas e irrelevantes, ficamos a conhecer as suas pouco sofisticadas preferências gastronómicas: «Batatas fritas com um ovo estrelado, porque lhe lembrava a infância. Quando acordava de madrugada, se tivesse melão no frigorífico, levantava-se para o ir comer. Era fácil de alimentar. Sopa, tinha de comer sempre.» E o que é que isto interessa, alguém me diz?

Homenagem a Cesariny na casa de Eugénio

No próximo sábado, dia 25, pelas 18h30, a Fundação Eugénio de Andrade (FEA) lembra Mário Cesariny. Segundo os responsáveis da FEA, «será evocada a sua relação com Eugénio de Andrade, serão lidos alguns dos seus poemas, e será pronunciada a palestra “A alquimia do verbo na poesia de Cesariny” pela lusófila italiana Dr.ª Maria Bochicchio, a quem o grande poeta concedeu a sua última entrevista».

Herberto escreve a Eugénio

Hoje, dia em que Eugénio de Andrade faria 86 anos, o site da revista A.23 publica uma carta inédita de Herberto Helder: quatro páginas manuscritas, enviadas ao poeta de Rente ao Dizer no final do ano 2000.
É um documento notável e revelador, sobretudo por nos mostrar a visão «pessoal» de Herberto sobre a poesia portuguesa da segunda metade do século XX, na qual Eugénio é colocado no lugar cimeiro. «Não há nenhum poeta português que possa ombrear consigo neste meio século», diz HH. «Talvez o Cesariny e a Sophia se aproximem de si, mas seria necessário, tanto a um como a outra, eliminar vários poemas maus. Quanto a si, não existe um só verso que deva ser eliminado.»
Falo por mim, mas esta admiração por Eugénio e esta certeza no veredicto não deixam de ser surpreendentes, vindas de quem vêm.

Uma nova edição de ‘À Sombra da Memória’

Na próxima segunda-feira, dia 19, Eugénio de Andrade faria 86 anos. Assinalando a data, a Fundação do poeta (Rua do Passeio Alegre, 584, Porto) lançará, a partir das 18h30, uma nova edição do livro À Sombra da Memória, com um texto inédito de Gonçalo M. Tavares, que será lido durante a sessão, assim como outros textos de Eugénio de Andrade. A entrada é livre.

Branco no Branco

No último sábado, 19 de Janeiro, dia em que Eugénio de Andrade chegaria aos 84 anos, foi inaugurado no cemitério do Prado do Repouso, Porto, o jazigo que o arquitecto Álvaro Siza desenhou para o poeta. É um monumento funerário de uma discrição absoluta, um quadrilátero de mármore rente à terra, com poemas gravados “branco no branco”, quase invisíveis a um primeiro olhar.
Rui Lage, que me enviou estas imagens, chama-lhe um “poema de pedra, de Siza para Eugénio”.

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[Fotografias: Alexandre Bahia]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges